A Mesa da Palavra – II Domingo do Advento – Ano A

A MESA DA PALAVRA
II Domingo do Advento – Ano A
Itumbiara, 7 de dezembro de 2025

“Convertei-vos porque o Reino dos céus está próximo!”

Caros amigos,

I. “… instruídos pela celeste sabedoria, participemos da vida daquele que é Deus convosco”.

O Advento é um tempo de conversão, de mudança de mentalidade e de atitudes, quer em relação a Deus, quer em relação ao próximo. Na nossa alma e em nosso caminhar pode haver muitos obstáculos à vinda daquele que nos salvará. “Deixa um momento as tuas ocupações habituais, ó homem, entra um instante em ti mesmo, longe do tumulto dos teus pensamentos. Põe de parte os cuidados que te apoquentam e liberta-te agora das inquietações que te absorvem. Entrega-te uns momentos a Deus; descansa por algum tempo em sua presença” (S. Anselmo, Proslogion, cap. 1).

O excessivo apego aos bens temporais, a religião reduzida a mero formalismo ritual e a conivência com as injustiças aparecem como sintomas de uma falta de amor, falta esta que envenena o nosso convívio na sociedade e não raro também nas nossas comunidades.
Olhemos por um instante para a riqueza da oração coleta: “Ó Deus todo-poderoso e cheio de misericórdia, que nenhuma atividade terrena nos impeça de correr ao encontro do vosso Filho, mas, instruídos pela celeste sabedoria, participemos da vida daquele que é Deus…”. Esta oração presente no Gelasianum Vetus (sec. V-VI) foi retomada com algum retoque meramente redacional na atual edição do Missal Romano. Nela reconhecemos que o nosso paraíso é a participação na vida daquele que é Deus com o Pai, em nos tornarmos participantes da vida divina pela graça da justificação operada por Jesus. É possível alcançarmos esta graça se nos deixamos instruir pela sabedoria celeste, que nos ensina a converter as atividades terrenas em lugar de encontro com o Senhor.

Irmãos, a espiritualidade do Advento, é luminosa e concreta. As luzes ao longo das ruas lembram-nos que cada um de nós pode ser uma pequena luz, se acolher Jesus, rebento de um mundo novo. Aprendamos a fazê-lo com Maria, nossa Mãe, mulher da espera confiante e da esperança.

II. “Julgará os infelizes com justiça”

Na liturgia de hoje, o profeta anuncia neste oráculo o Enviado de Deus, o Emanuel. É um oráculo que se divide em duas secções. Na primeira ele apresenta o descendente de Davi, o rebento de Jessé que deve vir como o Ungido (Messias ou Cristo) pelo Espírito Santo. Um dia, levantando-se na Sinagoga e tomando um trecho de Isaías, “o Espírito do Senhor está sobre mim…”, o próprio Jesus dirá que é nele que se cumprem as profecias. O oráculo que hoje se proclamou fala de seis dons do Espírito Santo. A tradição católica, fiel à divina revelação e lembrada de que recebemos o Espírito de adoção filial, em sua catequese acrescenta a esta lista o dom da Piedade filial. Com a vinda do Senhor na nossa humanidade, Ele nos levou a participar pela graça da sua condição de Filho, com a possibilidade de intimo conhecimento do Senhor. Passamos conviver com o Deus vivo como filhos com o Pai. E o Espírito nos comunica a capacidade de amar filialmente o Pai. De fato, o dom da unção espiritual derramado sobre a Cabeça, alcança os membros da Igreja pelo Espírito Santo, “como o óleo que desce pela barba de Aarão até a orla do seu manto”.
A Segunda parte do oráculo descreve de maneira bela e expressiva a paz messiânica que este novo rebento de Jessé conseguirá. O panorama se apresenta como restauração do paraíso na harmonia existente antes do pecado dos primeiros pais. Desaparece a violência inclusive entre os animais irracionais. Toda a Criação aguarda ansiosa a manifestação da glória do Senhor. A imagem do vástago da raiz de Jessé que fala da paz na terra, se cumpre em Jesus, e nos mantém na esperança do reino definitivo, quando o Senhor vier em glória para recapitular todas as coisas e entregar o reinado a Seu Pai e nosso Pai.

III. “Cristo salva todos os homens”.

Qual o efeito desta unção de Cristo, preanunciada pelo Profeta Isaias e pelo Precursor? Ele restaura a paz entre os homens e Deus, reconcilia os povos, reconstrói a paz do homem para consigo mesmo, a harmonia com as coisas criadas. Tudo isto está realizado em Cristo e em nós quando nos abandonamos à vida em Cristo.

