A MESA DA PALAVRA
XIX Domingo do Tempo Comum – Ano A
Itumbiara, 9 de agosto de 2026
“Jesus subiu ao monte, para orar a sós”
Oração pelos Pais e Abertura da Semana Nacional da Família
Caros amigos,
Saúdo com afeto todos os que vos reunis nesta Catedral, mãe de todas as igrejas da nossa Diocese. E especialmente sobre os que assumem a valorosa missão de pais, invoco desde já a mais calorosa bênção do Deus que é Pai de todos nós.
Ao iniciarmos a Semana Nacional da Família, a Igreja nos convida elevar uma prece confiante pelas famílias de nossa Diocese: pelas que vivem na alegria e pelas que atravessam provações; pelas que permanecem unidas e pelas que necessitam de reconciliação. Que todas encontrem em Cristo a presença que acalma os ventos e conduz a travessia.
Nesta casa de oração, aprendemos novamente o valor do silêncio. Na brisa suave, Deus nos faz ouvir sua vontade; e nós lhe respondemos com nossas humildes preces.
- “Fazei crescer em nossos corações o espírito de adoção filial”
A oração coleta, que hoje a Igreja põe em nossos lábios, é como uma chave de ouro que nos abre o mistério da filiação divina. Ousamos chamar Deus de Pai, não por presunção, mas por inspiração do Espírito Santo. Pedimos que cresça em nós o espírito de adoção filial, não para vivermos numa doçura sem combate, mas para atravessarmos o mar da história como filhos, e não como órfãos.
Quem sabe dizer “Pai” permanece na casa; quem permanece na casa não abandona a barca; e quem permanece na barca chega, com Pedro, à herança prometida. Nesta Catedral de Itumbiara, coração orante de nossa Diocese, a oração da Igreja nos reúne e nos educa: filhos no Filho, irmãos entre nós, povo que navega com Cristo na comunhão apostólica.
A adoção filial não é apenas um belo título, mas uma nova maneira de viver. O filho não vive como escravo do medo, nem como alguém sem casa. Vive com a certeza de que pertence a Deus. Quando a fé enfraquece, o mundo procura convencer-nos de que estamos sós, entregues à violência dos ventos e à incerteza das ondas. A oração cristã desfaz essa mentira: coloca-nos de joelhos para que nos levantemos como filhos; faz-nos pobres diante de Deus para nos enriquecer de confiança; ensina-nos que a primeira palavra da salvação não é “eu posso”, mas “Pai”.
Não rezamos para informar Deus de nossas necessidades, mas para que Ele ordene nossos desejos. Não rezamos para fugir da cruz, mas para acolhê-la como filhos. Não pedimos que a barca seja poupada de todos os ventos, mas que nela nunca nos falte a presença do Senhor. Toda verdadeira travessia começa, portanto, com esta palavra humilde e imensa: “Pai”.
- “Permanece sobre o monte na presença do Senhor”
Elias está em fuga. Perseguido e ameaçado por Jezabel, parte para salvar a vida. Cansado e abatido, confia-se ao Senhor. Deus escuta-o, sustenta-o no caminho e o conduz ao monte Horeb. Ali, o profeta aprende que o Senhor não se manifesta no vento impetuoso, no terremoto ou no fogo, mas no silêncio de uma brisa suave.
Abre-se, assim, uma verdadeira escola de oração. Deus não se impõe pelo tumulto, mas se aproxima com suavidade. Quando a criatura se cala, pode ouvir melhor o Criador. Quando o coração se desprende de suas inquietações, o Senhor entra nele como paz. A oração pessoal não é fuga da vida; é subida ao Horeb interior, onde a alma aprende que a onipotência divina muitas vezes se reveste de mansidão.
