A MESA DA PALAVRA
XXVII Domingo do Tempo Comum – Ano A
Itumbiara, 4 de outubro de 2026
Mês do Rosário e das Missões
“Eu vos escolhi para que deis fruto, e o vosso fruto permaneça” (cf. Jo 15,16)
Caros amigos,
Há poucos dias, em Paris, o Papa Leão XIV recordava que a água viva do Espírito Santo “fecunda tudo o que se deixa tocar e transformar por ela para dar o seu fruto, ou seja, a santidade” (Homilia durante a Santa Missa, Place de la Concorde, 26-IX-2026).
Deus toca a nossa vida para que ela dê fruto. E a Palavra deste domingo acrescenta algo ainda mais exigente: Deus coloca seus dons em nossas mãos, confia-nos a sua vinha e espera de nós uma resposta. A pergunta que atravessa esta liturgia poderia, então, ser formulada assim: o que estamos fazendo com tudo o que Deus nos confiou?
I. “No vosso imenso amor de Pai nos concedeis mais do que merecemos e pedimos” (Coleta)
Antes, porém, de perguntar o que fazemos com os dons de Deus, é preciso reconhecer de onde tudo começa. Olhemos primeiramente, meus irmãos, para a oração que a Igreja colocou hoje em nossos lábios. Chamamos a Deus “eterno e todo-poderoso”. Mas a sua onipotência manifesta-se hoje de uma maneira surpreendente: na misericórdia.
Em seu “imenso amor de Pai”, Deus concede-nos – diz a Coleta – “mais do que merecemos e pedimos”. Estamos diante de um Pai cuja generosidade sempre nos precede. Por isso, pedimos que Ele perdoe “o que nos pesa na consciência” e nos dê “mais do que a oração ousa pedir”.
Antes do nosso esforço está a graça. Antes de nossos frutos está o amor de Deus. Antes de procurarmos o Senhor, Ele já nos procurava.
São Francisco de Assis compreendeu profundamente esta verdade. Ao recordar sua conversão, atribui tudo à iniciativa divina: foi o Senhor quem lhe concedeu começar a fazer penitência e quem o conduziu para o meio dos leprosos (cf. Testamento, 1-2). Tudo começa como dom; mas o dom recebido torna-se também responsabilidade.
II. “Eu esperava frutos de justiça” (cf. Is 5,7)
É precisamente aqui que a imagem da vinha se torna tão forte. Deus não é somente aquele que dá; é também aquele que confia. Isaías fala de um agricultor que preparou sua vinha com todo cuidado: escolheu uma encosta fértil, limpou o terreno, retirou as pedras, plantou videiras escolhidas, construiu uma torre e preparou um lagar. Nada faltou de sua parte. Depois, esperou. E talvez a palavra mais dolorosa da leitura seja justamente esta: “esperava”. Esperava uvas boas. Esperava justiça. Esperava retidão. No entanto, encontrou injustiça e iniquidade.
Não se trata simplesmente do fracasso de uma plantação. A própria leitura explica: “A vinha do Senhor dos exércitos é a casa de Israel”. A vinha é um povo amado, escolhido e cuidado por Deus. Por isso, a esterilidade torna-se mais grave: é a recusa de corresponder ao amor. E aqui a Palavra deixa de falar somente de Israel e começa a falar de nós.
Cada vida é uma vinha confiada por Deus. Uma família é uma vinha. Uma paróquia, nossa Diocese, a própria Igreja são a vinha do Senhor. Ninguém é proprietário. Tudo o que recebemos — família, vocação, bens, inteligência, saúde, tempo — foi colocado em nossas mãos para que produza fruto.
E a pergunta de Isaías torna-se pessoal: depois de tudo o que Deus fez por mim, que frutos minha vida está produzindo? Talvez seja necessário retirar algumas pedras da vinha: uma mágoa conservada durante anos; uma situação de pecado com a qual alguém já se acostumou; uma injustiça que procura justificar; uma fé acomodada; uma oração abandonada; uma caridade que se resfriou.
O salmista, porém, não termina no desânimo. Diante da vinha devastada, suplica: “Visitai a vossa vinha e protegei-a”. E acrescenta: “Convertei-nos, ó Senhor Deus do universo […] e seremos salvos!”. A vinha ainda pode voltar a produzir frutos, porque Deus não desistiu dela.
III. “Praticai o que aprendestes” (Fl 4,9)
São Paulo mostra-nos como o dom recebido começa a produzir fruto. Primeiro, pela oração: “Não vos inquieteis com coisa alguma, mas apresentai as vossas necessidades a Deus”. Ele não promete uma vida sem dificuldades; ensina-nos a não carregar sozinhos aquilo que podemos entregar a Deus na oração.
Depois, a Palavra deve chegar à vida: tudo o que é verdadeiro, justo, puro, amável e honroso — “ocupai-vos com isso”. E Paulo conclui com uma palavra exigente: “Praticai”. A fé precisa passar da inteligência para a vida, da Palavra escutada para as escolhas, da oração para as obras.
