XII Domingo do Tempo Comum – Ano C

A MESA DA PALAVRA
XII Domingo do Tempo Comum – Ano C
Itumbiara, 22 de junho de 2025
“Derramarei … um espírito de graça e súplica” (Zc 12,10)

Caros amigos,

  1. Concedei-nos, Senhor, a graça de sempre temer e amar vosso santo nome

A oração da Igreja sempre nos dispõe para abraçar os dons do Espírito Santo, especialmente o santo temor, princípio da sabedoria; a piedade filial, própria da intimidade divina. O encontro com o Senhor na oração abre as nossas almas para a docilidade às delicadas moções do mesmo Espírito Santo, sobretudo quando se trata de abraçar a cruz de cada dia com a alegria e a  paz dos filhos de Deus.

Neste dia do Senhor, em que nos reunimos para bendizer o Nome santíssimo do Senhor mediante o Sacrifício Eucarístico, a Santa Igreja, pela boca dos seus ministros, eleva ao Céu uma súplica de antiga linhagem, recolhida do venerando Sacramentarium Gelasianum (n. 556), e fielmente conservada na lex orandi do Missal Romano:

“Concedei-nos, Senhor, a graça de sempre temer e amar vosso santo nome, pois nunca cessais de conduzir os que firmais solidamente no vosso amor”[1]. 

Na revisão do Missal realizada sob a orientação do Papa São Paulo VI e traduzida pelos bispos do Brasil com zelo fiel pela fé da Igreja, descobrimos a força da comunhão com a oração pública da Igreja. Ela nos une a Cristo e aos irmãos.

O temor do Senhor é dom do Espírito Santo que afasta o medo servil e se manifesta como reverência filial. Longe de ser afeto meramente sensível, o amor a Deus se manifesta como vínculo de perfeição, que firma, que estabelece, que sustém. E é precisamente este vínculo, esta firmeza, que nos permite atravessar os ventos da provação, sem naufragar na desesperança.

É sempre proveitoso para nossa alma saborear a oração litúrgica da Igreja como fonte de vida espiritual. Assim se abrem para nós os segredos das Escrituras dispostos na mesa da Palavra da Igreja.

 

II. “Olharão para aquele a quem transpassaram” (Zc 12,10)

 

            A profecia de Zacarias nos faz descobrir um olhar que redime. Aquele mesmo Senhor que foi transpassado pelos cravos dos nossos pecados, está no ostensório da Cruz para ser amado e venerado. A Cruz é gloriosa, mas só quando a dolorosa paixão do Senhor é levada a termo. E o Sangue derramado na Cruz e por nós contemplado, revela as entranhas de misericórdia de nosso bom Deus.

Nas sagrado oráculo de Zacarias, ressoa a antecipação misteriosa do acontecimento pascal: “Derramarei sobre a casa de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém um espírito de graça e súplica: olharão para aquele a quem transpassaram” (Zc 12,10). E logo a seguir se expande o coração numa confidência de amor misericordioso: “Naquele dia haverá uma fonte aberta… para purificar do pecado e da impureza” (Zc 13,1).

Séculos depois, ao narrar a morte do Salvador, São João citará esta profecia em tom solene (cf. Jo 19,37), como que declarando: Eis cumprida a Escritura. O Cordeiro foi imolado. A fonte foi aberta.

São João Crisóstomo, que bem conhecia os escritos do Discípulo Amado, comenta a passagem evangélica e nos adverte de modo incisivo: “Eles não O contemplam com os olhos do corpo, mas com a mente, a fé e o espírito”[2].

Este olhar a que nos chama o profeta é, portanto, oração. É conversão. É adoração. É o olhar da alma que reconhece no Crucificado o Esposo ferido, cuja chaga é porta de misericórdia.

 

III. “A minh’alma tem sede de vós como terra sequiosa e sem água” (Sl 62)

 

            Não apenas o olhar procura o rosto do Senhor. A alma tem sede de Deus. É a sede do justo que deseja saciar-se nas misericórdias do Senhor.

            O salmista canta com ardor: “A minh’alma tem sede de vós como terra sequiosa e sem água”. A alma do justo anseia pelo Deus vivo, e busca nEle a fonte da misericórdia. Esta sede nasce do olhar que contempla o Transpassado. É sede de verdade, de justiça, de salvação.

            Francisco Fernández-Carvajal nos ajuda a saborear mais as palavras santas das Escrituras: “A alma que contempla Cristo crucificado não pode permanecer indiferente. A contemplação da Cruz provoca no coração sincero um desejo profundo de conversão, de retidão e de entrega” [3].

Caros amigos, quem contempla a Cruz não pode permanecer de braços cruzados. Ou o coração se endurece como o do soldado, ou se rasga como o véu do Templo. Não há meio-termo diante do Amor transpassado.

 

III. “Todos vós sois filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo”.

 

São Paulo, escrevendo aos Gálatas, afirma com clareza que pelo batismo recebemos a graça da filiação divina: “Todos vós sois filhos de Deus pela fé em Jesus Cristo. Vós todos que fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo.” (Gl 3,26-27)

O Batismo não é um ritual meramente simbólico, é um sacramento da Nova Aliança, que imprime na alma o caráter indelével de filhos de Deus. É “revestir-se de Cristo” para caminhar em novidade de vida, assumindo de Cristo a identidade, a missão, a Cruz. Somos de fato inseridos no Corpo de Cristo.

