A MESA DA PALAVRA
XXIX Domingo do Tempo Comum
Itumbiara, 19 de outubro de 2025
Outubro: Mês do Rosário e das Missões
“O nosso auxílio vem do Senhor que fez o céu e a terra” (Sl 120)
Caros amigos,
A nossa celebração dominical nos ajuda entrar decididamente na vida escondida com Cristo em Deus mediante a oração sincera, afetuosa e cheia de intimidade com o Senhor. Por isso, ao nos reunirmos neste santo dia, somos convidados a considerar de modo mais profundo o mistério da oração cristã, que é obediência amorosa à vontade divina. Apressemo-nos, então, a considerar a oração com que a Igreja começa a nos levar ao coração do mistério celebrado: a Coleta.
I. “… tornai-nos dispostos a obedecer sempre à vossa vontade…”.
A oração Coleta desta Santa Missa nos recolhe num único anelo: conhecer e cumprir a santa vontade de Deus. Ela provém do antigo Sacramentário Gelasiano Vetus (n. 1154), onde já se encontra com forma quase idêntica; foi retomada também no Gregoriano-Hadrianum, no Missale Romanum de São Pio V e permanece, sem alteração substancial, na terceira edição típica de 2002. Essa continuidade litúrgica ao longo dos séculos mostra que o pedido de obedecer à vontade de Deus está no coração da Igreja desde suas origens. Sua perenidade atesta o valor espiritual desta súplica, simples e profundamente evangélica.
Com esta oração, a Igreja reunida ao redor da dúplice mesa da Palavra e do Pão oferece o Santo Sacrifício para que Deus nos torne dispostos a obedecer sempre à Sua vontade e a servir à Sua majestade de coração sincero. São João Crisóstomo ensina que “servir a Deus com sinceridade é fazer tudo como diante de seu olhar, e não para ser visto pelos homens” (Homiliae in Matthaeum 72). Trata-se, portanto, de um ato de adesão à vontade salvífica do Deus sumamente bom e digno de ser amado sobre todas as coisas. Esta obediência não é servil. Santo Agostinho nos ensina que ela nos torna livres: “Obedecer à ontade de Deus é o caminho da liberdade; quanto mais alguém se submete ao Amor, tanto mais livre se torna” (Enarrationes in Psalmos 39,9 [PL 36, 447]).
São Paulo nos ensina a obedecer de modo filial, convidando-nos a ter em nós os mesmos sentimentos que há em Cristo (cf. Flp 2,5), a ser dóceis à vontade expressa nos ensinamentos do Senhor. Tal docilidade impregna o nosso coração de sinceridade e nos impele a servir a divina majestade do Senhor tanto no culto que lhe é devido quanto nas obras de misericórdia, realizadas por quem reconhece no rosto ferido do irmão as feições de Cristo obediente até à morte, e morte de Cruz.
Irmãos, estejamos atentos às súplicas que elevamos hoje, nesta nossa santa liturgia. Nossas súplicas vinculam nosso coração ao coração de Deus. Ainda que não esteja explícita nos textos proclamados hoje, respira-se a vontade de Deus expressa pelo Senhor Jesus: “sede santos, assim como vosso Pai celeste é Santo” (Mt 5, 48). Somente com o auxílio da graça do Senhor e com a nossa abertura a ela é que a nossa vocação à santidade se realizará desde agora e por toda a eternidade.
A oração que rezaremos após a comunhão também nos ajuda a compreender a importância da graça divina. Nela pedimos que a participação nos mistérios celestes nos faça progredir em santidade e nos confirme nos bens eternos. A oração, portanto, não é um luxo de alguns, mas uma necessidade imperiosa no caminho de todos os filhos de Deus.
Somente com a oração vigilante é que podemos alcançar a graça de um estilo de vida em harmonia com o desígnio de Deus para a nossa vida terrena. E somente vivendo no tempo uma vida segundo o Espírito é que chegaremos vida eterna na Jerusalém celeste.
