A Mesa da Palavra – Missa Crismal

A MESA DA PALAVRA

Quinta-Feira Santa – Missa Crismal
Itumbiara, 2 de abril de 2026

Jesus Cristo fez de nós um reino, sacerdotes para seu Deus e Pai” (Ap 1,6).

Queridos irmãos, 

  1. Hoje uma grande alegria me traz até aqui. Vim presidir esta celebração cercado de uma belíssima tiara de virtudes, de pérolas preciosas, que são os padres, os diáconos para o bispo.

Todos nós nos alegramos e damos graças a Deus por este dom tão imenso do sacerdócio ministerial ao serviço da Igreja.

Seja-me consentido dirigir-me agora especialmente aos padres.

Queridos irmãos padres, hoje é o nosso dia, o dia do nosso aniversário. Hoje nasce a Eucaristia, hoje nasce o sacerdócio ministerial. Tudo bem unido ao Mistério Pascal. Nesta manhã eu tenho a alegria de unir-me a vocês queridos irmãos no mesmo sacerdócio ministerial, para celebrar a nossa Ação de Graças, a nossa Eucaristia, o nosso sacrifício de louvor. Hoje nos unimos na mesma oração que se rende suplicante à majestade divina: “Ó Deus, que ungistes o vosso Filho único com o Espírito Santo e o constituístes Cristo e Senhor, concedei que, participando da sua consagração, sejamos no mundo testemunhas da redenção que ele nos trouxe” (Coleta).

Sim, Senhor, porque nos escolhestes, separastes e ungistes para agir em vossa Pessoa em favor da Igreja e das almas, por vossa infinita graça desejamos viver e morrer fiéis à consagração com que nos ungistes e ser testemunhas fiéis da copiosa redenção que realizastes em nós por meio do vosso corpo e sangue.

Sim, caros irmãos. Fomos ungidos, consagrados, gerações e gerações de sacerdotes desde os tempos dos apóstolos. Recebemos esta unção espiritual, esta graça que se imprime na nossa alma de modo indelével.  para continuar até a Parusia a Missão redentora de nosso Senhor. E hoje a Igreja nos dá os instrumentos para realizar a consagração do mundo. O padre santifica o mundo pelo seu ministério, mas nunca se deixa secularizar ou mundanizar pelas ilusões tentadoras do Pai da Mentira. Não somos atores de míseros espetáculos autorreferenciais, ainda que movidos por alguma boa intenção. Em cada encontro com o Senhor na meditação diária da Palavra, na quotidiana adoração pessoal do Santíssimo Sacramento e na confissão frequente nos tornamos conscientes de que exercemos o ministério atuando in persona Christi capitis e não cedemos às tristes tentações de um vão protagonismo ou de clericalismo. Que triste espetáculo nos proporcionam uma vez e outra as redes sociais: sacerdotes que profanam a consagração recebida nos ritos da Χειροτονία (imposição das mãos) e na unção das mãos.

Como dizia Papa Francisco, fomos ungidos para ungir com o Espírito Santo aqueles que passam pelo nosso caminho. Este ano, desejo concentrar a atenção sobre o significado ministerial dos óleos que abençoamos nesta celebração. Esta bênção ocupa um lugar central da liturgia desta manhã: a bênção dos santos óleos para que se tornem meios sensíveis para comunicar a graça invisível. Estes são o óleo para a unção dos catecúmenos, o óleo para a unção dos enfermos e o Santo Crisma (Ἅγιος Μύρων) para os grandes sacramentos que conferem o Espírito Santo, ou seja, a Confirmação, a Ordenação Sacerdotal e a Ordenação Episcopal.

Nos sacramentos, o Senhor toca-nos por meio dos elementos da criação. Aqui, torna-se visível a unidade entre criação e redenção. Os sacramentos são expressão da corporeidade da nossa fé, que abraça corpo e alma, isto é, o homem inteiro. Pão e vinho são frutos da terra e do trabalho humano. O Senhor escolheu-os como portadores da sua presença. O óleo é símbolo do Espírito Santo e, ao mesmo tempo, alude a Cristo: a palavra «Cristo» (Messias) significa «Ungido».

