A MESA DA PALAVRA
XXV Domingo do Tempo Comum – C
Itumbiara, 21 de setembro de 2025
Setembro: Mês da Bíblia
“Vós não podeis servir a Deus e a mamon”
Caríssimos amigos,
Assim reza a Igreja na antífona de entrada da Santa Missa deste 25º Domingo do tempo comum: “A salvação do povo sou eu, diz o Senhor: de qualquer tribulação em que clamarem por mim, eu os ouvirei e serei seu Deus para sempre” (Introito). Este intróito nos faz lembrar que só em Deus encontramos salvação. Não fora dele. É Ele quem nos socorre na tribulação. “O nosso auxílio está no nome do Senhor, que fez o céu e a terra”, costumamos rezar. A nossa precariedade, porém, não nos priva da responsabilidade de clamar. É Deus quem salva, mas salva ouvindo os clamores que lhe elevamos. Se clamarmos por Ele, Ele será para sempre o nosso Deus.
Nossa Eucaristia hoje nos coloca diante do humilde reconhecimento de nossa precariedade, de que necessitamos de Deus, e nos alcança uma imensa liberdade. Somos filhos no Filho.
Nesse mesmo sentido retomemos a oração coleta que liga aos nossos clamores a observância da santa lei de Deus.
- “Ó Deus, olhai com bondade os que redimistes e adotastes…” (da Coleta).
Ouçamos de novo o belíssimo texto da coleta, inspirado no Sacramentário Gelasiano (n. 493) e no Moçárabe (n .1374). “Ó Deus, que resumistes toda a sagrada lei no amor a vós e ao próximo, concedei-nos que, observando os vossos mandamentos, mereçamos chegar à vida eterna”.
O Senhor sintetiza a revelação da Lei sagrada e corrige os desvios das regras excogitados pelos escribas e fariseus – eram mais de 600 – no único preceito do amor a Deus e ao próximo. Reduz tudo a um único preceito dando unidade aos dois objetos da norma. Na profundidade de sua pregação o Apóstolo non ensina de modo icástico que o amor é a plenitude da Lei. São João nos ensina que quem tem medo não é perfeito no amor e que quem conhece o amor conhece a Deus, porque Deus é amor e quem ama permanece em Deus.
Esta oração, em sua síntese vigorosa, nos indica o caminho para a vida eterna, não num sentimento religioso vago, mas no encontro de amizade com o Senhor. Ela provém diretamente da reflexão da Igreja, nos textos evangélicos e apostólicos. Os Padres e Doutores da Igreja meditaram sobre a centralidade do amor na vida e na doutrina de Cristo e, por conseguinte, dos cristãos.
Vale lembrar que Santo Agostinho, reconhecendo a unidade do preceito, estabelece um critério interpretativo sobre a hierarquia do amor. Na ordem do preceito vem primeiro o amor a Deus. Mas na ordem da prática, não ama a Deus quem não ama o próximo. Não se trata de interpretação privada, mas de leitura do Evangelho com a sabedoria, dom do Espírito Santo que sempre nos abre as portas do jardim do Espírito para passearmos nele com a nossa vida.
- “Ouvi isto, vós que maltratais os humildes e causais a prostração dos pobres da terra” (Am 8,1).
O profeta Amós, em sua aguda consciência social, profetiza contra aqueles que dominam os pobres com dinheiro. Em outros lugares, como por exemplo no capítulo 4 não economiza palavras duras contra os injustos e opressores que ostentam riquezas, humilhando os pobres.
Na perícope hoje proclamada, ele se faz voz de Deus para atacar atitudes contrárias ao amor dos irmãos. Os exploradores dos pobres e dos órfãos são aqueles que se valem das mais variadas formas de astúcia para obter os seus fins. A eles o profeta dirige a dura reprimenda divina: “Ouvi isto, vós que maltratais os humildes e causais a prostração dos pobres da terra” reprova neles a diminuição dos volumes das vasilhas, a adulteração das balanças, a falsificação dos pesos. Repreende ainda os que vendem mercadorias avariadas, com prazos vencidos, todos gestos contrários ao amor ao próximo como a Lei e os profetas os compreendiam.
Se o amor dos pobres nos abre o caminho para o verdadeiro amor a Deus e, portanto, para a salvação eterna, a injustiça para com os pobres ofende o próprio Deus: “Por causa da soberba de Jacó, jurou o Senhor: Nunca mais esquecerei o que eles fizeram”. Reflexo da doutrina profética encontramos no ensinamento de Jesus ao falar do juízo final: “o que fizestes a um destes pequeninos, a mim o fizestes” (cf Mt 25,31-46).
