A MESA DA PALAVRA
XXVIII Domingo do Tempo Comum – Ano A
Itumbiara, 11 de outubro de 2026
Mês do Rosário e das Missões
Homilia para a bênção das sementes
Caros amigos,
Estamos aqui para oferecer ao Senhor nossa vida, nossos trabalhos e esforços. Aqui estamos por obra e graça do Senhor, em quem “vivemos, nos movemos e existimos” (At 17,28). Dele todas as criaturas recebem o ser e a vida, e é a sua mão providente que continuamente as conserva na existência (cf. S. Th, I, q. 104, a. 1).
Assim vamos hoje bendizer a Deus pelas sementes que abençoamos nesta igreja catedral, suplicando-lhe que derrame suas graças e bênçãos sobre o trabalho humano que desenha as terras férteis deste sul goiano, cujos frutos chegam à mesa de tantas famílias. A Palavra deste domingo nos conduz, justamente, da mesa de nossas casas à mesa do Senhor: o profeta Isaías anuncia o banquete que Deus prepara para todos os povos, São Paulo nos ensina a viver na fartura e na escassez, e Jesus nos fala do rei que convida para a festa de casamento do seu filho.
“Senhor, que vossa graça nos preceda e acompanhe…” (Coleta).
A oração da coleta nos oferece a chave para compreender a Palavra de Deus deste domingo: “Nós vos pedimos, Senhor, que vossa graça nos preceda e acompanhe e nos torne atentos para perseverar na prática do bem”.
Nessa súplica está condensada toda a vida cristã: a graça de Deus vem antes de nós, caminha conosco e nos sustenta na prática do bem. Como o rei do Evangelho, que toma a iniciativa de preparar o banquete e de enviar o convite, Deus nos precede sempre; a nós cabe acolher o seu chamado.
A Diocese de Itumbiara é abençoada por uma agricultura pujante, fruto da capacidade empreendedora, do conhecimento técnico e do trabalho perseverante de tantas famílias e profissionais do campo. Damos graças a Deus por essa realidade, que gera trabalho e sustenta tantas pessoas. Mas a bênção das sementes nos recorda que, antes de todo trabalho humano, existe o dom de Deus.
São Paulo, ao falar do crescimento da comunidade cristã, recorre justamente a uma imagem do campo: “Eu plantei, Apolo regou, mas era Deus que fazia crescer” (1Cor 3,6). O Apóstolo não despreza o trabalho de quem planta ou rega, mas reconhece que não é ele a fonte última da vida. Assim acontece na vida da graça, e assim também na lavoura: a graça não é um prêmio que conquistamos, mas um dom que nos precede e torna possível a nossa resposta; e a fecundidade da terra é, igualmente, dom do Criador.
Essa verdade encontra bela expressão na antiga tradição das têmporas de setembro, dias de oração, penitência e ação de graças pelos frutos da terra. Ao abençoarmos as sementes, recuperamos esse espírito. A bênção é um sacramental da Igreja: não age por si mesma nem garante automaticamente uma colheita abundante, mas, pela oração da Igreja, dispõe-nos a receber a graça e a reconhecer que somos criaturas que necessitam da providência divina, que tudo governa com sabedoria (cf. CIC 1670).
“O Senhor dos exércitos dará neste monte, para todos os povos, um banquete” (Is 25,6)
O profeta Isaías contempla, no alto do monte, uma cena de festa: o Senhor prepara para todos os povos “um banquete de ricas iguarias, regado com vinho puro”. Não é um banquete reservado a poucos, mas aberto a todas as nações, porque a generosidade de Deus não conhece fronteiras.
As ricas iguarias e o vinho puro são frutos da terra e do trabalho humano. O agricultor prepara o solo, seleciona as sementes, utiliza a ciência e investe recursos; mas as chuvas, a fertilidade da terra e o clima recordam-nos que é o Senhor quem, em última análise, prepara a mesa.
Não se trata de opor a fé à ciência nem de diminuir o valor da técnica. Mas os bens da terra são dom antes de serem conquista, e estão destinados “para todos os povos”. Por isso, o fruto do trabalho honesto, que sustenta legitimamente quem o produz e a sua família, é chamado também a servir ao bem comum, para que a mesa da humanidade seja mais fraterna.
Isaías vai ainda mais longe: o Senhor eliminará para sempre a morte e enxugará as lágrimas de todas as faces (cf. Is 25,8). Essa promessa se cumpre na Páscoa de Cristo, como proclama São Paulo ao anunciar que a morte foi tragada pela vitória (cf. 1Cor 15,54). O banquete é, pois, sinal da vitória definitiva de Deus sobre o pecado, a dor e a morte; por isso, a fartura dos frutos da terra é, para nós, imagem daquela plenitude de bênçãos que só Deus pode dar e que nenhuma prosperidade material pode garantir.
Esse banquete se cumpre em Cristo e já nos é antecipado na Eucaristia, penhor da glória futura. O trigo e a uva, cultivados pelo trabalho humano, tornam-se o pão e o vinho que apresentamos no altar e que, pela ação do Espírito Santo e pelas palavras de Cristo, se convertem no seu Corpo e Sangue. Ao abençoarmos as sementes, contemplamos o caminho que vai da terra ao altar e do altar à vida eterna.
