A MESA DA PALAVRA
Sexta-Feira Santa da Paixão do Senhor
Itumbiara, 3 de abril de 2026
“O Cristo, o Filho de Deus, com seu sangue nos remiu. Vinde todos, adoremos!” (Invitatório).
Irmãos,
Hoje a Igreja se envolve de silêncio, silêncio que ela rompe apenas para repetir as palavras pronunciadas por um centurião romano ante o Senhor Morto no Calvário: “Verdadeiramente este homem era o Filho de Deus”. Esta frase ficou registrada pelos evangelistas Marcos (15,39) e Mateus (27,54). São Lucas registra uma variante: “Verdadeiramente este homem era justo” (ou inocente cf Lc 23,47). Esta frase, ainda que na variante de Lucas, dita ante um homem morto da maneira mais vil, condenado por um tribunal iníquo como muitos de nosso tempo, é o reconhecimento da divindade de Cristo, declarada por um oficial romano, por um gentio. Mas não foram somente as autoridades judaicas e romanas a se responsabilizar pela morte do Senhor. Esta condenação recebeu uma homologação “democrática” quando todo o povo, escolhendo libertar Barrabás, aclamava “crucifica-o”. Esta voz ressoa também hoje nos lábios de cada homem e cada mulher que escolhe o pecado em lugar da vida nova que a graça de Deus nos concede.
É tremendo o paradoxo do esvaziamento, da κένωσις de um Deus que, em Jesus Cristo, se “esvaziou” (ἐκένωσεν em grego) de sua glória e privilégios divinos ao assumir a nossa natureza humana (cf Flp 2,7). “Jesus, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). Ele abdicou voluntariamente da glória de seus atributos divinos para assumir a condição de servo e morrer na Cruz, unindo plenamente a natureza divina à fragilidade da condição humana por inefável amor. Por isso a Igreja hoje repete com voz dorida as palavras do Centurião: “Verdadeiramente este homem era o Filho de Deus”.
Rompendo o silêncio na hora nona, na hora do sacrifício, a Esposa dolorosa de Cristo com dor desconsolada, une-se em oração à Senhora das Dores. É o sacerdote quem, depois de se prostrar, em nome de toda a Igreja, perante a morte de Jesus, se levanta e clama ao Pai: “Ó Deus, pela paixão de nosso Senhor Jesus Cristo destruístes a morte que o primeiro pecado transmitiu a todo o gênero humano. Concedei que nos tornemos semelhantes ao vosso Filho e, assim como trouxemos pela natureza a imagem do homem terrestre, possamos manter pela graça a imagem do homem celeste”.
Sim, o Senhor Jesus destrói a morte pela força da sua Paixão. E, se pelo primeiro homem veio a morte do pecado, por meio de Jesus, novo Adão, nos é dada de volta a semelhança divina, para podermos manter pela graça a imagem do homem celeste que Jesus nos traz hoje. Por isso, mesmo sem conter as lágrimas pela morte do Senhor, a Igreja não temerá festejar a Exaltação da Santa Cruz proclamando-a sinal único de Esperança: “O Crux, Ave, Spes Única”.
Caros irmãos,
Bem sabemos que a Cruz de Cristo preenche completamente esta celebração. Embora a crucifixão nos carregue de dor, é preciso dizer que a Cruz representa Cristo, não um homem derrotado, mas um Deus vencedor. Ele conquista a vitória através das carnes dilaceradas do Filho de Maria.
No relato da crucifixão, Jesus aparece como o Sacerdote que completa sua oferta. Naquelas cenas brutais Cristo testemunha o seu senhorio, é Ele quem liberta e reconcilia a humanidade que padece sob o jugo do pecado e da morte. A cruz simboliza a árvore do mistério do Senhor da vida entregue e do amor do Pai que dá seu Filho. Representa a vitória definitiva de Jesus sobre a morte. Cristo, por meio de seu sofrimento e morte, é a causa de nossa redenção.
