A MESA DA PALAVRA
Solenidade de Nossa Senhora Aparecida
Itumbiara, 12 de outubro de 2025
116º aniversário da instalação do Município de Itumbiara
Outubro: Mês das Missões
“Um grande sinal apareceu no céu: uma mulher vestida de sol”
Caros amigos,
O fulgor da mulher vestida de sol se irradia também sobre a nossa cidade de Itumbiara, que hoje comemora seu 116º aniversário de instalação como município, que até 1943 se chamou Santa Rita do Paranaíba. Os itumbiarenses católicos confiamos que o manto protetor da Virgem Maria, da Mãe do Redentor, se estende sobre todos os filhos da cidade. Ela é de fato Rainha e Padroeira do Brasil, Mãe e Senhora nossa.
Retomemos algumas sugestões da oração coleta e da rica mesa da palavra desta tão querida solenidade.
- “Concedei que o povo brasileiro (…) chegar um dia à pátria definitiva” (da Coleta)
A imagem de Nossa Senhora Aparecida, coberta pelo manto azul celeste, é uma representação escultórica em terracota da Mulher vestida de sol, a quem desde tempos imemoriais a Igreja celebra como a Toda Bela (Tota Pulchra, no mundo latino) Toda Santa (ou Παναγία no oriente). Ela é Aquela que “por singular graça e privilégio de Deus Onipotente, em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano (intuitu meritorum Christi Iesu Salvatoris humani generis) foi preservada imune de toda mancha de pecado original” (Pio IX, Bula Ineffabilis Deus, 1854).
A fé na Conceição Imaculada de Maria Santíssima nos territórios lusófonos nunca foi contestada. Um sinal da importância desta devoção se encontra na coroação da Imaculada Conceição como Rainha de Portugal por D. João IV, em 1646, em uma cerimônia solene em Vila Viçosa. Na ocasião ele consagrou todo o reino a Nossa Senhora, e a partir de então, a coroa real portuguesa passou a ser depositada ao lado do trono em sinal de sua soberania entregue a Maria Santíssima. Esta devoção, como se sabe, se propagou por todo o território do futuro Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves (1815).
Em 1717, portanto, a devoção a Nossa Senhora da Conceição era bem difundida no Brasil. De sorte que não é de se estranhar que a imagem encontrada pelos pescadores no Rio Paraíba do Sul fosse uma imagem da Imaculada Conceição, que veio a ser chamada Senhora da Conceição Aparecida, porque apareceu entre as redes dos pescadores. Desde então a Mãe e Padroeira do Brasil não cessou de atender aos rogos dos pequenos, dos fracos e dos oprimidos por toda sorte de opressão. Também a Princesa Isabel recorreu à intercessão da Virgem Mãe Aparecida e foi atendida no seu pedido de ser mãe. Como sinal de gratidão, em romaria ao santuário, ofereceu uma coroa preciosa à imagem da Senhora Aparecida.
Com o culto à Virgem Imaculada, sob o piedoso título de Aparecida, a Igreja advoga para o povo brasileiro a graça de viver na paz e na justiça no curso da vida terrena, de sorte a alcançarmos um dia a pátria definitiva (cf. Coleta). O povo brasileiro reconhece na Virgem Imaculada, por meio de quem recebeu tantos benefícios, a sua Mãe e Senhora.
A maternidade de Maria sobre os crentes se manifesta pela sua onipotência suplicante. Mas há muitos devotos cuja pertença religiosa não se limita à Igreja Católica. É universal a maternidade de Maria: Mãe do Divino Redentor tornou-se por isso mesmo, Mãe do gênero humano. Invocamos especialmente sobre Itumbiara o seu amor de Mãe.
- “Concede-me a vida do meu povo – eis o meu desejo!” (Est 7,3)
Os romeiros que visitam o Santuário de Aparecida, ao lado e pouco abaixo do belíssimo nicho da Virgem Mãe, podem ver os azulejos que emolduram a imagem com a icônica representação das mulheres do Antigo Testamento. Dentre elas Ester, que tendo sido escolhida como rainha da Pérsia como esposa do Rei Assuero (Xerxes) em lugar de Vasti, arrisca sua vida entrando na presença do Rei para interceder pelo seu povo perseguido por Aman ministro do rei. Seu tio Mardoqueu lembrou-lhe que sua elevação à condição de Rainha era obra da Providência de Deus para socorrer o povo judeu em perigo de extermínio.
Entrar na sala do Rei sem ser chamada comportava risco de morte, a menos que o Rei estendesse o seu Cetro real e lhe concedesse a palavra. Assim, adornada com vestes vistosas – como a esposa do Salmo Responsorial – ela ingressa no palácio real e encanta o rei com a sua beleza. Então Assuero lhe estende o cetro real e lhe promete conceder tudo o que ela lhe pedisse. A Rainha Ester assim responde ao Rei: “Se ganhei as tuas boas graças, ó rei, e se for do teu agrado concede-me a vida – eis o meu pedido! – e a vida do meu povo – eis o meu desejo!” (Est 7,3).
A tradição da Igreja sempre viu em Ester uma prefiguração da Virgem Maria, “cuja beleza encanta o Rei” e consegue alcançar dele as suas misericórdias. Não já somente sobre o povo da antiga aliança, mas sobre todo aquele que invoca a sua proteção como Mardoqueu a Ester.
Nesta primeira leitura, aplicando a figura de Ester a Maria e à Igreja, vemos nossa Senhora como a “onipotência suplicante”, conforme a doutrina de grandes santos teólogos e padres da Igreja. Ela é dita também “potens apud Filium Mater” — “A Mãe poderosa junto do Filho”. Lendo as Escrituras e os Padres da Igreja, aprendemos que Deus tudo nos quis conceder ao seu povo por Maria. Dela São Bernardo nos ensina: “qui totum nos habere voluit per Mariam (Sermo in nativitate Beatae Mariae).