Foi assim também com São Francisco. Como ele próprio recorda, o Altíssimo lhe revelou que devia viver “segundo a forma do santo Evangelho” (Testamento, 14). Francisco não se contentou em admirar o Evangelho; deixou que o Evangelho desse fruto em sua vida.
São Josemaria exprimia esta correspondência à graça de modo muito simples: “Se fores fiel aos impulsos da graça […] darás bons frutos: frutos duradouros para a glória de Deus” (Forja, n. 920). Eis também a raiz da missão. Neste mês missionário, recordemos: quem verdadeiramente acolhe Cristo torna-se testemunha de Cristo. Fomos chamados para dar fruto e enviados para que esse fruto permaneça.
IV. “Finalmente, enviou-lhes o seu filho” (Mt 21,37)
E chegamos ao ponto mais grave da Palavra deste domingo. Até aqui falamos dos dons recebidos e dos frutos esperados. No Evangelho, porém, Jesus mostra o que pode acontecer quando aqueles que receberam a vinha se esquecem de que ela lhes foi confiada.
Jesus retoma a vinha de Isaías. Outra vez encontramos o proprietário, a cerca, o lagar, a torre. Mas agora aparecem os vinhateiros. E este detalhe é decisivo: eles trabalham numa vinha que não lhes pertence. Quando chega o tempo dos frutos, o proprietário envia seus servos. Eles são maltratados. Envia outros. Também são rejeitados. Até que Jesus pronuncia uma frase que contém, de algum modo, toda a história da salvação: “Finalmente, o proprietário enviou-lhes o seu filho”.
Os profetas tinham sido enviados. Agora vem o Filho. Aqui a parábola deixa de ser apenas uma história sobre uma vinha. Jesus está falando de si mesmo. Ele sabe para onde caminha. O Filho será rejeitado, lançado para fora da vinha e morto. Deus poderia ter abandonado a vinha. Mas fez exatamente o contrário: enviou o Filho.
E então aparece toda a gravidade do pecado dos vinhateiros. Eles dizem: “Este é o herdeiro. Vinde, vamos matá-lo e tomar posse de sua herança!” Já não querem somente os frutos. Querem apropriar-se daquilo que não lhes pertence. Eis uma antiga tentação do coração humano: receber de Deus e viver como se Deus não existisse; usufruir a vinha e esquecer o seu Senhor; receber os dons e rejeitar o Filho.
Por isso, a pergunta decisiva do Evangelho já não é somente: “Que frutos estamos produzindo?”. Há outra ainda mais profunda: O que estamos fazendo com o Filho que o Pai nos enviou?
Podemos recebê-lo ou rejeitá-lo. Podemos construir sobre Ele ou pretender construir a vida sem Ele. Os vinhateiros querem a herança sem o herdeiro; querem conservar a vinha expulsando o Filho.
Mas Cristo, rejeitado pelos homens, não permanece rejeitado. “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular.” Aí está a esperança que vence toda a dramaticidade da parábola: a pedra rejeitada tornou-se pedra angular. O Filho morto ressuscitou.
E a vinha não terminou no Calvário. Do lado aberto de Cristo nasceu a Igreja; e nela continua a correr para nós o vinho novo da graça. É isto que estamos celebrando agora sobre este altar. Daqui a pouco apresentaremos pão e vinho. Depois de recebermos o Corpo e o Sangue do Senhor, a Igreja pedirá que, “inebriados e saciados pelo sacramento”, sejamos transformados naquele que comungamos.
Eis o fruto maior. Não basta receber Cristo. É preciso deixar que Cristo nos transforme. Não basta aproximar-se do altar. É preciso sair do altar levando na vida aquilo que se recebeu no Sacramento.
Caros amigos, a pergunta de Isaías permanece diante de nós: “O que poderia eu ter feito a mais por minha vinha e não fiz?” À luz do Evangelho, sabemos agora até onde chegou a resposta de Deus. Depois dos profetas, enviou o Filho. E o Filho não veio apenas procurar os frutos da vinha. Entregou a própria vida para salvar aqueles que a haviam tornado estéril.
É diante dele que cada um deve perguntar: que tenho feito com aquilo que Deus colocou em minhas mãos? Com a fé que recebi, com minha família, com meu tempo, com meus bens, com minha vocação, com as pessoas que Ele confiou ao meu cuidado?
Daqui a pouco, o Filho enviado pelo Pai virá novamente ao nosso encontro na Eucaristia. Receberemos aquele que os vinhateiros rejeitaram, a Pedra que os construtores desprezaram e que Deus fez pedra angular. Peçamos, então, uma graça muito concreta: Senhor, não permitais que recebamos tantos dons e permaneçamos sem fruto. Transformai-nos naquele que comungamos.
E neste mês do Rosário, Nossa Senhora nos ensine o segredo da vinha fecunda: acolher a Palavra, guardá-la no coração e deixar que ela se torne vida. Então nossa existência dará o fruto que Deus espera. Então a nossa vida será também missão. E se cumprirá em nós a palavra de Cristo: “Eu vos escolhi para que deis fruto, e o vosso fruto permaneça”.
Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo!

