A MESA DA PALAVRA – X Domingo do Tempo Comum – Ano A

A MESA DA PALAVRA

X Domingo do Tempo Comum – Ano A
Itumbiara, 7 de junho 2026

Eu não vim para chamar os justos mas os pecadores” (Mt 9,13)

  1. O Senhor é minha luz e salvação, de quem eu terei medo?” (Antífona de Entrada)

Caros amigos, a antífona de entrada deste dia do Senhor alude a Deus como luz de salvação que, de algum modo, ilumina a cena do Evangelho, a vocação do Publicano Levi, depois chamado Mateus. Só Deus pode dar-nos a vocação a uma vida de discípulos do Senhor. A vocação cristã em geral, cada vocação em particular, é um dom tão precioso que nenhuma criatura humana pode atribuir-se. A fonte é a inspiração do Espírito Santo, conforme rezamos na Coleta de hoje: “Ó Deus, fonte de todo o bem, atendei ao nosso apelo e fazei-nos, por vossa inspiração, pensar o que é certo e realizá-lo com vossa ajuda”. A nossa súplica se eleva para que Ele se digne mostrar-nos o caminho sobre todos mais excelente, em que nos encontramos com o Divino Mestre, nossa vida, nossa Luz.

Esta luz faz lembrar o célebre quadro de Caravaggio “A Vocação de Mateus”, que se encontra na Capela Contarelli da Igreja de São Luiz dos Franceses, em Roma, bem perto da Basílica Santa Maria dos Mártires, o Panteão.

Aproximemo-nos da Mesa da Palavra através das Leituras da Liturgia deste domingo para descobrir o que Deus nos pede e o que nos dá.

  1. Quero amor, e não sacrifícios” (Os 6,6)

A vocação é dom e mistério que nunca acabaremos de compreender. Já os profetas da Primeira Aliança perscrutavam o coração de Deus pois “é preciso saber segui-lo para reconhecer o Senhor”. Embora permanecendo dom misterioso, a vocação se desvela no encontro entre o Deus inefável que entra na história humana e a nossa acolhida da sua vinda como aurora de nova luz, como chuva que fecunda a terra do nosso coração.

Os profetas nos ensinam que a fé de Israel vai dando cada vez mais valor aos sacrifícios espirituais enquanto relativiza os sacrifícios cruentos oferecidos por pura obrigação ritual: “Quero amor, não sacrifícios”, diz o Senhor. Nos dias da Quaresma fomos vendo que tipo de jejum Deus aprecia: o jejum do pecado, a abstenção da opressão do irmão, os sacrifícios de louvor, conforme nos testemunha o salmo responsorial. Na nova Aliança o último sacrifício cruento foi o de Jesus na Cruz. Por isso podemos rezar ante o altar de Deus: “Olhai, Senhor, com bondade nossa disposição em vos servir, para que nossa oferenda vos seja agradável e nos faça crescer no amor” (Super oblata). Esta disposição em servir se dá no reto proceder e no uso da misericórdia para com quem passa pela nossa vida arqueado sob o peso da própria fragilidade.

Nós aguardamos assim os juízos de Deus como quem deseja a luz e sabe que Ele é a nossa luz e salvação. Não há por que temer se o que nos pede são sacrifícios de louvor e misericórdia, cobra-nos um reto proceder: “A todo homem que procede retamente, eu mostrarei a salvação que vem de Deus” (Sl 49,23). Com o auxílio da graça eucarística nos tornamos capazes de trilhar o caminho do bem: “Senhor de bondade, a vossa força salvadora nos liberte das más inclinações e nos conduza pelo caminho do bem” (Post communio).

III.Não duvidou por falta de fé, mas revigorou-se na fé e deu glória a Deus” (Rom 4,20).

Paradigma de abandono à vontade de Deus ao se entregar na pronta correspondência ao chamamento de Deus, Abraão é visto como modelo de confiança nas promessas de Deus: “Abraão, contra toda a humana esperança, firmou-se na esperança e na fé” (Rm 4,18). Por sua confiança em Deus, abandonou a terra de seus pais e foi para a desconhecida terra que Deus lhe prometera.

Tendo sido chamado em tarda idade, esperou contra toda humana esperança e não fraquejou na fé. Mesmo com seu físico desvigorado pela idade e com a esterilidade de Sara, confiou e se tornou pai de uma multidão de povos. Sua fé lhe foi creditada como justiça (v. 23) e é chamado por vários povos “nosso pai na fé”. Por isso o Apóstolo declara aos Romanos e a nós hoje que pela fé no mistério pascal, recebemos a graça da justificação, da salvação.

