A Mesa da Palavra – XXII Domingo do Tempo Comum – Ano C

A MESA DA PALAVRA

XXII Domingo do Tempo Comum – C
Itumbiara, 31 de agosto de 2025

Dia nacional do Catequista

« Quem se exalta será humilhado, quem se humilha será exaltado »

Caros amigos,

  1. “… estreitando os laços que nos unem convosco, fazei crescer em nós o que é bom…” (Coleta).

A belíssima coleta da Missa de hoje nos abre os corações para acolher as riquezas da mesa da Palavra e do Banquete Eucarístico em que somos locupletados por dons inefáveis da misericórdia divina. “Deus onipotente, fonte de todo dom perfeito, semeai em nossos corações o amor ao vosso nome e, estreitando os laços que nos unem convosco, fazei crescer em nós o que é bom e guardai com amorosa solicitude o que nos destes”. Esta coleta remonta às orações dos primeiros séculos e chegou até nós atravessando as brumas do tempo. Entre outros, temos os testemunhos do Sacramentário Gelasiano (n. 1182) e do Missal de 1494 (M 901).

A oração inicia com a invocação do “Deus dos exércitos ou de poder” (cf. Sl 23[24],10). A versão do latim preparada pelo Episcopado Brasileiro escolheu usar o termo “onipotente” como atributo de Deus. Embora a nossa tradução suavize “Deus dos exércitos” para “Deus onipotente”, ela preserva a ideia da plenitude de poder. Dessa plenitude de poder procede, como de uma fonte, tudo o que é ótimo, todo bem perfeito (cf. Tg 1,17). Só Ele é a fonte inexaurível de todos os bens.

Na segunda parte da coleta, a Igreja unida em oração roga a Deus todo-poderoso e fonte de todo bem, que o amor ao Seu Nome seja inserido (semeado ou enxertado) em nossos corações. Esta súplica utiliza um verbo com clara alusão agrícola, o que lhe confere também forte densidade bíblica (cf por ex. Os 2,25; Mt 13).

Logo a seguir a expressão latina “religionis augmento” (= com o incremento da religião) aparece em uma interpretação vernácula mais poética e pastoralmente mais compreensível do que a simples tradução literal. A nossa tradução, “estreitando os laços que nos unem convosco”, emprega o verbo “estreitando”, um gerúndio de continuidade, seguido de um “convosco” em vez de “a vós”. A regência escolhida (convosco) é mais coloquial e sugere a proximidade de um Deus que nos acompanha no nosso caminho desta vida. A tradução com a regência mais erudita “a vós” poderia indicar uma relação mais vertical com o Deus que nos atrai para as coisas do alto.

A oração prossegue suplicando ao Senhor que alimente ou faça crescer o que é bom e guarde com vigilância o que foi cultivado. A conclusão da oração nos ajuda a saborear mais a bondade de Deus a Quem a Igreja em oração roga: “guardai com amorosa solicitude o que nos destes”.

Imersos nessa imensa bondade do Deus dos Exércitos, nos abrimos para os prelibados manjares da mesa da Palavra.

  1. Sê humilde e encontrarás graça diante do Senhor” (Cf. Eclo 3, 20).

Na cultura clássica, a humildade (ταπεινότες) não era muito apreciada. Os filósofos antigos conectavam a humildade à modéstia, à ignorância ou à debilidade. Por esta conotação negativa era fácil percebê-la como ameaça ao ideal grego clássico de excelência. O próprio Aristóteles sentia um certo desprezo pela humildade que segundo ele se contraporia a quem tem a grandeza de alma, a magnanimidade.

Na tradição judeu-cristã, a humildade adquiriu um significado especificamente religioso. Esta visão positiva se destaca na relação entre o homem e Deus, entre a criatura e o Criador. A condição de criatura dá sentido à humildade como reconhecimento da nossa verdade ontológica: nós somos criaturas e Deus é Deus. A estas criaturas Deus as quer como filhos no Filho.

Ben Sirac ouve de seu pai os sábios conselhos que ligam à humildade virtudes como a mansidão e a laboriosidade, mais altas do que a própria generosidade. Para a criatura, a humildade é a virtude de quem sabe que necessita da graça de Deus. Dirá Jesus mais tarde: “Sem mim nada podeis fazer”.

O homem sábio e inteligente, ao refletir sobre as palavras dos sábios, descobre que a soberba, o orgulho, a altivez dos megalomaníacos, dos poderosos deste mundo só encontra remédio na sincera e serena consideração de nossa condição de criaturas. Com efeito estamos sempre nas mãos de Deus, cuja providência nos sustenta na existência. Ademais, como dizia São Paulo aos atenienses, “nEle nós vivemos, nos movemos e somos” (At 17,28).

Só os humildes de verdade é que sabem confessar a glória de Deus, “pois grande é o poder do Senhor, mas ele é glorificado pelos humildes” (Eclo 3,21). No exercício do louvor de Deus e no reconhecimento da nossa pequenez é que damos remédio ao vício capital da soberba. O combate é permanente.

O salmista, no salmo 67, reconhece nos pobres, nos anawim, nos deserdados, a humildade corroborada pelo desprendimento. Deus, Pai dos pobres mais pobres – o órfão, o estrangeiro e a viúva – prepara com carinho uma terra – o céu – para os bem-aventurados pobres em espírito e os sacia com fartura.

A humildade é agradável a Deus e torna grande o coração do homem. Ela prepara o íntimo do coração para poder receber a palavra de Deus e permitir-lhe que aí lance raízes e dê frutos.

