A Mesa da Palavra: XVII Domingo do Tempo Comum – C

«Senhor, ensina-nos a rezar» (Lc 11,1)

 

Caros amigos,

 

Com Jesus Mestre aprendemos tudo sobre nossa vocação: somos todos chamados à santidade e ao apostolado. Hoje, Ele ensina-nos o passo-a-passo da oração cristã.

Na oração encontramos o caminho que nos introduz na amizade íntima com Jesus. Recordemo-nos da cena evangélica de Betânia. Ali, o Senhor Jesus manifestou a sua predileção pela atitude de escuta da Palavra, isto é, pela acolhida atenta do Seu ensinamento, de Sua Pessoa.

Na ação apostólica ou missionária, encontramos Jesus como Mestre e Taumaturgo, amigo das ovelhas dispersas, fatigadas, como ovelhas sem pastor. Ele instrui e cuida, envia os discípulos a intruir e a cuidar das ovelhas que lhes confia. Mas nunca os envia solitários. Sempre dois a dois. A missão é sempre da Igreja.

Nesta mesa da Palavra, meus caros amigos, nos é dado um riquíssimo ensinamento sobre a eficácia da oração de intercessão, da súplica confiante na misericordiosa condescendência de Deus. A eficácia da oração não está nos méritos do orante, mas na infinita solicitude do Senhor pela salvação de cada homem e de cada mulher que vem a este mundo.

Apoiados na instrução dada hoje pelo nosso Divino Mestre, entramos agora na escola da oração. Esta é sem dúvida um aprendizado de confiança no Deus libertador, de fé no Senhor Jesus, cujo nome é IHWH Salvador. A porta de entrada nesta escola é hoje a oração coleta deste Décimo Sétimo Domingo do Tempo Comum.

 

  1. Ó Deus, amparo dos que em vós esperam, sem vós nada tem valor, nada é santo. Multiplicai em nós a vossa misericórdia para que, conduzidos por vós usemos agora de tal modo os bens temporais que possamos aderir desde já aos bens eternos” (Coleta XVII Domingo comum).

 

Deus é o único fundamento seguro de toda a esperança. Nele encontramos a força espiritual para percorrer o itinerário da santidade e do apostolado. Nesta coleta suplicamos com confiança a força da graça para nos deixarmos conduzir por Ele. É mister usar os bens terrenos com retidão, a fim de merecermos e alcançarmos os bens eternos. E para tal discernimento, a oração é indispensável.

 

  1. E se houvesse apenas dez justos?” (Gen 18,32)

 

Iniciemos pela cena narrada na primeira Leitura, em que Abraão, com a insistência de um mercador oriental, regateia, pechincha para convencer o interlocutor a baixar o preço da salvação.

Por detrás desta cena está um questionamento muito importante, explicitado por Daniel-Rops: “Senhor de promessas auspiciosas, [Deus] também o é de punições. Sodoma e Gomorra atraíram sobre si terríveis ameaças; sua imoralidade fez com que Deus decidisse destruí-las. Abraão protesta: destruí-las inteiramente? Mas, uma vez que Deus é o Deus de Justiça, será justo castigar os inocentes por causa dos pecadores? Se naquelas cidades existirem alguns homens íntegros, Deus não as perdoará?” (História Sagrada do Povo de Deus, p. 55-56).

Na cena aparece a paciência de Deus, a Sua escuta cheia de compreensão, a Sua disponibilidade a “ceder” aos rogos de Abraão, por misericórdia.

Deus não havia declarado nenhuma condição para salvar, tinha apenas declarado o castigo. Afinal, a realidade espiritual é que o preço do pecado é a morte. Deus não cometeria injustiça alguma com a punição de Sodoma e Gomorra. Mas está disposto a ouvir os rogos de Abraão, a ter paciência com a oração que regateia o preço que ele supõe que Deus queira cobrar. Deus vai cedendo, de cinquenta justos chega a dez. com dez justos salvaria a cidade. Mas Abraão não vai além de dez justos. Sabemos que Abraão, a uma certa altura, para de insistir no seu pedido. Na cidade não havia nem dez justos para que Deus poupasse a cidade. Com a oração do santo Patriarca Abraão aprendemos a ousar na oração, a não desistir de nossas súplicas, a confiar ainda mais na longanimidade de Deus.

Há também uma outra ideia: os justos poupam os pecadores. Isto acontecerá quando um só Justo – não dez – expiará os pecados da humanidade inteira de todos os tempos, não apenas uma Cidade. E nós sabemos que assim se move o coração de Deus. No novo Testamento Deus envia Jesus para dar a sua vida em resgate de muitos.

Em todas as circunstâncias podemos, porém, dizer com o salmista: “no dia em que vos invoquei, vós me respondestes” pois “a vossa destra me salva”.

 

III. Com Cristo fostes sepultados no batismo; com ele também fostes ressuscitados por meio da fé no poder de Deus” (Col 2,12)

 

Na epístola aos Colossenses fica patente que os nossos pecados foram perdoados na Cruz de Jesus. O quirógrafo da nossa condenação foi pregado na Cruz e a nossa condenação foi anulada pelo sangue do Senhor.

Jesus é quem derrama a misericórdia do Pai sobre nós, é Ele quem assume sobre Si o preço da nossa condenação, mediante o que os teólogos mais clássicos chamam de satisfação vigária de Cristo. No Catecismo da Igreja Católica lemos: “Jesus ofereceu-se livremente à sua paixão por nosso amor. ‘O Filho de Deus amou-me e entregou-se a si mesmo por mim’ (Gl 2,20). Cada um de nós pode dizer: ‘Cristo amou-me e entregou-se por mim’.(CIC, n. 609).

