XXVI Domingo do Tempo Comum – Ano C

A MESA DA PALAVRA
XXVI Domingo do Tempo Comum
Itumbiara, 28 de setembro de 2025
Setembro: Mês da Bíblia
“Agora ele é consolado e tu atormentado”
Caros amigos,
Estamos prestes a encerrar o mês de setembro, mês em que a Igreja no Brasil, dedicando especial atenção à Bíblia, enriquece os nossos corações com o convite a meditar na carta aos Romanos.
Neste domingo pedimos a especial intercessão de São Jerônimo para que as Sagradas Escrituras sejam a fonte da nossa sabedoria, a chama ardente que nos aquece o coração e a garantia de nossa esperança na vida eterna.
Iniciemos nossa oração fazendo nossas as intenções expressas na oração coleta.
I. “Ó Deus, mostrais vosso poder sobretudo no perdão e na misericórdia” (Coleta)
A liturgia hoje nos fez rezar: “Ó Deus, que mostrais vosso poder sobretudo no perdão e na misericórdia, derramai sempre em nós a vossa graça, para que, caminhando ao encontro das vossas promessas, alcancemos os bens do céu”.
Este belo e rico texto, herdado dos antigos sacramentários da Igreja — Gelasiano (n. 1198), Engolismense (n. 1179), Gellonense (n. 1332) até o Missale Franciscanum Regulae (n. 1683), passando pelo Missale Gothicum ou Sacramentário Galicano (n. 477) e o Tridentino (n. 418) — recorda-nos algo que desde os primeiros séculos os cristãos sabiam: o maior poder de Deus não é criar estrelas ou abalar montanhas, mas recriar corações; não é mover os céus, mas mover a alma caída para a vida nova. Não sem razão, comenta o grande Doutor da Igreja, Santo Agostinho ousou dizer: “Maior é a obra de justificar o ímpio do que de criar o céu e a terra”. Eis o poder que nos salva: a misericórdia.
E se o poder de Deus se mostra no perdão, vejamos como o profeta Amós denuncia aqueles que, esquecendo-se do valor da misericórdia, vivem instalados na abundância fútil, sem sequer olhar para os pobres.
II. “Ai de vós que viveis em Sião na abundância…” (Am 6,1)
Amós é um profeta de forte consciência social. Duro nos seus juízos, a sua profecia mostra que, se Deus é misericordioso, ai daquele que se fecha ao irmão! O profeta Amós grita: “Ai de vós que viveis em Sião na abundância, deitados em leitos de marfim, bebendo vinho em grandes taças, e não vos afligis com a ruína de vosso povo”.
Fique bem claro para nós como o era para os antigos, que a riqueza, especialmente a riqueza partilhada, era bênção. Não é a riqueza que condena, mas a infidelidade: possuir e não partilhar; usufruir e não amar. São Basílio Magno ensina com clareza, “o pão que tu guardas pertence ao faminto; o manto que tu conservas no armário pertence ao que está nu; o dinheiro que escondes pertence ao necessitado”. Se não somos fiéis ao Deus da misericórdia, tornamo-nos escravos de nossos próprios tesouros, e eles se voltarão contra nós.
Eis por que São Paulo, escrevendo a Timóteo, vai além: não basta evitar a indiferença, é preciso abraçar positivamente a justiça, a piedade, a mansidão. A primeira leitura do grande profeta Amós, portanto, nos prepara o coração para ouvirmos a exortação do Apóstolo dos Gentios.
III. “Tu, ó homem de Deus, foge destas coisas e segue a justiça…” (1Tm 6,11)
Por isso São Paulo adverte Timóteo: “Tu, ó homem de Deus, foge destas coisas e segue a justiça, a piedade, a fé, a paciência, a mansidão”. Estas virtudes que acompanham o amor generoso, tornam o evangelho atraente e nutrem a esperança de uma comunidade em que os pagãos reconhecem o amor na partilha fraterna dos bens.
O Apóstolo, por sua vez, sabe que a avareza é insaciável. Na mesma linha de pensamento, o grande Santo Agostinho dizia num comentário aos salmos: “Ser avaro não é somente amar o dinheiro, senão perseguir algo com imoderado ardor. Quem quer que deseje mais do que necessita, é avarento”. De modo bem gráfico dirá mais tarde o um filósofo moderno: “A avareza é como o mar: quanto mais se bebe, mais sede se tem”. O homem de Deus, irmãos, é aquele que vive não para acumular, mas para esperar; não para possuir, mas para ser possuído pela graça. A fidelidade se mede não pela soma de bens, mas pela soma de virtudes que nos aproximam do Senhor.
