Solenidade do Sacratíssimo Coração de Jesus

 

A MESA DA PALAVRA
Solenidade do Sacratíssimo Coração de Jesus – Ano C
Roma, 27 de junho de 2025

Alegrai-vos comigo! Encontrei a minha ovelha que estava perdida” (cf. Lc 15,6)

Caros amigos,

Hoje, Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, Dia mundial de oração pela santificação sacerdotal, celebramos com alegria esta Eucaristia no dia em que o Santo Padre Leão XIV realiza na Basílica Papal de São Pedro, o Jubileu dos Sacerdotes, que tiveram a graça de passar pela Porta Santa.

  1. Concedei que mereçamos receber dessa fonte divina uma torrente de graças” (Collecta)

O Coração de Cristo é fonte de misericórdia e escola para os corações sacerdotais. De Seu lado aberto haurimos sangue e água da misericórdia. Na Sua oblação sacerdotal nós sacerdotes aprendemos a derramar o amor misericordioso do Senhor sobre a humanidade. Renovamos todos os dias o sacrifício Eucarístico, abrimos o coração de Cristo para dizer “Eu te absolvo”, na oração da Igreja multiplicamos atos de reparação pelas ofensas que todos os dias se cometem contra o Sacratíssimo Coração de Jesus. E com Sua Mãe e nossa Mãe, a Virgem das Dores, choramos os nossos pecados e pedimos a graça da nossa reconciliação.

Compreende-se por quais razões, nesta solene celebração, a Santa Igreja nos convide a mergulhar no mistério do amor divino, amor este que se revelou de maneira suprema no Coração trespassado do Redentor. O amor do Senhor não se limita à compaixão, mas se torna fonte, convite, reparação e dom.

A oração coleta da Missa exprime com nobre simplicidade o que hoje celebramos: “Ó Deus todo-poderoso, alegrando-nos com a solenidade do Coração do vosso amado Filho, recordamos os grandes benefícios do seu amor para conosco. Concedei que mereçamos receber dessa fonte divina uma torrente de graças”. Não se trata apenas de contemplar, mas de participar deste amor que redime e santifica, derramando de modo maravilhoso uma torrente inesgotável de graças.

Por isso os sacerdotes hoje se valem da ocasião “para mergulhar de novo as vossas vestes batismais e sacerdotais no Coração do Salvador” (Leão XIV).

Visitemos a Palavra de Deus proclamada nesta solenidade tão cara ao nosso povo. À luz das leituras que – especialmente nós sacerdotes – acabámos de escutar, meditemos juntos sobre o modo como podemos contribuir para a obra da salvação operada pelo Senhor.

O anúncio da salvação não é obra reservada a clérigos. Todos os batizados têm sua parte .

II. “Eu mesmo apascentarei minhas ovelhas” (Ez 34,11)

 

Na primeira leitura, ouvimos o oráculo do profeta Ezequiel, em que o próprio Deus se apresenta como Pastor que passa no meio do seu rebanho, contando suas ovelhas uma a uma: Ele vai à procura das perdidas, cura as feridas, ampara as fracas e as doentes (cf Ez 34,11-16). “Assim nos recorda, num tempo de grandes e terríveis conflitos, que o amor do Senhor, pelo qual somos chamados a deixar-nos abraçar e plasmar, é universal, e que, aos seus olhos – e consequentemente também aos nossos –, não há lugar para divisões e ódios de qualquer género” (Leão XIV, Homilia 27.VI.2025).

A promessa do Bom Pastor realiza-se plenamente no Coração de Cristo. Ali está o verdadeiro Pastor, que conhece suas ovelhas e que por elas dá a vida.

Este pastoreio divino não é distante nem indiferente. É um pastoreio com entranhas de misericórdia: “Procurarei a ovelha perdida, reconduzirei a desgarrada, enfaixarei a ferida e fortalecerei a doente” (Ez 34,16). Cada sacerdote, configurado a Cristo Pastor, é chamado a tornar visível esse cuidado do Coração de Deus.

O Bom Pastor de Israel, em Cristo revelou a largueza do seu amor não apenas pelo povo eleito, mas por toda a humanidade. Em Jesus Misericordioso se revela o amor de Deus pela humanidade inteira.

