A Mesa da Palavra – Quinta-feira Santa – Missa In Coena Domini – Ano A

A MESA DA PALAVRA

Quinta-Feira Santa – Missa In Coena Domini – Ano A
Itumbiara, 2 de abril de 2026

Vamos todos louvar juntos o mistério do Amor” (da Liturgia). 

  1. Ó Pai, estamos reunidos para a Santa Ceia…” (da Coleta)

Caros irmãos.

Depois de termos celebrado nesta Catedral a Missa Crismal, na qual os sacerdotes renovaram as promessas sacerdotais e consagramos os Santos Óleos, voltamos a nos reunir para dar início ao solene Tríduo Pascal com a solene Missa In Coena Domini. Nesta missa celebramos a instituição da Eucaristia e vemos na cerimônia do Lava-pés a grandeza do sacerdócio católico, isto é, seguir a Cristo que veio para servir e não para ser servido.

A Liturgia da Quinta-Feira Santa é o memorial da instituição do sacramento do amor, da Santíssima Eucaristia realizada por Cristo Sacerdote. É o quinto mistério luminoso do Rosário. Os atos solenes da Páscoa de Cristo nos apresentam a Ceia do Senhor como permanente celebração do único sacrifício oferecido uma vez para sempre na Cruz. É para nós a apresentação do incruenta do sacrifício de amor com o qual o Senhor quis perpetuar na Igreja o memorial do seu amor infinito por nós. O Senhor assumiu a natureza humana fragilizada pelo pecado. Na Ceia celebrada por Jesus a ação libertadora de Deus se encontra com a atitude do homem que clama a Deus para que o liberte. Jesus toma sobre si as nossas dores, o peso de nossos pecados.

Na Ceia e na Cruz, a atitude dos que nelas tomam parte revela o modo como abraçam ou não a libertação da escravidão da morte e do pecado que o Senhor nos oferece. Ao lavar os pés dos discípulos, Jesus se apresenta como modelo de humanidade redimida. Não se trata apenas de um modelo moral, mas de uma forma de vida conferida pela graça da configuração a Cristo. Contrariando os critérios deste mundo, Jesus se apresenta na liberdade de quem escolhe lavar os pés aos discípulos.

A atitude humilde e contrita dos que participam na Eucaristia abre as portas para a frutuosidade do sacramento da presença redentora do Senhor. Por isso esta missa tão especial se abre com a oração coleta, pela qual dizemos ao Pai: “Ó Pai, estamos reunidos para a santa Ceia, na qual o vosso Filho Unigênito, ao entregar-se à morte, deu à sua Igreja um novo e eterno sacrifício, como banquete do seu amor. Concedei-nos, por mistério tão excelso,
chegar à plenitude da caridade e da vida” (Coleta).

Sim, Senhor, desejamos chegar à plenitude da caridade e da vida pela frequente participação nos sagrados mistérios.

  1. Este dia será para vós uma festa memorável em honra do Senhor…” (Ex12,14).

Esta primeira leitura, do livro do Êxodo a nossa celebração Eucarística tem sua prefiguração mais expressiva no ritual da páscoa judaica. Para os judeus, a ceia é uma refeição ritual que foi celebrada no momento da saída do Egito após mais de quatrocentos anos de humilhante escravidão em que a fé de Israel sofria a constante tentação da idolatria.

Na sua raiz esta festa era uma antiga festa primaveril de pastores nômades, que celebrava a passagem das minguadas pastagens invernais para as generosas pastagens primaveris. O antigo sacrifício primaveril adquire com o êxodo um novo significado; não é mais sacrifício de passagem (= Páscoa) das pastagens invernais às da primavera, mas sacrifício comemorativo (memorial) da passagem da escravidão do Egito para a liberdade na terra onde corre leite e mel.

O trecho bíblico evoca o acontecimento, mas não o descreve. Não se trata, portanto, de um relato histórico, mas um texto legislativo (v. 14). É um texto que expressa a preocupação dos sacerdotes em levar os hebreus, residentes na Palestina, a atualizar para si o acontecimento pascal. Trata-se de retomar o acontecimento como zikkaron – memorial, como atualização memorial no rito do acontecimento salvífico.