Santo Atanásio, na sua epistola a Serapião, ensina que nos tornamos participantes da natureza divina, se, pelo Espírito, formos regenerados em Cristo[4].

            A cruz de Cristo não é então um espetáculo externo: é o selo do Batismo, invisível mas real, gravado na alma de cada fiel.

 

  1. Se alguém quiser me seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia e siga-me

 

O Evangelho é confissão de fé e cruz por fidelidade.

Quase que fazendo uma “pesquisa de opinião”, Jesus nosso Senhor interroga os discípulos: “E vós, quem dizeis que eu sou?”. Pedro, como de costume, toma a frente e responde, quase que resumindo a fé do grupo, a fé da Igreja: “Tu és o Cristo de Deus” (Lc 9,20).

Mas logo após a confissão de Pedro, o Senhor Jesus anuncia a sua morte de cruz: “O Filho do Homem deve sofrer muito… ser rejeitado… ser morto e ressuscitar”.

Mas não anuncia apenas a Sua Cruz. Ele declara que após a Cruz do Mestre, vem a do discípulo: “Se alguém quiser me seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia, e siga-me” (Lc 9,23). Não há genuíno seguimento de Cristo sem que unamos nossas pequenas e grandes cruzes de cada dia à Cruz do Senhor. Nossas mortificações,  as contrariedades aceitas por amor ao Senhor, o cansaço e os frutos do trabalho, as arestas aparadas no relacionamento humano, tudo no pode ser levado à Cruz de Cristo mediante o Pão e o Vinho oferecidos no altar das nossas Eucaristias. Lá nos tornamos como que contemporâneos da Cruz do Senhor. O Sacrifício incruento nos une ao da Cruz do Senhor.

Com sua peculiar lucidez espiritual, o grande Santo Ambrósio, comenta: “Não basta ter fé, é necessário também seguir: segue, pois, o teu Senhor, sustenta a cruz, carrega a cruz”[5].

E São Cirilo de Alexandria, na mesma linha, acrescenta: “A cruz há de ser carregada não para a morte, mas para a vida: pois foi pela cruz que Cristo deu vida ao mundo”[6].

E como não lembrar as elegantes palavras de Padre Vieira na Quarta-feira de Cinzas de 1650? Naquela memorável pregação ele adverte os ouvintes adverte com seu incansável vigor profético: “Cristo morreu por todos, mas todos não querem morrer por Cristo. Morreu por todos, e todos O desprezam: e os que O confessam, O negam com a vida”.

Confessar com a boca, negar com os atos: este é o escândalo dos cristãos mornos, dos batizados indiferentes, dos discípulos sem cruz. Para que a nossa confissão seja verdadeira, deve ser contínua, vivida, dolorosamente fiel.

De fato, com sua eloquência persuasiva, Padre Vieria dizia noutro lugar: “Amar a Cristo é padecer por Ele”.

 

Caríssimos irmãos,

O caminho do cristão, hoje e sempre, passa pela frequente consideração da Paixão do Senhor, passa pelo olhar sobre o Crucificado, pela confissão de fé no Cristo de Deus, e pela aceitação da cruz cotidiana.

Rogo com confiança no Coração do Bom Pastor, que o Espírito de graça e súplica, prometido por Zacarias, seja derramado sobre nós. Que a fonte da purificação, aberta no lado do Redentor, nos lave de toda impureza. E que, firmados no amor que não abandona, possamos seguir o Cordeiro, não apenas com os lábios, mas com a vida.

            A Virgem Santíssima, do título de nossa Senhora das Dores, nos ajude a apresentar ao Senhor nossas dores de cada dia com confiança filial.

            Amém.

 

[1] Concéde, Dómine, nobis semper et timórem tui nóminis et amórem: quia numquam tua gubernatióne destítuis quos in soliditáte tuæ dilectiónis instítuis” (Missale Romanum, Collecta XII Dominica per annum)

[2] Non oculis corporis aspiciunt, sed mente, fide et spiritualiter (Catena Aurea in Ioannem, 19,37).

[3] Cf. F. F. Carvajal, Falar com Deus, XII Domingo do Tempo Comum.

[4] Divinae naturae consortes efficimur, si per Spiritum in Christo regenerati fuerimus (Ep. ad Serapionem, II, 1).

[5] Non sufficit fidem habere nisi etiam sequaris: sequere ergo Dominum tuum, sustine crucem, porta crucem (Expositio in Lucam, VII, 154).

[6] Crux portanda est non ad mortem, sed ad vitam: per crucem enim Christus vitam dedit mundo (Catena Aurea in Lucam, 9,23).

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A Diocese de Itumbiara foi criada no dia 11 de outubro de 1966, pelo Papa Paulo VI, desmembrada da Arquidiocese de Goiânia; seu território é de 21.208,9 km², população de 286.148 habitantes (IBGE 2010). A diocese conta 26 paróquias, com sede episcopal na cidade de Itumbiara-GO.