Diante de tantos bens, a resposta do povo é a confiança e a alegria: “Este é o nosso Deus, esperamos nele, até que nos salvou”. O agricultor conhece bem a esperança: semeia sem ver ainda a colheita. Essa esperança, porém, não repousa apenas sobre os nossos cálculos, mas sobretudo sobre a fidelidade de Deus.
Eis a primeira conversão que a Palavra nos pede: acolher com gratidão o convite do Senhor, reconhecendo que é Ele quem prepara a mesa e que a verdadeira abundância é a salvação que nos oferece.
III. “Tudo posso naquele que me dá força” (Fl 4,13)
Na segunda leitura, São Paulo, escrevendo da prisão aos cristãos de Filipos, abre-lhes o coração: “Sei viver na miséria e sei viver na abundância” (Fl 4,12). E conclui: “Tudo posso naquele que me dá força” (Fl 4,13).
Não se trata de simples resignação. A liberdade interior de Paulo nasce de uma pessoa: Cristo, a força que o sustenta quando a mesa está vazia e o bem maior que não se perde quando a mesa está farta. Eis a segunda conversão que a Palavra nos pede: que Cristo se torne o centro do nosso coração, de modo que nem a abundância nos torne soberbos, nem a necessidade nos faça desesperar.
Essa palavra fala diretamente a quem vive do campo, que conhece os anos de colheita farta e os anos de perdas, a alegria dos armazéns cheios e a apreensão diante da seca, das pragas ou da queda dos preços. Em todas essas situações, Cristo permanece a nossa força. Por isso, o trabalho agrícola, realizado com competência, honestidade e espírito de serviço, pode ser um verdadeiro caminho de santificação.
Paulo agradece ainda aos filipenses por terem compartilhado as suas dificuldades e lhes promete: “O meu Deus proverá esplendidamente com sua riqueza a todas as vossas necessidades, em Cristo Jesus” (Fl 4,19). A partilha não é um investimento à espera de retorno, mas expressão de confiança na providência de Deus, que não se deixa vencer em generosidade.
Perguntemo-nos, então: Cristo é realmente a minha força? Sei viver na abundância sem esquecer os que passam necessidade? Procuro santificar o trabalho e os bens que recebi, ou desejo apenas que Deus abençoe os meus projetos?
- “Vinde para a festa!” (Mt 22,4)
No Evangelho, Jesus compara o Reino dos Céus à “história do rei que preparou a festa de casamento do seu filho” (Mt 22,2). É o mesmo banquete anunciado por Isaías, agora revelado como as núpcias do Filho de Deus, que na Encarnação uniu a si a nossa natureza humana e fez da Igreja a sua Esposa. Tudo está pronto, e o rei faz ressoar o seu convite: “Vinde para a festa!” (Mt 22,4).
Os primeiros convidados, porém, “não deram a menor atenção: um foi para o seu campo, outro para os seus negócios” (Mt 22,5). Jesus não condena o campo nem o trabalho, que são dons de Deus e caminho de santificação; adverte-nos contra a indiferença de um coração que já não reserva lugar para Deus. O trabalho vivido na presença do Senhor não nos afasta da sua mesa: conduz-nos a ela, sobretudo quando santificamos o domingo, dia da Eucaristia e da família.
Diante da recusa, o rei envia os seus servos às encruzilhadas dos caminhos e abre as portas a todos, “maus e bons”, e “a sala da festa ficou cheia de convidados” (Mt 22,9-10). O convite de Deus não exclui ninguém, e é a Igreja que, neste mês missionário, é enviada a levá-lo a todas as encruzilhadas do mundo. Também os frutos da terra, legitimamente produzidos pelo trabalho e pela iniciativa de cada um, são chamados a servir ao bem comum: na justa remuneração de quem trabalha, no cuidado da terra que Deus nos confiou para cultivar e guardar (cf. Gn 2,15) e na caridade fraterna, para que ninguém fique sem lugar à mesa.
Mas a parábola não termina com a sala cheia. Ao encontrar um convidado sem o traje de festa, o rei lhe pergunta: “Amigo, como entraste aqui sem o traje de festa?” (Mt 22,12). O convite é pura graça, mas não anula a nossa liberdade: não basta estar na sala, é preciso estar revestido. A veste nupcial é a vida nova em Cristo, recebida no Batismo, que se manifesta na caridade; por isso, São Gregório Magno ensina que a veste nupcial é a própria caridade. Eis a terceira conversão que a Palavra nos pede: acolher com alegria o convite do Senhor e, com a ajuda da graça, guardar sem mancha essa veste nupcial, na fé que se traduz em obras de justiça e misericórdia.
Caros amigos, ao abençoarmos estas sementes, colocamos nas mãos do Senhor o trabalho, as famílias e as esperanças de todos os que vivem do campo em nossa Diocese. Que Ele abençoe o esforço de cada um, conceda chuvas oportunas e boas colheitas, e nos dê um coração agradecido e generoso.
Que estas sementes nos recordem também que a nossa alma é terra a ser cultivada, para que a Palavra encontre em nós solo fecundo e produza frutos de fé, esperança e caridade. E que Maria Santíssima, a Virgem que acolheu a Palavra e nos deu o Salvador, nos ensine a responder prontamente ao convite do Senhor e a oferecer-lhe, com generosidade, os frutos de nossa vida.
Assim, da semente ao altar e do altar ao Reino, a Igreja de Itumbiara caminhará na esperança, até o dia em que possamos sentar-nos à mesa do banquete eterno, onde o Senhor enxugará as lágrimas de todas as faces.
Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo!

