A MESA DA PALAVRA
XXVI Domingo do Tempo Comum – Ano A
Itumbiara, 27 de setembro de 2026
Mês da Bíblia
“Tende entre vós os mesmos sentimentos que há em Cristo Jesus” (Fl 2,5)
Caros amigos,
Há uma palavra que pode mudar uma vida inteira: “sim”. No Evangelho de hoje, porém, um filho diz “não” e, reconsiderando sua decisão inicial, acaba fazendo a vontade do pai; o outro diz “sim”, mas não vai. Entre esses dois filhos está colocada a nossa vida cristã: quantas vezes dizemos “sim” a Deus com os lábios, enquanto algum aspecto de nossa vida ainda lhe responde “não”.
A boa notícia deste domingo é que, pela graça de Deus, a soberba do nosso “não” pode transformar-se num “sim” humilde, concreto e perseverante. Deixemos que o Espírito Santo conduza nossos pensamentos nesta santa liturgia.
- “Mostrais vosso poder sobretudo no perdão e na misericórdia” (Coleta)
Para tanto, irmãos, comecemos por considerar com atenção a antiquíssima oração da Liturgia Romana que acabamos de rezar: “Ó Deus, que mostrais vosso poder sobretudo no perdão e na misericórdia, derramai em nós a vossa graça, para que, correndo ao encontro das vossas promessas, mereçamos participar dos bens celestes” (Coleta). Esta oração contém uma afirmação surpreendente: Deus manifesta de modo particular a sua onipotência no perdão e na misericórdia. Nós facilmente associamos o poder à força que domina, à autoridade que se impõe, à capacidade de vencer obstáculos. A Liturgia leva-nos mais a fundo: o poder de Deus resplandece quando Ele perdoa o pecador, levanta-o de sua queda e o reconduz à sua amizade.
O Catecismo retoma esta oração ao ensinar que Deus manifesta a sua onipotência “convertendo-nos dos nossos pecados e restabelecendo-nos na sua amizade pela graça” (CIC, 277). Santo Tomás explica que essa onipotência se manifesta especialmente no perdão e na misericórdia porque Deus, por meio deles, conduz o homem “à participação do bem infinito” (S.Th., I, q. 25, a. 3, ad 3).
Eis a grandeza da misericórdia: Deus não se limita a perdoar o pecado. Ele levanta o pecador e o põe novamente a caminho. Certamente é possível correr muito e esquecer para o que fomos criados. Mas o cristão corre para uma promessa: corre para Deus, corre para o Céu.
- “Quando o ímpio se arrepende da maldade que praticou, conserva a própria vida” (Ez 18,27)
No exílio da Babilônia, Israel pergunta-se como foi possível que o Templo fosse destruído, a Terra Santa devastada e o povo levado para uma terra estrangeira. Num primeiro impulso, sente-se abandonado por Deus e reclama: “A conduta do Senhor não é correta”. É uma tentação antiga: o homem afasta-se dos caminhos de Deus e depois pergunta por que perdeu a paz; escolhe caminhos que o afastam do Senhor e termina acusando Deus de tê-lo abandonado.
Por meio do profeta Ezequiel, Deus inverte a pergunta: “É a minha conduta que não é correta, ou antes é a vossa conduta que não é correta?”. Antes de julgarmos os caminhos de Deus, precisamos examinar os nossos próprios caminhos.
Mas então ressoa uma extraordinária palavra de esperança: “Quando um ímpio se arrepende da maldade que praticou e observa o direito e a justiça, conserva a própria vida”. O homem não fica prisioneiro do mal que praticou. Pela graça de Deus, pode romper com aquilo que o pecado fez dele: reconhece o pecado, volta-se para Deus, muda de caminho e encontra a misericórdia que o chama à vida.
Por isso, a Igreja nunca deixa de chamar à conversão. Talvez alguém pense que já é tarde demais, que foram muitos os pecados, ou que tantas vezes prometeu não tornar a pecar e tantas vezes voltou a cair. A Palavra de Deus responde: enquanto o Senhor nos concede tempo para a conversão, há um caminho de volta. É preciso levantar-se, procurar a graça, aproximar-se dos sacramentos e recomeçar.
O Salmo colocou em nossos lábios esta oração: “Não recordeis os meus pecados quando jovem, nem vos lembreis de minhas faltas e delitos! De mim lembrai-vos, porque sois misericórdia”. O salmista não apresenta a Deus os próprios méritos; apresenta a misericórdia do próprio Deus. Se olharmos somente para os nossos pecados, teremos razões para temer; quando olhamos para a misericórdia de Deus, encontramos razões para esperar.
A conversão cristã nasce dessa esperança. Não é simples esforço do homem para corrigir-se, mas resposta à graça de Deus que o procura, chama e levanta. Deus concede a graça; o homem, tocado por ela, arrepende-se, muda de caminho e volta para Ele.
III. “Tende entre vós o mesmo sentimento que existe em Cristo Jesus” (Fl 2,5)
Continuamos a escutar a carta que São Paulo, prisioneiro e em perigo de vida, dirige aos cristãos de Filipos. O Apóstolo tinha grande afeto por essa comunidade, que participava generosamente de sua missão. Entretanto, também entre aqueles cristãos havia o perigo da rivalidade e da vanglória. Por isso, Paulo exorta-os à humildade e à caridade fraterna, colocando diante deles o próprio Cristo.
E aqui a Palavra de Deus nos conduz ainda mais fundo. Converter-se é voltar-se para Deus e permitir que a própria vida adquira progressivamente a forma de Cristo: “Tende entre vós os mesmos sentimentos de Cristo Jesus”.
