A MESA DA PALAVRA
XXXIII Domingo do Tempo Comum
Itumbiara, 16 de novembro de 2025
Dia mundial dos pobres.
«É permanecendo firmes que ireis ganhar a vida» (Lc 21,19)
Caros amigos,
Ao iniciar esta meditação sobre a Mesa da Palavra da hodierna liturgia, o primeiro pensamento que me vem à mente é a lembrança de que Jesus se deixa encontrar tão mais facilmente quanto mais nos aproximamos dos pobres. De quais pobres? Dos pobres de todas as formas de pobreza: daqueles que provêm das periferias geográficas e dos que se encontram nas periferias existenciais. Remetendo-se ao ensinamento do Papa Francisco, o Santo Padre Leão XIV nos recorda que “a pobreza mais grave é não conhecer a Deus”. Nesse contexto, o melhor modo de nos aproximarmos dos que vivem na pobreza consiste em lhes descortinar as entranhas da misericórdia de Deus. E justamente quando nos dispomos a ser instrumentos da misericórdia na partilha generosa de dons temporais é que nossas mãos amorosas se tornam capazes de compartilhar os bens espirituais.
Na sua mensagem por ocasião do Dia Mundial dos Pobres, o Papa Leão nos lembra o uma vez mais o ensinamento do Papa Francisco: “A pior discriminação que sofrem os pobres é a falta de cuidado espiritual. A imensa maioria dos pobres possui uma especial abertura à fé; tem necessidade de Deus e não podemos deixar de lhe oferecer a sua amizade, a sua bênção, a sua Palavra, a celebração dos Sacramentos e a proposta dum caminho de crescimento e amadurecimento na fé” (Evangelii gaudium, n. 200).
O povo católico sempre reconheceu nas obras de misericórdia a expressão do nosso amor aos pobres e um meio excelente de evangelização que edifica uma Igreja viva, onde não se faz acepção de pessoas, como nos primórdios da pregação apostólica. “Todos os que tinham abraçado a fé reuniam-se e punham tudo em comum; vendiam suas propriedades e bens e dividiam-nos entre todos, segundo as necessidades de cada um” (At 2,45). Por esta razão, “o Senhor acrescentava cada dia ao seu número os que seriam salvos” (At 2,47).
Unamo-nos, caros amigos, à multidão dos santos que aprenderam a fidelidade na pobreza e souberam amar e servir a Cristo nos pobres. Neles transparece a mais profunda identidade da Igreja, da família dos filhos de Deus. Celebremos bem unidos ao Santo Padre este Dia Mundial dos Pobres, renovando o compromisso quotidiano de fraterno cuidado.
I. “Só alcançaremos duradoura e plena felicidade sendo fiéis a vós” (da Coleta).
Voltemos agora a atenção à coleta deste domingo, pela qual a Igreja, neste tempo tão marcado por temores, inseguranças e incertezas, se dirige a um Deus que tem desígnios de paz (cf. introito; Jr 29,11-12.14). A eucologia desta missa, que já contempla o horizonte do fim do Ano Litúrgico, nos convida a deixar o pânico e a nos alegrarmos na entrega confiante ao bom Deus. O Senhor ouve, reúne e restaura o seu povo na fidelidade que conduz à alegria.
A Coleta — testemunhada com a fórmula atual já no antiquíssimo (sec. V-VI) sacramentário Leoniano (n. 486; cf. tb. Hadrianum, n. 928) — ensina a verdadeira gramática do coração cristão: “Senhor nosso Deus, concedei-nos a graça de sempre nos alegrar em vosso serviço, porque só alcançaremos duradoura e plena felicidade sendo fiéis a vós, criador de todos os bens”.
A Santa Igreja, na sua materna solicitude, hoje faz com que o sacerdote suplique ao Senhor a graça de exultar sempre no completo devotamento a Ele. A Mãe Igreja, unindo à sua oração o anelo dos seus filhos, prossegue louvando a Deus porque só no serviço ao Autor de todos os dons é que se encontra perfeita e eterna alegria. Efetivamente, o Apóstolo São Tiago, na sua carta divinamente inspirada, nos atesta que “todo dom precioso e toda dádiva perfeita vem do alto e desce do Pai das luzes, no qual não há mudança nem sombra de variação” (Tg 1,17). Paulo, por sua vez, na sua preciosa carta aos cristãos da Galácia, ensina que “o fruto do Espírito é amor, alegria…” (Gl 5,22) juntamente com outros frutos de bem-aventuradas virtudes.