Mas é importante lembrar que nesse contexto o fato se torna presente não só pelo sacrifício do cordeiro (vv. 1-8), mas também pelo comportamento exterior e interior da comunidade e de cada um de seus membros. Tudo, sacrifício e atitude do povo em caminho, é memorial, é reapresentação memorial ao Deus libertador de um sacrifício espiritual.

O Salmo 115 aqui oferece o significado do sacrifício da Antiga Aliança e nos dá a perspectiva de unidade com o sacrifício de Cristo na Cruz. Na nova Aliança o sacrifício de Cristo prolonga a sua eficácia redentora ao longo da história especialmente mediante a liturgia da Igreja e a transformação espiritual dos que foram configurados a Cristo.

Nesta atitude a gratidão ao Senhor pela libertação nos ajuda. “Que poderei retribuir ao Senhor Deus por tudo aquilo que ele fez em meu favor? Elevo o cálice da minha salvação, invocando o nome santo do Senhor”.

III.Todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, proclamais a morte do Senhor”.

Caríssimos irmãos, antes de nos voltarmos ao Evangelho de São João que narra a cena do Lava-pés, vejamos como Paulo fala aos Coríntios, explicando o significado da Ceia Eucarística na comunidade cristã nascente, especialmente entre os cristãos provenientes do paganismo.

Nesta segunda leitura o Apóstolo explica aos Coríntios o que é a tradição, o que é. O fulcro da verdadeira tradição da Igreja. Não se trata apenas de ideias, mas de alguém. Tradição significa transmissão. São Paulo começa dizendo: “o que eu recebi do Senhor, foi isso que eu vos transmiti” (I Cor 12,23). E começa então a narrar o memorial da paixão celebrado pela comunidade em cada “Ceia”, em cada “Fração do Pão”. Nós reconhecemos nesta narração do acontecimento fundante o coração da nossa Santa Missa, o coração da nossa oração Eucarística. As várias comunidades, no correr dos tempos foram dando forma narrativa a esse coração da tradição católica. Daí nasce a riqueza das famílias litúrgicas da tradição cristã, ainda hoje existentes e nunca estaticamente fixadas em fórmulas do passado. Ao núcleo devemos a nossa fidelidade. Quanto aos aspectos acidentais, cabe à autoridade que a Igreja recebeu da tradição apostólica, atualizá-los com fidelidade às origens, para que exprimam hoje a verdade de sempre.

A verdade é esta: “Cristo é a nossa Páscoa” (1Cor 5,7). Mais de vinte anos após a morte de Cristo, São Paulo transmite aos Cristãos de Corinto – e também a nós – o novo e definitivo sentido da Páscoa. Não mais uma simples libertação sócio-política. É antes e mais plenamente libertação, salvação do pecado (1Cor 15,3). A redenção operada por Cristo continua ainda hoje a ter uma incidência econômica, política, social e cultural. Por isso não pode ser calada com a simplista etiqueta ideológica. Deve ser aceito em toda a amplitude do seu significado.

Ora, este sacrifício de Cristo é o novo memorial e por isso deve ser perpetuado por ordem do próprio Cristo (vv. 24-25). Ao celebrá-lo, devemos manter a atitude eclesial, comunitária de quem está a caminho (v. 26). E o Caminho é Cristo que nos conduz à vida eterna: “Todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, proclamais a morte do Senhor”.

Em cada missa podemos aclamar o mistério da fé e do amor, dizendo: “Todas as vezes que comemos deste pão e bebemos deste cálice, anunciamos, Senhor, a vossa morte, enquanto esperamos a vossa vinda!” (do Ordinário da Missa).

  1. Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1).

Ainda há pouco, irmãos, ouvíamos a proclamação de uma das mais belas páginas da literatura bíblica. O quarto evangelista não narra a instituição da Eucaristia com o que costumamos chamar “palavras da consagração”. Após os discursos sobe o pão da vida e outras instruções sobre a vida da igreja nascente, nos oferece em exclusiva a narração do lava-pés.

