A Mesa da Palavra – Ordenação Presbiteral do Diácono André Luiz de Souza Alves, SCJ

A MESA DA PALAVRA
Ordenação Presbiteral do Diácono
André Luiz de Souza Alves, SCJ
Itumbiara, 20 de dezembro de 2025

 

“Miserando atque eligendo”

(São Beda, o Venerável)

 

Caríssimos Padres Dehonianos

Prezados familiares e amigos do Diac. André,

Diletos e venerados irmãos no sagrado ministério,

Irmãos e irmãs mui amados,

Celebramos hoje, no coração da Igreja reunida em oração, o mistério do sacerdócio ministerial que, pela imposição das mãos e pela oração consecratória, será confiado ao nosso caríssimo Diácono André. As orações do rito da ordenação presbiteral e a mesa da Palavra oferecem luzes para contemplar o dom e o mistério do sacerdócio católico. Deixemo-nos guiar pela oração da Igreja para saborear a Palavra proclamada.

  1. … instituístes o ministério dos sacerdotes” (da Coleta)

O sacerdócio é obra do amor de Deus, é dom gratuito concedido à Igreja para a edificação do Seu povo. A hodierna solene liturgia assim reza: “Do coração do vosso Filho Jesus Cristo, eterno sacerdote, servo obediente e pastor dos pastores, brotam todos os ministérios na viva tradição apostólica do povo peregrinante no tempo” (Prefácio).

Nem a eternidade seria suficiente para agradecer ao Senhor o dom do sacerdócio. Mas na história essa gratidão deve manifestar-se na devida reverência, na filial docilidade aos sacerdotes e sobretudo na oração assídua pelas vocações e pela santificação do clero.

Ouçamos uma vez mais a oração Coleta: “Senhor nosso Deus, para governar o povo que vos pertence, instituístes o ministério dos sacerdotes; concedei a este diácono da vossa Igreja, que hoje escolhestes para o múnus do presbiterado, a graça de sempre vos servir, segundo a vossa vontade e, por seu ministério e sua vida promover a vossa glória em Cristo”.

Caríssimos, como é bela esta verdade, como é profunda a oração da Igreja! Ela pede ao Pai que consagre o novo presbítero com a graça de sempre servir ao Senhor segundo a Sua vontade. Roga também que ele promova a glória de Deus em Cristo por meio do seu ministério e de sua vida. Tudo é do Pai, tudo dEle provém, tudo é para o serviço do Seu povo, tudo pelos pobres, tudo enfim é para a maior glória de Deus.

Mediante a imposição das minhas mãos e a invocação do Espírito Santo, o Diácono André é constituído presbítero para continuar a missão que Cristo confiou aos Apóstolos. Assinalado com o caráter indelével do sacramento da ordem, o novo presbítero recebe a faculdade de agir in persona Christi Capitis para anunciar o Evangelho, celebrar o mistério pascal e cooperar com os bispos no governo da Igreja.

O sacerdócio que hoje a Igreja lhe confere não é uma honraria ou uma dignidade meramente hierárquica. Ele é enviado ao povo de Deus não para dominar, mas para servir; não para se colocar acima dos irmãos, mas para ajoelhar-se diante deles e lavar-lhes os pés, para curar as suas feridas e sanar as suas enfermidades, para alimentar o povo de Deus na mesa eucarística e na mesa da caridade. Numa palavra, o novo padre é chamado a exercer o seu ministério na autoridade de Cristo, que “não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos” (Mt 20,28).

  1. Eu mesmo vou apascentar as minhas ovelhas e fazê-las repousar” (Ez 34,15)

A perícope de Ezequiel proclamada hoje também se lê na Solenidade do Coração de Jesus (ano A). Ela é extraída da terceira parte do livro de Ezequiel, no assim chamado “corpo das Promessas Consoladoras”. Ao identificar a causa das graves injustiças sociais na realeza infiel e nos privilégios acumulados, o profeta fala duramente contra os maus pastores.  E em patente contraste com os maus pastores, o próprio Deus apresenta-Se como o verdadeiro e único Bom Pastor das ovelhas da casa de Israel.

