XXVII Domingo do Tempo Comum – Ano C

A MESA DA PALAVRA
XXVII Domingo do Tempo Comum
Itumbiara, 5 de outubro de 2025
Outubro: Mês do Rosário e das Missões
“Senhor, aumenta a nossa fé” (Lc 17,5)

Caros amigos,

A porta de entrada do mês de outubro é a festa litúrgica da Padroeira das Missões, Santa Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face, a nossa tão querida Santa Teresinha. Dia três celebramos a fidelidade à fé católica dos Santos Protomártires brasileiros, que regaram com seu sangue a nossa amada Terra de Santa Cruz. Dia quatro pudemos celebrar São Francisco que enviou frades às terras do norte da África em missão e conquistou, indo à Terra Santa, a admiração do sultão por sua fé genuína.  No dia próximo dia sete, finalmente, celebraremos o dia de nossa Senhora do Rosário, com a recordação dos tremendos acontecimentos da Batalha de Lepanto. Lá, apoiados pela oração do Rosário convocada pelo Papa São Pio V, os cristãos lograram obter do céu a vitória da esperança.

Hoje vivemos a missão como meio de compartilhar a experiência de encontro com o Senhor, tanto na transmissão da fé mediante o anúncio do Evangelho como na partilha de valores evangélicos conexos com a justiça e a caridade. A nossa caridade não se confunde com a mera filantropia, é sempre caritas in veritate, persuasiva pela própria força da bondade do Senhor. A fé cristã não é apenas um ato de confiança em alguma força estranha ou mera adesão a fórmulas doutrinárias. A fé cristã funda-se em um acontecimento, no encontro com uma Pessoa, Jesus Cristo. Não se trata do simples apreço a uma figura humana do passado, mas do encontro com o Cristo vivo. E este encontro dá um novo sentido e horizonte à vida do cristão.

Comunicar a fé, fazer apostolado, ser missionário é ser facilitador desse encontro mediante a presença amiga e o testemunho sincero, que dará ocasião ao anúncio explícito no querigma e na catequese mistagógica. Nesse contexto a fé não pode ser reduzida ao fideísmo desprovido de intelecto, nem ao racionalismo imanentista. Por ser encontro com uma Pessoa, a fé aparece no horizonte da fidelidade confiante, que opera pela caridade e se insere no caudal da esperança que não decepciona, fazendo de nós “Missionários da Esperança entre os povos”.

Mergulhemos na Palavra que salva contemplando-a com as lentes da oração da Igreja.

  1. “Ó Deus, que no vosso amor de Pai nos concedeis mais do que merecemos….” (Coleta).

Vai se aproximando o ocaso do ano litúrgico e a urgência do tempo – tempus fugit – nos leva a apelar com confiança para a misericórdia e o perdão de Deus. O homem sábio aprende a contar os seus dias, a perceber a brevidade da vida e o apelo da eternidade que nos chama confiar no amor eterno de Deus.

A rica coleta deste domingo vem do nosso já conhecido Sacramentário Gelasiano (n. 1198). Com ela a Igreja nos faz professar a fé no Bom Deus que, no seu amor de Pai, costuma conceder-nos mais do que merecemos. Como é bom viver na família eclesial sabendo que não sou hóspede, mas divinae naturae consors, participo da família, do seu patrimônio espiritual, da sua intima relação de amor com o Deus Uno e Trino. Por isso ousamos pedir, sem confiar nos nossos méritos, que Ele nos purifique o coração de sorte possamos haurir do seu amor mais do que nossa oração ousa suplicar.

A fé, bem unida às outras virtudes teologais, é dom de Deus e nos faz participar desde já dos bens futuros. Como diz o autor da Carta aos Hebreus, a fé é substância das coisas que se esperam ou a posse antecipada no tempo dos bens que se esperam na eternidade. Esta antecipação da posse permite viver aqui e agora a vida escondida com Cristo em Deus. Aqui aprendemos a ser servos, inseridos na mesma missão do único Servo: Jesus.

II. “O justo viverá pela fé…” (Hab 2,4)

Nesta primeira leitura, causa admiração a atitude do profeta Habacuque. Abatido pela opressão e os flagelos causados pelos Babilônios, o profeta questiona com dor as demoras de Deus. O povo é humilhado pela opressão e iniquidades. Habacuque usa de uma confiança audaz, de um confiado atrevimento, para cobrar Deus, para reclamar a sua atenção e perguntar-lhe se os justos devem continuar a sofrer por causa dos pecados dos ímpios. Só a intimidade da fé do profeta lhe consente tamanha audácia.

Ele ousa dizer que o Senhor, mesmo ouvindo os gritos do oprimido, não socorre, não salva o seu povo subjugado pela iniquidade, nem atende às suas súplicas. Não é verdade que muitas vezes sentimos o que sentiu o profeta? Quantas vezes nos sentimos sós, quase que abandonados? Só a certeza da fé nos faz persistir na oração, nos rogos, nas súplicas ardentes. Afinal, “non est abbreviata manus Domini” – “a mão do Senhor não diminuiu” (Is 59,1). Só que, não raro, o Senhor demora para nos atender para que perseveremos na oração. Outras vezes, não nos atende como desejaríamos; e o faz para que aprendamos a pedir o que convém e como convém. No entanto, sabemos que salvação do Senhor pode tardar, mas não falhará.