III. Vós vos aproximastes do monte Sião e da cidade do Deus vivo” (Hb 12,6).

O povo da Primeira Aliança vivia da lembrança das maravilhas que Deus por eles tinha feito, sobretudo aquando da saída do Egito, da travessia do mar e do deserto e da chegada à Terra Prometida. Estes “mirabilia Dei” realizados entre os antigos, nós os celebramos como sinais prefigurativos de realidades superiores que nos são dados pelo mistério da Páscoa de Cristo e pela nossa Páscoa nas águas do Batismo.

Diz o autor sagrado “vós não vos aproximastes de uma realidade palpável: fogo ardente e escuridão, trevas e tempestade, som da trombeta e voz poderosa” (Hb 12,18s). De fato, não são já os milagres antigos que se repetem entre nós. Muito mais do que isso foi o que Deus fez por nós ao introduzir-nos com Cristo na Igreja, a cidade santa de Deus. “Vós vos aproximastes do monte Sião e da cidade do Deus vivo, a Jerusalém celeste” (Hb 12,22). O monte de Sião é uma imagem prefigurativa da Jerusalém celeste, pois nele estava o Templo de Deus.

Com sublime humildade louvamos a Deus porque Ele “olhou para a humildade de Sua Serva”, ele fez maravilhas pelas humildes criaturas elevando-as à condição de filhos, de templos vivos da Trindade Beatíssima.

Não é por nossos méritos que nossos nomes estão escritos no céu, é pela graça de Deus que fomos salvos e recebemos em mistério a realidade, de que os sinais antigos eram promessa. A imensa bondade de Deus nos trouxe até aqui, diante deste altar que se une misteriosa, mas realmente ao altar da liturgia celeste.

Esforçai-vos por entrar pela porta estreita” (Lc13, 23)

Caríssimos irmãos, chegamos ao Santo Evangelho proclamado hoje (cf. Lc 14, 1.7-14). Nele vemos Jesus que, a propósito de um caso concreto, ensina aos discípulos a grandeza da humildade, particularmente nas nossas relações com os outros.

Na cena narrada por são Lucas – comentava Bento XVI em 2016 – encontramos Jesus hóspede na casa de um chefe dos fariseus. Observando que os convidados escolhiam os primeiros lugares à mesa, Ele contou uma parábola, ambientada num banquete nupcial. «Quando fores convidado para um banquete nupcial, não ocupes o primeiro lugar, não tenha sido convidado alguém mais digno do que tu, e venha o que vos convidou, a ti e ao outro, e te diga: “Cede a este o teu lugar”… Quando fores convidado, vai-te sentar no último lugar» (Lc 14, 8-10).

O Senhor não pretende dar uma lição sobre boas maneiras, nem sobre a hierarquia entre as diversas autoridades. Mas ele insiste sobre um ponto decisivo, que é o da humanidade: «Todo aquele que se exalta será humilhado, e o que se humilha será exaltado» (Lc 14, 11).

Esta parábola, num significado mais profundo, faz pensar também na posição do homem em relação a Deus. O «último lugar» pode representar de facto a condição da humanidade degradada pelo pecado, condição da qual só a encarnação do Filho Unigénito a pode elevar. Por isto o próprio Cristo «ocupou o último lugar no mundo — a cruz — e, precisamente com esta humildade radical, nos redimiu e ajuda sem cessar» (Enc. Deus caritas est, 35).

No final da parábola Jesus sugere ao chefe dos fariseus que convide à sua mesa não os amigos, os parentes ou os vizinhos ricos, mas as pessoas mais pobres e marginalizadas, que não têm modo de retribuir (cf. Lc 14, 13-14), para que o dom seja gratuito. De facto, a verdadeira recompensa, no final, dá-la-á Deus «quem governa o mundo… Nós prestamos-lhe apenas o nosso serviço por quanto podemos e até onde nos dá a força» (Enc. Deus Caritas est, 35). Por conseguinte, mais uma vez olhamos para Cristo como modelo de humildade e de gratuidade: d’Ele aprendemos a paciência nas tentações, a mansidão nas ofensas, a obediência a Deus nos padecimentos, na expectativa que Aquele que nos enviou nos diga: «sobe mais para cima» (Lc14, 10); de facto, o verdadeiro bem é estar próximo d’Ele.

Há poucos dias celebramos a memória de São Luís IX, rei de França (Sec. XII). Este rei santo pôs em prática o que está escrito no Livro de Ben Sirac: «Quanto maior fores, mais te deverás humilhar, acharás misericórdia diante do Senhor» (Eclo 3, 18). De fato, no «Testamento espiritual ao seu filho» o santo monarca escrevia: «Se o Senhor te conceder a prosperidade, tens de agradecer-lhe humildemente, tomando o cuidado para que nesta circunstância não te tornes pior, por vanglória ou outro modo qualquer, porque não deves ir contra Deus ou ofendê-lo valendo-te dos Seus próprios dons» (Acta Sanctorum Augusti, 5 [1868], 546).

Celebramos hoje com gratidão a missão dos catequistas, que se entregam humildemente ao serviço da Palavra de Deus, na formação cristã de crianças, jovens e adultos. Como São Luís de França, sejam abençoados com a fidelidade à Igreja na transmissão da fé aos catequizandos, de cuja salvação eterna estão a serviço.

Movidos pelo exemplo dos Santos, mas especialmente o da Virgem Maria, abracemos a grandeza da humildade, que nos abre as portas da vida da graça.

            Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo!

 

Diocese de Itumbiara
Diocese de Itumbiarahttps://diocesedeitumbiara.com.br/
A Diocese de Itumbiara foi criada no dia 11 de outubro de 1966, pelo Papa Paulo VI, desmembrada da Arquidiocese de Goiânia; seu território é de 21.208,9 km², população de 286.148 habitantes (IBGE 2010). A diocese conta 26 paróquias, com sede episcopal na cidade de Itumbiara-GO.