A belíssima imagem do bom pastor revela o amor de Deus pelo seu povo: um amor cheio de ternura e proximidade que salva mesmo aqueles que não O amam. O bom Deus revela que cuidará pessoalmente de suas criaturas: “Como o pastor toma conta do rebanho, de dia, quando se encontra no meio das ovelhas dispersas, assim vou cuidar das minhas ovelhas …” (Ex 34,15-16).

À luz desta profecia, compreendemos mais profundamente o ministério que hoje a Igreja confia, pela ordenação, a este eleito. Por entre as agruras da vida do nosso povo Deus continua a falar e a agir por meio do ministério ordenado. Ele se vale dos lábios do sacerdote e também do seu silêncio orante; de suas mãos operosas na caridade; de seus passos que se dirigem aos que sofrem, para alcançar o coração das ovelhas tresmalhadas e para edificar continuamente o povo santo de Deus.

Querido filho André, é o Coração amantíssimo de Jesus que aplica a Si a imagem do Bom Pastor. Ele comunica aos sacerdotes a missão de consolar, reunir e sustentar o seu povo. Diante do vasto panorama do sofrimento humano, toma para ti as palavras do Senhor, que doravante deverão inspirar o teu agir sacerdotal: “Eu mesmo vou apascentar as minhas ovelhas e fazê-las repousar. Vou procurar a ovelha perdida, reconduzir a extraviada, enfaixar a da perna quebrada, fortalecer a enferma, e vigiar a ovelha gorda e forte”. Recorda-te de Santo Agostinho: “Sê o pastor modelo do rebanho, não apenas pela palavra, mas também pela vida” (Sermo 46).

III.Ai de mim se eu não pregar o Evangelho” (I Cor 9,16).

São Paulo fala da missão de evangelizar como exigência que se lhe impõe. Não se trata de um peso, mas de uma necessidade imperiosa que brota da alma do apóstolo. Paulo conecta ainda o serviço da mesa da Palavra com a pobreza daquele que não tinha onde reclinar a cabeça: “livre em relação a todos, eu me tornei escravo de todos, para ganhar o maior número possível” (I Cor 9,19). O sacerdote que se consagra ao anúncio do Evangelho, “oferecendo-o de graça” que de graça o recebeu, descobre a beleza da gloriosa liberdade do evangelizador. Quanta credibilidade nos dá o conselho evangélico da pobreza, que os Dehonianos assumem mediante a profissão religiosa!

Para viver a pobreza em todo o seu esplendor, o sacerdote deve ter coração indiviso e o corpo casto. Deve cultivar a permanente prontidão para acolher na obediência a vontade do Senhor, conforme o discernimento da Igreja. A obediência é fruto da perscrutação orante da vontade de Deus, está na raiz do ardor missionário. A obediência e a docilidade ao Espírito que fala à Igreja, continuam a forjar santos pastores e religiosos entregues à vontade de Deus.

É preciso viver uma ascese continua, exercer uma vigilância constante sobre as exigências do ministério ordenado e da vida consagrada: “Todo atleta se sujeita a uma disciplina rigorosa em relação a tudo, e eles procedem assim, para receberem uma coroa corruptível. Quanto a nós, a coroa que buscamos é incorruptível” (I Cor 9,25). Na vida do sacerdote, caros irmãos, não há lugar para tibieza. Sabemos o que diz o Apocalipse sobre os mornos. Lembremo-nos da forte expressão da Escritura: “Confortare et esto vir” (1 Rs 2,2). Nessa mesma linha, Paulo nos ensina o segredo dos evangelizadores santos: “Trato duramente o meu corpo e o subjugo, para não acontecer que, depois de ter proclamado a boa-nova aos outros, eu mesmo seja reprovado” (I Cor 9,27). A fortaleza é um dom do Espírito mas é também uma virtude cultivada com a ascese. Ela nos torna capazes de nutrir a esperança mediante um sadio combate espiritual que não pode ceder lugar à moleza. As páginas das Escrituras estão repletas de exemplos de homens viris, fortes, intrépidos no serviço do Senhor.

Contudo, caro André, não te assustem as tuas fragilidades… Aquele que nos chamou ao seguimento sabe de que barro somos feitos. E nos deixa os remédios necessários. Os sacerdotes podem perdoar os pecados, mas também podem recorrer ao perdão. Na Eucaristia consagramos o Pão dos Anjos para a Igreja, e dele somos os primeiros a nos alimentarmos. A fragilidade pode ainda aparecer na forma de tentação autoritária. Precisamos então suplicar as luzes do Espírito Santo. Ele nos fará ver de novo que a autoridade ministerial serve aos pastores para que conduzam e animem o povo no seguimento de Jesus Cristo.

