A Mesa da Palavra – Solenidade de Assunção de Nossa Senhora

A MESA DA PALAVRA

Solenidade da Assunção de Nossa Senhora

Itumbiara, 17 de agosto de 2025)

[Oração pelas vocações à vida consagrada].

 

Maria é elevada ao céu, alegram-se os coros dos anjos

Caros amigos,

Como é bom louvar o Senhor, nosso Deus, e cantar salmos ao nome do Altíssimo! Ele realiza maravilhas inenarráveis na vida do seu Povo e coroa de beleza as obras de suas mãos, como fez com a Bem-Aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe. Assunta aos céus, é Ela a cheia de graça, plenamente dócil à ação do Espírito Santo; a primeira criatura humana a entrar no santuário celeste, onde já vive glorificada em corpo e alma.

São João Damasceno, referindo-se a este mistério numa célebre homilia, afirma: «Hoje, a santa e única Virgem é conduzida para o templo celeste… Hoje, a arca sagrada e animada do Deus Vivo, [a arca] que trouxe no seu seio o próprio Artífice, descansa no templo do Senhor, não construído por mãos humanas» (Homilia II sobre a Dormição, 2, PG 96, 723). E continua: «Era necessário que Aquela que tinha hospedado no seu ventre o Logos divino se transferisse para os tabernáculos do seu Filho… Era preciso que a Esposa escolhida pelo Pai habitasse no quarto nupcial do Céu» (Ibid., 14, PG 96, 742).

Unidos na mesma fé, nós, católicos de hoje, comungamos da mesma alegria que inflamou o coração dos santos de todos os séculos: celebrar, com júbilo inexcedível, a glorificação nos céus — em corpo e alma — da Imaculada Virgem Maria, Mãe de Deus.

  1. Maria Assunta ao céu: Primícia e imagem da Igreja

A Mãe de Cristo, Maria, é hoje elevada ao céu em corpo e alma, cercada de esplendor e de glória. Todo o seu ser apresenta-se redimido e glorificado na Jerusalém celeste, por ter Ela vivido, aqui na terra, uma perfeita comunhão e total conformidade com a vida e ensinamento de Jesus Ressuscitado. Sendo Ela primícias e imagem da humanidade redimida, a sua glorificação não a separa da Igreja, mas a insere ainda mais intimamente nela.

Maria está no coração da Igreja, como modelo para o qual tendemos com a fé, a esperança e o amor, que nos fazem assumir com confiança e empenho o desígnio de Deus. Com efeito assim rezamos na coleta: “Deus eterno e todo-poderoso, que elevastes à glória do céu em corpo e alma a imaculada Virgem Maria, Mãe do vosso Filho, dai-nos viver sempre atentos às coisas do alto para merecermos participar de sua glória”.

Comparada com a coleta da antiga festa da Dormição, esta oração não é mera adaptação literária de um texto pré-existente. Trata-se de uma nova redação, que bebe no estilo romano clássico e retoma títulos e elementos tradicionais de Maria, integrando-os à expressão dogmática de 1950. Ela sintetiza bem o mistério que estamos celebrando: a glorificação integral de Maria como fruto de sua Imaculada Conceição e de sua íntima união com Cristo. É, ao mesmo tempo, proclamação de fé no dogma e súplica pastoral para que os fiéis busquem a glória de Deus e vivam com os olhos fixos no céu, configurando-se, destarte, Àquela que já participa plenamente da vitória pascal.

O povo de Deus – diz o prefácio – é ainda “peregrino na terra”, mas a Assunção de Maria, que é a Mãe, é para ele “sinal de consolação e de segura esperança”. A devoção a Maria, porém, deve tornar-se prática e operosa, pois a fé da Virgem Santíssima manifestou-se não só no silêncio orante, mas também nas palavras e nas obras.

Nesta solenidade, enquanto contempla o mistério da Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria aos céus em corpo e alma, a Igreja no Brasil se dedica a refletir sobre a vocação à Vida Consagrada, como expressão da presença de testemunhas e sinais do Reino de Deus na história. Suplicamos, com a Virgem Mãe elevada à glória dos céus, que muitos irmãos e irmãs se disponham a discernir a própria vocação, seguindo Jesus mediante a profissão dos conselhos evangélicos de castidade, pobreza e obediência.

