A MESA DA PALAVRA XXVIII – Domingo do Tempo Comum – Ano A

A MESA DA PALAVRA
XXVIII Domingo do Tempo Comum – Ano A
Itumbiara, 11 de outubro de 2026

Mês do Rosário e das Missões

“O banquete do Reino: a graça que nos chama e nos transforma”

 

Caríssimos,

acolhamos hoje o convite de Deus com um coração agradecido e uma fé operante. O Senhor nos precede com sua graça, ampara-nos na fraqueza e prepara para nós o banquete da vida eterna. Em Cristo, oferece-nos desde já o alimento que fortalece nossa caminhada e envia-nos a chamar outros para a mesma mesa. Deixemo-nos, pois, conduzir pela Palavra, renovar pela Eucaristia e impulsionar pela caridade, para que nossa vida corresponda à grandeza do dom que recebemos.

I. “Senhor, que vossa graça nos preceda e acompanhe” (Coleta).

A oração da Igreja reconhece uma verdade fundamental da vida cristã: não somos nós que tomamos a iniciativa da salvação. É Deus quem nos ama primeiro, nos chama, nos ilumina e nos concede a força para corresponder à sua vontade. A graça nos precede, despertando em nós o desejo do bem; acompanha-nos, sustentando nossos passos; e conduz-nos à plenitude da comunhão com Ele. Santo Agostinho, o Doctor gratiae, exprime essa primazia ao ensinar que a graça antecede todo mérito humano (cf. De patientia 17), e a traduz nesta súplica: “Da quod iubes et iube quod vis” – “Dá o que ordenas e ordena o que quiseres” (Conf. X, 29, 40).

Esta verdade nos preserva de dois erros: o orgulho espiritual, como se a santidade fosse conquista exclusivamente nossa, e o desânimo, como se nossas fraquezas fossem maiores do que a misericórdia divina. A vida cristã não é autossuficiência nem passividade, mas cooperação livre e amorosa com a graça. O Senhor vem ao nosso encontro, mas não nos dispensa de caminhar: inspira-nos a conversão e espera nossa resposta; perdoa-nos e convida-nos a abandonar o pecado; chama-nos à santidade e pede que Lhe abramos a inteligência, o coração e a vontade.

As leituras deste domingo iluminam essa súplica. É a graça que prepara para todos os povos o banquete anunciado por Isaías; é ela que ampara o Apóstolo na abundância e na privação; é ela que, no Evangelho, chama a todos à festa do Rei e lhes concede a veste nupcial de uma vida nova. Façamos nossa, pois, a súplica da Coleta e peçamos que a graça nos preceda em nossas decisões, acompanhe nossas famílias, ilumine nossos trabalhos e nos sustente nas provações, tornando-nos disponíveis para o bem, fiéis à vocação recebida e perseverantes até o fim.

II. “O Senhor dará um banquete e enxugará as lágrimas de todas as faces” (cf. Is 25,6.8).

O profeta Isaías nos conduz ao horizonte magnífico da esperança: Deus prepara para todos os povos um banquete de alimentos abundantes e vinhos excelentes. Não se trata apenas de prosperidade terrena, mas da vitória definitiva de Deus sobre tudo o que oprime a humanidade: a morte será destruída, o opróbrio de seu povo será afastado e as lágrimas serão enxugadas. O banquete é imagem da salvação consumada, da comunhão plena com Deus, quando a existência humana já não estará sujeita à corrupção e à morte. A história, com suas dores e contradições, não caminha para o absurdo, mas para a revelação da glória do Senhor.

Santo Agostinho recorda que a ausência de lágrimas e de sofrimento pertence à condição futura dos bem-aventurados: enquanto peregrinamos neste mundo, até os santos continuam a sofrer e a suplicar, e a plenitude prometida somente se realizará na vida eterna (cf. De civ. Dei XX, 17; Apoc 21,2-5). Esta promessa, porém, não nos autoriza a fechar os olhos às dores presentes. Precisamente porque esperamos o dia em que Deus enxugará todo pranto, devemos tornar-nos, desde agora, instrumentos de sua consolação, sem permanecer indiferentes à fome, à solidão, à enfermidade, ao luto e às feridas que dilaceram tantas famílias.

