A MESA DA PALAVRA
Domingo de Ramos e da Paixão – Ano A
Itumbiara, 22 de março de 2026
“Quem subirá o monte do Senhor?” (Sl 23).
Caríssimos amigos,
Não faltam dentre nós irmãos, católicos “praticantes” habitualmente presentes em nossas missas dominicais, os quais consideram Jesus um bom homem. Sim, um bom homem, um homem de bem, um homem sábio, talvez o mais sábio de todos os tempos. Mas simplesmente homem; não Deus. Mais ainda, se perguntarmos sobre a presença real do Senhor sob as espécies do Pão e do Vinho, talvez respondam que a Eucaristia é apenas um símbolo da presença de Jesus. Talvez mesmo professando a fé verdadeira, nem sempre o reconheçam como verdadeiro Deus e Senhor, tratando-o com indiferença ou negligenciando os seus ensinamentos.
No entanto, a fé que recebemos dos Apóstolos nos ensina que Jesus, é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, gerado e não criado, consubstancial ao Pai. Ele é nosso Deus e nosso Irmão, nosso Rei e Senhor. E aprendemos também que o Pão e o Vinho consagrados pelo sacerdote contêm o Corpo e Sangue, Alma e Divindade de nosso Senhor. Jesus é Deus e homem e permanece conosco. Está vivo. Ele é Rei e Senhor.
Nesta celebração tão especial, especialmente na procissão com os ramos, reconhecemos traços rituais da realeza de Israel. Para melhor compreendermos o alcance desses traços rituais na nossa profissão de fé, retomo nesta nossa reflexão uma belíssima homilia proferida em 2007 por Bento XVI. Falando sobre a procissão de Ramos, ele explica que nela celebramos o memorial da entrada de Jesus em Jerusalém para se entregar por nós no patíbulo da Cruz. Ele, de fato, sendo “Inocente, dignou-se sofrer pelos pecadores. Santíssimo, quis ser condenado a morrer pelos criminosos. Sua morte apagou nossos pecados e sua ressurreição trouxe-nos a justificação” (Prefácio).
Hoje meditaremos mais sobre a procissão de Ramos, sobre a entrada de Jesus e sobre o significado desse ingresso para quem conhecia as Escrituras, como os habitantes de Jerusalém. Na Sexta-Feira Santa meditaremos mais detidamente sobre a Paixão do Senhor, que segue a entrada em Jerusalém.
- O que acontece na procissão do Domingo de Ramos? Ao participarmos dela, nós nos associamos à multidão dos discípulos que acompanham jubilosos o Senhor na sua entrada em Jerusalém. Como eles nós louvamos o Senhor em coro pelas maravilhas que vimos. Sim, também nós vimos e ainda vemos os prodígios de Cristo. Vemos como Ele leva homens e mulheres a renunciar aos confortos da própria vida e a colocar-se plenamente a serviço dos que sofrem. Vemos também como Ele dá a homens e mulheres a coragem de se oporem à violência e à mentira, para dar lugar no mundo à verdade. Vemos ainda como Ele, no segredo do coração, induz homens e mulheres a fazer o bem ao próximo, a suscitar a reconciliação onde havia o ódio, a criar a paz onde reinava a inimizade.
A procissão é antes de tudo um testemunho de alegria que prestamos a Jesus Cristo: Nele, de fato, se tornou visível para nós o Rosto de Deus e graças a Ele o coração de Deus está aberto a todos nós. O Evangelho hoje proclamado após a bênção dos ramos, nos apresentava o início do cortejo nas cercanias de Jerusalém. Esta narração se inspira em parte literalmente no modelo do rito da coroação empregado na coroação de Salomão, então constituído herdeiro da realeza de David (cf. 1 Rs 1, 33-35).
Caros irmãos, instruídos pelas Escrituras, não é difícil ver que a procissão dos Ramos é também uma procissão em honra de Cristo-Rei. Ao participarmos dessa procissão, nós proclamamos a realeza de Jesus Cristo, reconhecemos Jesus como o Filho de Davi, o verdadeiro Salomão, o verdadeiro Rei da paz e da justiça. Reconhecê-lo Rei significa aceitá-lo como aquele que nos indica o caminho a seguir, caminho no qual temos confiança e que seguimos com o coração em paz. Significa aceitar dia após dia a sua palavra como critério válido para orientar a nossa vida. Significa ver nele a autoridade à qual nos submetemos. E nós nos submetemos a Ele porque a sua autoridade é a autoridade da verdade.
- A procissão dos Ramos é, como o foi para os discípulos, antes de tudo expressão de alegria, porque podemos conhecer Jesus, porque Ele nos concede a graça de sermos seus amigos e porque nos deu a chave da verdadeira vida. Esta alegria, que está no início, é, contudo, também expressão do nosso “sim” a Jesus e da nossa disponibilidade a ir com Ele aonde quer que nos leve. A exortação inicial de nossa liturgia interpreta justamente a procissão também como representação simbólica do que chamamos “seguimento de Cristo”. Esta expressão, “seguimento de Cristo”, é uma significativa descrição da existência cristã em geral. Em que consiste? O que significa concretamente “seguir Cristo?”.
Para os primeiros discípulos de Jesus, o sentido era muito simples e imediato: significava que estas pessoas tinham decidido abandonar a sua profissão, os seus negócios, toda a sua vida para andar com Jesus; significava empreender uma nova profissão: a de discípulos. O conteúdo fundamental desta profissão era andar com o mestre, confiar-se totalmente à sua guia. Assim, o seguimento era uma coisa exterior e, ao mesmo tempo, profundamente interior. O aspecto exterior era o caminhar atrás de Jesus nas suas peregrinações através da Palestina. O aspecto interior, por sua vez, era a novidade de vida, a nova orientação da existência. Esta orientação já não tem seu ponto de referência nos negócios, na profissão que dava de que viver, na vontade pessoal, mas que se abandonava totalmente à vontade do Outro. Estar à disposição do Senhor e da sua missão já se tinha tornado a razão de vida. O real alcance dessa renúncia, podemos reconhecê-lo de modo bastante claro em algumas cenas dos Evangelhos.
