A Mesa da Palavra – Epifania do Senhor

A MESA DA PALAVRA
EPIFANIA DO SENHOR
Itumbiara, 4 de janeiro de 2026

“Todos os reis se prostrarão diante dele, as nações o servirão” (Sl 72, 11)

Caros amigos,

  1. É chegado o Senhor Soberano; nas Suas mãos está a realeza, o poder e o império” (Intróito)

Antes de ser acolhida em Roma, no século IV, a Festa da Epifania já se celebrava no Oriente e em algumas Igrejas do Ocidente. Parece ter tido por origem uma festa do Natal; o dia 6 de janeiro era para essas Igrejas mais ou menos o que o Natal, 25 de dezembro, é para a Igreja romana.

A Epifania (palavra grega que significa “manifestação”, aparição) complementa o Mistério do Natal. Na Natividade do Senhor celebramos Deus que, para nos salvar, se esconde e se humilha ao assumir a nossa natureza humana. Na Epifania, por sua vez, celebramos a manifestação do Senhor Jesus como Deus e Rei de todos os povos, exaltamos a sua glória divina e a contemplamos fulgurante no rosto da Igreja. A antífona de entrada da Missa introduz-nos diretamente neste ambiente espiritual, apresentando-nos Jesus no esplendor real da Sua divindade: “É chegado o Senhor Soberano; nas Suas mãos está a realeza, o poder e o império” (cf. Mal 3,1; 1 Cron 19,12).

Com esta festa, a Igreja celebra hoje a manifestação de Nosso Senhor ao mundo inteiro e o grau de esplendor do mistério da Encarnação. “Tendo a misericordiosa Providência de Deus decidido vir nos últimos tempos em socorro do mundo perdido, determinou salvar todos os povos em Cristo” (São Leão Magno, Homilia 3 in Epiph.).  Toda a tradição cristã viu nos Magos, que correm pressurosos para adorar o Menino, as primícias da gentilidade, dos pagãos que acolhem Jesus mediante a fé.  “Esses povos formam a incontável descendência outrora prometida ao Patriarca Abraão; descendência gerada não segundo a carne, mas pela fecundidade da fé” (ibid).

Os Magos, portanto, representam de algum modo todos os povos e, por isso, ao visitar o Presépio como adoradores, refletem o mistério da salvação que abarca toda a história do mundo e coloca em evidência a universalidade da missão de Cristo e da Igreja. É um grande mistério de que os Magos indicaram o começo, mas que continua a desenrolar-se à medida que a Igreja se expande: a salvação é destinada a todos os homens e “o Amor quer ser amado” por gente de todas as raças e nações. E o mesmo Papa São Leão proclama “Que todos os povos, representados pelos três Magos, adorem o Criador do universo; e Deus não seja conhecido apenas na Judéia mas no mundo inteiro, a fim de que por toda parte o seu nome seja grande em Israel (Sl 75,2)” (Homilia 3 in Epiph).

São Leão Magno não deixa de se referir a este ponto: “Alegrai-vos no Senhor, porque, poucos dias após a solenidade do Natal de Cristo celebramos a festa da Sua manifestação; e Aquele que a Virgem dera à luz naquele dia, é hoje reconhecido pelo mundo” (Homilia 32,1). Hoje, Jesus manifesta-Se e é reconhecido na sua humanidade santíssima como Deus e Senhor.

São ainda os frutos e consequências do Mistério da Encarnação que a Igreja canta na Antífona das II Vésperas juntando à vocação dos Magos a sua união com Cristo prefigurada pelas bodas de Caná e o batismo dos seus filhos, anunciado pelo do Senhor nas águas do Jordão. “Recordamos neste dia três mistérios: Hoje a estrela guia os Magos ao presépio. Hoje a água se faz vinho para as bodas. Hoje Cristo no Jordão é batizado para salvar-nos. Aleluia, aleluia” (Liturgia das horas).

  1. Brilha sobre ti a glória do Senhor” (Is 60,1)

O profeta anunciou outrora a glória que ia brilhar sobre Jerusalém depois dos tempos do cativeiro. Este hino de glória já anuncia a vocação de todos os povos à fé no Deus único, ou seja, manifesta o caráter universal da mensagem evangélica pelo qual também os pagãos são chamados à salvação. Para eles Cristo não é apenas o Messias do Antigo Testamento, ligado tão somente às esperanças de um único povo de Israel. É antes o Messias vindo para todos os homens, que de uma maneira ou outra o esperam, antes o buscam. E eles hão de reconhecer e adorar em Jesus o seu único e verdadeiro Deus: «Ergue-te, Jerusalém, e sê iluminada, que a tua luz desponta e a glória do Senhor está sobre ti… à tua luz caminharão os povos e os reis ao clarão da tua aurora… Todos virão de Sabá, carregados de ouro e de incenso e a cantar as glórias do Senhor» (Is 60, 1.6).

Nos acontecimentos de Belém as profecias se cumprem e se superam. Na profecia de Isaías, os pagãos trazem de Sabá ouro e incenso, reconhecendo a realeza e a divindade… No presépio, os Magos reconhecem a realeza com o dom do ouro, a divindade com o incenso. Mas reconhecem misteriosamente que a divindade encontrou a humanidade. Na mirra reconhecem que aquele Menino, Deus e Rei, é capaz de morrer e de levantar-se da morte.

À volta do presépio, portanto, já não se contempla a presença humilde dos pastores, mas sim a régia comitiva dos Magos, vindos do Oriente, guiados pela estrela, para prestar homenagem ao Menino Deus. Diante do Rei dos Reis, eles representam todos aqueles que não pertenciam ao Seu povo. Jesus não veio apenas para a redenção de Israel. Ele se encarnou para que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade.

