A MESA DA PALAVRA
Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo – Ano A
Itumbiara, 4 de junho de 2026
“O sacrum convivium in quo Christus sumitur”
Queridos irmãos e irmãs!
Embora haja um nexo profundo entre a solenidade do Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo e a Missa in Coena Domini da Quinta-Feira Santa, há nuances que distinguem as duas solenidades.
Se a Quinta-Feira Santa é o dia em que Cristo instituiu a Eucaristia, Corpus Christi é o dia em que a Igreja a contempla no seu mistério inefável. Naquela noite, o Senhor entregou o dom; hoje, a Igreja adora o dom recebido. Naquela noite, o mistério foi celebrado no recolhimento do Cenáculo; hoje, é proclamado pelas ruas da cidade. Naquela noite, Cristo reuniu os Apóstolos em torno da mesa; hoje, reúne os povos em torno do altar.
Mas por que quis Cristo permanecer conosco sob as espécies do pão e do vinho? A resposta, nós a encontramos na fé e na oração da Igreja.
- “Neste admirável sacramento nos deixastes o memorial da vossa paixão” (Coleta).
Nesta belíssima coleta composta por Santo Tomás de Aquino, intuímos as intenções amorosas de nosso Senhor. Ele bem sabia que, mesmo com o passar dos séculos, com o suceder das gerações, uma multidão de discípulos seus desejariam vê-lo, tocá-lo, perceber reclinar-se no Seu peito como João, superar a fragilidade e entregar-se com amor como Pedro. Por isso, ardente de amor, Ele quis deixar à sua Igreja não apenas uma lábil recordação, mas um memorial vivo.
Vejam, caríssimos amigos, não se trata de uma lembrança meramente simbólica. Não apenas uma lembrança, mas uma presença viva: Corpo, Sangue, Alma e Divindade sob as espécies do pão e do vinho. Não quis deixar apenas uma consoladora palavra sobre o amor, mas quis ser Ele próprio o Amor entregue como alimento, o Amor que quer ser amado na comunhão e na adoração.
O sacrifício oferecido uma vez por todas tornou-se sacramentalmente presente até o fim dos tempos nas nossas mesas sagradas, nos altares ao redor dos quais nos unimos em oração e adoração. O que aconteceu no Calvário de modo cruento, com efusão de sangue, hoje acontece no altar de modo incruento, sacramental. O sacerdote é outro, que age in persona Christi; a vítima contudo é a mesma. A ação é diversa, é ritual; a oferta é a mesma: o Senhor. Ontem na Cruz, hoje no altar: sempre Cristo oferecendo-se ao Pai para a salvação do mundo.
Santo Tomás de Aquino contemplava este mistério com assombro e exclamava: “O sacrum Convivium in quo Christus sumitur”. – “Ó sagrado banquete, no qual Cristo é consumido em alimento!”. É um admirável e precioso banquete, porque nele recebemos não algo de Cristo, mas o próprio Cristo: Corpo, Sangue, Alma e divindade, realmente presente nos nossos altares e nos nossos sacrários. Admirável porque, se nas refeições comuns o alimento se transforma naquele que o recebe, aqui acontece o contrário: quem recebe dignamente este alimento é transformado naquele que recebe.
Com prefácio da missa de hoje a Igreja assim reza hoje: “Quando estava reunido com os Apóstolos na última ceia, para perpetuar pelos séculos a memória da sua paixão salvadora, ele ofereceu-se a vós como Cordeiro sem mancha e foi aceito como perfeito sacrifício de louvor. Neste sublime mistério alimentais e santificais os vossos fiéis para que, no mundo inteiro, o gênero humano seja iluminado por uma só fé e unido na mesma caridade. Assim nos aproximamos da mesa deste admirável sacramento para que, repletos da doçura da vossa graça, nos transformemos em imagem da vossa glória”.
- “nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca do Senhor” (Dt 8,3).
No Deuteronômio, Moisés lembra ao povo que o seu Deus agiu com poder para libertá-lo da escravidão do Egito e quis conduzir pelo deserto para se purificar enquanto o alimentava com o pão dos anjos. A recepção do pão do céu está em íntima conexão com o esforço sincero por observar os mandamentos. o esforço de observar os mandamentos: de fato na travessia do deserto Deus quis “mostrar que nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca do Senhor”. O Maná é penhor de uma libertação que somente no banquete do reino se realizará por completo.
No Evangelho, São João ressalta precisamente a superioridade do banquete da Nova Aliança: Este é o pão que desceu do céu. Não é como aquele que os vossos pais comeram. Eles morreram. Aquele que come este pão viverá para sempre” (Jo 6,58). E o faz ressaltando a unidade com Ele e com o Pai. Ouvindo o Evangelho percebemos a centralidade da Eucaristia na missão de Jesus, especialmente no capítulo 6, em que Jesus ressalta o realismo da sua carne e da sua identidade com o Pão descido do Céu.
Também para nós a Eucaristia é o coração da fé, é o bem mais caro à Igreja, o único bem por meio do qual recebemos todos os dons. Na Eucaristia elevamos os corações ao alto – Sursum Corda – porque o Verbo se fez carne e, encarnado, se fez Pão. É o verdadeiro Maná que edifica a Igreja e unifica num só coração e numa só alma os fiéis alimentados pelo verdadeiro Pão da Vida. Ele é o Amor que quer ser amado, adorado.
Como dizia há pouco, no deserto, Israel alimentou-se do maná. Era um pão misterioso, mas passageiro. Sustentava o corpo, mas não vencia a morte. Por isso Moisés recorda ao povo: “Ele te alimentou com um maná que teus pais não conheciam”. Entretanto, irmãos, qual foi o destino daqueles que comeram o maná? Todos morreram.
