Encontro do Grupo de oração Maanaim
Carregue a sua Cruz e me siga – Jesus, Senhor e Salvador
“Ele me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20).
Caríssimos amigos, hoje a Igreja Católica celebra a festa da Exaltação da Santa Cruz. Os cristãos do Oriente (católicos e ortodoxos) celebram a Exaltação da Santa Cruz com uma solenidade comparável à da Páscoa. A origem desta festa nos leva a Jerusalém. O imperador Constantino mandou construir duas grandes basílicas nos lugares santos da Paixão e Ressurreição do Senhor: uma junto ao Gólgota e outra sobre o Sepulcro de Cristo. A dedicação dessas basílicas realizou-se no dia 13 de setembro do ano 335. No dia seguinte, apresentava-se solenemente ao povo o que se conservava do lenho da Cruz do Salvador. Desse costume nasceu a celebração do dia 14 de setembro, que encontramos também em Roma a partir do século VII. Mais tarde, associou-se a esta festa a memória da recuperação da relíquia da Santa Cruz pelo imperador Heráclio, depois de ter sido levada pelos persas.
Há algo muito belo nessa origem: Jerusalém conservava lado a lado a memória do Calvário e a memória do Sepulcro vazio. A Igreja nunca separou essas duas realidades. O Crucificado é o Ressuscitado. Aquele que entregou a vida é aquele que venceu a morte. Por isso, quando a Igreja exalta a Cruz, não está exaltando o sofrimento pelo sofrimento, nem celebrando a derrota de um homem condenado à morte. Está proclamando a vitória de Jesus Cristo e a grandeza de um amor que foi até o fim, pois Jesus é nosso Senhor e Salvador. Esta é a fé antiga e sempre nova da Santa Igreja.
É com esse olhar que devemos contemplar hoje a Cruz. São Paulo nos oferece uma chave extraordinariamente pessoal para compreendê-la. Ele não diz simplesmente que Cristo amou a humanidade ou que morreu pelos pecadores. Diz: “Ele me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20). É no singular: amou-me; entregou-se por mim. Enquanto não chegarmos a este ponto, a Cruz permanecerá diante de nós como um acontecimento grandioso, mas exterior. Quando, porém, consigo olhar para o Crucificado e dizer: “Tudo isto foi também por mim”, começa o verdadeiro encontro com Jesus.
- “Ele me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20)
Conta-se de Santo Tomás de Aquino, o Doutor Angélico, que tinha uma relação muito profunda com o Crucificado. A tradição conservou diversos episódios de sua oração diante da Cruz. É significativo que um homem que havia dedicado toda a sua inteligência ao conhecimento das coisas divinas se colocasse finalmente de joelhos diante de Cristo. Depois de tantas páginas, tantas questões, tantas disputas e tantas explicações, permanecia o grande livro aberto diante de seus olhos: Jesus Crucificado.
Também nós precisamos aprender a ler esse livro. Há muitas maneiras de olhar para uma cruz. Podemos vê-la como objeto religioso, símbolo do cristianismo ou recordação da Paixão. Podemos tê-la em nossa casa, trazê-la ao peito, colocá-la em nosso quarto ou no lugar de trabalho. Tudo isso é bom, mas ainda podemos permanecer na superfície. O cristão olha para a Cruz e reconhece Alguém. Reconhece Jesus, e reconhece Jesus que o amou.
Quando contemplamos o Crucificado, vemos as mãos atravessadas, os pés feridos, a cabeça coroada de espinhos, o lado aberto. A fé, porém, permite enxergar mais profundamente: aquelas feridas são a linguagem de um amor que foi até o fim. Cristo veio ao nosso encontro, assumiu a nossa condição humana e quis levar seu amor até dentro do sofrimento e da morte. Por isso, São Paulo resume todo o mistério numa frase: “Ele me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20).
Detenhamo-nos um pouco nessas palavras. “Amou-me”. Antes que eu o procurasse, Ele me amou. Antes que eu pudesse oferecer-lhe qualquer coisa, Ele me amou. Conhecendo minhas fraquezas, meus pecados, minhas incoerências, minhas fugas e minhas resistências, Ele me amou. E porque me amou, “entregou-se por mim”. O amor de Cristo não permaneceu sentimento, palavra ou intenção: tornou-se entrega. É justamente aqui que começamos a compreender o amor à Cruz. O cristão não ama a dor pela dor; ama Cristo que se entregou na Cruz. O amor à Cruz nasce do amor ao Crucificado.
