A MESA DA PALAVRA – XXIX Domingo do Tempo Comum – Ano A

A MESA DA PALAVRA

XXIX Domingo do Tempo Comum – Ano A
Itumbiara, 18 de outubro de 2026

Mês do Rosário e das Missões – Dia Mundial das Missões
“Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mt 22,21)

Caros amigos,

Neste penúltimo domingo de outubro, a Igreja inteira volta o olhar para os confins da terra e celebra o Dia Mundial das Missões. Esta celebração recorda-nos que a missão da Igreja consiste em conduzir todos os homens ao encontro com Cristo, para que, nele, reconheçam Deus como origem e fim da própria existência. É o que a Palavra deste domingo nos ajuda a compreender: tudo pertence a Deus, e o homem, criado à sua imagem, só encontra a plenitude da própria vida quando reconhece o senhorio do Criador e se entrega inteiramente a Ele. Deixemo-nos, pois, guiar pela Mesa da Palavra para nos aproximarmos, com o coração preparado, da Mesa da Eucaristia, “fonte e ápice não só da vida da Igreja, mas também da sua missão” (Sacramentum caritatis, n. 84).

  1. “Tornai-nos dispostos a obedecer sempre à vossa vontade e a vos servir de coração sincero” (da Coleta).

A sinceridade diante de Deus exige a unidade entre aquilo que professamos com os lábios e aquilo que vivemos nas obras. É essa retidão de coração que pedimos na Coleta desta Missa: a graça de obedecer sempre à vontade divina e de O servir com fidelidade. O Evangelho, porém, apresenta-nos homens que, sob a aparência de estima e reverência, escondem a intenção de surpreender Jesus numa armadilha. “Mestre, sabemos que és verdadeiro”, dizem-Lhe; mas o elogio dissimula a malícia. Por isso, o Senhor desmascara a sua hipocrisia.

A retidão de coração que falta aos interlocutores de Jesus é precisamente aquela que devemos pedir ao Senhor. Não a alcançamos apenas com as nossas forças: é dom da graça, que cura o coração dividido e fortalece a vontade para o bem. Santo Tomás de Aquino ensina que necessitamos do auxílio divino para alcançar o nosso fim sobrenatural e realizar as obras que conduzem à salvação (Suma Teológica, I-II, q. 109, a. 2). A graça não suprime a liberdade nem dispensa a nossa correspondência; precede-nos, cura-nos e torna fecunda a nossa resposta.

Pedir um coração sincero é, portanto, pedir a unidade da vida: a mesma fé no templo e em casa, no trabalho e nas relações sociais, na vida familiar e na vida pública. A fé professada diante do altar deve iluminar as escolhas quotidianas. Quando as palavras dizem uma coisa e as obras revelam outra, a própria vida cristã perde credibilidade. A fé professada diante do altar deve iluminar as escolhas quotidianas. Quando as palavras dizem uma coisa e as obras revelam outra, a vida cristã perde credibilidade e o testemunho missionário fica seriamente comprometido.

  1. “Tomei Ciro pela mão direita, para que submeta os povos ao seu domínio” (cf. Is 45,1).

A primeira leitura surpreende-nos. O Senhor chama Ciro, rei da Pérsia, de seu “ungido”. Trata-se de um soberano pagão, que não conhecia o Deus de Israel. Contudo, é o Senhor quem o toma pela mão, lhe abre as portas e faz dele instrumento da libertação do seu povo exilado. A finalidade desta ação divina é proclamada com clareza: “para que todos saibam, do oriente ao ocidente, que fora de mim outro não existe” (Is 45,6).

Esta passagem ensina-nos que Deus conduz a história para além das fronteiras visíveis do seu povo. Mesmo quando os governantes não O reconhecem, o Senhor pode servir-se de pessoas e acontecimentos inesperados para realizar os seus desígnios, sem anular a liberdade nem a responsabilidade das criaturas. A missão da Igreja nasce também desta certeza: nenhum povo está fora do horizonte da salvação que Deus oferece em Cristo.

