A MESA DA PALAVRA
Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo – Ano C
Itumbiara, 19 de junho de 2025
“O sacrum convivium! in quo Christus sumitur”
Queridos irmãos e irmãs!
A festa do Corpus Christi é inseparável da Quinta-Feira Santa, da Missa in Coena Domini, na qual se celebra solenemente a instituição da Eucaristia. Enquanto na tarde de Quinta-Feira Santa se revive o mistério de Cristo que se oferece a nós no pão partido e no vinho derramado, hoje, na celebração do Corpus Christi, este mesmo mistério é proposto à adoração e à meditação do Povo de Deus. O Santíssimo Sacramento, nesse dia, costuma ser levado em procissão pelas ruas das cidades e das aldeias, para manifestar que Cristo ressuscitado caminha no meio de nós e nos guia para o Reino do céu. O que Jesus nos doou na intimidade do Cenáculo, hoje desejamos manifestá-lo abertamente, porque o amor de Cristo não está destinado a alguns, mas a todos. Por isso, hoje, a Santa Missa se conclui com uma solene procissão, com o Santíssimo Sacramento que visita algumas ruas de nossa amada cidade.
Antes, porém, desejo lembrar alguns aspectos importantes da nossa oferta Eucarística ao nosso Pai, por meio de Jesus Cristo, movidos pelo Espírito. É a invocação do mesmo Espírito que converte pão e vinho, no Sacratíssimo Corpo e Sangue do Senhor, no augustíssimo sacramento em que o Senhor Jesus se oferece em sacrifício ao Pai, hoje no altar, como ontem no Calvário.
Acolhamos com espiritual atenção as palavras santas que nos falam deste sacrossanto mistério, segredo que Deus quis dar-nos a conhecer.
- I. “Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho” (Gen 14,18).
A Eucaristia, caros irmãos, é o sinal sacramental do sacrifício do Senhor por Ele oferecido na Cruz. Já no Antigo Testamento aparecem muitos sinais prefigurativos da Eucaristia. “O Sacerdócio do Novo Testamento está estreitamente vinculado à Eucaristia. Por isso hoje, na Solenidade de Corpus Christi (…) somos convidados a meditar sobre a relação entre a Eucaristia e o Sacerdócio de Cristo. É nesta direção que se orientam também a primeira leitura e o Salmo responsorial, que apresentam a figura de Melquisedeque” (Bento XVI, Homilia 3.VI.2007).
A primeira leitura, brevíssima perícope do Gênesis (14,18-20), diz que Melquisedeque, Rei de Salém, era “sacerdote do Deus Altíssimo”. Abraão o procurou para apresentar a sua oferta de ação de graças pela vitória em uma batalha. Melquisedeque então apresentou pão e vinho como oblação e abençoou Abraão. O próprio Abraão ofereceu-lhe o dízimo de tudo, pois, como dirá São Paulo mais tarde, “o operário é digno do seu salário” (I Tm 15,18). Trata-se da prefiguração do sacerdócio de Jesus, que Ele mesmo comunicará mais tarde aos Apóstolos e aos sucessores os Bispos, bem como aos presbíteros.
Não sem razão, o salmo 109 contém na última estrofe um solene juramento do próprio Deus, que declara ao Rei Messias: “Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque”. Assim o Messias é proclamado não apenas Rei, como também sacerdote. (Sl 109,4). Melquisedeque se torna paradigma do sacerdócio da nova e eterna Aliança. Neste salmo, o autor da carta aos Hebreus se inspirará para expor sua doutrina sobre o sacerdócio de Cristo.
Por isso é suave cantar também nas ordenações sacerdotais o belíssimo canto “Tu es sacerdos in aeternum”, recordando o Rei de Salém, mas sobretudo louvando o Sumo e Eterno sacerdote de cujo sacerdócio participam de modo especial os Presbíteros e os Bispos. Roguemos a Deus pela santificação dos sacerdotes, que nos dão a Eucaristia, e peçamos muitas vocações para o sacerdócio ministerial. O sacerdócio ministerial se relaciona intimamente com a Eucaristia. A segunda leitura e o Evangelho, como veremos, voltam a atenção para o Mistério Eucarístico.
