A MESA DA PALAVRA XII – Domingo do Tempo Comum – Ano A

A MESA DA PALAVRA

XII Domingo do Tempo Comum – Ano A
Itumbiara, 21 de junho 2026

“Não tenhais medo! Vós valeis mais do que muitos pardais” (Mt 10,31)

  1. Concedei-nos, Senhor, a graça de sempre temer e amar vosso santo nome, pois nunca cessais de conduzir os que firmais solidamente no vosso amor” (Coleta).

 

Caríssimos amigos, a liturgia deste 12º Domingo do Tempo Comum conduz-nos ao coração de uma das experiências mais universais da condição humana: a experiência do medo. Mas ao mesmo tempo, é uma porta aberta a uma das mais decisivas experiências da fé: o abandono confiante nas mãos de Deus. Em especial nos alerta contra o medo da perseguição que, nesta oração coleta se confronta com o temor e o amor.

Certamente, o medo nos acompanha desde as origens da humanidade. Ele entra pelas portas da alma quando a confiança se enfraquece; insinua-se nas relações quando a verdade se torna custosa; paralisa a missão quando o testemunho exige coragem. O medo faz calar a palavra que deveria ser pronunciada, enfraquece a fidelidade que deveria permanecer firme e, não raramente, leva-nos a esquecer que pertencemos a Deus.

E que remédio pode haver para uma experiência tão ancestral, como é a do medo. Deus não desconhece a nossa fragilidade. Por isso, a Sua santa Palavra ressoa hoje não como simples conselho, mas como poderoso fármaco; não como sugestão, mas como mandato imperioso do Senhor: “Não tenhais medo”.

Desde a antífona da entrada, a Igreja coloca em nossos lábios uma solene profissão de confiança: “O Senhor é a força do seu povo, é a fortaleza de salvação do seu Ungido”. Entramos nesta celebração não apoiados em nossas seguranças, mas sustentados pela certeza de que Deus é mais firme do que nossas fragilidades. Nós mudamos; Ele permanece. Nós vacilamos; Ele sustenta. Nós tememos; Ele fortalece.

A oração coleta aprofunda esta mesma atitude, pedindo a graça de sempre temer e amar o santo nome de Deus, porque Ele jamais abandona aqueles que estabelece solidamente em seu amor. Há uma diferença substancial entre a experiência do medo que paralisa e o dom do temor, que é princípio da sabedoria e nos sustenta solidamente no seu amor.

Abramos um pouco mais o nosso coração à Mesa da Palavra desta liturgia para verificarmos na oração o estado da nossa alma entre medo e temor.

 

  1. Cantai ao Senhor … pois Ele salvou das mãos dos malvados a vida do pobre” (Jr 20,13).

A primeira leitura apresenta-nos Jeremias deveras provado e sustentado por Deus. No contexto em que Jeremias se sente seduzido por Deus, se insere esta oração de confiança no Senhor, caracterizada por grande delicadeza de sentimentos.

Ferido pela incompreensão e pela perseguição, o profeta ouve injúrias, percebe a vigilância maliciosa dos adversários e sofre até mesmo a desconfiança daqueles que deveriam ser seus amigos. A Palavra profética, a missão que Deus lhe confiou não lhe trouxe aplausos, mas hostilidade. A missão profética não é caminho de comodidade, mas de fidelidade, de fidelidade árdua, de lealdade não raro sofrida. Ela se desenvolve precisamente no ambiente em que os adversários espalham o medo em redor (cf Jr 20,10).

Jeremias, contudo, não termina sua oração no desânimo. No meio da ameaça, proclama: “O Senhor está ao meu lado, como forte guerreiro”. Eis a raiz da coragem cristã: não a ausência de combates, mas a certeza de uma Presença. O justo pode ser provado, contestado e até humilhado; mas não fica abandonado. Há um galardão para o justo, ainda que nós não percebamos sensivelmente a Presença.

Os inimigos cercam o profeta, mas não cercam a Deus; perseguem o mensageiro, mas não podem aprisionar a mensagem. Deus vê os sentimentos do coração, conhece a verdade escondida e sustenta os seus pobres. Quando tudo parece vacilar, permanece firme aquele que é a rocha dos que nele confiam.

O salmo responsorial prolonga esta confiança: “Atendei-me, ó Senhor, pelo vosso imenso amor!”. O salmista sofre por causa do zelo pela casa de Deus, mas não transforma sua dor em revolta amarga. Ele a converte em oração. Aqui está uma lição preciosa para nós: a dor do discípulo deve ser purificada pela oração, para não se tornar ressentimento; deve ser entregue ao Senhor, para se converter em louvor. As lágrimas que sobem ao céu em forma de oração descem novamente à terra transformadas em esperança.