Por isso cantamos com o salmista: “Ó família das nações, dai ao Senhor poder e glória!”. Antes de qualquer César, antes de qualquer potência deste mundo, a glória é devida a Deus. Nenhuma autoridade humana é absoluta, nenhuma conjuntura histórica escapa à Providência. Esta certeza não nos dispensa da responsabilidade; pelo contrário, ajuda-nos a exercê-la sem idolatrar os poderes da terra e sem ceder ao desânimo diante das crises. A história permanece nas mãos de Deus, ainda quando os seus caminhos nos surpreendem.

Esta confiança não nos torna espectadores da história: leva-nos a trabalhar para que todos os povos conheçam o Senhor, cuja Providência conduz a história e cuja salvação é anunciada pela Igreja.

III. “Recordamos sem cessar a atuação da vossa fé, o esforço da vossa caridade e a firmeza da vossa esperança” (cf. 1Ts 1,3).

A fé cristã manifesta a sua autenticidade nos frutos que produz. Ao recordar a comunidade de Tessalônica, São Paulo reconhece nela três sinais da ação da graça: uma fé que se traduz em obras, uma caridade que se exprime no serviço e uma esperança que permanece firme nas provações. Essas virtudes não ficam encerradas no íntimo da consciência; dão forma à vida quotidiana e tornam visível a força transformadora do Evangelho.

O Apóstolo acrescenta que o Evangelho não chegou aos tessalonicenses somente por palavras, mas também com a força do Espírito Santo. A missão nasce dessa eficácia divina, à qual o evangelizador deve corresponder pela oração, pelo testemunho e pela entrega de si. Bento XVI, na homilia do Dia Mundial das Missões de 2011, recordou a necessidade de uma evangelização sustentada pela oração e vivida em comunhão, nunca como empreendimento isolado.

É a ação do Espírito Santo que sustenta a missão da Igreja. Enviada por Cristo a todos os povos, ela anuncia o Evangelho e oferece os meios da salvação, para que os homens cheguem à comunhão com Deus. Essa missão exige que o testemunho de Cristo alcance também os ambientes em que a fé é desprezada ou considerada sinal de fraqueza, urgência que o Papa Leão XIV tem recordado desde o início do seu pontificado.

Também nós somos chamados a participar nessa obra: rezando o Rosário pelos que anunciam o Evangelho nas fronteiras do mundo, contribuindo generosamente para a coleta missionária deste domingo e, sobretudo, tornando visíveis a fé, a caridade e a esperança em casa, no trabalho e na comunidade. A missão começa quando Cristo transforma o coração do discípulo e faz da sua vida um testemunho credível da beleza do Evangelho.

  1. “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mt 22,21).

Os adversários de Jesus procuram comprometê-Lo com uma pergunta capciosa: é lícito ou não pagar o imposto a César? Se responde afirmativamente, pode ser acusado de conivência com o poder romano; se responde negativamente, pode ser denunciado como agitador. Jesus, porém, não Se deixa prender nessa alternativa. Pede que Lhe mostrem a moeda do tributo e pergunta de quem são a imagem e a inscrição nela gravadas. Ao ouvir que pertencem a César, pronuncia a resposta que atravessa os séculos: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.

A moeda traz a imagem do imperador e, por isso, pertence ao âmbito das obrigações civis. O homem, porém, traz em si a imagem de Deus. Tertuliano, ao comentar esta passagem, estabelece uma relação entre a moeda, que traz a imagem de César, e o homem, criado à imagem de Deus: se a primeira deve ser restituída a César, o segundo pertence a Deus (cf. De idololatria, 15). A resposta de Jesus revela, assim, a dignidade incomparável da pessoa humana e a sua vocação fundamental: fomos criados por Deus e para Deus, essa pertença adquire uma profundidade ainda maior, pois somos incorporados a Cristo e chamados a viver como filhos do Pai. Dar a Deus o que é de Deus significa, portanto, entregar-Lhe a inteligência e a vontade, os afetos e os projetos, o trabalho e as decisões. Significa, enfim, oferecer-lhe toda a existência para que a sua graça a santifique e a oriente para o bem.