A esperança cristã não é fuga do mundo, mas a certeza de que o amor de Deus conduz a história ao seu cumprimento: mesmo quando não compreendemos os caminhos da Providência, nenhuma fidelidade, nenhuma oração e nenhuma obra de caridade realizada em Cristo se perde. O banquete anunciado por Isaías é o mesmo que, no Evangelho, o Rei prepara para as núpcias de seu Filho e ao qual a todos convida. A Eucaristia o antecipa sacramentalmente: sob as espécies do pão e do vinho, recebemos o próprio Cristo, alimento para a peregrinação e penhor da glória futura. Assim, a Igreja caminha entre as tribulações da história, mas já participa, na fé, da vida daquele que venceu a morte.

Vivamos, pois, com os olhos voltados para essa promessa. O desfecho de nossa história não está entregue ao sofrimento, mas ao Senhor; não à morte, mas à vida; não às lágrimas, mas à alegria eterna dos redimidos.

III. “Tudo posso naquele que me dá forças” (cf. Phil 4,13).

Na Carta aos Filipenses, São Paulo revela o segredo de sua firmeza apostólica. Conheceu a abundância e a privação, a saciedade e a fome, o acolhimento e a perseguição; contudo, não faz da prosperidade material a medida da bênção divina, nem considera o sofrimento prova de abandono por parte de Deus. Aprendeu a permanecer fiel em todas as circunstâncias, porque sua segurança está em Cristo.

“Tudo posso naquele que me dá forças” não confere ao cristão o poder de realizar arbitrariamente quanto deseja, nem é fórmula que lhe garanta êxito humano, saúde, riqueza ou ausência de dificuldades. Seu sentido é bem mais elevado: unido a Cristo, o Apóstolo recebe a força necessária para perseverar na missão e conservar a fidelidade tanto na abundância como na necessidade. Comentando esta passagem, São João Crisóstomo esclarece que Paulo não atribui a si mesmo o mérito de sua firmeza, pois todo êxito espiritual provém daquele que o fortalece (cf. In Ep. ad Phil. hom. XV).

Esta interpretação é particularmente importante para nossa vida espiritual. A graça não elimina a cruz, mas sustenta-nos para carregá-la com Cristo; não nos promete uma existência sem provações, mas concede-nos a liberdade interior de não sermos vencidos por elas; não substitui nossa responsabilidade, mas torna-nos capazes de cumpri-la com amor e perseverança. Quantas vezes, diante de uma enfermidade, de uma crise familiar, de uma dificuldade econômica ou de uma missão exigente, sentimos nossas forças diminuírem! A Palavra de Deus não nos manda fingir que somos fortes; convida-nos a reconhecer que nossa verdadeira força não nasce de nós mesmos.

A família cristã precisa desta confiança: o matrimônio não se sustenta apenas pelo entusiasmo inicial, mas pela graça que permite recomeçar, perdoar, dialogar e renovar, dia após dia, a aliança conjugal. Também o sacerdote, o consagrado e todo fiel leigo necessitam dessa mesma força para servir sem desanimar e amar sem calcular continuamente a própria vantagem.

Há uma íntima harmonia entre esta leitura, a profecia de Isaías e o Evangelho. A força que Cristo concede ao Apóstolo é a mesma que nos guia rumo ao banquete prometido pelo profeta. E, para acolher o convite do Rei e permanecer na festa, não basta um fervor passageiro: é necessário deixar-se transformar interiormente. A perseverança dos convidados e a fidelidade dos discípulos são obra da graça, que não dispensa nossa liberdade, mas a fortalece.

Repitamos, então, esta palavra do Apóstolo não como expressão de presunção, mas como oração de abandono confiante: “Tudo posso naquele que me dá forças”. Senhor, não permitais que confiemos apenas em nós mesmos; fazei que, em nossas fraquezas, aprendamos a depender mais profundamente de vós.

