A MESA DA PALAVRA
XVII Domingo do Tempo Comum – Ano A
Itumbiara, 19 de julho de 2026
“Conduzidos por Deus aos bens eternos”
- «Usemos de tal modo os bens transitórios que possamos aderir, desde já, aos bens eternos» (Coleta).
Caros irmãos,
a oração da Igreja já nos introduz no Evangelho. A Liturgia da Palavra começa, de certo modo, antes mesmo da proclamação das leituras. Principia quando a Igreja, reunida em oração, coloca em nossos lábios a magnífica Coleta que acabamos de dirigir ao Senhor. Nela se encontra, em síntese, todo o itinerário espiritual que a Palavra de Deus percorrerá diante de nós neste domingo.
Notemos o que a Igreja nos faz pedir. Não suplicamos prosperidade, uma vida isenta de provações ou o êxito de nossos projetos. Pedimos uma graça muito maior: que Deus, por sua misericórdia, nos ensine a usar retamente os bens transitórios, para que possamos aderir, desde já, aos bens eternos.
Toda a liturgia deste domingo pode resumir-se, portanto, numa única pergunta: como distinguir aquilo que passa daquilo que permanece? Eis a verdadeira sabedoria. Ela não consiste em possuir muitas coisas, mas em reconhecer quais delas merecem o nosso coração. Quem aprende essa distinção encontra o princípio que ordena toda a existência; quem a ignora, ainda que possua o mundo inteiro, permanece interiormente pobre.
É precisamente essa sabedoria que a Palavra de Deus nos convida hoje a pedir.
- “Dá ao teu servo um coração compreensivo, capaz de governar o teu povo e de discernir entre o bem e o mal” (1Rs 3,9).
A primeira leitura apresenta-nos Salomão no início de seu reinado. Consciente da própria juventude e da grandeza da missão recebida, ele ouve do Senhor, durante a noite, em Gabaon: «Pede o que desejas e eu te darei» (1Rs 3,5). Poderia ter pedido longa vida, riquezas ou a derrota dos inimigos; pede, porém, aquilo que permite dar justo valor a todos os outros bens: “Dá, pois, ao teu servo um coração compreensivo, capaz de governar o teu povo e de discernir entre o bem e o mal” (1Rs 3,9).
Salomão não pede apenas inteligência ou prudência no governo, mas um coração que saiba escutar a Deus e julgar segundo a sua vontade. A verdadeira sabedoria não consiste em saber muitas coisas, mas em reconhecer a ordem que elas devem ocupar: Deus em primeiro lugar, e todos os bens criados subordinados a Ele.
Também nós necessitamos dessa sabedoria. A maior pobreza não consiste em possuir pouco, mas em desconhecer o que verdadeiramente vale e consumir a vida procurando aquilo que passa.
O salmista assim exprime a mesma hierarquia dos bens: “A lei de vossa boca, para mim, vale mais do que milhões em ouro e prata” (Sl 118,72). A Escritura não despreza os bens deste mundo. A família, o trabalho, a saúde e todas as coisas criadas são dons de Deus e devem ser acolhidos com gratidão. Tornam-se desordenados quando deixam de ser meios e passam a ocupar o lugar do Bem supremo. A escuta da Palavra restitui a cada realidade a sua justa medida.
Santo Agostinho descreve esse drama ao falar da origem das duas cidades: “Fecerunt itaque civitates duas amores duo: terrenam scilicet amor sui usque ad contemptum Dei, caelestem vero amor Dei usque ad contemptum sui” – “Dois amores fizeram duas cidades: o amor de si levado até ao desprezo de Deus fez a cidade terrena; o amor de Deus levado até ao desprezo de si fez a cidade celeste” (De civitate Dei, XIV, 28).
Quando o amor-próprio relega Deus a um lugar secundário, os próprios bens criados perdem sua ordem. Quando, porém, Deus ocupa o centro, tudo encontra sua medida, sua beleza e sua paz. É para essa sabedoria do coração que a primeira leitura nos conduz.
III. “Tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8,28).
Continuamos, neste domingo, a acompanhar a Carta de São Paulo aos Romanos. Depois de nos mostrar que todos necessitamos da graça de Cristo para sermos justificados e reconciliados com Deus, o Apóstolo dirige agora nossa atenção para a ação permanente da Providência divina na vida daqueles que acolheram o Evangelho.
No centro dessa reflexão encontra-se uma afirmação que, através dos séculos, tem sustentado a esperança dos cristãos: “Sabemos que tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8,28).
Essas palavras poderiam ser mal compreendidas. São Paulo não afirma que tudo seja bom. O sofrimento continua doloroso; a doença permanece uma provação; a morte é o último inimigo a ser vencido. O Apóstolo não ignora nenhuma dessas realidades, pois ele próprio as experimentou em abundância.
O que ele proclama é algo muito maior: Deus é tão poderoso que pode fazer convergir até mesmo as provações para o bem daqueles que vivem unidos a Cristo. A Providência não elimina a cruz, mas transforma-a em caminho de salvação; não impede todas as lágrimas, mas faz delas sementes de eternidade.
Quem acolhe essa certeza passa a contemplar a existência com um olhar novo. As alegrias convertem-se em ação de graças; as dificuldades tornam-se ocasião de purificação; os fracassos já não significam o fim da esperança, porque nada escapa ao governo amoroso daquele que conduz a história.