Santo Agostinho, comentando mais tarde o Salmo 99, exprime magistralmente essa verdade espiritual a propósito do liame entre alegria e serviço: “Servi ao Senhor com alegria, pois o servo triste não o faz bem” (Augustinus, Enarrationes in Psalmos, Ps. 99, §5). Não resta dúvida que no caminho do amor, o serviço de Deus é lei que deleita, que dá alegria. No Sermão de Santa Teresa, Vieira observa que “sendo tantas as perseguições e trabalho de sua vida, não só os sofria com paciência, que é o que basta, nem só com alegria, que é o que sobeja, senão que chegou a os receber e aceitar por prêmio dos serviços que fazia a Deus”. Analogamente, o fiel, que se põe ao serviço do Senhor, encontra o caminho de perfeição cristã buscam ao aceitar os prêmios de alegria e santidade que o Senhor lhe reserva. A experiência espiritual nos ensina que o amor tem o condão de mudar as obrigações em graças, em alegria.
E a autêntica alegria cristã, por sua vez, floresce onde a fidelidade se converte em forma de vida e onde o serviço a Cristo é vivido como perseverança humilde e serena.
II. “Nascerá para vós o Sol da Justiça” (Ml 3,19-20)
O profeta Malaquias descreve o Dia do Senhor com linguagem de fogo e de luz. A vinda do Senhor pode ser comparada a “um dia abrasador como fornalha”. O mesmo Sol que abrasa o mal é o Sol que cura os que temem o Nome divino. A Liturgia lê esta imagem como prenúncio do Cristo. Efetivamente a tradicional leitura cristã da profecia de Malaquias nos faz ver em Jesus o verdadeiro sol da justiça que nasce para os que temem a Deus. A imagem profética, portanto, expressa o rigor do juízo, a destruição de tudo aquilo que não tem valor, o castigo dos ímpios.
Santo Tomás, recolhendo a tradição patrística, aprofunda o significado espiritual da palavra e afirma que «Christus est sol, quia per ipsum lumen veritatis in corda nostra effunditur» – “Cristo é o sol, porque por Ele a luz da verdade se derrama em nossos corações” (Catena Aurea in Matthaeum 17,2). Esta luz da verdade é o fogo do amor de Deus que queima a palha dos pecados e dá vigor à vida cultivada na virtude. É, portanto, a Palavra de Deus a luz que “alumia os bons e abrasa os maus”.
Assim também o Dia do Senhor de que fala Malaquias: ele revela, purifica, consome o que é palha, mas sobretudo exalta, purifica o que é ouro.
O Salmo 97, em perfeita consonância, une o povo de Deus ao louvor de toda a criação – rios, montanhas, mares – para exultar diante do Juiz que vem com justiça.
III. “Quem não quer trabalhar, também não deve comer” (2Ts 3,7-12)
Enquanto Malaquias fala do Dia do Senhor, o Apóstolo dos gentios fala do tempo que o antecede. Em Tessalônica surgira uma falsa espiritualidade. Com o pretexto de que – no dizer dos Tessalonicenses – era iminente a vinda de Cristo, alguns membros da comunidade abandonaram o trabalho, passando a viver na indolência, às custas do trabalho alheio. São Paulo, ao tomar conhecimento disso, repreende a comunidade de Tessalônica com paterna e sadia pedagogia cristã. Sua admoestação sugere uma medida muito concreta e firme: «Quem não quer trabalhar, também não deve comer».
Esta máxima apostólica nos ajuda a compreender que o trabalho é o modo de participara da obra criadora de Deus: para isso fomos criados e colocados nesse mundo. E após a encarnação do Verbo, o trabalho digno não se compreende apenas como legítimo ganha-pão, mas como caminho de comunhão com o Senhor Jesus que, trabalhando na oficina de José, continuava a obra da redenção da humanidade. O mesmo Jesus, filho do carpinteiro, declarando-se senhor do sábado, disse: “O meu Pai trabalha até agora e eu também trabalho” (Jo 5,17). Sim, o Senhor, continua a trabalhar no providente governo do mundo, que Ele sustém na existência com mãos poderosas. “Nele, com efeito, vivemos, nos movemos e somos” (At 17,28).
Santo Tomás de Aquino, comentando este tema em relação ao trabalho e suas finalidades ensina, efetivamente que o trabalho se ordena, entre outras coisas, ao sustento da vida do homem, a evitar o ócio – fonte de muitos males –, a crescer nas virtudes e a exercitar a caridade, especialmente mediante a esmola” (cf S. Th., II-II, q.187, a.3), o que nos conecta com o Dia Mundial do Pobre instituído pelo Papa Francisco neste penúltimo domingo do ano Litúrgico.