E como a carta a Timóteo orienta o discípulo para a vida fiel, o Evangelho nos mostrará o retrato de quem não foi fiel e de quem confiou na misericórdia de Deus: o rico epulão e o pobre Lázaro.
IV. “Tu recebeste os teus bens em tua vida e Lázaro, ao contrário, males” (Lc 16,25)
Caríssimos, aproximemo-nos com reverência das palavras do Santo Evangelho. O Espírito Santo, pela pena de São Lucas, nos mostra, em imagens de alta definição, o desti-no dos fiéis e dos infiéis. Do pobre desprezado pelo rico epulão, sabemos o nome: Lázaro, que significa “Deus ajudou” ou “Deus é meu auxílio”. O Céu é comunhão, somos chama-dos pelo nome. O Rico fica anônimo, sem nome. O inferno é, com efeito, isolamento e indi-ferença. “O Senhor Jesus, autor e apreciador da fé, preferiu, com justiça, a fé de Lázaro, às riquezas e às delícias do rico. Ele preferiu esta propriedade do pobre ao orgulho do rico. Assim, ele fez o nome desse pobre ser conhecido, enquanto julgou dever deixar no esque-cimento o nome do rico mau” (Agostinho, Sermão 41).
O rico anônimo viveu no luxo, mas fechou os olhos ao pobre à sua porta. Lázaro, cheio de chagas, foi desprezado. Mas, no juízo divino, a balança se inverte: “Tu recebeste teus bens em vida, e Lázaro males; agora, ele é consolado e tu és atormentado”.
Aqui aparece a expressão “seio de Abraão”, imagem da intimidade com o Pai da fé, lugar de descanso e consolação eterna para os justos que confiaram em Deus. Os antigos hebreus viam nesse seio a comunhão dos santos que aguardavam a plenitude da redenção. Em contraste, o rico epulão é lançado no hades, o inferno, lugar de tormento e separação de Deus. Um está no colo do Pai Abraão, símbolo da promessa cumprida; o outro, no abismo, fruto da própria infidelidade.
Não é a riqueza que condena, mas a indiferença. Não é a pobreza que salva, mas a confiança. Atribui-se a Santo Agostinho a frase que nos lembra que: “Não é a pobreza que leva ao céu, nem a riqueza que leva ao inferno, mas a humildade com a pobreza e a soberba com a riqueza”. E São João Crisóstomo, em frase citada pelo Papa Francisco, completa: “Não compartilhar os próprios bens com os pobres é roubá-los; o que possuímos não é nosso, mas deles”.
O rico morreu fechado em si mesmo. Lázaro morreu aberto para Deus. Um desceu ao abismo, o outro subiu ao seio de Abraão.
E ao concluir o Evangelho, a Igreja nos chama a olhar para a Sagrada Escritura inteira e para Maria Santíssima, Mãe da Palavra, como guia neste caminho de fidelidade.
Conclusão: o mês da Bíblia e o nosso amor à Virgem Maria
Eis, irmãos, o fio de ouro que atravessa estas leituras: o Deus misericordioso nos convida à fidelidade. Ele mostra seu poder no perdão; nós mostramos nossa fé na misericórdia para com os pobres. Esta é a estrada estreita que conduz à vida eterna, ao seio de Abraão, imagem da consolação definitiva.
Neste mês da Bíblia, deixemos que a Palavra nos converta: ela é espada que separa a verdade da ilusão. Recordemos também as palavras da Carta aos Romanos, onde São Paulo proclama: “A esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5). É nesta esperança, fundada no amor, que seguimos firmes no caminho da fidelidade. Se o ano jubilar da esperança está perto de se encerrar, a esperança na palavra permanece, pois, o Senhor é o mesmo, ontem, hoje e pela eternidade.
E como filhos amorosos, irmãos, olhemos agora para Maria, a Virgem fiel. Depois de ter dito ao Anjo: “Eis a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra”, na casa de Isabel, ela prorrompeu no cântico do Magnificat cantando: “Exaltou os humildes, encheu de bens os famintos e despediu os ricos de mãos vazias”.
Que a Mãe da Misericórdia nos ensine a viver da Palavra, a amar os pobres, a buscar o céu. Assim, um dia, como Lázaro, também nós seremos acolhidos no seio de Abraão.
Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo.
Diocese de Itumbiara
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A Diocese de Itumbiara foi criada no dia 11 de outubro de 1966, pelo Papa Paulo VI, desmembrada da Arquidiocese de Goiânia; seu território é de 21.208,9 km², população de 286.148 habitantes (IBGE 2010). A diocese conta 26 paróquias, com sede episcopal na cidade de Itumbiara-GO.