  1. “… apareceu no céu um grande sinal: uma mulher vestida do sol, tendo a lua debaixo dos pés…” (Ap 12,1)

Na primeira leitura, tomada dos capítulos 11 e 12 do Apocalipse, surge a misteriosa figura da Mulher, que desde os tempos dos Santos Padres foi interpretada como imagem (ícone) do antigo povo de Israel, da Igreja de Cristo ou da Santíssima Virgem. Qualquer dessas interpretações encontra respaldo no texto, ainda que nenhuma esgote todos os pormenores.

A Mulher grávida representa o povo de Israel, do qual nasce o Messias (cf. Is 26,17). Pode igualmente simbolizar a Santa Igreja, cujos filhos lutam contra o mal por darem testemunho de Jesus (cf. v. 17). Mas pode também referir-se à Santíssima Virgem Maria, enquanto ela deu histórica e realmente à luz o Messias, nosso Senhor Jesus Cristo. São Bernardo, comentando este texto, assim se expressa: “No sol há cor e esplendor estáveis, na lua só resplendor completamente incerto e mutável, pois nunca permanece no mesmo estado. Com razão, pois, Maria é apresentada vestida de sol, já que ela penetrou o profundo abismo da sabedoria divina para além de quanto pudesse crer-se” (De B. Virgine, 2).

A figura da Mulher reflete traços próprios da Virgem, da Igreja e do antigo Israel, pelo que podemos ver nela incluídas as três realidades. Por isso não erra a Tradição iconográfica católica quando reconhece no grande sinal da “mulher que tem o sol por manto, a lua sob os pés, e uma coroa de doze estrelas na cabeça” (Ap 12,1) a Virgem Imaculada que foi assunta ao céu e, ao mesmo tempo, a imagem da Igreja ameaçada pelo Dragão infernal. Nessa página da Revelação, o Dragão significa ao mesmo tempo a antiga serpente (Gn 3,15) e os poderes mundanos, causa segunda da ação diabólica daquele que é o homicida, dos que então como hoje perseguem à morte os discípulos de Jesus.

No dogma da Assunção da Virgem Maria, proclamado por Pio XII, dia 1º de novembro de 1950, a Igreja nos ensina que “terminado o curso da vida terrena, foi assunta em corpo e alma à glória” (Munificentissimus Deus, §44). Ela nos precede na glória celeste a que estamos destinados e nós confiamos que não há comparação entre os sofrimentos do tempo presente e a glória que nos está reservada no céu (cf. Rom 8,18). Conforme as promessas feitas por Deus já no protoevangelho (Gn 3,15), a descendência da mulher derrota a serpente e nos abre o caminho da vida.

Desde priscas eras, a tradição litúrgica da Igreja aplica as palavras do salmo 44 à Santíssima Virgem e à Igreja, estendendo-as ao amor esponsal próprio da vida consagrada. É, na experiência da comunhão dos santos, que podemos contemplar o sentido e a unidade desses três mistérios: a Igreja, a Virgem Maria e a vocação à vida consagrada.

III.Cristo ressuscitou dos mortos, primícias dos que adormeceram” (I Cor 15,20).

Na segunda leitura, extraída da primeira Epístola aos Coríntios, descobrimos o fundamento da graça da Assunção de nossa Senhora precisamente na vitória de Cristo sobre a morte e sobre todos os principados e potestades. Jesus ressurgiu como o primeiro. A Ele, e à Sua imagem, seguirão outros irmãos que nele creram e dele receberam a Vida nova.

Efetivamente, dentre os cristãos o primeiro lugar pertence a Nossa Senhora, que sempre foi de Deus e jamais conheceu o pecado. Não é inútil lembrar a oração coleta, em que a Igreja louva a Deus pela Assunção rezando: “elevastes à glória do céu em corpo e alma a imaculada Virgem Maria, Mãe do vosso Filho”. Ela é a única criatura em quem o esplendor da imagem de Deus nunca se viu ofuscado: é a “Imaculada Conceição”, a obra-prima intacta da Santíssima Trindade. Nela o Pai, o Filho e o Espírito Santo encontraram total correspondência ao Seu amor. Por essa singular dignidade, a Virgem Maria aparece plenamente associada à vitória de Cristo.

