A Mesa da Palavra – V Domingo da Quaresma – Ano A

A MESA DA PALAVRA

V Domingo da Quaresma – Ano A
Itumbiara, 22 de março de 2026

Ele chorou pelo seu amigo Lázaro” (do Prefácio)

Caríssimos amigos, 

Todos, crentes e não crentes, experimentamos com maior ou menor força a precariedade da nossa existência, experimentamos com sofrimento a caducidade da vida. Contudo, aqueles que vivem da fé no Deus Uno e Trino, encontram em Jesus Cristo “a ressurreição e a vida” (Jo 11,25), descobrem nele a fonte da vida, conforme o testemunho das Escrituras e dos Santos.

Ao nos aproximarmos da solenidade da Páscoa, a Liturgia deste domingo nos infunde a esperança na ressurreição. Confiantes na proximidade do Deus humanado que participa das nossas dores, somos fortificados pela graça da amizade com Deus, cujo poder nos resgata da morte. No lar de Betânia, o Senhor Jesus encontrava repouso, afetos humanos sinceros e amor verdadeiro. À casa de Marta, Maria e Lázaro, Jesus levou consolação para o luto e ofereceu o testemunho de seu poder divino sobre a vida e a morte.

Este evangelho da ressurreição de Lázaro nos é apresentado como um pórtico de ingresso no tempo da Paixão do Senhor. Este portentoso sinal nos ensina que Jesus tem poder sobre a morte. Ele nos prepara para acolher com fé a Sua passagem pela morte para ressurgir e nos dar a vida nova. “Compadecido da humanidade, leva-nos à vida nova pelos mistérios pascais” (Prefácio). E nós recebemos essa vida no Batismo, que nos abre as portas da eternidade bem-aventurada.

  1. Infundirei em vós o meu espírito e revivereis” (Ez 37,14).

Nos domingos anteriores, através de algumas cenas mais significativas, pudemos rememorar alguns momentos significativos da história da Salvação do Antigo Testamento.  Hoje a primeira leitura nos apresenta o Profeta Ezequiel, que com os demais profetas, nos ajuda a interiorizar os eventos salvíficos da história que Deus faz com o Antigo Israel.

Deus, através do profeta Ezequiel, fala ao seu povo exilado na Babilônia, desanimado, sem esperança, espiritualmente morto num túmulo. Aprendemos com eles a ler nos acontecimentos históricos promessas de Deus que apontam para a esperança messiânica. Tudo aponta para Jesus, para sua paixão e morte, para sua gloriosa ressurreição. Por meio do Profeta, Deus nos promete ainda enviar o seu Espírito, que é para nós o princípio e a fonte da Ressurreição.

A impressionante visão dos ossos secos que se levantam da terra com nova vida é rica de significados. Ela aponta para a restauração de Israel e sugere a reunificação dos dois reinos: Israel e Judá. Os Padres da Igreja viram nesta profecia uma promessa da ressurreição dos mortos para todos os que creem. A promessa da ressurreição não é uma miragem, é palavra dada por um Deus que não engana nem se engana. São Jerônimo, comentando a profecia de Ezequiel, assim se expressa: “Não se teria posto a comparação da ressurreição para significar a restauração do povo de Israel, se não se acreditasse na ressurreição futura, porque ninguém deduz uma certeza de coisas que não existem” (Commentarii in Ezechielem 37,1ss).

No versículo 14, o espírito do Senhor significa ao menos o poder de Deus que leva a cabo uma ação criadora. É também um princípio de vida (cf Gn 2,7) que faz do homem que o recebe uma criatura com vida. Mas, sem dúvida, é também princípio da vida sobrenatural, pois o mesmo Deus que com seu poder criou todas as coisas, pode também revitalizar o povo oprimido na Babilônia e tornar o homem partícipe da vida divina.

Os textos proféticos diretamente referentes ao envio do Espírito Santo são oráculos em que Deus fala ao coração de seu Povo na linguagem da promessa, com as tônicas do ‘amor e da fidelidade’. Na manhã de Pentecostes o pleno cumprimento dessas promessas será feito por São Pedro já cheio do Espírito Santo. Segundo essas promessas, nos ‘últimos tempos’ o Espírito do Senhor renovará o coração dos homens, gravando neles uma Lei nova; reunirá e reconciliará os povos dispersos e divididos; transformará a primeira criação e Deus habitará nela com os homens na paz” (Catecismo da Igreja Católica, n. 715).