III. “… o dom gratuito concedido através de um só homem, Jesus Cristo, se derramou em abundância sobre todos nós” (Rm 5,15).

Cristo é o homem novo, o iniciador de uma nova humanidade. Nesta segunda leitura, São Paulo nos ajuda a contemplar a história da salvação a partir do contraste entre Adão e Cristo. Pelo pecado entrou a morte; por Cristo, porém, veio a graça em abundância. O Apóstolo não diminui a gravidade do pecado, mas anuncia algo infinitamente maior: “o dom da graça de Deus” supera a força destrutiva do delito.

Esta palavra, caros irmãos, é decisiva para compreender o Evangelho que ouvimos há pouco. O medo, muitas vezes, nasce da experiência da fragilidade: medo de cair, de não perseverar, de ser julgado, de perder, de sofrer e de morrer. Mas São Paulo recorda-nos que não estamos submetidos ao último poder do pecado. Em Cristo, a graça foi derramada em abundância sobre todos.

A última palavra sobre a humanidade não pertence à culpa, mas à misericórdia; não pertence à morte, mas à vida; não pertence ao medo dos escravos, mas à filiação divina. De fato, “onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm 5,20); onde o homem encontrou o seu limite, Deus manifestou a grandeza do seu amor.

Por isso, a oração sobre as oferendas pede que sejamos purificados pelo sacrifício de louvor e reconciliação, para oferecermos ao Senhor o afeto de um coração que lhe agrade. A Eucaristia não apenas consola os temerosos; ela forma testemunhas, encoraja os mártires. Quem se deixa reconciliar por Cristo aprende a viver diante de Deus com coração livre.

 

  1. Não tenhais medo…” (Mt 10,26).

Esta perícope do Evangelho enche os discípulos de Mateus de vigor e de ardor missionário, visa dar-lhes a coragem do testemunho a que os chama o Senhor Jesus. E o faz mostrando como Jesus repete aos seus discípulos a palavra que atravessa toda a liturgia deste domingo: “Não tenhais medo”. Ele não promete aos apóstolos uma missão sem oposição. Ao contrário, prepara-os para a incompreensão e para a perseguição. Mas ensina que o discípulo não deve organizar a própria vida a partir do medo dos homens.

Há um medo que destrói a alma. Trata-se do medo de confessar abertamente o Nome de Jesus, do medo de viver a verdade, o medo de parecer diferente, o medo de perder prestígio social, vantagens ou aceitação. Este medo nos cala quando deveríamos falar; nos intimida quando deveríamos servir; nos faz negociar a fé quando deveríamos testemunhá-la. Facilmente cedemos, a pretexto de liberdade, a padrões de comportamento social escravos de ideologias no mínimo questionáveis. Por isso, o Senhor nos diz: “O que vos digo na escuridão, dizei-o à luz do dia; o que escutais ao pé do ouvido, proclamai-o sobre os telhados!”.

Que pode fazer o homem contra aquele que está nas mãos de Deus? Pode ferir o corpo, mas não pode tocar a esperança; pode atingir a reputação, mas não pode destruir a verdade; pode impor sofrimentos, mas não pode arrancar do coração a presença de Cristo. É-me particularmente grato recordar uma conhecida exortação espiritual de São Josemaria Escrivá: “Não tenhas medo à verdade, ainda que a verdade te acarrete a morte” (Caminho, n. 34). A Verdade, que é Cristo, nos torna livres.

O cristão não é chamado à arrogância, nem à agressividade, nem ao exibicionismo religioso. É chamado, sim, à humilde firmeza de quem sabe que a verdade recebida não lhe pertence como propriedade privada, mas lhe foi confiada como luz para ser colocada no alto. Testemunhar Cristo é deixar que a fé ilumine a família, o trabalho, a vida pública, as escolhas morais, o uso dos bens e o cuidado com os pobres.

Jesus oferece-nos ainda uma imagem de admirável ternura: os pardais e os cabelos da cabeça. Se nenhum pardal cai por terra sem que o Pai o saiba, se até os cabelos da nossa cabeça estão contados, então nenhuma lágrima, nenhuma fidelidade escondida, nenhuma cruz carregada por amor, nada escapa ao olhar compassivo de Deus nosso Pai.

Conta Deus os cabelos da cabeça e não contaria as lágrimas dos seus filhos? Conhece Ele o voo dos pardais e ignoraria as angústias daqueles por quem entregou o seu Filho? A Providência divina não é uma ideia abstrata; é o cuidado amoroso e pessoal do Pai por cada um de seus filhos.

Voltando à coleta deste domingo, ela nos ensina ver unidas duas atitudes que, à primeira vista, poderiam parecer contrárias: temer e amar o santo nome de Deus. Na realidade, são duas faces da mesma relação filial que se completam com o dom da piedade.