É pela força da Paixão do Senhor proclamada no Evangelho de São João que ganhamos a força espiritual de elevar ao Coração Amoroso do Pai a Oração Universal. Às intenções da Igreja unimos as nossas preocupações, as nossas intenções, o ardente desejo de paz, as súplicas do Santo Padre, os sofrimentos mais silenciosos da nossa sexagenária diocese, as dores de nossa cidade, as angústias de nossas famílias.
Contemplando a nobreza do Senhor no Trono vitorioso da Cruz, nós a exaltaremos como instrumento permanente de salvação e a adoraremos. Sim, vamos adorar a Cruz, prostrar-nos diante dela: eis o significado da palavra adoração: prosternar-se… mas o madeiro não é Deus. O madeiro da Cruz eleva a Ele a nossa adoração, adoração que devemos só a Deus.
E pela força da Cruz receberemos nesta celebração dos pré-santificados o nosso viático consagrado ontem na Missa da Ceia do Senhor. No Prefácio da Missa de ontem o sacerdote declarava a força do sacrifício do Senhor na Cruz: “Seu corpo, por nós imolado, é alimento que nos dá força; seu sangue, por nós derramado, é bebida que nos purifica” (Prefacio I da Eucaristia).
O sofrimento pela morte do seu Senhor não impede a Igreja de alimentar as ovelhas sofridas da Grei de Cristo com o Pão da Vida, com o verdadeiro Maná, com o banquete do verdadeiro Cordeiro, de cuja plenitude voltaremos a saborear na Vigília Pascal.
Mas aqui, diante da Cruz que vamos continuar venerando, deparamos com cenas comoventes da Paixão do Senhor. Na Paixão encontramos Cristo Crucificado que nos entrega Maria por Mãe, que nos entrega a Ela como filhos. É a Mãe da Igreja nascente, simplesmente a Mãe da Igreja. Contemplamos ainda a dura cena do trespassamento da lança no lado de Jesus. Dele jorra sangue e água, fonte da graça dos sacramentos da Igreja. Do lado de Cristo, a Igreja foi formada, assim como a antiga Eva foi formada do lado de do primeiro Adão.
Olhando com atenção para o alto da Cruz, também a nós nos parece ouvir as Sete últimas Palavras proferidas pelos lábios de Jesus. Sim, irmãos, apenas sete palavras! E são palavras de salvação, reconhecidas como o sermão mais maravilhoso dos lábios de Jesus. Este grande evento, culminando na morte de Cristo, é a causa de nossa libertação e da nossa ressurreição.
Queridos irmãos, convido-os hoje a meditar detidamente sobre o relato da Paixão do Senhor que acabamos de ouvir. É o coração da nossa fé. Não pretendo ressaltar apenas alguns pontos dessa leitura cujo sentido nunca se esgota e cuja meditação nunca é suficiente para desvendar a infinita profundidade do amor de Deus por nós. Não nos contentemos com uma leitura simples e superficial. Mergulhemos hoje nas cenas relatadas por João, o discípulo amado e permitamos ao Senhor que nos revele o Seu amor. Deixemos que Ele nos fale. É costume do Senhor falar ao coração dos seus. “Cor ad cor loquitur” (Newmann).
Deixemo-nos abrasar pela fornalha ardente de amor que a Paixão de Cristo revela. Estaremos como os três jovens na fornalha ardente. Não tenhamos medo do silêncio que a celebração digna, atenta e devota deste dia tão especial pode nos pedir. Saboreemos a infinita misericórdia do Senhor.
Ao concluir nossa adoração vamos rezar juntos a belíssima oração prevista para depois da Santa Comunhão: “Ó Deus eterno e todo-poderoso, que nos renovastes pela santa morte e ressurreição do vosso Cristo, conservai em nós a obra da vossa misericórdia, para que, pela participação neste mistério, vos consagremos sempre a nossa vida”.
Maria, nossa Mãe Dolorosa, nos ajudará a guardar todas estas coisas no coração e nelas meditar com fruto.
Que a paz do Senhor entre em nós e permaneça hoje e sempre.

