A MESA DA PALAVRA
Domingo do Batismo do Senhor
Itumbiara, 11 de janeiro de 2026
“Este é o meu Filho amado, no qual pus o meu agrado” (Mt 3,17)
Caros amigos,
Hoje, com a festa do Batismo do Senhor, a Liturgia da Igreja encerra o tempo forte do Natal e celebra o início do ministério público de Jesus. Agora, Jesus é declarado Filho muito amado e ungido pelo Espírito Santo para prosseguir no “tempo comum” a pregação do Reino acompanhada “de sinais admiráveis” (Prefácio).
Neste ano jubilar, em que celebramos os 60 anos de fundação da nossa Diocese, exultamos de alegria pelas maravilhas do Mistério da Encarnação já bem antes proclamado em nossas terras goianas. Desde que as águas do batismo, pelas mãos dos primeiros missionários, chegaram a estas terras goianas, a nossa vida cristã transcorre normalmente nas coisas mais corriqueiras da vida quotidiana, enriquecidas pela presença de Deus na nossa história. Por isso não nos cansamos de dar graças a Deus por tudo o que Ele fez através dos missionários da Igreja nestas terras e por todas as bênçãos que a sua bondade derramou através da Diocese de Itumbiara, desde os inícios, com o nosso primeiro bispo Dom Velloso de venerada memória, até os dias de hoje.
- “Hoje nas águas do rio Jordão, revelais o novo Batismo, com sinais admiráveis” (do Prefácio).
O Batismo de Jesus no Jordão é um dos momentos essenciais na vida terrena do Senhor. Este acontecimento singular assinala o termo da vida de silêncio e escondimento em Nazaré e inaugura o Seu ministério público, preanunciando e preparando o Seu Batismo “na morte” (Lc. 12, 50; Mc. 10, 38).
A breve vida pública de Jesus se enquadra historicamente entre dois batismos. O primeiro é o lavacro de penitência no Jordão, que de algum modo encerra o itinerário que o Servo de Javé percorrerá para completar a Sua obra. O segundo batismo é aquele que constituirá Jesus como vítima e pedra angular do novo mundo – o batismo do Calvário, no qual sangue e água brotarão do Seu lado (Jo. 19, 34 e ss.).
O rito batismal de João procurava levar os homens ao arrependimento e à conversão, em vista da proximidade dos tempos messiânicos. Ao se submeter a este rito Jesus deseja sujeitar-Se à Vontade do Pai (Mt 3, 14 e ss.) e 2) e colocar-se humildemente entre os pecadores, Ele que é o “Cordeiro de Deus” que haveria de tirar o pecado do mundo (Jo 1, 29). Mas também sabemos que foi o Pai quem escolheu este momento para ungir Jesus com Espírito Santo e fortaleza e conferir-Lhe a investidura na sua missão Messiânica cumprindo as profecias do A.T.
No Batismo do Jordão, com a vinda do Espírito Santo já se entrevê o Pentecostes, que inaugurará o Batismo no Espírito para a Igreja (At 1, 5; 11, 16) e para todos aqueles que nela entrarem. No Batismo de Jesus está, de algum modo, prefigurada toda a Igreja dos batizados, a congregação dos redimidos.
Ano passado, por ocasião desta festa, dizia que “viver na presença de Deus na vida ordinária comporta dois aspectos complementares: um aspecto interior ou contemplativo e outro mais exterior ou apostólico”. Em Jesus vemos o modelo daquele que, “sem deixar a visão do Pai, entra na nossa história para anunciar o Reino e pregar a conversão para uma vida nova”. O Batismo da Cabeça, que é Cristo, nos revela o novo Batismo, o Batismo do novo Povo de Deus. Com efeito rezamos hoje: “pela voz descida do céu, fazeis o mundo acreditar que o vosso Verbo habita entre os homens” (Prefácio).
A unção com o óleo da alegria recebida por Jesus naquele glorioso dia, o assinalou como Servo sofredor e como Messias, Ungido para “evangelizar os pobres”. Ele o faz por si próprio no seu ministério público que inicia, mas também através da Igreja que recebe da sua unção pelas águas do Batismo e a unção com o Santo Crisma.
Grande, irmãos, é o mistério que hoje celebramos. Grande é a nossa alegria. Imensa a dignidade de nossa vocação a sermos membros de Cristo na Santa Igreja.
- “Eis o meu servo … pus o meu espírito sobre ele” (Is 42,1)
A leitura de Isaías 42, que a liturgia nos apresenta hoje, é um trecho do Primeiro Canto do Servo do Senhor. Aqui aparece uma figura decisiva na intervenção de Deus na história humana: “o Servo do Senhor”. Ele exerce protagonismo na manifestação e na realização dos desígnios de salvação.
Mas como aparece o Servo neste primeiro canto do Servo? O modo como é apresentado permite ver nele uma dúplice imagem. Aqui (vv. 1-9), a figura do “Servo” permanece envolta em certo mistério. Tem qualidades excepcionais, universais e transcendentes (v. 19); mas atua com humildade (v. 2–3a). Logo a seguir se apresenta como aquele que tem a força para “estabelecer o direito na terra” e é “luz das nações” (vv. 3b–7). Ele é o taumaturgo que abre os olhos dos cegos e o redentor que liberta os prisioneiros do cárcere. O servo pode assim atuar porque o Senhor “pôs sobre ele o seu Espírito” (v. 1). Ele é o ungido, o escolhido por Deus e sua missão é sustentada pelo Espírito do Senhor
No entanto, também pode representar no Servo o próprio povo de Israel (cf. 41,8), povo que foi eleito para para dar testemunho, de forma pacífica, da Lei recebida do Senhor diante de todos os povos, escolhido para ser sacramento universal de salvação. É imagem de um sujeito individual, de uma pessoa concreta, que, ao mesmo tempo simboliza todo o povo de Israel. Jesus mesmo se apresentou com os traços do Servo sofredor. Mais tarde, João o apontará como o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”.