Esta verdade toca diretamente a nossa vida de homens. Também o nosso amor precisa transformar-se em entrega. Um homem pode dizer muitas vezes que ama sua esposa, seus filhos, sua família, mas chega um momento em que o amor precisa ganhar mãos, tempo, paciência, fidelidade e sacrifício. A Cruz nos ensina que amar não é apenas sentir alguma coisa por alguém; é estar disposto a entregar alguma coisa de si por aquele que se ama. A pergunta cristã, portanto, não é simplesmente: “Quanto estou sofrendo?”, mas: “Quanto estou aprendendo a amar?”.
1. “Pecamos, falando contra o Senhor e contra ti” (Nm 21,7)
O livro dos Números nos apresenta uma cena impressionante. Israel havia sido libertado do Egito e caminhava pelo deserto em direção à Terra Prometida. Mas o caminho tornou-se longo, o povo se impacientou e começou a murmurar contra Deus e contra Moisés. Esqueceu-se da libertação, esqueceu-se dos prodígios, esqueceu-se da fidelidade de Deus. O coração que deveria estar agradecido encheu-se de desconfiança.
Vieram então as serpentes venenosas. Mais terrível, porém, que o veneno das serpentes era a peçonha que penetrara no coração: a desconfiança em Deus. É esta, no fundo, a tragédia do pecado: desconfiar de Deus, afastar-se dele e procurar longe dele uma vida que somente nele podemos encontrar. Quantas vezes acontece conosco algo semelhante! Deus já nos concedeu tantas graças, sustentou-nos tantas vezes, perdoou-nos tantas vezes; mas basta aparecer o deserto, uma contrariedade, uma enfermidade, um problema familiar, uma humilhação ou uma espera prolongada, e começamos a perguntar: “Onde está Deus? Por que permitiu isto? Por que justamente comigo?”
O povo finalmente reconhece: “Pecamos, falando contra o Senhor e contra ti. Roga ao Senhor que afaste de nós as serpentes” (Nm 21,7). Moisés intercede, e Deus manda fazer uma serpente de bronze e colocá-la sobre uma haste. Quem fosse mordido e olhasse para ela viveria. O homem ferido precisava levantar os olhos.
Séculos depois, Jesus explica a Nicodemos o sentido profundo daquele acontecimento: “Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado, para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna” (cf. Jo 3,14-15). A serpente alçada no deserto era uma figura; a realidade é Cristo levantado na Cruz.
Há aqui uma lição decisiva para nós: o homem ferido precisa levantar os olhos. O pecado nos faz olhar para baixo; a vergonha nos fecha; o desânimo nos faz pensar que nada poderá mudar. Às vezes também o orgulho nos impede de levantar os olhos, porque preferimos resolver tudo sozinhos a reconhecer que necessitamos de um Salvador. Deus, porém, nos diz: olha para Cristo.
Talvez alguns de nós tragamos feridas de muitos anos. Há feridas da infância que um homem adulto ainda carrega sem contar a ninguém. Há feridas no casamento, decepções com os filhos, fracassos profissionais e lutos. Talvez alguns de nós carreguemos sofrimentos de muitos anos: dificuldades que vêm da infância, feridas no casamento, decepções com os filhos, fracassos profissionais e lutos. Há também ressentimentos, pecados escondidos, dependências e culpas que ainda não foram entregues à misericórdia de Deus. Há homens que aprenderam desde cedo que deveriam parecer fortes e, por isso, não permitem que ninguém veja onde estão feridos. A Palavra de Deus não manda fingir que a ferida não existe; manda olhar para Cristo.
O israelita mordido pela serpente não se curava contemplando indefinidamente a própria ferida. Curava-se levantando os olhos para o sinal que Deus havia colocado diante dele. Também nós não seremos curados se passarmos a vida inteira olhando apenas para nossas misérias. É necessário reconhecer o pecado, arrepender-se, procurar o sacramento da Reconciliação quando necessário, mas depois é preciso olhar para Jesus. A salvação não vem de nós; a salvação tem um nome: Jesus Cristo.
III. “Humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de Cruz” (Fl 2,8)
São Paulo descreve o caminho de Cristo com palavras que a Igreja nunca se cansará de meditar: “Humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de Cruz” (Fl 2,8). O movimento de Cristo é uma descida. Sendo Deus, fez-se homem; sendo Senhor, assumiu a condição de servo; sendo inocente, entrou no mundo dos pecadores; sendo a Vida, entrou na morte. Desceu até onde o homem estava para levar o homem até Deus.