  1. O Espírito daquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos, habita em vós” (Rm 8,11).

Na epístola aos Romanos, São Paulo indica a realização perfeita da Profecia de Ez 37,14: “Porei em vós o meu Espírito e revivereis”.  Neste contexto o Apóstolo distingue duas maneiras de se viver neste mundo (vv. 5-8): a vida segundo a carne e a vida segundo o Espírito. Quem vive segundo a carne se deixa vencer pelas paixões, pela fragilidade não combatida; ao passo que quem vive segundo o Espírito busca a Deus acima de todas as coisas e, com a Sua graça, luta contra as inclinações da concupiscência.

Viver a vida segundo o Espírito é deixar que o Espírito de Deus habite em nós. Este modo de viver tem sua raiz na graça de Deus, por isso não se reduz à mera passividade e a algumas práticas piedosas. Trata-se de uma existência conduzida sob a guia da vontade de Deus, na qual pensamentos, anseios, desejos e ações se alinham com o que o Senhor pede a cada instante, sob a inspiração do Espírito Santo.

São João Crisóstomo, a este propósito, tecia a seguinte consideração: “É necessário submeter-se ao Espírito, entregar-se de todo o coração e esforçar-se para manter a carne em seu devido lugar. Deste modo, nossa carne se tornará espiritual. Ao contrário, se cedermos a uma vida confortável, isso rebaixará nossa alma ao nível da carne e a tornará carnal (…). Com o Espírito, pertencemos a Cristo, possuímos a Ele (…). Com o Espírito, crucificamos a carne, provamos o deleite da vida imortal” (In Romanos 13).

Naquele que vive segundo o Espírito, é o próprio Cristo quem vive (v. 10; cf. Gl 2:20; 1 Cor 15:20-23). Por isso, quem vive assim pode esperar com certeza a sua futura ressurreição (vv. 9-13), pois o Espírito que habita em nós é o Espírito de Cristo.

A este respeito, Orígenes comenta: “Cada um também deve testar se tem o Espírito de Cristo dentro de si. (…) Quem possui [sabedoria, justiça, paz, caridade, santificação] certamente tem o Espírito de Cristo dentro de si e pode esperar que seu corpo mortal seja vivificado pela habitação do Espírito de Cristo” (Commentarii in Romanos 6,13).

Nós sabemos que é o Espírito de Deus quem dá a vida. De fato, foi pelo Espírito de Deus que Jesus ressuscitou: é pelo Espírito que Deus nos dá a sua vida e nos ressuscitou com Jesus, seu Filho. Mas para isso é preciso que o Espírito de Deus habite em nós.

Por isso, afirmar que “o corpo está morto por causa do pecado” (v. 10), Paulo quer dizer que o corpo humano, marcado pelo pecado, está destinado à morte, como se já estivesse morto. Contudo, o Espírito é vida por causa da justiça, justiça realizada por Cristo.

III.Eu sou a ressurreição e a Vida” (Jo 11,25).

Neste capítulo 11 do quarto Evangelho, Jesus se revela como a “Ressurreição e a Vida” para aqueles que creem nele. O autor do quarto evangelho destaca a fé de Marta e a reação odiosa das autoridades judaicas que decidem matar Jesus. A observação do evangelista de que “a Páscoa dos judeus estava prestes a começar” (v. 55) sugere que esses eventos prefiguram a morte redentora de Cristo e sua gloriosa ressurreição, ou seja, a Páscoa cristã.

Na longa narração, Jesus aparece gigante na sua humanidade compassiva que chora o amigo morto e humilde na manifestação de seu poder divino de ressuscitar os mortos.     Ele é Homem que chora o amigo já morto há quatro dias. Ele é Deus que o chama para fora do sepulcro.

A ressurreição de Lázaro é a terceira das três leituras evangélicas particularmente importantes no itinerário catecumenal que a Igreja nos oferece nos domingos da Quaresma no Ano A. Nos domingos anteriores a Liturgia nos fez meditar sobre a Samaritana (3º domingo) e do cego de nascença (4º domingo) miram a suscitar a fé em Jesus que dá a vida eterna. Por isso, neste domingo, catecúmenos e fiéis se preparam para celebrar o Mistério da Páscoa, da Morte e Ressurreição do Senhor, para tomar parte nesses sagrados mistérios. A Vida está em Deus e vem a nós em seu Filho Jesus Cristo. Ele é a Vida. Ele Morreu por nós: nós morremos nele e com Ele. Mas Jesus passou da Morte à Vida: ressuscitou. Ele próprio é a Ressurreição. Nele e com Ele nós ressuscitamos. “Nele brilha para nós a esperança da feliz ressurreição; e, se a certeza da morte nos entristece, conforta-nos a promessa da futura imortalidade” (Prefácio dos Defuntos I).