Com isto se evidencia o significado e a verdadeira essência do seguimento para nós hoje: trata-se de uma profunda mudança interior da existência. Exige que eu deixe de me fechar no meu eu, que deixe de considerar a autorrealização a razão principal da minha vida. Exige que eu me dedique livremente a Outro pela verdade, pelo amor, por Deus que, em Jesus Cristo, me precede e me indica o caminho. Trata-se da decisão fundamental de rejeitar a utilidade e o lucro, a carreira e o sucesso como finalidade última da minha vida. Trata-se antes de reconhecer ao contrário como critérios autênticos a verdade e o amor. Trata-se de escolher entre viver só para mim mesmo ou doar-me pela coisa maior. E consideremos bem que verdade e amor não são valores abstratos; em Jesus Cristo eles tornaram-se pessoa. Ao segui-lo, entro ao serviço da verdade e do amor. Ao fim e ao cabo, é perdendo-me que me reencontro.
III. Bento XVI continuava a sua douta reflexão tecendo algumas considerações espirituais sobre o Salmo 23, previsto nesta liturgia. O salmo sugere a subida exterior como imagem da subida interior. Por meio dele o divino Autor das Escrituras explica uma vez mais o que significa subir com Cristo. “Quem subirá o monte do Senhor?”, pergunta o Salmo. E a seguir indica duas condições fundamentais.
Os que sobem e desejam chegar deveras ao cimo, chegar à altura verdadeira, devem ser pessoas que se interrogam sobre Deus. Pessoas que escrutam à sua volta para procurar Deus, para buscar o seu rosto. Queridos amigos, como é importante hoje não se deixar simplesmente levar para lá e para cá na vida. Como é importante não se acomodar com o que todos pensam, dizem e fazem. É preciso mais, muito mais: é preciso perscrutar o coração de Deus e procurar Deus. Não deixar que o desejo de Deus se dissipe nas nossas almas. O desejo do que é maior. O desejo de O conhecer, de conhecer o seu Rosto… Não encontraremos um real descanso fora de Deus: “Fizestes-nos para Vós e o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em Vós”
A outra condição muito concreta para a subida é esta: pode estar no lugar santo “quem tem mãos inocentes e coração puro”.
Mãos inocentes. O que são as mãos inocentes? Mãos inocentes são aquelas que não são instrumentos de violência. São as mãos que não se sujam com a corrupção, com os subornos.
Coração puro. Quando é puro um coração? É puro o coração que não finge, que não se mancha com mentiras, nem com hipocrisia. Um coração que permanece cristalino como água nascente, porque não conhece a falsidade. É puro um coração que não se aliena com o inebriamento do prazer; um coração cujo amor é verdadeiro e não apenas paixão de um momento.
Mãos inocentes e coração puro: quando caminhamos com Jesus, subimos e encontramos as purificações que nos conduzirão à verdadeira altura a que somos destinados: a amizade com o próprio Deus: “Já não vos chamo servos, mas amigos”.
O Salmo 23 fala ainda da subida ao templo que se encerra com a liturgia de entrada diante do pórtico da casa de Deus: “Levantai, ó portas, os vossos frontais, levantai-vos, portas antigas, e entre o rei da glória”.
Vale a pena lembrar que na liturgia do Domingo de Ramos precedente à reforma, o sacerdote, ao chegar diante da igreja, batia com força com a haste da cruz da procissão na porta ainda fechada, que após este bater se abria. Era uma bonita imagem para o mistério de Cristo que, com o madeiro da Cruz, com a força do seu amor que se doa, bateu do lado do mundo à porta de Deus. Sim, bateu do lado de um mundo que não conseguia encontrar o acesso para Deus. Com a Cruz, Jesus abriu de par em par a porta de Deus, a porta entre Deus e os homens. Agora ela está aberta.
Mas também do outro lado, o Senhor bate com a sua Cruz: bate às portas do mundo, às portas dos nossos corações, que assim com frequência e em tão grande número estão fechadas para Deus. E fala-nos mais ou menos assim: se as provas que Deus na criação te dá da sua existência não conseguem fazer com que te abras a Ele; se a palavra da Escritura e a mensagem da Igreja te deixam indiferente, então olha para mim, para o Deus que por ti se fez sofredor, que pessoalmente sofre contigo evê que eu sofro por amor a ti e abre-te a mim, teu Senhor e teu Deus.
São João Paulo II iniciou o seu ministério pontifício convidando o mundo a abrir as portas ao Redentor E o convite “Aperite portas Redemptori” reiteradas vezes soou em seu magistério. Deixemos que o mesmo apelo penetre hoje em nosso coração. O Senhor nos ajude a abrir a porta do coração, a porta do mundo, para que Ele, o Deus vivente, possa no seu Filho entrar neste nosso tempo, alcançar a nossa vida.
Caros irmãos, nesta celebração, após receber a Santíssima Eucaristia, poderemos pedir a graça de uma fé vigorosa: “Saciados pelo vosso sacramento, nós vos pedimos, Senhor: como pela morte do vosso Filho nos destes esperar o que cremos, dai-nos, pela sua ressurreição, alcançar o que buscamos” (Post communio).
Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo!