Por isso, a Igreja conserva, no coração da celebração, aqueles silêncios sagrados nos quais a Palavra penetra mais profundamente. No silêncio de Elias nasce a escuta; da escuta vem a obediência; e da obediência, a paz. Quem aprende a rezar assim não confunde Deus com a tempestade, nem a voz do Senhor com o ruído do mundo.
Também nós procuramos, muitas vezes, Deus no extraordinário e nos esquecemos de que Ele nos espera na simplicidade fiel: na escuta da Palavra, no silêncio diante do sacrário, na oração em família, no exame de consciência ou numa súplica que não encontra belas palavras, mas nasce de um coração sincero. A brisa suave não é ausência de Deus; é, muitas vezes, a expressão mais delicada de sua proximidade.
A Igreja sabe que a fecundidade de sua missão depende da oração. Por isso, o Concílio Vaticano II ensina que a liturgia é “o cume para o qual tende a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, a fonte donde emana toda a sua força” (SC, 10). A Igreja reza para agir com Deus; e somente age com verdadeira fecundidade quando não deixa de rezar.
O silêncio diante de Deus não fecha o coração sobre si mesmo. Quem escuta verdadeiramente o Senhor começa também a ouvir o clamor de seus irmãos.
III. “Eu desejaria ser anátema, separado de Cristo, por amor de meus irmãos”
São Paulo nos introduz no segredo da oração apostólica. Ele sabe que Israel recebeu a adoção filial, a glória, as alianças, a Lei, o culto, as promessas e os patriarcas. Sabe, sobretudo, que de Israel procede Cristo segundo a carne. Por isso, traz no coração uma grande tristeza. Não é amargura, mas caridade ferida; não é uma dor que o afasta de Deus, mas que o une ainda mais ao seu desígnio de salvação.
O Apóstolo chega a dizer: “Eu desejaria ser anátema, isto é, separado de Cristo, por amor de meus irmãos” (Rm 9,3). São palavras estremecedoras. Paulo não deseja realmente separar-se do Senhor. Emprega uma expressão extrema para mostrar até onde chega sua caridade: estaria disposto a tomar sobre si a desgraça de seus irmãos, se assim pudesse conduzi-los à salvação. Não lhe basta estar salvo; deseja que eles também sejam alcançados pela graça.
Aqui se manifesta o valor reparador da oração apostólica. O apóstolo apresenta-se diante de Deus em favor dos que não rezam. Oferece suas lágrimas pelos afastados e seus sofrimentos pelos que perderam a fé. Somente Cristo pode redimir; o apóstolo, porém, pode unir-se ao seu sacrifício e oferecer-se com Ele pela salvação dos irmãos.
A verdadeira oração nunca estreita a alma: dilata-a. “A caridade de Cristo nos impele” (2Cor 5,14) a não buscar apenas a própria consolação, mas a interceder e a oferecer-nos pelos outros. A oração apostólica é caridade que suplica; e a caridade é oração que se oferece.
Este espírito deve animar nossa Catedral. Aqui, os sofrimentos de toda a Diocese encontram um altar, e as alegrias do povo tornam-se ação de graças. Uma comunidade que reza leva ao altar os ausentes, os afastados, os que perderam a esperança e os que já não sabem pronunciar o nome de Deus. A oração da Igreja é larga como o Coração de Cristo: acolhe as lágrimas escondidas, as culpas que esperam perdão e as famílias que desejam recomeçar.
- “Jesus subiu ao monte, para orar a sós”
Depois de multiplicar os pães, Jesus não se deixa coroar pelo entusiasmo da multidão. Despede o povo, envia os discípulos para a travessia e sobe ao monte para orar a sós. Esse encontro do Filho com o Pai é a fonte escondida de toda missão. Antes de caminhar sobre as águas, Cristo está no monte; antes de acalmar o mar, permanece em silêncio; antes de estender a mão a Pedro, está unido ao Pai. A Igreja só atravessa a noite quando permanece unida à oração de Cristo.