O temor de Deus não é pavor servil, mas reverência amorosa. É a consciência de que Deus é Deus; de que sua verdade não se dobra às nossas conveniências; de que sua vontade é caminho de vida. Quem aprende a temer a Deus corretamente deixa de ser escravo do medo dos homens: abre-se-lhe o princípio da verdadeira sabedoria. Amar o santo nome de Deus é desejar que Ele seja conhecido, honrado e servido. É colocar a própria vida sob o seu olhar. É dizer com Jeremias: “eu te declarei a minha causa”.

Quantas causas entregamos aos tribunais da opinião alheia, da vaidade, da ansiedade e da autopreservação! Quantas vezes buscamos absolvição onde só encontramos aplauso passageiro! Quanta necessidade de validação… que estranha escravidão à opinião alheia! Hoje a liturgia convida-nos a entregar nossa causa ao Senhor, que prova o justo e vê os sentimentos do coração.

Na antífona de comunhão, a Igreja canta: “Os olhos de todos esperam em vós, Senhor, e vós lhes dais alimento no tempo oportuno”; ou ainda: “Eu sou o Bom Pastor. Eu dou minha vida pelas ovelhas”. Aquele que nos envia ao testemunho é o mesmo que nos alimenta. Aquele que nos pede coragem é o mesmo que nos comunica a sua força. A coragem cristã nasce da mesa eucarística, onde o Bom Pastor continua a dar a própria vida pelas suas ovelhas.

Caríssimos amigos, o mundo nunca deixou de conhecer o medo. Mudam os tempos, mudam os perigos, mudam as inquietações; mas o coração humano continua procurando um fundamento que não passe. É precisamente neste mundo, tantas vezes inquieto e inseguro, que Cristo continua a dizer aos seus discípulos: “Não tenhais medo”.

O mundo não necessita de cristãos arrogantes, mas de cristãos convictos; não necessita de vozes estridentes, mas de testemunhas fiéis; não necessita de discípulos acomodados em atitudes ambíguas, mas de homens e mulheres que levem a luz do Evangelho para dentro da vida cotidiana.

Não temamos, portanto, a fidelidade. Não temamos a verdade. Não temamos a cruz. Porque a cruz não é o sinal do abandono de Deus, mas o lugar onde o amor de Deus se manifestou em sua plenitude. É lugar do encontro mais radical entre Deus e a humanidade.

Temamos, antes, perder a alma; temamos esquecer o Evangelho; temamos viver como se não fôssemos amados pelo Pai. Pois quem vive sem a consciência desse amor já experimenta, nesta vida, a mais profunda das pobrezas.

Peçamos, pois, nesta Santa Missa, que o Senhor firme cada vez mais a nossa vida no seu amor. Que Ele purifique o que em nós ainda é tibieza, fortaleça o que em nós é vacilante e ilumine o que em nós permanece obscuro. Que nos conceda a coragem serena dos profetas, a confiança dos pobres do Senhor e a liberdade daqueles que sabem que foram redimidos pelo sangue de Cristo.

E assim, confessando Cristo diante dos homens com humildade e perseverança, possamos ouvir um dia, na alegria do Reino eterno, o próprio Cristo declarar-se a nosso favor diante do Pai que está nos céus.

Pela materna intercessão de Maria, ouviremos do Senhor: “Vinde, benditos de meu Pai…”.

Ó Virgem Santa Maria, Mãe da confiança e Senhora da esperança, vós que permanecestes de pé junto à Cruz, quando os corações vacilavam e o medo dispersava os discípulos, os ensináveis a permanecer firmes na fé e constantes no seguimento de vosso Filho.

Vós que conhecestes as provações da peregrinação terrena, mas jamais duvidastes da fidelidade de Deus: alcançai-nos a graça de confiar na Providência do Pai, que conhece nossas fragilidades, recolhe nossas lágrimas e conta até os cabelos de nossa cabeça.

Quando o medo nos assaltar, recordai-nos que pertencemos a Cristo; quando a verdade exigir testemunho, alcançai-nos coragem; quando a cruz se tornar pesada, ensinai-nos a abraçá-la com amor.

Mãe da Igreja, guardai-nos sob o vosso manto, para que, libertos do temor dos homens e fortalecidos pelo alimento da Eucaristia, saibamos confessar Cristo com humildade, clareza e perseverança.

E, depois de termos servido fielmente ao Senhor neste mundo, conduzi-nos pela mão às alegrias eternas, onde contemplaremos para sempre a face do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.

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A Diocese de Itumbiara foi criada no dia 11 de outubro de 1966, pelo Papa Paulo VI, desmembrada da Arquidiocese de Goiânia; seu território é de 21.208,9 km², população de 286.148 habitantes (IBGE 2010). A diocese conta 26 paróquias, com sede episcopal na cidade de Itumbiara-GO.