Fixemos a nossa atenção na reação de Jesus à morte de Lázaro no curso dos acontecimentos. Betânia ficava a apenas cerca de 3 km de Jerusalém (v. 18). Nos dias que antecederam a sua Paixão, Jesus frequentava a casa dessa família, com quem tinha uma estreita amizade. São João observa os sentimentos de afeição de Jesus (vv. 3, 5, 36) e o seu conhecimento prévio do que iria acontecer (vv. 11, 14).

No diálogo com Marta (vv. 20-27), encontramos uma das revelações mais precisas sobre Jesus: Ele é a Ressurreição e a Vida. Ele é a Ressurreição porque a sua vitória sobre a morte é a causa da ressurreição de todas as pessoas. Ele é a Vida porque concede à humanidade a participação na vida divina, que culminará na vida eterna. Por isso, os cristãos podem dizer: “Senhor, para os que creem em vós a vida não é tirada, mas transformada e, desfeita esta morada terrestre, nos é dada uma habitação eterna no céu” (Missal Romano, Prefácio à Liturgia dos Mortos I). A fé de Marta é um modelo para a nossa: para ressuscitar e viver com Cristo, devemos crer nEle (vv. 26-27).

A profundidade dos sentimentos de Cristo se reflete nas lágrimas que Ele derrama por Lázaro (v. 35). Este é o versículo mais curto de toda a Bíblia. É interessante notar que que a própria divisão em versículos (feita no século XVI) parece querer solenizar o choro de Jesus. Seu pranto é uma expressão de Sua verdadeira Humanidade e um testemunho do amor de Deus pela humanidade. “Jesus é seu Amigo. – O Amigo. – Com um coração de carne, como o seu. – Com olhos de olhar amoroso, que choraram por Lázaro… – E tanto quanto Ele amou Lázaro, Ele ama você” (São Josemaría Escrivá, Caminho, n. 422).

É de notar que o milagre da ressurreição de Lázaro é precedido por uma oração de ação de graças de Jesus (vv. 41-42). A gratidão ao Pai por tê-lo ouvido “implica que Jesus (…) pede de maneira constante. Devemos sempre orar com espírito filial e com gratidão pelos muitos benefícios recebidos de Deus Pai. Sustentada pela ação de graças, a oração de Jesus revela-nos como pedir: antes que o pedido seja atendido, Jesus une-se Àquele que dá e que se dá nos seus dons. O Doador é mais precioso do que o dom dado, ele é o ‘tesouro’, e nele está o coração do seu Filho; o dom é dado como ‘um acréscimo’ (cf. Mt 6,21.33)” (Catecismo da Igreja Católica, n.º 2604).

Enfim, irmãos, Aquele que, pelo seu Espírito, dá vida aos ossos secos e habita no coração dos fiéis, é o mesmo que chama Lázaro para fora do sepulcro: “Lazare, veni foras!” (Jo 11,43). Assim, o que foi prometido pelos profetas e anunciado pelo Apóstolo torna-se realidade visível em Cristo. Ele é a Vida que vence a morte, é Ele quem nos faz passar da morte do pecado para a vida da graça, e é nele que se funda a nossa esperança da ressurreição futura.

É à luz da promessa e da presença do Espírito que podemos compreender o Evangelho de hoje. Diante do túmulo de Lázaro, Jesus revela não apenas um poder extraordinário, mas a verdade mais profunda do seu mistério: “Ego sum resurrectio et vita; qui credit in me, etiam si mortuus fuerit, vivet” (Jo 11,25).

Por isso, também nós somos chamados a sair de nossos sepulcros, a deixar tudo o que nos prende à morte e a viver segundo o Espírito, para que já agora participemos da vida nova que Cristo veio nos trazer e que um dia se manifestará em plenitude.

A Virgem Santíssima, a Senhora da Boa morte interceda por nós neste ano jubilar de nossa Diocese, para que nada anteponhamos ao amor de seu Filho Jesus, nossa Ressurreição e nossa Vida.

 

 

 

 

 

 

Diocese de Itumbiara
Diocese de Itumbiarahttps://diocesedeitumbiara.com.br/
A Diocese de Itumbiara foi criada no dia 11 de outubro de 1966, pelo Papa Paulo VI, desmembrada da Arquidiocese de Goiânia; seu território é de 21.208,9 km², população de 286.148 habitantes (IBGE 2010). A diocese conta 26 paróquias, com sede episcopal na cidade de Itumbiara-GO.