Quando surgirem problemas, será preciso agir com moderação e sabedoria, apoiando-nos na prudência, virtude própria do bom governante. Sim, é verdade que a autoridade vem de Deus e é dada ao sacerdos Dei et Christi (Carta 63), mas é preciso reconhecer que se trata de uma autoridade vigária, ordinatio vicaria, em lugar de, de quem faz as vezes de, pois ela vem de Deus e continua a pertencer a Ele.

  1. “Segue-me”.

Jesus viu o publicano, o colaboracionista dos invasores romanos na cobrança de impostos, deteve-se diante dele e o chamou: “Segue-me”. Se fôssemos encarregados daquela “pastoral vocacional” tão especial, provavelmente teríamos desviado o caminho para evitar passar perto do pecador público. Afinal ele não era digno das nossas fileiras. Mas Jesus “viu-o não tanto com os olhos corporais, quanto com a vista da íntima compaixão” (São Beda, Homilia 21). E prossegue: “Viu o publicano, dele se compadeceu e o escolheu (miserando atque eligendo)”.

Mateus seguiu Jesus abandonando a sua coletoria de impostos, não apenas pondo os pés na estrada. Jesus diz “segue-me” convidando Mateus a imitá-l’O pela realização de atos próprios de um discípulo. Mateus passa então a “amar como Jesus amou / Sonhar como Jesus sonhou / Pensar como Jesus pensou / Viver como Jesus viveu” (Pe. Zezinho).

Sobre a prontidão de Mateus para levantar-se e seguir a Jesus, assim glosa S. Beda: “Não é de admirar que o publicano, ao primeiro chamado do Senhor, tenha abandonado os lucros terrenos de que cuidava e, desprezando a opulência, aderisse aos seguidores daquele que via não possuir riqueza alguma”. Jesus insinuou no coração daquele homem a existência de um tesouro que só a pobreza evangélica consegue conquistar. “Com esta graça espiritual compreenderia que quem o afastava dos tesouros temporais podia dar-lhe nos céus os tesouros incorruptíveis” (S. Beda). Com a luz de Cristo expressa nos conselhos evangélicos, o ministério sacerdotal ganha uma peculiar eficácia, a eficácia da μαρτυρία religiosa iluminada pelo carisma da família Dehoniana. Imaginemos por um instante a vocação de Mateus retratada na belíssima tela de Caravaggio (1599-1600). Nela entrevemos a força interior e sobrenatural da luz da vocação ao sagrado ministério na vida religiosa.

            A adoração eucarística diária é um tesouro que a Igreja coloca nas tuas mãos, caro André, para não perderes a força espiritual daquele momento fastigioso que foi a iluminação vocacional. A fidelidade ao sacrificium laudis da Liturgia das Horas te ajudará a manter os propósitos de fidelidade ao sacerdócio e à consagração religiosa ao Coração de Jesus.

Caro André, fixa bem no teu coração: infinita é a misericórdia do Senhor que, ao nos redimir, nos escolhe e nos envia em missão, sempre nos chamando de volta para descansar com Ele num lugar apartado. Sabendo quem havíamos de ser, Ele nos quis. A nossa inadequação não O impede de nos chamar, antes se torna ocasião de manifestação de Sua misericórdia e de Sua glória. Ele nos escolhe e envia como seus embaixadores para proclamar ao mundo: “Reconciliai-vos com Deus”.

Que o Coração de Jesus torne o teu coração semelhante ao dEle. Que a tua vida seja plasmada pelo ministério sacerdotal, forjada pelo fogo do amor de Deus manifestado no carisma Dehoniano, a serviço da Igreja. A Igreja de Itumbiara é e será sempre tua casa, e te acompanhará sempre com a oração de todos nós.

Hoje e sempre, louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo!

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A Diocese de Itumbiara foi criada no dia 11 de outubro de 1966, pelo Papa Paulo VI, desmembrada da Arquidiocese de Goiânia; seu território é de 21.208,9 km², população de 286.148 habitantes (IBGE 2010). A diocese conta 26 paróquias, com sede episcopal na cidade de Itumbiara-GO.