- “Todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor” (I Cor 11,26).
Foi na Sua morte que o Senhor consumou a oblação de sua vida ao Pai. Este acontecimento é central na vida da comunidade cristão. O Sacrifício de Cristo realizado uma vez para sempre no Calvário é celebrado de modo incruento, de forma sacramental, na Ceia do Senhor ou Missa. Ao nos nutrirmos do Corpo do Senhor e nos dessedentarmos bebendo o seu Sangue, proclamamos até à sua vinda que a sua morte na Cruz é para nós fonte de vida e ressurreição. Mais ainda, que unindo-nos à oblação do Senhor, abrem-se as portas do céu para com Ele passarmos deste mundo ao Pai.
Na segunda leitura, extraída da Primeira Carta aos Coríntios (11,23-26), São Paulo evoca para aquela comunidade o significado e o valor fundamental da “Ceia do Senhor”. Ele lhes havia transmitido a tradição que recebera e cuja centralidade lhes havia ensinado. Contudo os membros da igreja de Corinto estavam correndo o risco de perdê-la. A celebração da Ceia aparece como memorialis raepresentatio do mistério Pascal.
Já se entrevê no texto do Apóstolo sobre a traditio da liturgia primitiva que a Eucaristia é verdadeiro sacrifício, memorialis repraesentatio incruenta do sacrifício da Cruz, no qual Jesus é sacerdote, altar e oblação. Podemos dizer que na Santíssima Eucaristia, Cristo mesmo continetur, offertur et sumitur – o próprio Senhor Jesus Cristo se contém, se oferece e se recebe em comunhão.
Efetivamente, se na primeira leitura se alude ao aspecto sacrificial da liturgia católica: a eucaristia oferecida, na segunda leitura se entrevê a liturgia como lugar da permanência do Senhor entre nós até que ele venha. De fato, uma vez operada a transubstanciação mediante a invocação do Espírito Santo e as palavras do Senhor pronunciadas pelos sacerdotes, Cristo todo está real e substancialmente presente em cada uma das espécies do pão e do vinho, corpo, sangue, alma e divindade.
Daí fé na presença real do Senhor na Eucaristia nasce a prática do Culto Eucarístico fora da Santa Missa, diante do Senhor Sacramentado, presente no Tabernáculo, assim como a realização de Procissões. As constantes visitas dos fiéis ao Santíssimo Sacramento são manifestações de um sólido colóquio com o Senhor, por séculos de piedade cultivado em todo o mundo. Esta convicção de fé tem implicações espirituais e pastorais com forte incidência na relação entre pastores e fiéis, e na vida diária dos discípulos de Cristo.
Nesse sentido se entende por que o Papa Francisco, de saudosa memória, abriu o seu coração em confidência tão íntima no nº 264 da Evangelii Gaudium: «Como é doce permanecer diante dum crucifixo ou de joelhos diante do Santíssimo Sacramento, e fazê-lo simplesmente para estar à frente dos seus olhos! Como nos faz bem deixar que Ele volte a tocar a nossa vida e nos envie para comunicar a sua vida nova! Sucede então que, em última análise, “o que nós vimos e ouvimos, isso anunciamos” (1 Jo 1, 3)». Com esta confidência do Papa Francisco entendemos o significado de nossa vocação a ser adoradores em Espírito e verdade.
Mas a Eucaristia é alimento, Pão dos Anjos, Pão vivo descido do céu, como nos insinua a leitura do Santo Evangelho.
III. “Comeram e ficaram saciados” (Lc 9,17)
A multiplicação dos pães e dos peixes é uma figura da Eucaristia. O Evangelista apresenta-a em termos semelhantes àqueles em que descreve a instituição da Eucaristia. De fato, a Eucaristia é para nós alimento de vida eterna, pão dos viajores, viático para os peregrinos na travessia do deserto na nossa caminhada terrenal.
