A Mesa da Palavra: 34º Domingo do Tempo Comum – Ano C

A MESA DA PALAVRA
XXXIV Domingo do Tempo Comum
Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo
Itumbiara, 23 de novembro de 2025

Oportet autem illum regnare…, é necessário que Cristo reine…”

Caros amigos,

  1. “Jesus é Rei do universo”

Sim, Nosso Senhor Jesus Cristo é o Rei do universo. A oração da coleta nos ensina que a sua realeza, silenciosa e misteriosamente vai se construindo cada dia com a graça que liberta as criaturas da escravidão do pecado e as une a Ele na jubilosa obediência. Desde já é importante lembrar que o senhorio de Cristo, a sua realeza não se confunde com o poder mundano. Tem sua origem, não numa infausta tentação de triunfalismo messiânico temporal, mas no sacrifício da Cruz. “Sacrificando-se a Si mesmo como imaculada vítima de paz, Cristo se torna Senhor”. E a sua ressurreição exalta sobremaneira o valor redentor infinito de seu sacrifício.

Ao instituir a festa de Cristo Rei em 1925, com a Encíclica Quas primas, o Papa Pio XI quis proclamar solenemente a realeza, o senhorio de nosso Senhor Jesus Cristo sobre o mundo criado, sobre a sociedade humana e sobre a história. Este senhorio do Senhor se estende a todas as pessoas, às famílias e às cidades, aos povos e às nações, enfim sobre todo o universo. Por Ele o Pai criou e por admirável providência mantém na existência todas as criaturas.

A proclamação da realeza de Cristo sobre a sociedade – sem prejuízo de reconhecer o valor da genuína laicidade do estado moderno –, é um remédio que se põe aos efeitos nefastos da ideologia laicista – negação radical da realeza de Jesus – que pretende organizar a vida social como se Deus não existisse, “etsi Deus non daretur”. Organizar a vida social sem reconhecer na natureza humana o anelo pela transcendência e o desejo de respostas para questões fundamentais da existência, tem levado ao aviltamento da dignidade humana, a muitas formas de pobreza, de escravidão, de corrupção e de abuso de poder de um homem sobre outro, de um povo sobre outro.

Não é despicienda a consideração de um outro efeito. A tentação sempre presente de apostasia, do abandono da fé, tem levado muitos países à ruína da paz social. Mesmo em lugares de antiga matriz cultural cristã essa tentação tem dado lugar à mais severa aridez espiritual e indiferença religiosa, em grande parte nutrida pela ignorância da mensagem evangélica. O reino de Deus apregoado por Jesus, não era apenas para a vida além da morte: a vida eterna começa na história, oferecendo remédio para os males presentes nas relações dos homens com a criação, dos homens entre si, bem como entre a humanidade e o Criador.

O Papa Pio XI julgou com sábia prudência pastoral que a liturgia seria o meio mais eficaz para pôr remédio aos nefastos efeitos desta ignorância da fé. Considerando ademais as petições provenientes de todas as partes do mundo cristão, o douto pontífice lombardo houve por bem instituir a festa de Cristo Rei em 1925 (II.X), por ocasião do centenário do Concílio de Nicéia. Nesse Concílio a Igreja definiu a consubstancialidade do Filho com o Pai.

Na mente do Papa, a instituição da festa de Cristo Rei ajudaria de modo eficaz a conter o laicismo e a criar uma ordem social verdadeiramente humana, uma vez que o reconhecimento da realeza de Cristo sobre os homens e a sociedade promove a justiça, a liberdade, a convivência, a paz etc.

Por outro lado, Pio XI julgou que a instituição de uma festa específica da realeza de Cristo seria muito mais eficaz para a formação espiritual e doutrinal do povo cristão do que um documento magisterial, devido à sua universalidade, perpetuidade e celebração anual.

Na liturgia precedente à reforma inspirada pelo Concílio Vaticano II, a Missa e o Ofício desta festa no antigo missal Romano são a proclamação solene da realeza de Cristo sobre os homens, sobre a sociedade e sobre o mundo. Embora com tons apologéticos e polêmicos, a Missa começa por uma belíssima visão do Apocalipse, em que S. João vê o Cordeiro de Deus imolado, aclamado doravante pelos Anjos e pelos Santos.

A oração coleta foi modificada foi modificada para expressar um respiro mais amplo da realeza de Cristo. Na primeira parte, que se manteve inalterada, a oração reconhece que Deus quis reunir todas as coisas em seu amado Filho, Rei do universo. A segunda parte Após este elogio de Deus, onde antes se pedia que “todas as famílias dos povos, dilaceradas pela ferida do pecado, se submetam ao seu governo misericordioso (suavíssimo subdantur império)”, agora se roga que “todas as criaturas, libertas da escravidão, sirvam à vossa majestade e vos glorifiquem sem cessar”.

O prefácio da missa, retomado tal como era antes, dá ainda mais explicitamente o sentido da festa. “Com óleo de exultação ungistes vosso Filho Unigênito, nosso Senhor Jesus Cristo, Sacerdote eterno e Rei do universo”. E prossegue a Igreja orante: “Oferecendo-se a si mesmo no altar da cruz como vítima pura e pacífica, realizou o mistério da redenção humana”. Em seguida louva a Deus pela obra redentora que surge precisamente da unção régia de Cristo: Eis os frutos que saboreamos antecipadamente nesta santa liturgia: “Depois de ter submetido ao seu poder todas as criaturas, entregará à vossa imensa majestade um reino eterno e universal: reino da verdade e da vida, reino da santidade e da graça, reino da justiça, do amor e da paz”.