Neste discurso aparece claramente a importância da relação entre a atitude dos que tomam parte na celebração e os frutos da liturgia. Sim, a oferta do sacrifício Eucarístico se realiza ex opere operato. Isto significa que realizado o ato por um sacerdote validamente ordenado, a ação litúrgica tem força redentora, ainda que não nos dispense das devidas disposições. Efetivamente, sem uma atitude adequada, sem conversão interior, sem o estado de graça, sem se reconhecer pobre servo, o fiel participante não se abre à graça própria do sacramento, antes se esvazia nela a força redentora do sacramento.

A atitude dos participantes é, portanto, parte integrante do memorial. E o evangelista João, descrevendo a atitude de Cristo, que vive conscientemente a sua passagem (v. 1) e se apresenta como servo, indica com clareza as exigências para a participação da eucaristia (v. 15). O comportamento do discípulo tem seu princípio-força no dever de aceitar Cristo Servo.

Cristo quis identificar-se com a figura do Servo sofredor profetizado por Isaías. É Ele o servo que lava os pés. É Ele o Cordeiro que se imola. É Ele que se faz pecado para vencer o nosso pecado pela misericórdia. Precisamos fazer muito pouco: arrepender-nos e mudar de rumo. Acolher o Senhor que se oferece livremente ao Pai por nós e pela nossa salvação.

Gostaria de convidá-los irmãos a comungar com a atitude espiritual desejada por Cristo. Somos discípulos. Temos sempre algo a aprender do ensinamento da Igreja, do Evangelho vivo. Somos servos. Estaremos sempre prontos a lavar os pés dos pobres, dos famintos, dos que padecem sem teto, sem trabalho. A curar as feridas dos que carregam feridas interiores, chagas que necessitam do fármaco de imortalidade, que precisam de Cristo. Somos homens e mulheres de paz. Não nos conformamos com a guerra. Dobramos os joelhos a Deus para pedir a Paz ao Principe da Paz que está em nossos sacrários. E mudamos nossas atitudes para semear a paz onde ela falta.

Abeirando-nos à conclusão desta homiliar, irmãos, retomo as palavras ditas há poucas horas por Leão XIV na Basílica do Latrão, em Roma. “Ao renovarmos, precisamente nesta tarde, os gestos e as palavras do Senhor, fazemos memória da instituição da Eucaristia e da Sagrada Ordem. O vínculo intrínseco entre os dois Sacramentos representa a entrega perfeita de Jesus, Sumo Sacerdote e Eucaristia viva por toda a eternidade: no pão e no vinho consagrados está, realmente, o «Sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade, banquete pascal em que se recebe Cristo, a alma se enche de graça e nos é concedido o penhor da glória futura» (Const. dogm. Sacrosanctum Concilium, 47). Nos bispos e nos presbíteros, constituídos «sacerdotes da Nova Aliança» segundo o mandamento do Senhor (Concílio de Trento, De Missae Sacrificio, 1), está o sinal da sua caridade para com todo o Povo de Deus, a quem nós, amados irmãos, somos chamados a servir com todo o nosso ser.

Irmãos, acolhamos o convite final do Santo Padre: “Que a adoração eucarística desta noite, em todas as paróquias e comunidades, seja um momento para contemplar o gesto de Jesus, ajoelhando-nos como Ele fez e pedindo-Lhe a força para, com o mesmo amor, O imitarmos no serviço”. Neste bom propósito ajudar-nos-á a Santíssima Virgem Maria, por sua singular participação nas dores do seu Divino Filho.

Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo!

Diocese de Itumbiara
Diocese de Itumbiarahttps://diocesedeitumbiara.com.br/
A Diocese de Itumbiara foi criada no dia 11 de outubro de 1966, pelo Papa Paulo VI, desmembrada da Arquidiocese de Goiânia; seu território é de 21.208,9 km², população de 286.148 habitantes (IBGE 2010). A diocese conta 26 paróquias, com sede episcopal na cidade de Itumbiara-GO.