Pelo pecado de um só a morte entrou no mundo. Pela oblação de um só, Jesus, a salvação entrou no mundo. Ela nos é conferida mediante o batismo, pela justificação: Deus nos acolhe pecadores e nos torna justos, nos justifica.

Fomos, portanto, justificados, isto é, salvos e transformados em novas criaturas. Antes estávamos mortos por causa dos pecados, mas agora Deus nos trouxe para a vida, junto com Cristo, e a todos nós perdoou os pecados (cf. Col 2,13).

 

  1. Pedi e recebereis, procurai e encontrareis, batei e abrir-se-vos-á” (Lc 11,9)

 

Voltemos ao tema da força da oração presente também no Santo Evangelho hoje proclamado. Deixemo-nos guiar pela alocução do Santo Padre, o Papa Leão XIV, ao povo presente em Castel Gandolfo para a oração do Angelus. Dizia ele:

“Hoje, o Evangelho apresenta-nos Jesus a ensinar aos seus discípulos o Pai-Nosso (cf. Lc 11, 1-13): a oração que une todos os cristãos. Nela, o Senhor convida a dirigirmo-nos a Deus chamando-lhe “Abbá”, “paizinho”, como crianças, com «simplicidade […], confiança filial, […] ousadia […], certeza de ser amado» (Catecismo da Igreja Católica, 2778).

A este propósito, o Catecismo da Igreja Católica diz, com uma expressão muito bela, que «pela oração do Senhor, nós somos revelados a nós próprios, ao mesmo tempo que nos é revelado o Pai» (ibid., 2783). E é verdade: quanto mais confiantes rezamos ao Pai do Céu, tanto mais nos descobrimos filhos amados e tanto mais conhecemos a grandeza do seu amor (cf. Rm 8, 14-17).

No Evangelho de hoje, o próprio Jesus descreve os traços da paternidade de Deus por meio de algumas imagens bem sugestivas: a de um homem que se levanta no meio da noite para ajudar um amigo a acolher uma visita inesperada; ou a de um pai que tem o cuidado de dar coisas boas aos seus filhos.

Estas imagens recordam-nos que Deus nunca nos vira as costas quando nos dirigimos a Ele, nem mesmo se chegamos tarde para bater à sua porta, talvez depois de erros, de oportunidades perdidas, de fracassos, nem mesmo se, para nos acolher, Ele tiver de “acordar” os seus filhos que dormem em casa (cf. Lc 11, 7). Pelo contrário, na grande família da Igreja, o Pai não hesita em tornar-nos todos participantes de cada um dos seus gestos de amor. O Senhor escuta-nos sempre que rezamos, e, se por vezes nos responde em momentos e formas difíceis de compreender, é porque age com uma sabedoria e uma providência maiores, que estão para além da nossa compreensão. Por isso, mesmo nestes momentos, não deixemos de rezar; e rezar com confiança: n’Ele encontraremos sempre luz e força.

No entanto, ao recitarmos o Pai-Nosso, além de celebrarmos a graça da filiação divina, exprimimos também o nosso compromisso de corresponder a esse dom, amando-nos uns aos outros como irmãos em Cristo. Um dos Padres da Igreja, meditando sobre isto, escreve: «Devemos saber e lembrar que, se dizemos que Deus é Pai, precisamos agir como filhos» (S. Cipriano de Cartago, A oração do Senhor, 11), e outro acrescenta: «Não pode chamar de Pai ao Deus de toda a bondade quem conserva um coração cruel e indócil; pois assim já não possui em si a marca daquela bondade do Pai celeste» (S. João Crisóstomo, Homilia sobre a porta estreita e a oração do Senhor, 3). Não se pode rezar a Deus como “Pai” e depois ser duro e insensível para com os outros. Pelo contrário, é importante deixarmo-nos transformar pela sua bondade, pela sua paciência, pela sua misericórdia, para refletir o seu rosto no nosso como em um espelho.

Para viver bem a dimensão apostólica da nossa vocação batismal é importante cultivar a amizade pessoal com Jesus. Aqui encontramos o segredo da boa oração: intimidade com o Senhor. Dirigindo-se aos sacerdotes, há poucos dias, o Papa Leão XIV dizia que “é necessário viver pessoalmente a experiência da intimidade com o Mestre, de ser visto, amado e escolhido por Ele sem mérito e por pura graça, pois é antes de mais nada esta nossa experiência que depois transmitimos no ministério”. Quanto anunciamos o Evangelho, aqui nas circunstâncias mais corriqueiras da nossa vida, ou na missão ad gentes além-fronteiras, nós transmitimos primeiro a nossa experiência pessoal de amizade com Cristo. Esta experiência transparece no nosso modo de ser, no nosso estilo, na nossa humanidade, do modo como somos capazes de viver as relações humanas nos nossos círculos de amizade ou nos ambientes profissionais.

Em resumo, queridos irmãos e irmãs, a liturgia de hoje é um convite incisivo, na oração e na caridade, a sentirmo-nos amados e a amar como Deus nos ama: com disponibilidade, discrição, solicitude recíproca, sem cálculos. Peçamos a Maria que saibamos responder este chamamento, para manifestar a doçura do rosto do Pai, pois para sermos plenamente fiéis à nossa vocação batismal, é necessário um contínuo caminho de conversão ao Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo.

Santa Rita de Cássia interceda sempre por todos e cada um de nós.

Amém

 

Diocese de Itumbiara
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A Diocese de Itumbiara foi criada no dia 11 de outubro de 1966, pelo Papa Paulo VI, desmembrada da Arquidiocese de Goiânia; seu território é de 21.208,9 km², população de 286.148 habitantes (IBGE 2010). A diocese conta 26 paróquias, com sede episcopal na cidade de Itumbiara-GO.