O Apóstolo coloca diante de nossos olhos uma das páginas mais altas do Novo Testamento. Cristo, sendo verdadeiramente Deus, assume a nossa condição humana; faz-se servo, humilha-se na obediência e desce até a morte, “e morte de cruz”. Depois vem a exaltação: “Por isso, Deus o exaltou acima de tudo”, até a profissão de fé que coroa todo o hino: “Jesus Cristo é o Senhor”.
A Liturgia coloca, assim, diante dos dois filhos da parábola o Filho por excelência. Um filho diz “não” e depois obedece; o outro diz “sim”, mas não cumpre. Cristo, porém, faz da própria existência uma perfeita obediência ao Pai: “humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz”.
O Cardeal Albert Vanhoye escreveu uma frase luminosa: “A obediência redentora de Cristo fez do seu coração o centro vivo da nova Aliança”. A obediência de Jesus é entrega filial. Ele cumpre a vontade do Pai entregando-se inteiramente a Ele e, nessa mesma obediência, oferecendo-se por nós.
São Paulo nos faz contemplar Cristo e, nessa contemplação, chama-nos a ter em nós os mesmos sentimentos de Cristo Jesus. E mostra como isso se traduz na vida: agir sem rivalidade ou vanglória, considerar os outros com humildade e cuidar também dos seus interesses. A conversão alcança, assim, nossas relações concretas: a família, o trabalho, a comunidade e o modo como tratamos aqueles que Deus colocou ao nosso lado.
Quantas divisões permanecem porque ninguém quer dar o primeiro passo; quantos sofrimentos se prolongam porque cada um deseja defender a própria posição; quantas vezes é mais importante vencer uma discussão do que conservar a caridade. São Paulo conduz-nos à raiz da verdadeira caridade: Cristo. A humildade cristã consiste em deixar de colocar o próprio “eu” no centro de tudo e aprender daquele que, sendo Senhor, fez-se servo e, sendo inocente, entregou-se por nós.
Quando for difícil perdoar, dar o primeiro passo, renunciar ao orgulho ou cumprir a vontade de Deus, olhemos para Cristo. A conversão cristã chega à sua maturidade quando o coração aprende com Ele a dizer “sim” ao Pai.
- “Arrependeu-se e foi” (Mt 21,29)
Chegamos, então, ao Evangelho. Jesus está em Jerusalém, diante dos chefes religiosos que contestam sua autoridade e, embora observem os preceitos da Lei, recusam-se a acolher sua palavra. É neste contexto que lhes propõe a parábola dos dois filhos. Um diz “não”, mas arrepende-se e vai; o outro responde: “Sim, senhor, eu vou”, mas não vai. “Qual dos dois fez a vontade do pai?”, pergunta Jesus. A resposta é clara: o primeiro. Também em nós a Palavra de Deus quer realizar esta passagem: do “não” do pecado ao “sim” da conversão, para que a vida corresponda à fé que professamos e ao mistério que celebramos.
Padre António Vieira dizia no Sermão da Sexagésima: “Verbo Divino é palavra divina; mas importa pouco que as nossas palavras sejam divinas, se forem desacompanhadas de obras”. É precisamente o drama do segundo filho: seus lábios dizem “sim”, mas sua vida diz “não”.
Por isso, a palavra de Jesus se torna severa: “Os publicanos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus”. Não porque o pecado seja indiferente, mas porque aqueles pecadores acreditaram na pregação de João e se converteram. Os outros julgavam-se tão próximos de Deus que já não percebiam a própria necessidade de conversão. Também nós podemos habituar-nos à vida religiosa, rezar, ouvir a Palavra e participar dos sacramentos, conservando ainda algum espaço fechado à vontade do Senhor.
A parábola, portanto, não nos convida a identificar os outros com um ou outro filho, mas a examinar a própria vida. Talvez Deus esteja pedindo uma reconciliação adiada, o abandono de um pecado, o retorno ao sacramento da Penitência ou maior caridade dentro da própria casa. Cada um sabe, diante de Deus, qual é a sua vinha.
E há uma palavra que não podemos deixar passar: “Filho, vai trabalhar hoje na vinha”. Quantas vezes adiamos a conversão: amanhã rezarei melhor, amanhã pedirei perdão, amanhã mudarei de vida. Deus, porém, chama hoje. Se em algum ponto de nossa vida temos respondido “não quero”, façamos como o primeiro filho: arrependamo-nos e vamos. Peçamos à graça que transforme a soberba do nosso “não” num “sim” humilde, concreto e perseverante
E aqui a Palavra nos conduz ao altar. O “sim” de Cristo ao Pai, que contemplamos na Palavra, torna-se sacramentalmente presente na Eucaristia: Ele foi “obediente até a morte, e morte de cruz”. Por isso, depois da Comunhão, a Igreja pedirá: “Fazei, Senhor, que este sacramento celeste renove inteiramente a nossa vida”. Que a obediência de Cristo cure nossas resistências, sua humildade vença nosso orgulho e sua caridade dilate o nosso coração.
A Coleta pediu que corrêssemos “ao encontro das promessas”; agora a Eucaristia nos dá o próprio Cristo para percorrermos esse caminho. Alcançados pela misericórdia, convertidos pela graça e alimentados pelo Sacramento, podemos viver aquilo que professamos.
Peçamos, enfim, à Santíssima Virgem, cujo “faça-se em mim segundo a tua palavra” foi o humilde “sim” da fé, que nos ensine a acolher e cumprir a vontade de Deus. Recebendo o Corpo daquele que foi obediente até a morte, que também o nosso “sim” deixe de ser somente palavra e se torne vida.
Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo!