Assim como Mateus, a nossa vida em trevas é iluminada pela fé e revigorada pela esperança que o chamamento de Jesus nos devolve. Somos chamados a uma grande vocação: somos chamados a viver como filhos. Não apenas de Abraão, mas filhos de Deus em Cristo que “me amou e se entregou por mim”.

  1. Não vim para chamar os justos, mas os pecadores” (Mt 9,13)

Caríssimos, contemplemos agora a comovente cena evangélica da vocação de Mateus. Ele é chamado não durante um retiro, nem depois da conversão. Ele ainda está no telônio que o caracteriza como pecador público, como publicano traidor de Israel a serviço do invasor romano. E Jesus passa, fixa o olhar sobre ele e o chama sem fazer nenhuma grande exortação. Disse simplesmente “Segue-me”. Incisivo, lacônico, sem rodeios. E a reação de Levi, o nosso querido São Mateus, foi igualmente resoluta, pronta e sem rodeios: “Ele se levantou e seguiu a Jesus”. Não redarguiu Jesus. Simplesmente convencido pela luz do olhar do Divino Mestre abandonou o seu telônio e sai da traição dos irmãos para a fidelidade ao Senhor.

Jesus, por sua Cruz, é a glória do Pai. A Cruz é o instrumento da misericórdia e da nossa salvação. com efeito, como dizia Ireneu de Lião: “Gloria enim Dei vivens homo, vita autem hominis visio Dei (Adversus haereses, IV, 20,7).

Também a nossa misericórdia agrada mais a Deus do que qualquer soberbo, inflexível e estéril rigorismo. Se somos sinceros na presença de Deus, percebemos facilmente a nossa fragilidade, reconhecemos a nossa necessidade de perdão e de cura para as nossas profundas e largas chagas abertas em nossas almas por causa dos nossos pecados.

No banquete de Jesus com os pecadores nos sentimos incluídos. Muito mais salutar é reconhecermos ser pecadores no festim com Jesus do que sermos dele excluídos por nos reputarmos os juízes da impureza alheia, como os fariseus. Nesse banquete, de algum modo está prefigurado o Sagrado Banquete da Eucaristia, onde também nós encontramos graça e misericórdia.

Também a arte nos ajuda a contemplar a vocação de Mateus.

Caravaggio, em sua célebre pintura “A Vocação de São Mateus”, não retrata apenas um episódio do passado; ele nos introduz no drama de toda vocação cristã. A cena acontece numa coletoria de impostos, ambiente marcado pelo dinheiro, pelos interesses e pelas ambiguidades humanas. É justamente ali que Cristo entra. Não espera que Mateus abandone primeiro sua condição de pecador para depois chamá-lo; ao contrário, chama-o exatamente onde ele está.

Um feixe de luz atravessa a escuridão da sala. Não é uma luz natural, mas o símbolo da graça que invade a existência humana. Ela alcança Mateus quando este ainda está sentado à mesa dos impostos. O Evangelho e a pintura concordam num ponto essencial: a conversão começa pela iniciativa de Deus.

Particularmente eloquente é o gesto da mão de Jesus. Inspirada na mão criadora da Capela Sistina, ela sugere que o chamado de Cristo é uma nova criação. Ao dizer “Segue-me”, Jesus não apenas convida Mateus a mudar de vida; recria-o interiormente pela misericórdia.

Por isso, o mais belo da pintura talvez seja a expressão de espanto de Mateus. Com o dedo apontado para si mesmo, ele parece perguntar: “Eu?”. É o assombro de quem se sabe pecador e, apesar disso, se descobre amado e escolhido. A misericórdia sempre começa com esta surpresa: Deus vê em nós mais do que nossos pecados; vê aquilo que sua graça pode realizar.

Neste domingo, a Palavra de Deus nos recorda: “Misericórdia quero, e não sacrifício”. Cristo continua entrando nas nossas coletorias, nas nossas seguranças e apegos, nas sombras do nosso coração. Continua estendendo a mão e derramando a sua luz. Não respondamos como quem se julga justo e não necessita de cura. Respondamos como Mateus: levantemo-nos de onde estamos e sigamos Aquele que nos chama, porque a misericórdia de Deus é sempre maior do que o nosso passado e capaz de inaugurar uma vida nova.

Ao recebermos a Santa Comunhão, receberemos a graça para lutar contra o pecado e viver sob a luz de Cristo, como Mateus a partir daquele dia.

Que a Virgem Maria nos ajude a procurar, ou ainda melhor, a nos deixarmos encontrar por Aquele que nos disse um dia: “Segue-me”.

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