Na quarta vigília, quando a noite é mais escura e o cansaço mais pesado, Jesus se aproxima. Não vem pela margem segura, mas pelo próprio mar que amedronta os discípulos. Não evita as águas: caminha sobre elas. Aos que tremem, diz: “Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!”. Onde Cristo se manifesta, o medo perde seu poder; onde Ele diz “Sou eu”, nenhuma noite pode ter a última palavra.
Pedro pede para ir ao encontro do Senhor. Enquanto confia na palavra de Cristo, caminha; quando olha para a força do vento, começa a afundar. Santo Agostinho, no Sermão 76, vê em Pedro a figura da Igreja. Nele aparecem nossa força e nossa fraqueza. A fé realiza o que a fragilidade humana não pode; mas, sem a mão do Senhor, até a coragem afunda. Pedro caminhou enquanto confiou no Senhor; vacilou quando olhou para si mesmo; e foi salvo quando clamou por Cristo. Eis a nossa história e a nossa esperança.
A barca é pequena e o mar é grande; mas maior que o mar é Aquele que entra na barca. Por isso, a oração não nos afasta da Barca de Pedro: mantém-nos dentro dela. Rezar é permanecer com Cristo em sua Igreja, firmes na fé apostólica, na Eucaristia, na sucessão de Pedro e na comunhão visível que atravessa os séculos.
Não pertencemos à Igreja como se pertencêssemos apenas a uma organização humana. A Igreja é nossa mãe e nossa casa. É a Barca de Pedro, conduzida por Cristo através das tempestades da história. É nela que o Senhor vem ao nosso encontro na Palavra, nos sacramentos, sobretudo na Eucaristia, e na comunhão dos irmãos. Procurar Cristo sem amar a Igreja seria querer encontrar a Cabeça separada do Corpo; desejar o porto sem permanecer na barca.
São Paulo VI ensinou, na Evangelii nuntiandi, que evangelizar é a graça e a vocação própria da Igreja. Essa missão conserva sua força quando nasce de uma vida interior fiel e orante. Também o Concílio Vaticano II ensina que a Igreja é, em Cristo, “como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano” (LG, n. 1). A Barca de Pedro não é somente refúgio: é sinal da comunhão que Cristo oferece ao mundo e instrumento pelo qual Deus continua a reunir seus filhos.
Neste domingo, em que rezamos pelos pais e iniciamos a Semana Nacional da Família, peçamos que as famílias de Itumbiara e de toda a nossa Diocese sejam pequenas barcas de Pedro. Sejam casas onde se reza; onde o pai não se considera senhor absoluto, mas servidor vigilante; onde a mãe, os filhos e todos reconhecem que a travessia se torna segura quando Cristo ocupa o centro.
Que cada família redescubra a força da oração perseverante: a bênção antes das refeições, o Pai-nosso rezado em conjunto, uma Ave-Maria dirigida à Mãe de Deus ou uma palavra de perdão antes do fim do dia. São práticas pequenas aos olhos do mundo; mas é por pequenas fidelidades que Deus sustenta grandes travessias. Onde a família reza, Cristo entra. E, quando Cristo entra, a noite pode não desaparecer imediatamente, mas já não reina sozinha.
Reunidos nesta Igreja Catedral, confessemos, não apenas com os lábios, mas com a vida: “Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!” Permaneçamos na Barca; permaneçamos em oração; permaneçamos na comunhão da Igreja. Quem permanece na Igreja não atravessa sozinho as tempestades do mundo. Mesmo ferido pelas ondas, é sustentado pela mão de Cristo e conduzido, com Pedro, à paz dos filhos de Deus e à herança prometida.
Confiemos nossas famílias à intercessão materna da Santíssima Virgem Maria e à proteção de São José. De modo especial, confiemos ao Senhor os nossos queridos pais. Supliquemos o descanso eterno para os que já partiram e as bênçãos de Deus para os que ainda caminham conosco.
Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