Esta é a lógica da salvação cristã: Cristo não nos salvou à distância. Não permaneceu no céu enviando-nos apenas uma mensagem. Veio procurar-nos onde estávamos. Entrou em nossa carne, conheceu o cansaço, a fome, as lágrimas, a amizade e a traição; experimentou a solidão do Getsêmani, o abandono dos discípulos, a injustiça do julgamento, os açoites, os espinhos e os cravos. Chegou até a Cruz. E justamente ali, onde aos olhos humanos parecia ter descido ao ponto mais baixo, começou a manifestar-se a vitória de Deus.
Talvez seja necessário que cada um se pergunte hoje: onde estou realmente diante de Deus? Não onde os outros pensam que estou. Não onde minha aparência diz que estou. Não onde minha posição social, meu trabalho ou até minha prática religiosa fazem parecer que estou. Onde estou diante de Jesus? Talvez esteja cansado. Talvez esteja lutando há anos contra o mesmo pecado. Talvez minha família atravesse uma dificuldade que me angustia. Talvez exista algo em minha vida que eu ainda não entreguei ao Senhor.
É precisamente aí que Cristo quer encontrar-me. Não preciso primeiro subir até Ele. Ele já desceu até mim. O cristianismo começa pela iniciativa de Deus: “Ele me amou e se entregou por mim”. Só depois vem a minha resposta.
- “Tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16,24)
É então que compreendemos a palavra que dá título a este nosso encontro. Jesus diz: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16,24). Notemos que Jesus não diz simplesmente: “Suporte sua cruz”. Diz: “Tome a sua cruz e siga-me”. Uma coisa é sofrer porque não há alternativa; outra coisa é transformar aquilo que sofremos em caminho de seguimento de Cristo.
Todos carregamos alguma cruz, mas nem todo sofrimento é automaticamente cristão. Posso sofrer revoltado, fechado em mim mesmo, fazendo sofrer todos os que estão ao meu redor. Posso transformar minha cruz numa desculpa para a amargura. A cruz torna-se verdadeiramente cristã quando é unida à Cruz de Cristo. Posso então dizer: “Senhor, eu não escolhi esta cruz, mas escolho carregá-la contigo”.
Isso muda profundamente o modo de sofrer. Talvez a dificuldade não desapareça. Talvez a doença permaneça. Talvez a situação familiar demore a resolver-se. Talvez a luta interior seja longa. Mas já não estou sozinho. Cristo caminha comigo, e aquilo que parecia apenas sofrimento pode transformar-se em amor, oferta, intercessão e caminho de santificação.
Há cruzes que não precisamos procurar porque já pertencem à nossa vocação. Para um homem casado, às vezes a cruz chama-se fidelidade: permanecer quando seria mais fácil fugir, perdoar quando o orgulho exige vingança, pedir perdão quando custa reconhecer o próprio erro, escutar a esposa quando seria mais cômodo fechar-se, educar os filhos quando se está cansado. Para um pai, a cruz pode ser continuar trabalhando honestamente quando os resultados são poucos, ou dizer “não” ao filho quando seria mais fácil comprar sua tranquilidade dizendo sempre “sim”.
Existem também cruzes no domínio de nós mesmos. Guardar os olhos quando a tentação se apresenta; conservar a fidelidade quando ninguém está vendo; dominar a ira; abandonar uma dependência; libertar o coração de uma amizade ou relação que nos afasta de Deus; reconhecer que precisamos de ajuda; voltar à Confissão depois de muito tempo. São cruzes muito concretas.
Um homem pode vencer grandes batalhas fora de casa e perder as pequenas batalhas dentro de si. Pode comandar pessoas e não dominar a própria ira; administrar negócios e não governar os próprios desejos; exigir respeito e não saber pedir perdão; parecer forte diante dos outros e continuar escravo de um pecado escondido. Cristo nos mostra onde se encontra a verdadeira força: na capacidade de entregar a própria vida.
- “Ninguém tem amor maior do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15,13)
Aqui precisamos voltar à nossa frase inicial: “Ele me amou e se entregou por mim”. Se esquecermos isso, poderemos transformar o cristianismo numa religião pesada, feita apenas de obrigações, renúncias e proibições. Mas não é assim. A primeira palavra é o amor de Deus. A primeira entrega é a de Cristo. A nossa cruz é sempre resposta à Cruz que Ele primeiro carregou por nós.