III. “Deus o ungiu com o Espírito Santo” (At 10,37).
O Espírito do Senhor desceu sobre Jesus na hora do Batismo e o ungiu para que Ele pudesse começar o seu ministério e, por Ele, os homens fossem também batizados não apenas na água, mas na água e no Espírito. A unção que o Espírito Santo confere a Jesus na hora do seu batismo marca-o como “o Ungido”, isto é, como o Messias ou o Cristo esperado pelo povo de Deus e destinado a salvar a humanidade inteira, sem acepção de pessoas.
Jesus torna-se a fonte da graça com que o mesmo Paráclito marcará os cristãos como outros cristos, ungidos como membros de Cristo, sua Cabeça. Resgatados pelas águas do Batismo, ungidos com a unção do óleo da alegria, consagrados com o santo Crisma, os cristãos assumem a missão de Cristo: “Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré, que passou fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo demônio, porque Deus estava com Ele” (At 10,38).
Sim, ao recebermos os sacramentos da iniciação cristã, somos ungidos com o caráter batismal e crismal, somos incorporados plenamente na Igreja e em Cristo sua cabeça, para vivermos “uma vida escondida com Cristo em Deus” e proclamarmos as maravilhas do Senhor realizadas na criação, na redenção e na recapitulação de todas as coisas em Cristo.
- “Depois de ter sido batizado, Jesus viu o Espírito Santo descer sobre Si” (Mt 3,16).
Os Evangelhos e os Atos dos Apóstolos revelam-nos o sentido pleno do texto de Isaías acerca da identidade do Servo. A leitura cristã desde cedo vê nos cantos do Servo uma profecia messiânica que se cumpre plenamente em Jesus Cristo. Assim, o Servo é o Messias prometido, não representado como rei conquistador, mas como Salvador que trabalha e sofre. Deus o escolheu, e a sua missão será marcada pela mansidão, pela fidelidade e pela constância, que acabarão por ser coroadas pelo êxito (cf Bíblia de Navarra). Por isso Jesus é objeto da plena complacência do Pai, que, na unidade do Espírito Santo, é verdadeiramente luz para todas as nações e libertador de todos os oprimidos.
Assim, o Batismo de Jesus nos mostra a plena realização das profecias sobre o Servo, sobre o Messias, o enviado por Deus para anunciar o Reino e dar a vida por nós homens e para a nossa salvação. Por isso, dirá São Justino, comentando os versículos de Is 42,6-7: «Haec omnia, amici, de Christo et de gentibus ab eo illuminatis dicta sunt» (Dialogus cum Tryphone, 122,2). (“Todas estas coisas, amigos, se dizem de Cristo e dos povos por ele iluminados”).
A missão de Jesus como “Servo sofredor”, iniciada no Batismo no Jordão (cf. Mt 3,17), reaparece na narrativa de Mateus ao descrever a oposição que Ele encontra entre alguns chefes judaicos, culminando de modo eminente na sua paixão e morte (cf. Mt 27,30).
Por outro lado, a expressão “luz das nações” (v. 6) encontra eco nas palavras que o próprio Jesus aplica a si mesmo: “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8,12), bem como no Benedictus de Zacarias (Lc 1,78-79). Em outro momento, Jesus evoca as imagens do versículo 7 para responder aos discípulos de João Batista, quando estes lhe perguntam se Ele é “aquele que havia de vir” (cf. Mt 11,4-6; Lc 7,18-22; cf. nota a Is 29,15-24).
Aquele que João Batista anunciava, como o que havia de vir depois de si e que havia de batizar no Espírito Santo, aparece, hoje, entre os seus discípulos, a descer à água no meio dos pecadores e a pedir, como eles, o batismo.
Assim, descendo à água, Jesus afirma-Se como membro da raça humana pecadora. Mas, ao subir da água, os céus abrem-se e o Espírito Santo desce sobre Ele, ungindo-O como a Servo de Deus que vem tomar sobre Si, para o tirar pecado do mundo; a voz do Pai declara-O seu Filho muito amado, o Homem Novo, autor da nova criação. E Ele aparece como Verbo que está entre os homens, reconhecido como Messias enviado para anunciar a boa nova aos pobres. Assim, o Batismo lança Jesus no caminho da Páscoa.
A Igreja, no Concílio Vaticano II, reconhece a sua responsabilidade de trabalhar para que Cristo se manifeste verdadeiramente como “luz das nações” (v. 6) em todos os tempos e lugares: “Cristo é a luz dos povos. Por isso, este sacrossanto Sínodo, reunido no Espírito Santo, deseja ardentemente iluminar todos os homens com a luz de Cristo, que resplandece no rosto da Igreja, anunciando o Evangelho a toda criatura (cf. Mc 16,15)” (Lumen gentium, 1).
Irmãos, ao recordar o nosso batismo com a aspersão da água e com a profissão de fé, desejo convidá-los a acompanhar este ano as catequeses do Papa Leão XIV sobre o Concílio Vaticano II, para descobrirmos nos textos conciliares os tesouros da tradição proclamados com uma linguagem próxima de nós, voltada à evangelização, que permite reconhecer na Igreja o sacramento universal de unidade do gênero humano em Cristo.
Encerrado do tempo do Natal, abracemos a nossa fé batismal e lancemo-nos às águas mais profundas para a pesca milagrosa. Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo.