Quanto aos demais, o Apóstolo nos lembra que, um dia, todos os crentes terão parte na Sua glorificação, mas em proporção diversa: “Primeiro Cristo, como primícias; depois, os que pertencem a Cristo” (I Cor 15,23). A antiga serpente foi posta debaixo dos pés do Ressuscitado e já não exerce poder sobre os redimidos.

  1. …o Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor” (Lc 1,49)

Do Evangelho da Anunciação e da Visitação (Lc 1,38-56), a Igreja aprendeu a perpetuar o seu Magnificat pelas grandes coisas que Deus realizou através da jovem Myriam de Nazaré. E assim congregados no seio da assembleia orante, os consagrados unem sua voz à da Igreja para celebrar a glorificação da Mãe do Senhor: “Hoje a Virgem Maria, Mãe de Deus, foi elevada ao céu. Sinal de inabalável esperança e consolo para o povo peregrino, ela é primícia e imagem da Igreja chamada à glória, pois não quisestes que sofresse a corrupção do sepulcro aquela que gerou, de modo inefável, o vosso Filho feito homem, autor de toda a vida” (Prefácio).

“Hoje, a Igreja canta o amor imenso de Deus por esta sua criatura: escolheu-a como verdadeira «arca da aliança», como Aquela que continua a gerar e a oferecer Cristo Salvador à humanidade, como Aquela que no Céu compartilha a plenitude da glória e goza da mesma felicidade de Deus e, ao mesmo tempo, convida-nos a tornar-nos, também a nós do nosso modo modesto, «arca» em que está presente a Palavra de Deus, que é transformada e vivificada pela sua presença, lugar da presença de Deus, a fim de que os homens possam encontrar nos outros homens a proximidade de Deus e, desta forma, viver em comunhão com Deus e conhecer a realidade do Céu” (Bento XVI, Homilia 15-VIII-2011).

Maria é elevada em corpo e alma à glória do céu e, com Deus e em Deus, é rainha do céu e da terra. Está, porventura, distante de nós? Ao contrário, precisamente por estar com Deus e em Deus, está muito perto de cada um de nós. Quando estava na terra podia estar perto apenas de algumas pessoas. Estando em Deus, que está próximo de nós, mais ainda, que está “dentro” de todos nós, Maria participa desta proximidade de Deus. Estando em Deus e com Deus, está perto de cada um de nós, conhece o nosso coração, ouve as nossas orações, socorre-nos com a sua bondade materna e nos é – no dizer do Senhor – como “Mãe”, à qual podemos dirigir-nos em todos os momentos. Ela escuta-nos sempre, está sempre perto, e sendo Mãe do Filho, participa do poder do Filho, da sua bondade. Podemos confiar sempre toda a nossa vida a esta Mãe primorosa, que sempre está perto de nós.

A nossa Liturgia terrenal prossegue aclamando a esperança na glória eterna. Os louvores da Igreja peregrina se unem aos fastigiosos hinos da Igreja Triunfante para cantar em melodiosa harmonia o hino ao Deus três vezes santo, fonte de todos os dons. Exultemos, irmãos caríssimos, e levantemos aos céus o nosso louvor. Bendigamos ao Senhor que, na sua infinita liberalidade, nos quis dar por Mãe aquela que é a honra do gênero humano, o ornamento da Igreja e a glória do Paraíso.

E nós, confiantes na materna intercessão de Santa Maria Assunta, pedimos a Deus numerosas e santas vocações para a vida Consagrada em nossa amada Igreja de Itumbiara.

Diocese de Itumbiara
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A Diocese de Itumbiara foi criada no dia 11 de outubro de 1966, pelo Papa Paulo VI, desmembrada da Arquidiocese de Goiânia; seu território é de 21.208,9 km², população de 286.148 habitantes (IBGE 2010). A diocese conta 26 paróquias, com sede episcopal na cidade de Itumbiara-GO.