E hoje, qual é o destino daqueles que recebem o verdadeiro pão descido do céu? O próprio Senhor responde no Evangelho: “Quem come este pão viverá para sempre”. Aqui está a diferença entre o maná e a Eucaristia. O primeiro sustentava a caminhada terrestre; a segunda abre as portas da vida eterna. O primeiro era figura; a segunda é realidade. O primeiro anunciava; a segunda realiza.
Por isso Jesus insiste com uma clareza que não admite reduções nem interpretações simbólicas: “Minha carne é verdadeira comida e meu sangue é verdadeira bebida”. Os ouvintes escandalizaram-se. Muitos não compreenderam. Mas Cristo não corrigiu suas palavras nem suavizou sua afirmação. Pelo contrário, repetiu-a com ainda maior força.
A Igreja acreditou. Os mártires acreditaram. Os santos acreditaram. Santo Tomás acreditou. Nós acreditamos. Acreditamos que, depois da consagração, está presente sobre o altar aquele mesmo Cristo que nasceu da Virgem Maria, morreu na Cruz, ressuscitou ao terceiro dia e reina glorioso junto do Pai.
III. Eucaristia: Pão da unidade.
Mas a liturgia de hoje não nos fala apenas da presença. Fala também da unidade. Efetivamente, na Eucaristia encontramos o Pão da Unidade. Unidos a Cristo eucarístico, estamos unidos na mesma Igreja.
Na Eucaristia encontramos a Unidade interior com Cristo Jesus, Cabeça da Igreja, e ao mesmo tempo, a Unidade eclesial cimentada pela graça de Deus. Por isso São Paulo lembra aos Coríntios que “o cálice da bênção, o cálice que abençoamos, não é comunhão com o sangue de Cristo? E o pão que partimos, não é comunhão com o corpo de Cristo? Porque há um só pão, nós todos somos um só corpo, pois todos participamos desse único pão”. Não se trata de mera devoção pessoal, mas de amor incondicionado pela nossa pertença ao Corpo de Cristo, à Igreja.
A Eucaristia realiza aquilo que nenhuma força humana consegue produzir. Ela une pessoas diferentes numa mesma fé, numa mesma esperança e numa mesma caridade. O mundo multiplica divisões. Cristo multiplica comunhão. O mundo fragmenta. Cristo reúne. O mundo ergue muros. Cristo constrói a Igreja. Por isso a Eucaristia é o sacramento da unidade.
Mas, irmãos, se cremos tão firmemente na presença do Senhor, devemos perguntar: como responder a tão grande dom? A resposta não é complicada.
Primeiro, aproximando-nos da Eucaristia com alma purificada pela Confissão frequente. Segundo, participando da Santa Missa com recolhimento, atenção e espírito de adoração. Terceiro, reservando alguns momentos ao longo da semana para visitar o Senhor presente no sacrário. Quarto, prolongando na caridade aquilo que recebemos na Comunhão. Quem recebe o Corpo de Cristo deve tornar-se presença de Cristo para os irmãos.
Nesse sentido atendamos à exortação do Papa Leão XIV, numa recente catequese: “Por conseguinte, exorto todos aqueles que são chamados a preparar a celebração dos divinos mistérios, em particular os sacerdotes que exercem o ministério da presidência litúrgica, a manter sempre o respeito pelos textos e pelas normas da liturgia que brota de uma atitude interior de disponibilidade e confiança em Deus, manifestando humildade perante a sua grandeza e sincera fidelidade à comunhão eclesial”.
Celebrar bem significa não converter a liturgia em espetáculo, o presbitério em palco, mas lembrar sempre que o drama da paixão, morte e ressurreição do Senhor não admitem banalização, que se converte facilmente me sacrilégio. Também a música litúrgica precisa ser aprendida, amada e substituir nos gostos e nos corações as frágeis canções que. satisfazem a um certo sentimentalismo religioso sem correspondência com a profundidade da fé e a necessária beleza do culto cristão. Esta recomendação não trata apenas de rubricas. Trata de amor, a ponto de recordar o que dizia Santo Tomás:
“Ninguém seria capaz de expressar a suavidade deste sacramento; nele se pode saborear a doçura espiritual em sua própria fonte; e torna-se presente a memória daquele imenso e inefável amor que Cristo demonstrou para conosco em sua Paixão.
Enfim, para que a imensidade deste amor ficasse mais profundamente gravada nos corações dos fiéis, Cristo instituiu este sacramento durante a última Ceia, quando, ao celebrar a Páscoa com seus discípulos, estava prestes a passar deste mundo para o Pai. A Eucaristia é o memorial perene da sua Paixão, o cumprimento perfeito das figuras da Antiga Aliança e o maior de todos os milagres que Cristo realizou. É ainda singular conforto que ele deixou para os que se entristecem com sua ausência” [(Opusculum 57, In festo Corporis Christi, lect. 1-4). (Séc.XIII)].
Irmãos, dentro de alguns instantes levaremos o Santíssimo Sacramento pelas ruas de nossa cidade. Muitos verão apenas uma procissão. Nós veremos mais. Veremos o cumprimento da promessa do Senhor: “Eis que estou convosco todos os dias até o fim dos tempos”.
Que ao passar por nossas ruas, Cristo encontre corações que creem. Que ao passar por nossas casas, encontre famílias que rezam. Que ao passar por nossa cidade, encontre discípulos que o amam. E que possamos repetir com Santo Tomás de Aquino: “Ó sagrado banquete, no qual Cristo é recebido; celebra-se a memória de sua Paixão; a alma se enche de graça; e nos é dado o penhor da glória futura”. Amém.