A primeira leitura ensinou-nos a pedir um coração sábio; a segunda assegura-nos que a Providência guia aqueles que amam a Deus. O Evangelho vem nos mostrar onde se encontra o único Bem capaz de dar sentido a toda a existência.
- Cristo é o Tesouro escondido e a Pérola preciosa (cf. Mt 13,44-52).
Chegamos, enfim, ao Evangelho, no qual Jesus continua a instruir os discípulos por meio das parábolas do Reino. Convém recordar que a expressão «Reino de Deus» não designa simplesmente um lugar, nem apenas uma realidade futura. Indica, antes de tudo, o senhorio de Deus acolhido livremente pelo homem. O Reino começa onde Deus volta a reinar no coração humano. Por isso, as parábolas não pretendem apenas descrever uma realidade; querem suscitar uma decisão.
Hoje o Senhor apresenta-nos duas imagens de extraordinária beleza e semelhantes em sua estrutura. Um homem encontra um tesouro escondido num campo; um negociante, depois de procurar, encontra uma pérola de valor incomparável. As circunstâncias são diversas: um encontra o que estava escondido; o outro procura até encontrar. Ambos, porém, chegam à mesma conclusão: diante do bem descoberto, tudo o mais passa a ocupar um lugar secundário.
É importante notar que nenhum deles vende os seus bens por desprezo das coisas que possuía. Renunciam porque encontraram algo incomparavelmente superior. O Evangelho não anuncia uma espiritualidade que faça da renúncia um fim em si mesma. O cristianismo nasce da alegria de uma descoberta; a renúncia é consequência de um encontro.
Por isso, São Mateus acrescenta um pormenor precioso: o homem vende tudo «cheio de alegria». A alegria precede a renúncia; não é apenas a recompensa que vem depois dela. Quem encontrou Cristo já não vive calculando aquilo que perdeu, porque está inteiramente tomado pelo dom que recebeu. A lógica do Reino não é a da perda, mas a da superabundância: cheio de alegria, o homem vende tudo, compra o campo e toma posse do tesouro.
Vêm-nos espontaneamente à memória as palavras com que Bento XVI inicia a encíclica Deus caritas est: “Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo” (Deus caritas est, n. 1).
É precisamente isso que as parábolas nos ensinam. O homem do campo e o negociante não aderem simplesmente a uma teoria: fazem uma descoberta que transforma toda a sua existência. Descobrem, afinal, não apenas alguma coisa, mas Alguém.
Também Santo Tomás de Aquino nos ajuda a compreender esse movimento da alma. O homem deseja naturalmente a felicidade e tende para o bem perfeito. Todos os bens criados, porém, são limitados: podem satisfazer parcialmente o coração, mas não são capazes de saciá-lo por inteiro. Somente Deus é o Bem perfeito; os demais bens possuem bondade na medida em que dele procedem e participam. Por isso, quando Cristo entra verdadeiramente na vida de alguém, todas as outras coisas deixam de ocupar o primeiro lugar e encontram sua justa medida (cf. Summa Theologiae, I-II, q. 2, a. 8).
Esta é a grande descoberta da santidade. Os santos não desprezaram o mundo; aprenderam a amá-lo segundo a ordem estabelecida por Deus. Amaram intensamente as pessoas, serviram os pobres, trabalharam, sofreram e alegraram-se como os demais homens. Sabiam, contudo, que nenhuma criatura pode ocupar o lugar reservado ao Criador. Encontraram a Pérola preciosa e, por isso, tudo o mais adquiriu um sentido novo.
A terceira parábola, a da rede lançada ao mar, completa o ensinamento. O Reino de Deus chama todos os homens e oferece a todos a possibilidade da salvação. A separação entre os peixes bons e os que não prestam acontecerá somente no fim. Jesus recorda-nos, assim, que o tempo presente é o tempo da misericórdia, da conversão e da paciência de Deus.
A Igreja não existe para antecipar a condenação, mas para lançar continuamente a rede do Evangelho, convidando todos à comunhão com Cristo. Ao mesmo tempo, a liberdade humana é levada a sério. Chegará o dia em que cada um será manifestado segundo a verdade de sua vida e do amor que livremente escolheu.
A Mesa da Palavra conduz-nos agora à Mesa Eucarística. Tudo o que ouvimos prepara-nos para aquilo que está para se realizar sobre o altar. O Tesouro anunciado pelas parábolas está velado sob as humildes espécies do pão e do vinho, nas quais Cristo, morto e ressuscitado, se torna verdadeira, real e substancialmente presente. A Palavra anuncia o mistério; a Eucaristia torna-o sacramentalmente presente e comunica-nos os seus frutos.
Comungar, portanto, não significa apenas tomar posse de um tesouro, mas permitir que esse Tesouro tome posse de nós; que Cristo ordene nossos afetos, ilumine nossos juízos e fortaleça nossa vontade.
Ao nos aproximarmos do altar, peçamos, como Salomão, um coração sábio, capaz de reconhecer o unum necessarium — «uma só coisa é necessária» (Lc 10,42): Cristo, o Tesouro escondido, a Pérola de valor incomparável e a única riqueza que nem o tempo nem a morte podem destruir.
Que a Santíssima Eucaristia renove em nós os frutos da redenção e nos conduza, através dos bens transitórios desta vida, à posse plena dos bens eternos.