São João Paulo II, que no n. 4 de Laborem exercens retoma o tema do trabalho como “participação na obra do Criador”, veio a canonizar o fundador do Opus Dei, São Josemaria Escrivá, que dedicou a vida à pregação da vocação universal à santidade e ao apostolado, indicando todo e qualquer trabalho honesto como ocasião de apostolado e como caminho de santificação de si e dos outros.
A palavra paulina sobre o trabalho se reveste, portanto, de extraordinária atualidade. Num mundo que busca facilidades imediatas e espiritualidades sem compromisso, a fé católica ensina que filho de Deus o trabalha porque ama; trabalha porque o trabalho é caminho de santidade; trabalha para não ser peso aos irmãos e, para ser na vida quotidiana testemunha de Cristo, o filho do carpinteiro.
IV. “É permanecendo firmes que ireis ganhar a vida” (Lc 21,5-19)
Ao nos aproximarmos do fim do ano litúrgico, é importante expressarmos nossa gratidão à Mãe Igreja que este ano nos alimentou na Mesa da Palavra com o Evangelho de São Lucas e sua proverbial atenção aos pobres. O ano litúrgico mostra com sapientíssima pedagogia como é o curso da nossa vida e da nossa história enquanto aguardamos a vinda do Senhor cercado de glória e majestade, coroado como Rei do Universo. A perícope evangélica lida hoje nos coloca no coração do discurso escatológico, no qual Jesus apresenta aos discípulos quatro advertências decisivas para o tempo da Igreja.
Em primeiro lugar Ele nos diz “não vos deixeis enganar”. Comentando esta passagem Santo Agostinho nos alerta para um perigo: “Multi veniunt in nomine suo” (De Civitate Dei, XVIII,49): muitos virão em nome próprio, não no nome de Cristo. Muitos procurarão corrigir o Evangelho contrapondo-lhe uma mensagem diferente da que Jesus confiou aos Apóstolos para que a transmitissem aos sucessores até o fim dos tempos. A história será sempre campo de falsos messianismos, de falsos profetas, de ideologias disfarçadas de mensagem religiosa.
Em segundo lugar, o Senhor nos convida a não ter medo: “não vos apavoreis”. Haverá guerras, pestes, terremotos, haverá perseguições e tentativas de sedução por um anticristo cada época… Nada disso é o fim. A fé cristã não lê os tempos com medo, mas com discernimento e cheia de esperança. Sempre nos ensina a dar aos demais as razões da nossa esperança.
Em terceiro lugar Ele nos alerta para um caminho árduo: a perseguição será ocasião de testemunho. Cristo não promete ausência de tribulações, mas presença do Espírito: Ele mesmo pôr-nos-á “palavras tão acertadas” que ninguém poderá resistir. Aliás, Ele nos alerta sempre contra o perigo de separá-lo da sua Cruz. Quem quiser ser meu discípulo tome a sua cruz cada dia e me siga.
Enfim, irmãos, Ele nos ensina que a vida eterna se conquista pela perseverança, pela fidelidade ao Evangelho. O verbo grego ὑπομονή (hypomonê) exprime paciência ou perseverança. Também indica atitude de firmeza amorosa, resistência alegre e esperançosa, constância. Não é teimosia, é fidelidade; não é esforço cego, é esperança lúcida.
Aqui retomamos o ensinamento espiritual recolhido pelo Papa Leão XIV: “Efetivamente, Cristo afirma duas vezes que «por causa do seu nome» muitos sofrerão violência e traição (v. 12.17), mas precisamente nesse momento terão a ocasião de dar testemunho (cf. v. 13). Seguindo o exemplo do Mestre, que na cruz revelou a imensidão do seu amor, esse encorajamento diz respeito a todos nós. Com efeito, a perseguição aos cristãos não acontece apenas com armas e maus-tratos, mas também com as palavras, ou seja, através da mentira e da manipulação ideológica. Sobretudo quando oprimidos por esses males físicos e morais, somos chamados a dar testemunho da verdade que salva o mundo, da justiça que liberta os povos da opressão, da esperança que indica a todos o caminho da paz”.
A perseverança pedida pelo Evangelho é a virtude dos que sabem que “a nossa pátria está nos céus” (Fl 3,20). Vivemos no tempo desejando a eternidade; caminhamos na fé esperando a visão; servimos a Deus e aos irmãos na alegria, aguardando o Sol da Justiça que já desponta nesta Eucaristia. E assim, guardando a palavra do Senhor e permanecendo firmes, ganharemos a vida – a verdadeira, a eterna, a que não conhece ocaso.
Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo!

