A MESA DA PALAVRA XXV Domingo do Tempo Comum – Ano A

A MESA DA PALAVRA
XXV Domingo do Tempo Comum – Ano A
Itumbiara, 20 de setembro de 2026
Mês da Bíblia

“Estás com inveja porque eu estou sendo bom?” (Mt 20,15)

Caros amigos,

Há uma maneira muito humana de olhar para a vida: comparar o que fazemos com o que os       outros fazem, o que recebemos com o que os outros recebem, o nosso esforço com a recompensa alheia. E, quase sem perceber, podemos querer medir até mesmo a bondade de Deus: por que concedeu a este o que não concedeu àquele? Por que foi tão generoso com quem parecia merecer tão pouco?

O Evangelho deste domingo corrige esse olhar. Antes de falar dos trabalhadores, Jesus fala de um proprietário que sai. Sai de madrugada, torna a sair às nove, volta ao meio-dia e às três; e, quando o dia já declina, ainda sai às cinco da tarde. Deus não permanece distante, esperando que o homem encontre sozinho o caminho da vinha: Deus sai à procura do homem. É esta iniciativa da graça que ilumina toda a Palavra deste domingo.

  1. Resumistes toda a sagrada lei no amor a vós e ao próximo” (Coleta)

Olhemos primeiramente, meus irmãos, para a belíssima oração da Coleta que rezamos hoje: “Ó Deus, que resumistes toda a sagrada lei no amor a vós e ao próximo, concedei-nos que, observando os vossos mandamentos, mereçamos chegar à vida eterna”.

Toda a Lei encontra aqui a sua unidade: amar a Deus e amar o próximo. Os mandamentos não são um conjunto disperso de proibições, mas a forma concreta que o amor assume na vida daquele que pertence a Deus. E há nisso uma consequência exigente: quem ama verdadeiramente a Deus deve aprender a olhar o próximo com os olhos de Deus.

Santo Antônio de Lisboa, servindo-se da imagem bíblica da vinha, aplica-a também à vida interior: a vinha é a própria alma, onde devem trabalhar “o amor e o temor de Deus”. Também nós recebemos uma vinha para cultivar: há virtudes que devem crescer, há faltas que precisam ser vencidas e graças às quais é preciso corresponder. O amor de Deus não nos deixa desocupados: chama-nos à conversão, à santidade e ao serviço.

Vale, então, perguntar: como está a vinha que Deus me confiou? Há quanto tempo o Senhor chama, corrige e espera? Quantas graças recebidas e quantas respostas adiadas? Quantas vezes passou pela praça de nossa vida e repetiu: “Ide também vós para a minha vinha”?

E a vida eterna, que pedimos na Coleta, começa a ser preparada agora, no humilde cultivo cotidiano da alma.

  1. Meus pensamentos não são como os vossos pensamentos” (Is 55,8)

E o profeta Isaías vai ainda mais fundo: “Meus pensamentos não são como os vossos pensamentos, e vossos caminhos não são como os meus caminhos”. Poderíamos entender essas palavras somente como uma afirmação da infinita sabedoria de Deus; o contexto, porém, revela algo ainda mais consolador. Imediatamente antes, o profeta diz: “Volte para o Senhor, que terá piedade dele; volte para nosso Deus, que é generoso no perdão”.

É também a misericórdia de Deus que ultrapassa os nossos pensamentos. Nós contamos as faltas; Deus procura o pecador. Recordamos há quanto tempo alguém está longe; Deus vê que ainda pode voltar. Pensamos que algumas histórias já não têm conserto; Deus ainda vê nelas um caminho de retorno.

Por isso Isaías começa com uma urgência: “Buscai o Senhor, enquanto pode ser achado; invocai-o, enquanto ele está perto”. E o Salmo responde: “O Senhor está perto da pessoa que o invoca!”. Talvez alguém pense: “Passei tantos anos longe de Deus; desperdicei tanto tempo; deixei envelhecer propósitos que nunca cumpri. Agora é tarde”. O Evangelho deste domingo responde: ainda não é tarde.

O Papa Leão XIV, comentando precisamente esta parábola, observa que os trabalhadores que ainda estavam na praça provavelmente já haviam perdido toda a esperança. O dia parecia desperdiçado e, no entanto, o proprietário tornou a sair para procurá-los. Daí o Papa conclui que, mesmo quando nos parece que podemos fazer pouco da vida, ainda vale a pena responder, porque “Deus ama a nossa vida”.

Esta palavra pode alcançar quem carrega o peso de erros antigos, quem pensa ter desperdiçado anos preciosos, quem envelheceu e imagina que já não tem nada para oferecer, ou quem se afastou da Igreja e teme voltar. Deus continua a sair, continua a chamar e continua a esperar frutos.

Há santos que entraram na vinha desde a infância; outros chegaram depois de longos caminhos. E houve um ladrão que chegou quando o dia de sua vida já terminava e ouviu de Cristo crucificado: “Hoje estarás comigo no Paraíso”. Ninguém faça, portanto, da misericórdia de Deus uma desculpa para adiar a conversão; mas ninguém transforme os próprios pecados numa razão para desesperar da misericórdia.

III. Para mim, o viver é Cristo” (Fl 1,21)

São Paulo nos mostra agora o que acontece quando alguém entra verdadeiramente na vinha: “Para mim, o viver é Cristo e o morrer é lucro”. Ele não diz simplesmente que Cristo ocupa um lugar importante em sua vida; diz muito mais: “o viver é Cristo”. Cristo tornou-se o centro que dá unidade ao trabalho e ao descanso, à saúde e à enfermidade, às alegrias e às provações, à vida e à morte.