Uma mãe passa uma noite inteira acordada junto ao filho enfermo. Há cansaço, certamente, mas aquele cansaço tem um nome: amor. Um pai se levanta cedo durante anos, trabalha, enfrenta dificuldades e renuncia a muitas coisas para sustentar e educar os filhos. Há sacrifício, mas aquele sacrifício também pode ter um nome: amor. O amor não elimina o peso; dá-lhe sentido.
É assim que devemos compreender o amor à Cruz. Não amamos a dor porque seja boa em si mesma. Amamos Jesus, e porque o amamos não queremos abandoná-lo quando o caminho passa pelo Calvário. A Cruz é a escola onde aprendemos que amar é entregar-se.
Talvez possamos fazer uma pergunta muito concreta: “Senhor, se Tu te entregaste por mim, o que eu ainda não quero entregar a Ti?”. Pode ser um pecado ao qual me apeguei, um ressentimento antigo, uma relação que me afasta de Deus, uma dependência, minha vaidade, meu dinheiro, meu orgulho, a necessidade de controlar tudo ou a incapacidade de perdoar alguém.
Às vezes pedimos a Jesus: “Senhor, tira esta cruz”. E podemos pedir. O próprio Jesus, no Getsêmani, rezou: “Meu Pai, se é possível, afaste-se de mim este cálice”. Mas a sua oração não terminou aí: “Contudo, não seja feito como eu quero, mas como tu queres” (Mt 26,39). É assim que Cristo nos ensina a rezar diante da cruz. Podemos pedir que o sofrimento passe, que a enfermidade seja curada, que uma dificuldade encontre solução. Mas aprendemos também a colocar tudo nas mãos do Pai e a dizer com Jesus: “Se esta cruz permanecer, Senhor, dá-me a graça de não carregá-la longe de Ti”.
- “Deus tanto amou o mundo” (Jo 3,16)
Chegamos ao coração de tudo. Jesus diz a Nicodemos: “Deus tanto amou o mundo que entregou seu Filho Unigênito, para que não morra todo aquele que nele crer, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). Aqui está o Evangelho em poucas palavras: Deus ama, Deus entrega o Filho, o Filho é levantado na Cruz, e aquele que crê recebe a vida.
A vontade de Deus não é a perdição do pecador, mas sua salvação. Entretanto, Jesus acrescenta algo decisivo: “todo aquele que nele crer”. A salvação nos é oferecida gratuitamente, mas precisa ser acolhida. Ninguém pode crer em meu lugar. Ninguém pode entregar minha vida a Cristo por mim. Chega uma hora em que a fé precisa passar do “nós” para o “eu”: eu creio; eu necessito de Ti; eu te entrego minha vida; eu quero seguir-te.
Talvez alguém tenha sido batizado quando criança, tenha feito a Primeira Comunhão, recebido a Crisma, participado de muitas Missas e conhecido a Igreja durante toda a vida. Tudo isso é uma graça imensa. Mas é possível conhecer muitas coisas sobre Jesus sem ter-lhe aberto inteiramente o coração. É possível até falar de Cristo sem falar com Cristo.
O encontro pessoal com Jesus não substitui os sacramentos nem nos afasta da Igreja; ao contrário, conduz-nos mais profundamente a eles, porque é na Igreja que Cristo continua comunicando sua graça. O Jesus que hoje encontramos é o mesmo Senhor que nos acolhe na Confissão, alimenta-nos na Eucaristia e nos reúne como seu Corpo.
Por isso, diante da Cruz, cada um pode perguntar: Jesus é realmente o Senhor da minha vida? Não apenas Senhor de uma parte. Não apenas Senhor do domingo. Não apenas Senhor das horas de oração. Senhor do meu casamento, do meu dinheiro, da minha afetividade, da pureza do meu corpo e do meu olhar, dos meus negócios, das minhas decisões, dos meus afetos, do meu passado e do meu futuro.
VII. “Quando eu for elevado da terra, atrairei todos a mim” (Jo 12,32)
Voltemos agora o olhar para o Crucificado. Não vejamos apenas os cravos, o sangue ou a dor. Vejamos Quem está ali. É Jesus. E deixemos ressoar novamente a palavra de São Paulo: “Ele me amou e se entregou por mim”.