Sem dúvida, caros irmãos, nos conturbados acontecimentos da história, não percebemos imediatamente o reino de paz e de amor do Senhor. Contudo, já está presente a ele pertencem todos aqueles que se associam à paixão de Cristo vivendo na justiça e na caridade, tanto singularmente como nas várias expressões da solidariedade fraterna proporcionadas pela nossa Igreja.

 

  1. “Ungiram Davi como Rei de Israel”

 

Davi é ungido rei sobre todo o Israel. Uma realeza da qual a bíblia não esconde a ambiguidade nem as infidelidades. O que se aspirou na realeza de Davi, só se realizou em Jesus. Israel desejou um rei puro e fiel, um pastor perfeito. Mas não o reconheceu na kenosi de Jesus. Cristo por nós se fez obediente até à morte e morte de Cruz. Não era concebível para Israel um Messias humilhado, um rei cujo trono fosse o madeiro da maldição.

Nós reconhecemos em Jesus aquele que viria a reinar sobre o trono de “seu pai” Davi. Jesus não renega a atribulada arvore genealógica, não renega a ascendência davídica. Contudo reina a partir da pobreza dos anawim, assume uma realeza que não terá fim.

 

III.  “Oportet autem illum regnare…, é necessário que Ele reine…”

 

Permitam-me agora propor à nossa comum consideração espiritual a reflexão de um autor espanhol, Francisco Fernandez Carvajal, sobre a soberania de Cristo. O desejo de nos sujeitarmos ao suavíssimo império de Cristo nos encaminha para a feliz esperança o advento glorioso de Jesus.

“São Paulo – dizia ele – ensina que a soberania de Cristo sobre toda a criação cumpre-se agora no tempo, mas alcançará a sua plenitude definitiva depois do Juízo universal. O Apóstolo apresenta este acontecimento, para nós misterioso, como um ato de solene homenagem ao Pai: Cristo oferecer-lhe-á toda a criação como um troféu e apresentar-lhe-á finalmente o Reino cuja realização lhe havia sido confiada até aquele momento. A sua vinda gloriosa no fim dos tempos, quando tiver estabelecido os novos céus e a nova terra, representará o triunfo definitivo sobre o demônio, o pecado, a dor e a morte.

“Entretanto, a atitude do cristão não pode ser de mera passividade em relação ao reinado de Cristo no mundo. Nós desejamos ardentemente esse reinado: Oportet illum regnare…! É necessário que Cristo reine em primeiro lugar na nossa inteligência, mediante o conhecimento da sua doutrina e o acatamento amoroso dessas verdades reveladas. É necessário que reine na nossa vontade, para que se identifique cada vez mais plenamente com a vontade divina. É necessário que reine no nosso coração, para que nenhum amor se anteponha ao amor a Deus. É necessário que reine no nosso corpo, templo do Espírito Santo; no nosso trabalho profissional, caminho de santidade… “Como és grande, Senhor nosso Deus! Tu és quem dá à nossa vida sentido sobrenatural e eficácia divina. Tu és a causa de que, por amor do teu Filho, possamos repetir com todas as forças do nosso ser, com a alma e com o corpo: Convém que Ele reine!, enquanto ressoa a canção da nossa fraqueza, pois sabes que somos criaturas”.

A festa de hoje é como uma antecipação da segunda vinda de Cristo em poder e majestade, a vinda gloriosa que se apossará dos corações e secará toda a lágrima de infelicidade. Mas é, ao mesmo tempo, uma chamada e um incentivo para que todas as coisas à nossa volta se deixem impregnar pelo espírito amável de Cristo, pois “a esperança de uma nova terra, longe de atenuar, deve antes estimular a solicitude pelo aperfeiçoamento desta terra, na qual cresce o Corpo da nova família humana que já nos pode oferecer um certo esboço do novo mundo. Por isso, ainda que o progresso terreno deva ser cuidadosamente distinguido do crescimento do Reino de Cristo, no entanto o progresso terreno é de grande interesse para o Reino de Deus, na medida em que pode contribuir para organizar melhor a sociedade humana.

“Depois de termos propagado na terra – no Espírito do Senhor e por sua ordem – os valores da dignidade humana, da comunidade fraterna e da liberdade, voltaremos a encontrar todos esses bons frutos da natureza e do nosso trabalho – desta vez limpos já de toda a impureza, iluminados e transfigurados – quando Cristo entregar ao Pai o Reino eterno e universal […]. O Reino já está misteriosamente presente aqui na terra. E quando o Senhor vier, alcançará a sua perfeição”. Nós colaboramos na propagação do reinado de Jesus quando procuramos tornar mais humano e mais cristão o pequeno mundo que frequentamos diariamente.

Irmãos caríssimos, esta liturgia festiva suscita em nós desejos de paz e de alegria, de renovar a face da terra enquanto aguardamos a vinda gloriosa do Senhor. Para tornarmos realidade os nossos desejos, precisamos contar com a força da graça de Deus, com a força que vem do alto. Por isso é mister recorrermos uma vez mais a Nossa Senhora. “Maria, a Mãe santa do nosso Rei, a Rainha do nosso coração, cuida de nós como só Ela o sabe fazer. Mãe compassiva, trono da graça: nós te pedimos que saibamos compor na nossa vida e na vida dos que nos rodeiam, verso a verso, o poema singelo da caridade, quasi fluvium pacis (Is 66, 12), como um rio de paz. Pois tu és um mar de inesgotável misericórdia”.

 

Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo

Diocese de Itumbiara
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A Diocese de Itumbiara foi criada no dia 11 de outubro de 1966, pelo Papa Paulo VI, desmembrada da Arquidiocese de Goiânia; seu território é de 21.208,9 km², população de 286.148 habitantes (IBGE 2010). A diocese conta 26 paróquias, com sede episcopal na cidade de Itumbiara-GO.