Por isso Paulo já não mede sua entrega pela recompensa; deseja que Cristo seja glorificado em seu corpo. Aqui encontramos uma ótima chave para compreender esta parábola. Bento XVI, comentando este mesmo Evangelho, dizia que “ser chamado é já a primeira recompensa”; poder trabalhar na vinha do Senhor, colocar-se ao seu serviço e colaborar em sua obra constitui, segundo ele, “um prêmio inestimável”.

Isto muda inteiramente a perspectiva: quem trabalha somente pelo salário conta as horas; quem ama o Senhor agradece por estar na vinha. Que graça ter conhecido Cristo, recebido o Batismo, poder aproximar-se da Confissão e receber o Corpo do Senhor! Que graça pertencer à Igreja e poder servir a Deus na família, no trabalho e nos irmãos!

Talvez tenhamos pensado muitas vezes no que fazemos por Deus. O Evangelho convida-nos a reconhecer primeiro o que Deus fez por nós ao chamar-nos. A vida cristã não é uma relação comercial com Deus, mas resposta de amor Àquele que nos amou primeiro.

São Paulo compreendeu isso profundamente. Por isso alcançou aquela admirável liberdade interior: viver ou morrer, permanecer trabalhando ou partir para estar com Cristo, tudo já pertencia ao Senhor. “Para mim, o viver é Cristo”. Paulo não trabalha para conquistar o amor de Cristo; trabalha porque foi alcançado pelo amor de Cristo.

  1. Estás com inveja porque eu estou sendo bom?” (Mt 20,15)

Chegamos, enfim, à pergunta decisiva do Evangelho. Ao cair da tarde, os últimos recebem uma moeda de prata. Os primeiros, imaginando que receberiam mais, recebem a mesma quantia e começam a murmurar: “Estes últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós”.

O proprietário responde: “Amigo, eu não fui injusto contigo”, e faz a pergunta que desvela o coração: “Estás com inveja porque eu estou sendo bom?”. O original grego é ainda mais expressivo. Jesus fala literalmente de um “olho mau”: “O teu olho é mau porque eu sou bom?”.

Aqui se descobre a ferida. Os trabalhadores da primeira hora não receberam pouco; receberam exatamente o que lhes fora prometido. Sua murmuração nasceu quando viram que os outros receberam o mesmo. São João Crisóstomo percebeu com agudeza este ponto: sem terem sofrido diminuição alguma na própria recompensa, entristeceram-se diante do bem concedido aos outros.

É esta a miséria da inveja: sofrer não pela falta do próprio bem, mas pelo bem que o outro recebeu. Pode-se possuir muitos dons e entristecer-se com os dons do irmão; pode-se servir a Deus durante muitos anos e, secretamente, começar a apresentar-lhe uma conta: “Eu fui fiel, trabalhei, permaneci; por que fostes tão generoso com ele?

São João Crisóstomo explica ainda que a vinha representa os mandamentos de Deus, o tempo do trabalho é a vida presente e as diversas horas indicam as diferentes idades em que os homens respondem ao chamado divino. Uns chegam cedo, outros mais tarde, mas todos foram chamados.

Por isso, quem conservou a fé e permaneceu fiel durante muitos anos não olhe com superioridade para quem está voltando; quem nunca abandonou a Igreja acolha com alegria aquele que, depois de longo tempo, volta a procurar o confessionário. Na vinha do Senhor, a fidelidade antiga não dá direito à soberba, e a chegada tardia não é motivo para o desespero. Todos vivem da graça.

Voltamos, assim, à Coleta: amar a Deus e amar o próximo. Amar a Deus é alegrar-se porque Ele é bom; amar o próximo é alegrar-se porque Deus é bom também com ele.

Daqui a pouco nos aproximaremos do altar e, depois da Comunhão, pediremos ao Senhor que possamos “colher os frutos da redenção na liturgia e na vida”. Aquilo que recebemos no altar deve aparecer na maneira como olhamos para os outros. Quem recebe Cristo aprende a olhar com os olhos de Cristo. A graça que reconhecemos em nossa própria vida não pode tornar-se motivo de inveja quando floresce na vida de um irmão

Caros amigos, quem entrou na vinha pela manhã agradeça por ter conhecido o Senhor desde cedo; quem chegou ao meio-dia, depois de caminhos difíceis, agradeça porque o Senhor saiu à sua procura; e quem talvez esteja ouvindo hoje, quando o dia já parece avançado, “Ide também vós para a minha vinha”, não adie a resposta. Ainda há tempo para converter-se, amar, servir e ser santo.

E peçamos à Virgem Maria, que respondeu sem demora ao chamado de Deus — “Eis aqui a serva do Senhor” —, que nos ensine a reconhecer a hora em que o Senhor passa por nossa vida e a responder com a mesma generosidade: Faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1,38).

E quando chegar para cada um de nós a tarde definitiva, compreenderemos que a grande recompensa não consistiu em ter recebido mais do que os outros. A recompensa é Cristo: Ele nos procurou, Ele nos chamou, permitiu-nos trabalhar em sua vinha e viver para Ele. Então poderemos dizer, com São Paulo, sem distância alguma entre a palavra e a vida: “Para mim, o viver é Cristo”; e estar para sempre com Cristo será o nosso verdadeiro lucro.

 

Diocese de Itumbiara
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A Diocese de Itumbiara foi criada no dia 11 de outubro de 1966, pelo Papa Paulo VI, desmembrada da Arquidiocese de Goiânia; seu território é de 21.208,9 km², população de 286.148 habitantes (IBGE 2010). A diocese conta 26 paróquias, com sede episcopal na cidade de Itumbiara-GO.