O terceiro verbo, sumitur, é recebido em comunhão indica que ao celebrarmos o santo o sacrifício do Senhor, a Igreja celebra o banquete das núpcias do cordeiro. Como não lembrar tradicional motete litúrgico “ó sacrum convivium” recolhido como antífona no ofício divino desta solenidade. O sacrum convivium! / in quo Christus sumitur: / recolitur memoria passionis eius: / mens impletur gratia / et futurae gloriae nobis pignus datur. – Ó sagrado banquete, no qual Cristo é recebido, é renovada a memória de sua Paixão, a alma é repleta de graça e nos é dado o penhor da glória futura.
O sagrado banquete em que a alma dos filhos se delicia no Senhor tem exigências espirituais. “Eis o pão que os anjos comem | transformado em pão dos homens | só os filhos o consomem” (Sequência). Para receber o Pão dos Anjos, é preciso ter a alma em graça, manifestar as devidas disposições também no aspecto externo. Como é triste ver irmãos nossos se apresentando para receber o Senhor em trajes inadequados, ou do modo errado. Como é doloroso para um sacerdote ver pessoas divididas entre o Deus ciumento de nossa fé e outros opiniões opostas àquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida. Como é sofrido para o sacerdote ver pessoas cujo porte e comportamento não são compatíveis com a santa comunhão. Por isso é necessária a confissão dos pecados graves para estarmos em condições de receber o Senhor frutuosamente, para nossa salvação e santificação. Isso requer conversão.
Esta conversão – dizia Bento XVI – “é possível graças a uma comunhão mais forte que a divisão, a comunhão do próprio Deus. É bonita e muito eloquente a expressão «receber a comunhão» referida ao gesto de comer o Pão eucarístico. Quando realizamos este gesto, entramos em comunhão com a própria vida de Jesus”. Ouvimos ainda há pouco, na segunda Leitura, aquelas palavras do apóstolo Paulo, dirigidas aos cristãos de Corinto: «O cálice da bênção que benzemos não é a comunhão do sangue de Cristo? E o pão que partimos não é a comunhão do corpo de Cristo? Uma vez que há um único pão, nós, embora sendo muitos, formamos um só corpo, porque todos nós comungamos do mesmo pão» (1 Cor 10, 16-17).
Caros irmãos, o sagrado banquete é sacramento de unidade. Nós o recebemos do Senhor através do ministério Apostólico o sacramento da comunhão. Nossa unidade está na comunhão com o Santo Padre e os Bispos em comunhão com ele. Do contrário a Eucaristia é instrumentalizada para a quebra da unidade pela qual Cristo orou antes de se entregar (cf Jo 17). A nossa família eclesial nasce da Eucaristia, da comunhão, entre pessoas mesmo com posições legitimamente divergentes em campo econômico, social, politico e de idéias. A transposição de conflitos sociais para o seio da Igreja nos faria sofrer muito, perder na vida a comunhão que desejamos na celebração da Eucaristia.
Mas há ainda uma outra questão que intriga o coração dos pastores. Além dos que comungam sem a devida preparação, há os que são indiferentes á Eucaristia. Neste contexto surge imediata a pergunta: como é que se pode ficar privado da comunhão eucarística? Como podemos justamente no momento renunciar a receber o Pão da Vida?
A nossa fé no Mistério Eucarístico nos consola. O sacrifício eucarístico é uma memorialis repraesentatio não apenas da Ceia, mas também do sacrifício redentor do Senhor. Não apenas presença real, mas também um sacrifício que nos torna como que contemporâneos do sacrifício do Calvário. Os efeitos do Sacrifício do Calvário se derramam sobre o mundo inteiro cada vez que um sacerdote, com e em nome de toda a Igreja, celebra a Eucaristia, ainda que sem presença de povo. E os frutos da comunhão sacramental também podem ser alcançados pelo desejo ardente de receber a Jesus presente no sacramento. Trata-se da comunhão espiritual.
Que a Virgem Mãe Aparecida interceda por todos nós e nos ensine a ser adoradores em Espírito e verdade.