Eis porque o salmo responsorial nos convida ao louvor do Deus que eleva os pobres. É o nosso caminho e o nosso remédio.
III. “Recomendo que se façam orações a Deus por todos os homens. Deus que quer que todos sejam salvos.” (cf I Tm 2,1.4)
Timóteo foi um jovem discípulo e colaborador do apóstolo Paulo que o acompanhou em viagens missionárias. Destinado ao ministério episcopal em Éfeso, Paulo enviou-lhe duas epístolas com exortações sugeridas pela experiência apostólica sobre o ministério pastoral e a vida cristã. Tais conselhos o ajudaram no pastoreio árduo que o desafiou a lidar com falsas doutrinas e a ser um exemplo para os crentes.
Entre os conselhos que o Apóstolo dá ao jovem bispo Timóteo ficaram registrados os seguintes: “Antes de tudo, recomendo que se façam preces e orações, súplicas e ações de graças, por todos os homens; pelos que governam e por todos que ocupam altos cargos, a fim de que possamos levar uma vida tranquila e serena, com toda piedade e dignidade” (I Tm 2,1-2). Para viver uma vida serena e tranquila é preciso cultivar as virtudes humanas, pessoais e sociais, além de rezar pelas autoridades para que governem com justiça. Isso não nos livra de eventuais perseguições, mas nos ajuda a ser viver serenamente a árdua fidelidade aos mandatos do Senhor. Ademais, somos chamados a rezar por todos, lembrados de que o bom Deus, que detesta todo pecado, ama o pecador e enviou seu Filho para nos salvar.
A eficácia do ministério pastoral depende certamente da disposição do pastor a agradar a Deus em tudo, mais do que aos homens. Com efeito, o nosso bom Deus “quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (v. 4). E o Deus Redentor ouve de bom grado aos clamores do seu povo, especialmente quando fazemos “oração, erguendo mãos santas, sem ira e sem discussões” (v. 8). Efetivamente não há outro deus em quem possamos encontrar salvação: “Pois há um só Deus, e um só mediador entre Deus e os homens: o homem Cristo Jesus, que se entregou em resgate por todos” (I Tm 2,5-6).
- “Ninguém pode servir a dois senhores. Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Lc 16,13).
Chegados ao Evangelho, caros irmãos, é preciso lembrar que o ensinamento de Jesus neste Evangelho dominical é um retrato da missão e da atitude pessoal do mesmo Senhor. Na verdade, Jesus Cristo, sendo rico, se fez pobre e por amor; para que sua pobreza nos, assim, enriquecesse. É na pobreza de Cristo que encontramos as disposições que temos de imitar para que não nos percamos nos meandros da ganância e da exploração dos pobres.
Ao oferecer à Igreja a sua primeira Encíclica, Deus caritas est, documento programático, Bento XVI faz suas as palavras de São João: «“Nós reconhecemos e cremos no amor que Deus nos tem” (I Jo 4, 6). A pobreza de Cristo, a pobreza a que são chamados a viver todos os cristãos, não é questão de acúmulo ou privação de bens: é questão de amor. Deus é amor. Esta mensagem está no centro da nossa fé. A revelação do amor de Deus nos dá “a imagem cristã de Deus e a consequente imagem do homem e do seu caminho”» (Homilia, 23-IX-2007).
São Lucas, o evangelista que nos guia no itinerário deste ano litúrgico, preocupa-se mais do que os outros evangelistas em mostrar o amor que Jesus tem pelos pobres. Na leitura de hoje, como também em outras passagens do seu Evangelho, Lucas nos proporciona várias ocasiões para refletir “sobre os perigos de um excessivo apego ao dinheiro, aos bens materiais e a tudo o que nos impede de viver em plenitude a nossa vocação para amar Deus e os irmãos” (Bento XVI, Homilia, 23-IX-2007).
A parábola que Jesus conta hoje não deixa de nos causar espanto cada vez que a ouvimos. Nesses tempos em que parecemos estar nos habituando a várias formas de corrupção na sociedade, permanece difícil de se compreender o elogio que se faz a um administrador desonesto (cf. Lc 16, 1-13). No entanto, passado o primeiro sobressalto, refletindo mais a fundo, compreendemos Nosso Senhor reserva-nos um ensinamento sério e muito saudável. Conforme o seu costume, Jesus inspira-se em acontecimentos da vida quotidiana. « Jesus narra sobre um administrador que está para ser despedido pela desonesta gestão dos negócios do seu patrão. Para garantir o seu futuro, o gestor infiel procura com astúcia pôr-se de acordo com os devedores. A sua atitude sem dúvida é desonesta, mas ele se mostra astuto. O Evangelho não no-lo apresenta como modelo para seguir na sua desonestidade. O Senhor evidencia nele um exemplo a ser imitado pela sua habilidade previdente. De fato, a breve parábola concluiu-se com estas palavras: “O senhor elogiou o administrador desonesto por ter procedido prudentemente” (Lc 16, 8) ».