Passada a Sua demora pedagógica, quando a Sua misericórdia deseja curar a nossa frágil perseverança, então Ele inclina o ouvido e escuta finalmente os nossos rogos. À súplica atrevida do profeta Deus concede em resposta uma visão. Revela que a visão deverá ser transcrita em tábuas para ser bem visível até aos passantes apressados. Poderíamos traduzir para uma linguagem coloquial a resposta de Deus ao profeta: “Entendeste a mensagem ou é preciso desenhá-la?”.

É bem clara a mensagem. A visão refere-se a um prazo definido, tende a um desfecho e não falhará. Deus fala de um fim e Ele não mente. Quem não é correto, vai morrer, mas o justo vive pela fé. Uma outra versão da Escritura diz: “Olhem o orgulhoso; ele não é interiormente justo, mas o justo obterá a vida por meio da fidelidade confiante”. Deus não espera que acumulemos méritos, que sejamos merecedores da salvação. Ele nos toma pela mão lá embaixo, sim embaixo, porque o estilo de Deus é a kénosis: vem a este vale de lágrimas para nos levar às alturas do seu amor.

 

III. “Guarda o precioso depósito, com a ajuda do Espírito Santo que habita em nós …” (2Tm 1,14)

 

Paulo, mesmo desde a prisão, não deixa de se preocupar com Timóteo e a Igreja de Éfeso, que ele iniciou a pastorear ainda jovem bispo. A imposição das mãos, que foi certamente para Timóteo o momento de sua ordenação, é fonte do dom de Deus orientado para o imenso panorama de apostolado que se lhe apresentava. Sua missão apostólica consistia precisamente em guardar e transmitir “a boa doutrina que nos foi confiada”. Timóteo então – como nós hoje – é chamado a evangelizar “confiando no poder de Deus”.

Não se trata apenas de transmitir uma doutrina, mas de tomar como norma as palavras ouvidas, de acordo com a fé e a caridade que temos em Jesus Cristo.

Olhando para a figura icônica de Timóteo, todos nós, mas em particular os ministros ordenados, reconhecemos a nossa fragilidade ante a magnitude da tarefa evangelizadora que sempre nos espera. E percebemos a necessidade de recorrer constantemente à fonte donde brota a graça do Espírito Santo, sem a qual não é eficaz esforço algum.

Não existe empenho apostólico sem sofrimento, não existe guarda do evangelho sem paixão. Em certas ocasiões, quando fica difícil ver sentido no combate, parece-me ouvir as palavras do Apóstolo: “Sofre comigo pelo Evangelho, confiando no poder de Deus”. Efetivamente, a mensagem é resumida na Cruz do Senhor: os sofrimentos e contrariedades não faltarão. Oferecidos no altar em união com a Cruz do Senhor, nosso apostolado encontra vigor e nossa vocação se fortifica.

IV. “Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer” (Lc 17,10)

 

         “Naquele tempo – assim começa o anúncio do Evangelho – os Apóstolos disseram ao Senhor: ‘Aumenta a nossa fé’” (Lc 17,5). O Senhor não deixa de apontar aos discípulos a necessidade da fé: “Se tivésseis fé como um grão de mostarda…”. A fé, de fato, é a raiz de toda a vida do cristão. A fé nos predispõe a cumprir com simplicidade e solicitude a vontade do Senhor: a fé nos impele a fazer tudo o que o Senhor mandar.

O nosso Bom Mestre nos ajuda a compreender de modo bastante gráfico em que consiste a força da fé: “Se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a esta amoreira: ‘Arranca-te daqui e vai plantar-te no mar’, e ela obedecer-vos-ia”. A seguir a estas palavras de incentivo à confiança no poder de Deus, conta uma parábola que ensina a trabalhar com fé e diligência, confiantes no Amor de Deus que nos impele. E, no fim, depois de ter cumprido os nossos deveres apostólicos, certos de que todo dom perfeito vem de Deus, declararemos sinceramente: “Somos servos inúteis: fizemos o que devíamos fazer”.

A consciência de ser servos inúteis não significa ignorar a importância do nosso trabalho. feito na fé e por amor a Deus. O nosso empenho apostólico e missionário tem sua eficácia com a força do Espírito, com a força da graça, pois “tudo posso naquele que me dá forças”. Servir o Evangelho não beneficia somente aos outros, mas sobretudo àquele que, por se sentir chamado, escolhe servir.

Caríssimos irmãos, a alegria do Evangelho acolhido por nós e anunciado a toda criatura, é a via da Igreja sacramento universal de salvação até que Cristo venha em glória. Esta é a nossa tarefa. No cristão, todo o serviço do reino de Deus é exercido na fé, e no fim de tudo, realização da própria vocação cristã (cf. AA.VV. Missal Popular Dominical, Comentário ao Evangelho).

Voltando à pergunta do início do Evangelho, os apóstolos sentem a necessidade de ter uma fé mais viva, maior. Perto de Jesus compreendem que sem a fé não podem ser discípulos. Jesus lhes faz ver que tal é a preciosidade, tão grande é o valor fé que bastaria ter mesmo um pouco. A fé, ainda que pouca, ainda que pequena como um grão de mostarda, nos coloca em conexão com o poder de Deus: a partir dela o homem de fé logra a dispor do mesmo poder, como nos assevera o próprio Jesus.

Irmãos, supliquemos à Rainha do Sacratíssimo Rosário, que é também Rainha das missões, que nos ajude a obter do Senhor o nosso desejo mais profundo: Aumenta a nossa fé.

         Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo.

 

 

Diocese de Itumbiara
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