Essa pertença a Deus não nos afasta das responsabilidades temporais; antes, ilumina-as e confere-lhes o seu verdadeiro sentido. O cristão é chamado a participar responsavelmente na vida da sociedade, a respeitar a autoridade legítima e a cooperar para a construção do bem comum. Isso exige honestidade no trabalho, cumprimento dos deveres, respeito pela justiça e participação consciente na vida pública, inclusive mediante o voto livre e responsável. A fé não pode permanecer confinada ao âmbito privado, como se o Evangelho nada tivesse a dizer sobre a conduta dos cidadãos e a organização da sociedade.

A autoridade civil, contudo, não possui um poder ilimitado sobre a consciência. Quando uma determinação humana contraria gravemente a lei de Deus, permanece válida a resposta dos Apóstolos: “É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens” (At 5,29). Como ensina Bento XVI na encíclica Deus caritas est (n. 28), a construção de uma ordem social justa pertence à esfera própria da política. À Igreja cabe contribuir para a formação das consciências e para que as exigências da justiça sejam reconhecidas e respeitadas. A fidelidade a Deus não dispensa o cristão de suas obrigações cívicas; torna-o, antes, capaz de cumpri-las com retidão, sem sacrificar a verdade e a dignidade humana a interesses particulares ou a imposições injustas.

É, pois, no reconhecimento do senhorio de Deus que encontramos o fundamento de uma liberdade verdadeiramente responsável. A vida pública precisa de homens e mulheres cuja consciência seja formada pelo Evangelho e cuja atuação se oriente pelo bem comum. Quando a justiça é separada da verdade e os interesses particulares prevalecem sobre a dignidade humana, a sociedade corre o risco de perder os seus fundamentos morais. Por isso, dar a Deus o que é de Deus significa também deixar que a sua lei ilumine as escolhas pessoais e sociais, para que a vida inteira – na família, no trabalho e na comunidade – manifeste a imagem divina que recebemos na criação e a vida nova que nos foi concedida em Cristo.

Ao coroarmos com esta Santa Missa o 100º Dia Mundial das Missões, deixemos que ressoe em nossos corações a súplica do Senhor ao Pai: “Que todos sejam um, para que o mundo creia” (Jo 17,21). Sob o lema “Para que o mundo creia”, o Papa Leão XIV recorda-nos a íntima ligação entre a unidade dos discípulos e a missão da Igreja. Um em Cristo, unidos na missão: eis o chamado que hoje se renova para todos os batizados. O mundo tem necessidade de encontrar, na unidade dos cristãos, na santidade de suas vidas e na caridade que os une, um sinal vivo da presença do Senhor.

Sabemos bem que não basta professar a fé com os lábios; é preciso torná-la visível pelas obras, pela fidelidade ao Evangelho e pela dedicação generosa à salvação das almas. Que ninguém se julgue dispensado da missão: pela oração, pelo sacrifício, pelo testemunho cotidiano e pelo anúncio da Palavra, cada qual pode cooperar para que Cristo seja conhecido e amado. Peçamos, pois, a graça de pertencer inteiramente a Deus, para que toda a nossa vida se torne oferta agradável ao Pai e instrumento de sua misericórdia. E que Nossa Senhora, Estrela da Evangelização, nos ensine a levar Cristo ao mundo, até que todos os povos encontrem nele a salvação e a unidade, e a glória de Deus resplandeça em toda a terra.

            Virgem do Rosário, Rainha das Missões e Estrela da Evangelização, ensina-nos a servir a Deus de coração sincero e a reconhecer que a nossa vida inteira Lhe pertence. Abençoai os missionários, a Diocese de Itumbiara e as nossas famílias, para que, unidos a Cristo no altar, levemos ao mundo a luz do Evangelho. Que tudo em nós — a fé, o trabalho, as escolhas e o serviço aos irmãos — manifeste a imagem de Deus que recebemos na criação e a vida nova que nos foi concedida em Cristo. Amém.

Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo!

Diocese de Itumbiara
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A Diocese de Itumbiara foi criada no dia 11 de outubro de 1966, pelo Papa Paulo VI, desmembrada da Arquidiocese de Goiânia; seu território é de 21.208,9 km², população de 286.148 habitantes (IBGE 2010). A diocese conta 26 paróquias, com sede episcopal na cidade de Itumbiara-GO.