III. “Um grande sinal apareceu no céu”
Ano passado, por ocasião desta solenidade, tive ocasião de meditar também esta leitura nesta catedral. Dizia então: “A grandiosa visão da mulher vestida de sol no Apocalipse, com a lua sob os pés e a coroa de doze estrelas, simboliza o povo de Deus, tanto o antigo Israel, do qual nasceu Jesus segundo a carne, quanto, depois, o novo Israel, a Igreja, Corpo de Cristo. Um e outro são vítimas das perseguições do dragão, isto é, de satanás, aqui descrito com os símbolos do domínio. Mas a imagem que o Apocalipse nos põe diante dos olhos a imagem daquela que avança como aurora, da mulher vestida de sol, que dá à luz um filho destinado a reger as nações”. ´
Na ocasião também lembrava que, seguindo Santo Agostinho e São Bernardo, a Igreja sempre viu na Mulher do Apocalipse o símbolo da Virgem Maria, a Mãe de Jesus. Ademais, todos os textos bíblicos referentes ao mistério da Igreja, podem ser aplicados à Virgem Maria com igual fidelidade à Escritura.
É acertado dizer que o Menino dado à luz pela Mulher é evidentemente o Messias, visto em sua realidade histórica como misticamente nos cristãos constituídos membros do corpo de Cristo. Assim como Maria, filha do antigo Israel, gerou Cristo para a salvação do mundo, assim também a Igreja, como mãe, gera e protege os filhos de Deus mediante o mistério do Batismo e dos demais sacramentos.
Esta imagem, queridos irmãos, também fala de nós e do nosso tempo. A este propósito assim se exprimia Bento XVI: “Mas depois esta mulher que sofre, que deve fugir, que dá à luz com um brado de dor, é também a Igreja, a Igreja peregrina de todos os tempos. Em todas as gerações, ela deve dar de novo à luz Cristo, levá-lo ao mundo com grande dor deste modo doloroso. Perseguida em todos os tempos, ela vive quase no deserto, vítima do dragão”.
A devoção a nossa Senhora da Conceição Aparecida revela o coração de peregrino da esperança que subsiste na alma brasileira. Nada perturba a confiança dos homens e mulheres que partem em romaria todos os dias pelas muitas estradas da fé, rumo a Aparecida. O esplendor da Virgem Mãe supera as distâncias porque atinge os corações de devotos residentes em todos os cantos do nosso imenso Brasil e até fora das nossas fronteiras.
É importante lembrar sempre que a devoção mariana não é apenas um traço afetivo do povo de Deus. O mistério de Maria se compreende melhor e com mais eficácia santificadora no seio do mistério da Igreja. Todos os textos bíblicos referentes ao mistério da Igreja podem ser aplicados – como de fato o faz a liturgia – à Virgem Maria, enquanto o verdadeiro mistério dessa se insere no mistério da Igreja e ao mesmo tempo o ilumina, como bem nos recorda o Concílio Vaticano II, no Capítulo VIII da Const. Dogmática Lumen gentium.
- “Fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5)
Neste texto das Bodas de Caná, certamente tem a primazia a autorrevelação de Jesus no seu primeiro milagre público. Essa perícope tão especial e cara à piedade cristã, se mostra o cume de uma série de testemunhos e revelações sobre Jesus dados nos textos que a precedem. Jesus é o Cordeiro de Deus apontado por João (cf Jo 1,19.36); é o Messias (1,45); é o Filho de Deus e rei de Israel (1,49). E Jesus ainda se atribui a Si próprio o título de Filho do homem, ao dizer “Vereis…” (1,51). Todos os testemunhos se projetam para um futuro no qual se revelará a sua realidade. Caná é o primeiro sinal (= milagre) que dá início à manifestação de uma realidade maravilhosa: a glória de Jesus (v. 11; 1,14). Porém, a glória total somente se revelará plenamente na morte do Senhor (13,31;17,5), quando chegar a sua hora.
A intervenção de Maria, a Mãe do Senhor por ocasião da falta de vinho, faz com que o Senhor adiante a sua hora. Ela comunica ao Senhor a falta de vinho, orienta os servos a buscar a água nas talhas e a fazer tudo o que Jesus lhes dissesse. De algum modo se pode dizer que se inicia também a hora de Maria que é revelada como “mulher”, como mãe da nova criação. É na sua materna presença ampliada aos filhos da nova aliança que estão sedentos da do vinho novo da alegria. O Esposo nessas bodas, é o próprio Jesus. A esposa é a nova Jerusalém, a “mulher” revestida de esplendor. O alvor da veste resplendente é concedido em previsão dos méritos da morte do Senhor.
Caríssimos, contemplando hoje as difíceis circunstâncias em que vivemos, somos inclinados a invocar a poderosa intercessão da Senhora Aparecida a favor do povo brasileiro. À “Mulher” a quem Jesus havia dito que ainda não chegara a Sua hora, podemos pedir confiantes que seja para nós Mãe. A “mulher” das Bodas de Caná, ao pé da Cruz se torna mãe dos discípulos: “Mulher, eis o teu filho… Filho, eis a tua mãe”.
Roguemos à Virgem Mãe Aparecida que de novo entre como Senhora na obra da nossa salvação e tome as iniciativas que seu entranhado amor materno sugerir. Senhora Aparecida, monstra te esse Matrem!. Virgem Mãe Aparecida, cuida dos filhos e filhas desta amada cidade.
Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo!

