A Mesa da Palavra: XVIII Domingo do Tempo Comum – C

A MESA DA PALAVRA
XVIII Domingo do Tempo Comum – C
Itumbiara, 3 de agosto de 2025

«Vede bem, guardai-vos de toda a avareza» (Lc 12,14)

Caros amigos,

Amanhã, dia 4 de agosto, a Igreja celebrará a memória de São João Maria Vianney, o Cura d’Ars. Sua ardente santidade e vigoroso apostolado, fizeram dele um modelo de entrega na vida sacerdotal. Por essa razão, a Igreja católica dedica o mês de agosto à oração pelas vocações, em particular, no primeiro domingo do mês – hoje – pelas vocações ao sacerdócio ministerial.

Não é o dia da exaltação dos ministros sagrados, mas um dia de particular intercessão pelos sacerdotes, para que, superando as fragilidades próprias da condição humana, exerçam santamente a sublime função que a Igreja lhes confiou mediante a ordenação. Com os joelhos dobrados em adoração e súplica ofereçamos também este santo sacrifício para que Deus mande muitos operários para a messe que é grande. “Muitas vezes penso nisto: quando vamos adorar a Deus, podemos alcançar tudo o que desejamos se o pedimos com fé viva e coração puro” (S. João Maria Vianney, Catéchisme sur la prière).

I. “Assisti, Senhor, os vossos fiéis e cumulai com vossa inesgotável bondade…”

Esta oração, proveniente do Sacramentário Leoniano (n. 887), foi reproduzida no Missal Romano atualmente em uso, com alguns retoques que lhe favorecem uma compreensão espiritual: “Assisti, Senhor, os vossos fiéis e cumulai com vossa inesgotável bondade, aqueles que vos imploram e se gloriam de vos ter como criador e guia, restaurando para eles a vossa criação e conservando-a renovada”. O texto original pode datar do século V ou VI.

Com os pequenos retoques a feitos, ele soa agradável aos nossos ouvidos e conserva o sabor de vetusta tradição, sobretudo pela concisão com que condensa a profunda riqueza teológica. A expressão “inesgotável bondade” substituiu “opem tuam” (a vossa riqueza), que subentendia riqueza da graça de Deus, fruto de sua inesgotável bondade. A segunda parte, “se gloriam de vos ter como criador e guia…”, simplifica a redação precedente e ressalta que a nossa vocação é fruto da da restauração da nossa dignidade original.
A maravilhosa ação da graça de Deus restaura em nós aquela dignidade paradisíaca, precedente ao pecado e a bondade do Deus remunerador, configurando-nos a Cristo, no-la conserva renovada.

II. “Que aproveita ao homem todo o seu trabalho?” (Ecl 2,22).

Um sábio do povo do Antigo Testamento realizou, como toda a gente, uma experiência de vida, sobre a qual nos apresenta uma reflexão. Esta reflexão, embora marcada por um certo desencanto com o destino humano, assemelha-se ao ensinamento de Jesus no Evangelho. Não se deve colocar na vida presente e encerrar no arco da história nem a esperança pessoal, nem a esperança sobre o futuro da Igreja.

Vaidade das vaidades… A expressão mostra quão vazias são as nossas expectativas, se apoiadas em nós mesmos, naquilo que o Papa Francisco chamava auto-referencialidade. Noutro lugar, a Escritura nos alerta a não repormos nossa confiança no homem, pois só em Deus, só no Eterno, é que encontramos a feliz realização de nossas esperanças. Apenas a esperança em Deus não decepciona. Só em Jesus a revelação nos deu a conhecer a plenitude do sentido da vida.

A sabedoria dos Israelitas não conseguiu chegar ao verdadeiro sentido da existência humana, embora fosse confortado pela confiança no Senhor dos Exércitos, em quem sempre se refugia. De qualquer forma, a sabedoria de Israel ainda nos ajuda a perceber a caducidade desta vida e quão efêmeros são os bens temporais que tanto nos atraem no curso desta vida. Sem a luz da revelação trazida pelo Verbo de Deus encarnado, os outros homens, por melhores e mais virtuosos que sejam, ficam sempre no meio do caminho com as suas desilusões.

O compromisso comum dos sacerdotes santos como o Cura d’Ars sempre consistiu em salvar as almas e servir a Igreja com os respectivos carismas, contribuindo para a renovar e enriquecer. Estes homens adquiriram “um coração sábio” (cf. Sl 89,12), acumulando aquilo que não se corrompe e descartando o que é, irremediavelmente, mutável no tempo: o poder, a riqueza e os prazeres efêmeros. Escolhendo Deus, possuem todas as coisas necessárias, prelibando a eternidade desde a vida terrena (cf. Ecl 1-5). Afinal, no dizer do próprio Jesus, a vida eterna consiste nisso: “que te conheçam a ti, o Deus único e verdadeiro, e aquele que tu enviaste, Jesus Cristo” (Jo 17,3).