IV. “Convidai para a festa todos os que encontrardes” (cf. Mt 22,9).

No Evangelho, Jesus compara o Reino dos Céus a um rei que prepara as núpcias de seu filho. Os primeiros convidados recusam-se a vir – uns entregues aos seus negócios, outros chegando a maltratar e matar os mensageiros –, mas o rei não desiste da festa: envia seus servos pelas estradas para chamar todos os que encontrarem, bons e maus, até que a sala se encha. Manifestam-se, assim, a generosidade da salvação e a universalidade do chamado divino: o Pai oferece a todos a alegria de seu Filho, e ninguém deve ser previamente excluído do anúncio da Boa-Nova. A Igreja não existe para guardar o convite entre poucos, mas para levá-lo a todos os povos.

Contudo, a parábola encerra também uma séria advertência: entre os convidados encontra-se um homem sem a veste nupcial. Santo Ireneu de Lião relaciona essa veste à vida segundo o Espírito e às obras de justiça, pois a gratuidade do chamado divino não torna indiferente a conduta de quem o recebe: “Oportet nos autem non solum vocatione, sed et bonis operibus ornari” – “É necessário que sejamos adornados não somente pelo chamado, mas também pelas boas obras” (Adv. haer. IV, 36, 6). Entrar na sala não basta; é preciso corresponder à graça, mudar de vida e produzir frutos dignos de arrependimento. Não separemos, por isso, a universalidade do convite da seriedade da conversão: a misericórdia divina acolhe o pecador, mas não declara irrelevante o pecado; o Senhor abre a porta a todos, mas deseja transformar aqueles que entram. A veste nupcial exprime a existência renovada pela graça, na fé que atua pela caridade.

Aqui a parábola interpela a Igreja e cada um de nós: somos, ao mesmo tempo, convidados e enviados. Não basta alegrar-nos por termos encontrado o caminho da fé; devemos ajudar outros a descobri-lo, pois a evangelização não é tarefa exclusiva de alguns especialistas, mas responsabilidade de todos os batizados, segundo sua vocação e seus dons. Convidar significa, muitas vezes, aproximar-se de quem se afastou, acolher quem se sente indigno, visitar quem sofre, acompanhar quem procura a verdade e oferecer, com prudência e caridade, uma palavra que conduza a Cristo. Que nossas comunidades se distingam não apenas por suas celebrações, mas também pela qualidade de sua acolhida, pela unidade entre seus membros e pelo amor fraterno que testemunham.

Perguntemo-nos com humildade: se somos servos enviados pelo Rei, quem ainda não recebeu, por nosso intermédio, o convite para a festa? Talvez alguém de nossa própria família, um vizinho, um jovem afastado da Igreja ou uma pessoa ferida por experiências dolorosas. Não nos cabe julgar de antemão quem é digno de entrar, mas anunciar o Evangelho, oferecer os meios da graça e acompanhar cada pessoa no caminho da conversão. O juízo pertence ao Senhor; a nós compete testemunhar a misericórdia e a verdade.

Sejam, enfim, nossas paróquias casas de portas abertas e de corações convertidos, que acolham sem discriminação, anunciem sem temor e exijam de si mesmas, antes de tudo, a coerência entre a fé que professam e a vida que levam. Que a sala do banquete se encha, e que os convidados se deixem revestir de Cristo.

Caros amigos, iluminados pela Palavra aproximemo-nos da mesa do Senhor com fé ardente e humilde gratidão. Acolhamos a graça que nos precede, permaneçamos firmes em Cristo nas provações e revistamo-nos da veste nupcial da caridade. E, cumulados de tantos bens, não retenhamos para nós o convite: levemos a todos a alegria do Evangelho!

Nossa Senhora, Virgem fiel, ensine-nos a dizer sempre sim a Deus e nos conduza, um dia, ao banquete eterno, onde o Senhor enxugará todas as lágrimas e nossa alegria será plena.

Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo!

Diocese de Itumbiara
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A Diocese de Itumbiara foi criada no dia 11 de outubro de 1966, pelo Papa Paulo VI, desmembrada da Arquidiocese de Goiânia; seu território é de 21.208,9 km², população de 286.148 habitantes (IBGE 2010). A diocese conta 26 paróquias, com sede episcopal na cidade de Itumbiara-GO.