A humanidade de Jesus, graças à unidade do Filho com o Pai, fica inserida na comunhão com o Espírito Santo e assim é «ungida» de um modo único, é permeada pelo Espírito Santo. Aquilo que acontecera apenas simbolicamente nos reis e sacerdotes da Antiga Aliança, quando eram instituídos no seu ministério com a unção do óleo, verifica-se em toda a sua realidade em Jesus: a sua humanidade é permeada pela força do Espírito Santo. Jesus abre a nossa humanidade ao dom do Espírito Santo. Quanto mais estivermos unidos a Cristo, tanto mais ficamos cheios do seu Espírito, do Espírito Santo. Chamamo-nos «cristãos», ou seja, «ungidos»: pessoas que pertencem a Cristo e por isso participam na sua unção, são tocadas pelo seu Espírito. Não quero somente chamar-me cristão, mas sê-lo também: disse Santo Inácio de Antioquia. Deixemos que estes santos óleos, que vão ser consagrados daqui a pouco, lembrem este dever contido na palavra «cristão», e peçamos ao Senhor que não nos limitemos a chamar-nos cristãos, mas o sejamos cada vez mais.

  1. Os Santos óleos

Consintam-me agora refletir sobre a benção dos óleos inspirando-me no magistério de Bento XVI, numa belíssima homilia de 2011, por ocasião da missa crismal em Roma.

            Óleo dos catecúmenos. Como já disse, na liturgia deste dia, são benzidos três óleos. Nesta tríade, exprimem-se três dimensões essenciais da vida cristã, sobre as quais queremos agora refletir. Em primeiro lugar, temos o óleo dos catecúmenos. Este óleo indica como que um primeiro modo de ser tocados por Cristo e pelo seu Espírito: um toque interior, pelo qual o Senhor atrai e aproxima de Si as pessoas. Por meio desta primeira unção, que tem lugar ainda antes do Batismo, o nosso olhar detém-se nas pessoas que se põem a caminho de Cristo, nas pessoas que andam à procura da fé, à procura de Deus.

O óleo dos catecúmenos diz-nos: não só os homens procuram a Deus, mas o próprio Deus anda à nossa procura. O fato de Ele mesmo Se ter feito homem descendo até aos abismos da existência humana, até à noite da morte, mostra-nos quanto Deus ama o homem, sua criatura. Movido pelo amor, Deus caminhou ao nosso encontro. «A buscar-me Vos cansaste, pela Cruz me resgatastes: tanta dor não seja em vão!»: rezamos no hino Dies irae. Deus anda à minha procura. Tenho eu vontade de reconhecê-lo? Quero ser conhecido por Ele, ser encontrado por Ele?

Deus ama os homens. Ele sai ao encontro da inquietude do nosso coração, da inquietude que nos faz questionar e procurar, com a inquietude do seu próprio coração, que O induz a realizar o ato extremo por nós. A inquietude por Deus, o caminhar para Ele, para melhor O conhecer e amar não deve apagar-se em nós. Neste sentido, nunca devemos deixar de ser catecúmenos. «Procurai sempre a sua face»: diz um Salmo (105/104, 4). A este respeito, comentava Agostinho: Deus é tão grande que sempre supera infinitamente todo o nosso conhecimento e todo o nosso ser. O conhecimento de Deus nunca se esgota. Por toda a eternidade, poderemos, com uma alegria crescente, continuar a procurá-Lo, para O conhecer e amar cada vez mais. «O nosso coração está inquieto enquanto não repousar em Vós»: escreveu Agostinho no início das suas Confissões. Sim, o homem vive inquieto, porque tudo o que é temporal é demasiado pouco. Mas, verdadeiramente, sentimo-nos inquietos por Ele? Não acabamos, talvez, por nos resignar com a sua ausência, procurando bastar-nos a nós mesmos? Não consintamos uma tal redução do nosso ser humano! Continuemos incessantemente a caminhar para Ele, com saudades d’Ele, num acolhimento sempre novo feito de conhecimento e amor!

Unção dos Enfermos. Temos, depois, o óleo para a Unção dos Enfermos. Pensamos agora na multidão das pessoas que sofrem: os famintos e os sedentos, as vítimas da violência em todos os continentes, os doentes com todos os seus sofrimentos, as suas esperanças e desânimos, os perseguidos e os humilhados, as pessoas com o coração dilacerado. Ao narrar o primeiro envio dos discípulos por Jesus, São Lucas diz-nos: «Ele enviou-os a proclamar o Reino de Deus e a curar os enfermos» (9, 2). Curar é um mandato primordial confiado por Jesus à Igreja: Jesus mesmo percorreu seus caminhos curando. É certo que o dever primordial da Igreja é o anúncio do Reino de Deus. Mas este mesmo anúncio deve revelar-se um processo de cura: «…tratar os corações torturados», diz hoje a primeira leitura do profeta Isaías (61, 1). O primeiro fruto que o anúncio do Reino de Deus, da bondade sem limites de Deus, deve suscitar é curar o coração ferido dos homens.