Por mim. Talvez seja necessário repetir isso interiormente: por mim. Quando eu estava longe, por mim. Quando pequei, por mim. Quando pensei que poderia viver sem Ele, por mim. Quando caí novamente, por mim. Não porque o meu pecado seja pequeno, mas porque a misericórdia de Deus é maior.
E este Jesus que morreu ressuscitou. Está vivo. A Cruz não é o ponto final. Por isso Ele pode dizer hoje: “Segue-me”. Não seguimos a memória de um morto; seguimos o Senhor vivo. Não carregamos a cruz caminhando para o nada; caminhamos atrás daquele que atravessou a morte e abriu para nós a vida eterna.
É aqui que a palavra “Carregue a sua Cruz e me siga” ganha todo o seu sentido. Jesus vai à frente. A Cruz que carregamos atrás dele não termina no Calvário. Termina na Ressurreição. A última palavra não pertence ao sofrimento, mas à vida; não à derrota, mas à vitória; não ao pecado, mas à graça; não à morte, mas à Ressurreição.
Daqui nasce uma decisão. Não quero apenas contemplar Cristo carregando sua Cruz; quero segui-lo carregando a minha. Quando ela pesar, recordarei: Ele me amou. Quando tiver de renunciar ao pecado: Ele se entregou por mim. Quando precisar perdoar: Ele me amou. Quando a fidelidade custar: Ele se entregou por mim. Quando cair e precisar levantar-me: Ele me amou. E quando chegar a hora de entregar a própria vida: Ele se entregou por mim.
VIII. “Eis-me aqui, ó bom e dulcíssimo Jesus”
Caríssimos amigos, existe uma antiga oração que a Igreja colocou entre as orações de ação de graças depois da Santa Missa. É uma oração feita precisamente diante do Crucificado. Começa com palavras muito simples: “Eis-me aqui, ó bom e dulcíssimo Jesus”.
Creio que estas palavras podem resumir o ponto a que desejamos chegar neste encontro. “Eis-me aqui”. Não estou mais fugindo. Não estou escondendo de Ti aquilo que sou. Não estou apresentando uma imagem de mim mesmo. Eis-me aqui, Senhor, com minha fé e minhas dúvidas, com minhas virtudes e meus pecados, com minha família, meu trabalho, minhas feridas e minha cruz.
A oração pede então a Jesus que grave no coração profundos sentimentos de fé, esperança e caridade, verdadeiro arrependimento dos pecados e uma vontade firme de mudar de vida. É admirável: diante das cinco chagas de Cristo, a Igreja nos ensina a pedir fé, esperança, caridade, arrependimento e conversão. É exatamente isso que podemos pedir agora. Olhemos, portanto, para Jesus Crucificado. Cada um coloque diante dele a sua própria cruz. Não a cruz do vizinho, não os defeitos da esposa, não os erros dos filhos, não a injustiça dos outros. A minha cruz. A minha vida. O meu pecado. Aquilo que eu preciso entregar.
E digamos interiormente: Senhor Jesus, eu creio que Tu és o Filho de Deus. Creio que morreste por mim e ressuscitaste. Creio que estás vivo e que hoje me chamas pelo nome. Tu me amaste e te entregaste por mim. Perdoa os meus pecados, cura minhas feridas, rompe aquilo que ainda me escraviza e ensina-me a amar como Tu me amaste. Entrego-te minha vida, minha família, meu trabalho, minhas lutas, minhas fraquezas e a cruz que hoje pesa sobre meus ombros. Não quero carregá-la sozinho. Quero carregá-la contigo. Sê o Senhor da minha vida e o meu Salvador. E quando me disseres: “Tome a sua cruz e siga-me”, concede-me a graça de responder: “Senhor, eu te seguirei, porque Tu me amaste e te entregaste por mim”.
E podemos concluir fazendo nossa a própria oração da Igreja: Eis-me aqui, ó bom e dulcíssimo Jesus! De joelhos ante a vossa divina presença, eu Vos peço e suplico, com o mais ardente fervor de minha alma, que Vos digneis gravar em meu coração profundos sentimentos de fé, de esperança e de caridade, de verdadeiro arrependimento de meus pecados e vontade firmíssima de me emendar, enquanto com sincero afeto e íntima dor de coração considero e medito em vossas cinco chagas, tendo bem presentes aquelas palavras que o Profeta Davi já dizia de Vós, ó bom Jesus: “Trespassaram as minhas mãos e os meus pés, e contaram todos os meus ossos” (Sl 21,17-18). Amém.