III. “Aspirai às coisas do alto, onde está Cristo” (cf. Col 3,1-2).

Já na segunda leitura, o Apóstolo dos Gentios, falando aos colossenses, lhes ensina a força do mistério pascal. O Cristão, de fato, é o homem pascal. Pela fé e pelo batismo, sacramento da fé, passou com Cristo da morte para a vida e deste mundo ao Pai, ainda que em mistério.

Aspirar às coisas do alto e viver como homem pascal, antes mesmo de ser uma exigência parenética, um requisito moral para a salvação, é um dom pascal, um tesouro que nos é dado por graça no batismo.

Aqui entendemos melhor a oração coleta: nela pedimos ao mesmo Deus que nos restaura pela graça que nos conserve restaurados. Mas há algo mais: é pela força da Páscoa que vivemos como novas criaturas, que podemos aspirar às coisas do alto, onde está Cristo. “Prestai atenção, meus filhinhos: o tesouro do cristão não está na terra, mas nos céus. Por isso, o nosso pensamento deve estar voltado para onde está o nosso tesouro. Esta é a mais bela obrigação do homem: rezar e amar” (S. João Maria Vianney, Catéchisme sur la prière).

Passamos então a viver, ainda aqui na terra, a novidade pascal, fruto da Páscoa de Cristo Senhor. Somos uma nova criação, com a dignidade original restaurada e acrescida. Na Igreja vivemos em comunhão a mesma vida, a Vida de Cristo ressuscitado, o que faz de nós participantes do mesmo Corpo de Cristo. Somos incorporados a Cristo, membros do seu corpo presente na história, que é a Igreja.

IV. “O que preparaste, para quem será”

Caros amigos,
No Evangelho de hoje, o ensinamento de Jesus se refere precisamente à verdadeira sabedoria.  Jesus não olha para o mundo e a vida com a amargura do sábio de Israel. Contudo, mediante uma meditação austera, Ele nos faz compreender que não é no apego aos bens deste mundo que se encontra o verdadeiro sentido da vida. Somos chamados todos, ricos e pobres, a nos tornarmos ricos aos olhos de Deus, acumulando tesouros no céu, que a traça não consome.

Notemos como uma pessoa no meio da multidão Lhe dá a Jesus a ocasião de lhes propor o seu ensinamento. Esse homem dirige-se a Ele com um pedido: “Mestre, diz a meu irmão que reparta comigo a herança” (Lc 12, 13). Respondendo, Jesus chama a atenção dos ouvintes para o desejo dos bens terrenos com a parábola do rico insensato que, tendo acumulado para si uma colheita abundante, para de trabalhar, dissipa os seus bens divertindo-se e chega a iludir-se que pode afastar a própria morte. “Deus, porém, disse-lhe: ‘Insensato! Nesta mesma noite pedir-te-ão a tua alma, e o que acumulaste, para quem será?’” (Lc 12, 20).

Na Bíblia, o homem insensato é aquele que não quer compreender, da experiência das coisas visíveis, que nada dura para sempre, mas tudo passa: tanto a juventude, como a força física, quer as comodidades, quer as funções de poder. Por conseguinte, fazer depender a própria vida de realidades tão passageiras é insensatez. Por sua vez, o homem que confia no Senhor não tem medo das adversidades da vida, nem sequer da realidade iniludível da morte: é o homem que adquiriu “um coração sábio”, como os Santos.
Nesta sabedoria, dom do Espírito Santo que nos ensina a chegar pelas coisas visíveis, efêmeras, àquelas invisíveis, eternas, se encontra o segredo de todo discernimento vocacional. Em particular pensemos hoje na vocação ao sacerdócio ministerial.

Supliquemos ao Espírito Santo que dê aos jovens de nossas famílias, de nossas comunidades, o desejo de discernir, de compreender mais e mais a que somos chamados, a grandeza do sacerdócio e a beleza de sermos servos dos irmãos leigos pela graça do ministério. O luminoso exemplo de oblação de si de São João Maria Vianney atraia para novas vocações para o sacerdócio e confirme na perseverança os que já se encontram nesse santo serviço.

Confiados na intercessão de Nossa Senhora, roguemos ao bom Deus que manifeste sobre todos nós a sua inesgotável bondade, para que sejamos renovados nos nossos bons propósitos de vida cristã. “A oração nos faz saborear antecipadamente a felicidade do céu… Na oração bem feita os sofrimentos desaparecem, como a neve que se derrete sob os raios do sol” (S. João Maria Vianney, Catéchisme sur la prière).

Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo.

 

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