Bento XVI continua a sua meditação perguntando-se: “Mas que nos quer dizer Jesus com esta parábola? Com esta conclusão surpreendente?” E ato contínuo, passa confidenciar a sua reflexão: “À parábola do administrador infiel, o evangelista faz seguir uma breve série de afirmações e de advertências sobre a relação que devemos ter com o dinheiro e com os bens desta terra. São pequenas frases que convidam a optar por uma decisão radical. Esta opção radical nos coloca em uma constante tensão interior. A vida sempre nos coloca diante da exigência de fazer opções. É preciso escolher cada dia entre honestidade e desonestidade, entre fidelidade e infidelidade, entre egoísmo e altruísmo, entre bem e mal. Na Escritura se fala dos dois caminhos: o caminho da vida e o caminho da morte, o caminho da bênção e o caminho da maldição” (id.).
O Papa Bento faz notar a radicalidade exigida por Jesus. « É incisiva e peremptória a conclusão do trecho evangélico: “Servo algum pode servir a dois senhores; ou há de aborrecer a um e amar o outro, ou dedicar-se-á a um e desprezará o outro”. Com efeito, diz Jesus: “É preciso decidir-se. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro (mamon)” (Lc 16, 13) ».
Bento XVI nos ajuda a compreender o uso da palavra mamon, que no nosso lecionário é traduzida por dinheiro. “Mamon é uma palavra de origem fenícia que evoca segurança econômica e sucesso nos negócios. Poderíamos dizer que na riqueza é indicado o ídolo ao qual se sacrifica tudo para alcançar o próprio sucesso material e assim este sucesso económico torna-se o verdadeiro deus de uma pessoa. É necessária portanto uma decisão fundamental entre Deus e mamon, é necessária a escolha entre lógica do lucro como critério último no nosso agir e a lógica da partilha e da solidariedade. A lógica do lucro, se é prevalecente, incrementa a desproporção entre pobres e ricos, assim como uma exploração destruidora do planeta. Quando, ao contrário, prevalece a lógica da partilha e da solidariedade, é possível corrigir a rota e orientá-la para um desenvolvimento equitativo, para o bem comum de todos. Na realidade, trata-se da decisão entre o egoísmo e o amor, entre a justiça e a desonestidade, ou seja, entre Deus e Satanás. Se amar Cristo e os irmãos não é considerado como uma espécie de acessório e superficial, mas antes como a finalidade verdadeira e última de toda a nossa existência, é preciso saber fazer opções básicas, estar dispostos a renúncias radicais, e se necessário ao martírio. Hoje, como ontem, a vida do cristão exige a coragem de ir contra a corrente, de amar como Jesus, que chegou ao sacrifício de si na cruz”.
Poderíamos rezar hoje com a coleta do 17º Domingo do tempo comum, de sabor bem agostiniano (cf. Sermo 359, 10), que nos dá o verdadeiro sentido da pobreza cristã e nos orienta para o honesto uso dos bens temporais em vista dos eternos. “Ó Deus – suplica a Igreja em oração –, multiplicai em nós a vossa misericórdia para que, conduzidos por vós usemos agora de tal modo os bens temporais que possamos aderir desde já aos bens eternos”.
Esta oração nos põe em estado de alerta contra tentações sempre presentes, “como um leão a rugir, procurando a quem devorar” (I Pd 5,8). Nos sabemos que não falta quem esteja pronto a qualquer tipo de desonestidade para se garantir um bem-estar material sempre aleatório. Mas nós cristãos devemos retificar nossas intenções, preocupando-nos em prover à nossa felicidade eterna utilizando os bens desta terra.
Para este fim, seguindo a Jesus, a única maneira de fazer frutificar para a eternidade as nossas riquezas, os nossos talentos e capacidades pessoais é compartilhá-las com os irmãos. Esta é a qualidade que faz de nós bons administradores de tudo quanto Deus nos confia. Diz Jesus: “Quem é fiel no pouco também é fiel no muito; e quem é infiel no pouco também é infiel no muito” (Lc 16, 10-11).