São Paulo apresenta Cristo aos Romanos como Salvador de todos os homens. Nascido judeu entre os judeus, Ele se fez homem para salvar a todos os povos. Se hoje é reconhecido apenas pelos cristãos, Ele continua a chamar à mesma aliança com o Pai e com os homens. As promessas feitas aos Patriarcas e Profetas no Primeiro Testamento não se destinam apenas aos judeus. Elas se destinavam a todos os povos. Elas eram preparação. E ainda hoje nos preparam para reconhecermos e acolhermos o Messias, o divino Redentor que continua a vir. Ele continua a nos visitar todos os dias.
Ele continua a se manifestar a nós quando o acolhemos em cada irmão ou irmã que passa pelo nosso caminho.

IV. “Arrependei-vos porque está próximo o reino dos Céus”.

Evangelho deste segundo domingo do Advento anuncia-nos a vinda do Reino de Deus (cf. Mt 3, 1-12) iluminada pela profecia de Isaías. Antes de Jesus, surge em cena o seu Precursor, João Batista. Veio preparar-lhe o caminho e aplainar as suas veredas. Ele pregava no deserto da Judeia, dizendo: «Convertei-vos, porque está próximo o Reino do Céu!» (Mt 3, 1). Na sequência da tradição dos profetas antigos, João convida à conversão e anuncia Alguém que virá depois dele e de quem ele não é digno de desatar as sandálias. E prepara o povo pelo anúncio da conversão de modo que estejam preparados para receber o Senhor que vem.

Os antigos profetas prometeram o Messias. João Batista o anuncia presente como o Cordeiro de Deus. E essas promessas da primeira vinda do Messias se cumprem em Jesus. Não apenas um Ungido, não apenas um Profeta. É o próprio Filho do Eterno Pai que vem. “Certo, o tom do Batista é severo, mas o povo ouve-o porque nas suas palavras ouve ressoar o apelo de Deus para não brincar com a vida, para aproveitar o momento presente para se preparar para o encontro com Aquele que não julga com base nas aparências, mas nas obras e nas intenções do coração” (Leão XIV, Angelus).

“O próprio João ficará surpreso com a forma como o Reino de Deus se manifestará em Jesus Cristo: na mansidão e na misericórdia. O profeta Isaías compara-o a um rebento: uma imagem não de poder ou destruição, mas de nascimento e novidade. Sobre o rebento, que brota de um tronco aparentemente morto, começa a soprar o Espírito Santo com os seus dons (cf. Is 11, 1-10). Cada um de nós pode pensar numa surpresa semelhante que lhe aconteceu na vida” (Ibid.)

Para nós, João Batista é também hoje o Precursor. Ele apresenta Jesus como aquele que batizará no Espírito Santo e no fogo. No Espírito Santo porque renascemos para uma vida nova, participando da unção filial e dos dons do Espírito que a Cabeça da Igreja recebe e derrama em nós.

A Igreja nos faz louvar a Deus pela primeira vinda do Senhor na humildade da carne humana para que não nos desanimemos na espera da sua vinda gloriosa no fim da história. Ele virá e nós o procuramos: Maranatá. Vem Senhor Jesus. Deus sempre cumpre suas promessas.

Neste caminho louvamos a Deus que nos envia o Senhor, e nos prepara para as solenidades do Natal e nos prepara para estarmos abertos à permanente visita do Senhor às nossas almas. “Não nos detemos, portanto, só no primeiro advento, mas vivemos na esperança do segundo. Assim como aclamamos no primeiro: “Bendito o que vem em nome do Senhor”, exclamaremos também no segundo, saindo ao encontro do Senhor, juntamente com os Anjos, em atitude de adoração: “Bendito o que vem em nome do Senhor” (São Cirilo de Jerusalém, Cat. 15,1-3).

Permaneçamos unidos à confiante expectativa da Filha de Sião, da Virgem Santa Maria. “Ao celebrar todos os anos este mistério, a Igreja convida-nos a renovar perpetuamente a memória do amor infinito que Deus mostrou para conosco…. Além disso, a Igreja espera fazer-nos compreender que assim como Ele veio uma vez, revestido da nossa carne, a este mundo, também está disposto, se não oferecermos resistência, a vir de novo, em qualquer hora e momento, para habitar espiritualmente em nossas almas com abundantes graças” (S. Carlos Borromeu, Acta Eccl. Mediolan., t. 2).

“Não demoreis, ó Salvador do mundo, / Erguei-vos, ó divina Claridade; / Ó Sol do novo dia, Luz, Verdade, / Vencei da noite o sono tão profundo. // O vosso nascimento em nossa história / Transforme em alegria o sofrimento; / Chegue depressa o tão feliz momento / de contmemplar a luz da vossa glória” (Liturgia das Horas, Ed. Port., Hino, p. 116)
Hoje dizemos ao Senhor que vem: Maranatá: Vem Senhor Jesus. Vem Rebento de Davi. Vem, Verbo de Deus feito homem. Vem revestir-nos de tua misericórdia e bondade.

Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo.

 

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