Depois de contemplar a obediência amorosa à vontade divina, a liturgia nos conduz agora a um segundo passo: a oração perseverante, que encontramos figurada no gesto de Moisés no deserto.
II. “Enquanto Moisés mantinha as mãos levantadas, Israel vencia…” (Ex 17,8).
No episódio do Êxodo que ouvimos há pouco, se nota uma vez mais a dureza da travessia do deserto rumo à terra prometida. É uma viagem despojada de qualquer conforto natural, repleta de necessidades e de perigos. O deserto é o lugar da prova de Israel, o lugar em que Deus põe a prova a fidelidade do seu povo. Nessa narrativa, a obediência se converte em perseverança orante: o povo aprende que a vitória nasce da oração sustentada pela fé.
Deus é aqui apresentado como Senhor dos Exércitos, defensor do seu povo. Os amalecitas atacam e Moisés ordena a Josué que combata enquanto ele sobe ao monte para rezar, com o bastão taumatúrgico nas mãos. A sorte da batalha depende da sua perseverança no gesto de manter as mãos elevadas em oração. Enquanto Aarão e Hur sustentam os braços de Moisés levantados, Josué conquista plena vitória.
Nesse gesto se revela a dependência total de Israel em relação a Deus. Não são as armas nem a força dos guerreiros que garantem a vitória, mas o poder de Deus invocado pela oração. As mãos erguidas de Moisés são figura da oração perseverante. São Gregório de Nissa ensina: “As mãos erguidas são o sinal da alma que se eleva acima das paixões” (De oratione dominica 2).
A vitória de Israel depende, pois, da constância da oração sustentada pela comunidade: Aarão e Hur sustentam os braços de Moisés, imagem da Igreja que reza em comunhão. Deus tem sempre os ouvidos atentos à súplica dos humildes que se confiam a Ele. Israel, provado no deserto, aprende a confiar e a abandonar os ídolos do passado.
Assim também a Igreja é sustentada pela oração em seu combate espiritual. A oração perseverante é sua força e sua defesa. Essa imagem nos prepara para compreender, com São Paulo, como a escuta da Palavra e a fidelidade à missão brotam igualmente da oração.
III. “Permanece firme no que aprendeste… proclama a Palavra, insiste oportuna e inoportunamente”.
São Paulo, já idoso, sozinho e preso em Roma, sente a urgência de continuar formando o discípulo Timóteo, exortando-o à fidelidade doutrinal e à constância no anúncio da Palavra de Deus contida nas Escrituras. A oração, que se manifestava nas mãos erguidas de Moisés, agora se traduz na perseverança do ministro da Palavra.
Afirmando que o fundamento da formação cristã, da configuração a Cristo, se encontra na Palavra de Deus, Paulo diz a Timóteo: “Desde a infância conheces as Sagradas Escrituras” (3,15). O ardor e a ação missionária não nascem da improvisação, mas da escuta atenta da Palavra. Oração e Palavra são, assim, dois aspectos de uma mesma fidelidade: escutar a Deus para anunciá-Lo com amor. Como dirá mais tarde São Jerônimo: Ignoratio Scripturarum, ignoratio Christi est — “Ignorar as Escrituras é ignorar Cristo.”
A exortação de Paulo não diz respeito apenas à vida espiritual de Timóteo, mas também à dimensão eclesial e pastoral do ministério que o Apóstolo lhe conferiu mediante a imposição das mãos. Ele o convida a anunciar “com paciência e doutrina” (4,2), o que é dever do ministro, mas também de cada batizado.
Também a nós, caros irmãos, a Igreja dirige essa exortação. A leitura assídua das Escrituras, especialmente na liturgia, é a melhor escola de formação para o serviço do Senhor. A mesa da Palavra sempre nos oferece o alimento que nutre nossa vida segundo o Espírito, nossa vida escondida com Cristo em Deus. Performados pela Palavra de Deus, que continua a ser criadora e restauradora, não apenas nos descobrimos filhos de Deus e somos impulsionados ao apostolado, à participação na missão da Igreja e à busca da santidade de vida.