III. Os gentios recebem a mesma recompensa prometida

Mistério é a palavra com que o Apóstolo designa aqui o plano eterno de Deus. Só em Jesus Cristo Deus revelou completamente o seu plano de salvação acerca da humanidade. O Concílio Vaticano II nos ensina que “Ele instituiu a Nova Aliança, no Seu sangue, chamando o Seu povo de entre os judeus e os gentios para formar um todo… e constituísse o Povo de Deus” (LG. 9). S. Paulo fala também deste sublime mistério que ele teve a missão de anunciar ao mundo: “os gentios recebem a mesma herança, pertencem ao mesmo Corpo e beneficiam da mesma promessa em Cristo Jesus, por meio do Evangelho” (Ef 3, 6).

A festa da Epifania, a primeira manifestação e concretização deste mistério, anima todos os fiéis a partilhar os anseios e as fadigas da Igreja, a qual “simultaneamente ora e trabalha para que toda a humanidade se transforme em Povo de Deus, Corpo do Senhor e templo do Espírito Santo” (LG. 17).

Unidos ao ardor missionário que Deus suscitou no Apóstolo dos Gentios, desejamos que a nossa oração e o nosso zelo apostólico apressem o dia em que a luz da fé brilhará para todos os povos, a fim de que cheguem ao conhecimento “da insondável riqueza de Cristo” (Ef 3, 8) e nEle adorem o único Deus verdadeiro.

  1. Vimos a Sua estrela no Oriente e viemos adorar o Senhor” (Mt 2,2).

Como sabemos, tudo isto se realizou quando os três Magos, chamados de seu longínquo país, foram conduzidos por uma estrela, para irem conhecer e adorar o Rei do céu e da terra. O serviço prestado por esta estrela nos convida a imitar a sua obediência, isto é, servir com todas as forças essa graça que nos chama todos para Cristo” (S. Leão Magno, ibid).

No verso da aclamação ao Evangelho da missa de hoje se vê uma belíssima síntese do comportamento dos Magos, que Pe. Gabriel de Santa Maria Madalena assim explica: “Divisar a estrela e pôr-se prontamente a caminho, constituiu a sua única preocupação. Eles não duvidaram, porque a sua fé era sólida, firme. Não titubearam ante a fadiga de tão longa viagem, porque o seu coração era generoso… Não adiaram a viagem para mais tarde, porque tinham alma decidida.

No céu das nossas almas, com frequência aparece também uma estrela misteriosa: é a inspiração íntima e clara de Deus que nos pede algum ato de generosidade, de desapego, ou que nos convida a uma vida de mais intimidade com ele. Se nós seguíssemos essa estrela com a mesma fé, generosidade e prontidão dos Magos, ela conduzir-nos-ia ao Senhor, fazendo-nos encontrar Aquele a quem procuramos.

Os Magos continuaram à procura do Menino, mesmo durante o tempo em que a estrela se ocultou aos seus olhares; também nós devemos perseverar na prática das boas obras, mesmo durante as mais obscuras trevas interiores: é a prova do espírito que somente pode ser superada num intenso exercício de fé. Sei que Deus assim o quer – devemos repetir nesses momentos –, sei que Deus me chama e isto basta: “Sei em Quem pus a minha confiança” (2 Tim 1, 12); sei muito bem em que mãos me coloquei e, apesar de tudo o que possa acontecer-me, jamais duvidarei da Sua bondade

Animados com estas disposições, corramos nós também com os Magos à gruta de Belém: “E, tal como eles, nos seus tesouros ofereceram ao Senhor místicas dádivas, também, do íntimo dos nossos corações, se elevem oferendas dignas de Deus” (S. Leão Magno, Homilia).

Caros irmãos, apressemo-nos a visitar uma vez mais o presépio. Com os olhos fixos em toda a cena, rezemos confiantes com as palavras do mesmo Santo Doutor:

Senhor, que neste dia revelastes o Vosso Filho Unigénito aos gentios guiados por uma estrela, a nós que já Vos conhecemos pela fé, levai-nos a contemplar face a face a Vossa glória. Ó Senhor, reconheço nos Magos que Vos adoraram, as primícias da nossa vocação e da nossa fé e celebro, com a alma comovida, o princípio da nossa feliz esperança. Foi então quando começamos a entrar na posse da nossa herança eterna. Abriram então para nós os mistérios das Escrituras que nos falam de Vós e a Verdade, rejeitada pela cegueira dos judeus, difundiu a sua luz sobre todos os povos. Quero, pois, venerar este santíssimo dia em que Vós, autor da nossa salvação, Vos manifestastes; e adoro a omnipotência dAquele que os Magos veneraram recém-nascido no presépio. E, tal como eles Vos ofereceram os dons tirados dos seus tesouros misticamente significados, assim eu quero tirar do meu coração dons que sejam dignos de Vós, meu Deus”.

Que neste ano jubilar da Diocese de Itumbiara, a intercessão de Santa Rita, nossa amada Padroeira, nos ajude a reconhecer sempre no Filho de Maria a Manifestação da Divindade unida à humanidade. Acorramos com louvores para adorá-lo com o ouro da nossa pobreza, o incenso da nossa adoração e a mirra da nossa esperança.

            Louvado Seja nosso Senhor Jesus Cristo!

 

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A Diocese de Itumbiara foi criada no dia 11 de outubro de 1966, pelo Papa Paulo VI, desmembrada da Arquidiocese de Goiânia; seu território é de 21.208,9 km², população de 286.148 habitantes (IBGE 2010). A diocese conta 26 paróquias, com sede episcopal na cidade de Itumbiara-GO.