O homem é essencialmente um ser em relação. Mas, se a sua relação fundamental – a relação com Deus – é transtornada, então tudo mais fica transtornado. Se o nosso relacionamento com Deus se transtorna, se a orientação fundamental do nosso ser está errada, também não podemos ficar verdadeiramente curados no corpo e na alma. Por isso, a primeira e fundamental cura tem lugar no encontro com Cristo, que nos reconcilia com Deus e sara o nosso coração quebrantado. Mas, além deste dever central, faz parte da missão essencial da Igreja também a cura concreta da doença e do sofrimento. O óleo para a Unção dos Enfermos é expressão sacramental visível desta missão. Desde o início, amadureceu na Igreja a vocação de curar, amadureceu o amor solícito pelas pessoas atribuladas no corpo e na alma.

O Santo Crisma. Em terceiro lugar, temos o mais nobre dos óleos eclesiais: o crisma, uma mistura de azeite de oliveira e com perfumes vegetais. É o óleo da unção sacerdotal e da unção real, unções estas que estão ligadas com as grandes tradições de unção da Antiga Aliança. Na Igreja, este óleo serve sobretudo para a unção na Confirmação e nas Ordens sacras. A liturgia de hoje relaciona com este óleo as palavras de promessa do profeta Isaías: «Vós sereis chamados “sacerdotes do Senhor” e tereis o nome de “ministros do nosso Deus”» (61, 6). Deste modo, o profeta retoma a grande palavra de mandato e promessa que Deus dirigira a Israel no Sinai: «Vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa» (Ex 19, 6). No meio do mundo imenso e em favor do mesmo, que em grande parte não conhecia Deus, Israel devia ser como que um santuário de Deus para a todos, devia exercer uma função sacerdotal em favor do mundo. Devia conduzir o mundo para Deus, abri-lo a Ele. São Pedro, na sua grande catequese batismal, aplicou tal privilégio e mandato de Israel a toda a comunidade dos batizados, proclamando: «Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido por Deus para anunciardes os louvores d’Aquele que vos chamou das trevas à sua luz admirável. Vós que outrora não éreis seu povo, agora sois povo de Deus» (1 Ped 2, 9-10).

O Batismo e a Confirmação constituem o ingresso neste povo de Deus, que abraça todo o mundo; a unção no Batismo e na Confirmação introduz neste ministério sacerdotal em favor da humanidade. Os cristãos são um povo sacerdotal em favor do mundo. Os cristãos deveriam fazer visível ao mundo o Deus vivo, testemunhá-Lo e conduzir a Ele. Ao falarmos desta nossa missão comum enquanto batizados, não temos motivo para nos vangloriar. De fato, trata-se de uma exigência que suscita em nós alegria e ao mesmo tempo preocupação: somos nós verdadeiramente o santuário de Deus no mundo e para o mundo? Abrimos aos homens o acesso a Deus ou, pelo contrário, escondemo-lo? Porventura nós, povo de Deus, não nos tornamos em grande parte um povo marcado pela incredulidade e pelo afastamento de Deus? Porventura não é verdade que o Ocidente, muitos países de antiga tradição cristã – e talvez nós também – se mostram cansados da sua fé e, enfastiados da sua própria história e cultura, já não querem conhecer a fé em Jesus Cristo? Neste momento, temos motivos para bradar a Deus: «Não permitais que nos tornemos um “não povo”! Fazei que Vos reconheçamos de novo! De fato, ungistes-nos com o vosso amor, colocastes o vosso Espírito Santo sobre nós. Fazei que a força do vosso Espírito se torne novamente eficaz em nós, para darmos com alegria testemunho da vossa mensagem!».

III.      Finalmente, dirijo-vos a vós, meus queridos irmãos padres uma palavra especia. A Qluinta-feira Santa é de modo particular o nosso dia. Na hora da Última Ceia, o Senhor instituiu o sacerdócio neotestamentário. «Consagra-os na verdade» (Jo 17, 17): pediu Ele ao Pai para os Apóstolos e para os sacerdotes de todos os tempos. Com imensa gratidão pela nossa vocação e com grande humildade por todas as nossas insuficiências, renovemos neste momento o nosso «sim» ao chamamento do Senhor: Sim, quero unir-me intimamente ao Senhor Jesus, renunciando a mim mesmo …. impelido pelo amor de Cristo.

Não neguemos a nossa preciosa oração pelos irmãos que passam necessidade. Unamo-nos ao Papa Leão na intenção de orações deste mês de abril pelos sacerdotes em crise vocacional.

 

Diocese de Itumbiara
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A Diocese de Itumbiara foi criada no dia 11 de outubro de 1966, pelo Papa Paulo VI, desmembrada da Arquidiocese de Goiânia; seu território é de 21.208,9 km², população de 286.148 habitantes (IBGE 2010). A diocese conta 26 paróquias, com sede episcopal na cidade de Itumbiara-GO.