Na oração, especialmente quando alimentada pela Palavra, encontramos uma fonte inesgotável de consolação e de força no combate quotidiano. Nela aprendemos a pedir o que convém e como convém. Essa mesma perseverança é a que o Evangelho nos apresenta como expressão suprema da fé viva.
IV. “É necessário orar sempre, sem jamais desfalecer”
Caros amigos, no princípio desta passagem do Evangelho o Evangelista explica a intenção de Jesus ao contar a parábola. A parábola versa “sobre a necessidade de orar sempre, sem desanimar”. A maior penúria do homem não será não possuir, mas não ter a coragem de sentir a necessidade de pedir, de suplicar a Deus (cf. Missal Popular Dominical, comentário de Cônego José Ferreira).
De fato, a parábola da viúva persistente e do juiz iníquo é como que o coroamento do tema das leituras: perseverança, fidelidade e oração confiante. Os santos testemunham que a oração perseverante toca o coração de Deus. Se até um juiz injusto acaba cedendo à insistência da viúva, quanto mais o Pai do Céu ouvirá os seus filhos! Santo Agostinho comenta: “A demora de Deus não é recusa, mas exercício da fé” (Sermo 61,6).
O Evangelho conclui com uma pergunta que atravessa os séculos: “Quando o Filho do Homem vier, encontrará fé sobre a terra?” Nós certamente não queremos ser dos que vão desanimar na sua fé antes da vinda do Senhor. Para nos fortalecermos nesse combate espiritual, não desistiremos de orar sem cessar.
Há uma ligação entre o evangelho e a coleta de hoje. Servir a Deus “de coração sincero” implica rezar com sinceridade. A oração não é magia, mas expressão de confiança e obediência amorosa. O coração sincero não se afana na busca de resultados imediatos, mas permanece fiel mesmo no silêncio de Deus, ainda que demorado. Assim, a oração perseverante é o exercício do coração obediente que serve à divina majestade.
Nesse combate não estamos sós: estamos na comunhão dos santos, na Igreja. E a Igreja vive da súplica dos santos, do Rosário dos fiéis simples, da perseverança das viúvas e mães de família que rezam “sem jamais desfalecer”.
Caros amigos, a liturgia de hoje nos ensina que a vida cristã é obediência amorosa e oração perseverante. A coleta, como vimos, sintetiza todo o Evangelho: pedir a graça de querer o que Deus quer e servi-Lo com coração puro. As leituras mostram que essa fidelidade se traduz em intercessão (Moisés), anúncio (Timóteo) e perseverança (a viúva do Evangelho). Todo o itinerário da Palavra nos conduz a um único centro: a oração que obedece, escuta e persevera.
A este propósito nos ilumina a doutrina de um santo Doutor: “A oração é um diálogo íntimo com Deus e é um bem supremo. É, com efeito, uma comunhão íntima com Deus. Como os olhos do corpo vendo a luz ficam esclarecidos, assim também a alma que é atraída por Deus é iluminada pela luz inefável da oração, quando esta não é feita por hábito, mas procede do coração” (S. João Crisóstomo, Homilia VI sobre a oração: PG 64,462).
Neste mês dedicado às missões, renovemos nossa disponibilidade a fazer a vontade de Deus e servi-l’O de coração sincero. Procuremos fecundar quantos passam pela nossa vida com a semente do Evangelho, cultivada na oração que nos ilumina a alma. O Rosário é a oração contemplativa dos discípulos missionários do Senhor. Neste mês do Rosário, aprendamos de Maria o silêncio, a constância e a fé que não desanima.
Que a Virgem Santíssima, Rainha do Rosário e Estrela da Evangelização, interceda por nós, para que sejamos servidores fiéis, orantes e perseverantes na missão.
Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo!