II. “O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo” (Rm 5,5b).

            O Apóstolo dos gentios nos ajuda a perceber a profundidade do amor de Deus e da ação transformadora do Espírito que habita em nós. O amor derramado é graça que reconcilia Escrevendo aos Romanos, São Paulo revela-nos o fundamento deste pastoreio: “O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5b). Só a força do Espírito nos faz desejar ser como o Senhor que, quando ainda éramos fracos, inimigos pelo pecado, ele se entregou por nós.

            A nossa esperança baseia-se na certeza de que o Senhor não nos abandona, mas nos acompanha sempre e nos impele a acolher este amor como dom precioso e como tarefa árdua mas consoladora, de ser instrumentos de paz e perdão. Acolhemos o perdão do Senhor, acolhemos com humildade o seu amor e nos empenhamos a testemunhá-lo com zelo.

Esta divina liturgia convida-nos, assim, a reconhecer os frutos desse amor: reconciliação, esperança, paz. E tudo isso nos foi proporcionado – nunca é demais repeti-lo – quando ainda éramos fracos, ímpios, pecadores. Se isto vale para todos os batizados, com maior razão vale para aqueles que foram ungidos para o ministério sacerdotal.

O Coração de Cristo nos prova que o sacerdócio não é prêmio para os perfeitos, mas ministério de reconciliadores, presença da misericórdia, caminho de santificação, que requer mais intensa oração. Não nos esqueçamos de Moisés orando com as mãos impostas sobre o exercito de Israel às portas da Terra Prometida. Precisava ser sustentado mesmo quando estava em oração. Assim nós sacerdotes precisamos respirar oração: “A oração é a respiração da alma, a conversação secreta com Deus” (Sermons on Various Occasions, sermon 5)

 

III. “Alegrai-vos comigo!” (Lc 15,6)

 

O Evangelho que ouvimos (cf. Lc 15, 3-7) fala da alegria de Deus – e de todo o pastor que ama segundo o seu Coração – pelo regresso ao redil de uma só das suas ovelhas. A comovente cena evangélica da ovelha reencontrada nos apresenta a alegria do Coração de Cristo: “Alegrai-vos comigo!”. É a alegria que brota de um amor que não se cansa de buscar. É esta mesma alegria que deve pulsar no coração dos pastores da Igreja, sempre convidados a viver a caridade pastoral com a mesma magnanimidade do Pai. O padre deve cultivar em seu coração o mesmo desejo do coração de Cristo, isto é, que ninguém se perca (cf. Jo 6, 39). Em nosso coração deve arder o desejo de que todos se salvem e – também através de nós – cheguem ao conhecimento de Cristo e n’Ele tenham a vida eterna (cf. Jo 6, 40). A propósito das fontes da salvação, o Papa Francisco escreveu: “Da ferida do lado de Cristo continua a correr aquele rio que nunca se esgota, que não passa, que se oferece sempre de novo a quem quer amar. Só o seu amor tornará possível uma nova humanidade” (Carta Enc. Dilexit nos, 219).

O Senhor Jesus não se resigna à ausência de nenhum de seus cordeiros. Ele se aproxima, carrega, cura, perdoa. Esse gesto resume a missão sacerdotal: sair ao encontro, ser presença, oferecer a reconciliação. O sacerdote é antes de tudo homem de comunhão. O Papa Leão, esta manhã, lembrava aos diáconos que estava para ordenar padres umas palavras de Santo Agostinho sobre a unidade dos pastores com o povo de Deus: “Santo Agostinho, a este respeito, num sermão proferido por ocasião do aniversário da sua ordenação, falou de um feliz fruto de comunhão que une os fiéis, os presbíteros e os bispos, e que tem a sua raiz no sentirmo-nos todos redimidos e salvos pela mesma graça e misericórdia. Foi precisamente neste contexto que pronunciou a célebre frase: «Para vós sou bispo, convosco sou cristão» (Sermão 340, 1)” (Leão XIV, Homilia, 27-VI-2025).

Por isso, precisamos rezar intensamente pela santificação dos nossos sacerdotes, para que sejam, no mundo, reflexos vivos desta alegria do Bom Pastor. Insisto no pedido que dirijo a cada fiel da nossa diocese: rezem pelos sacerdotes e por mim, para que sejamos cada dia mais sacerdotes à imagem do Bom Pastor, pastores segundo o Coração de Cristo.

IV. O Coração de Jesus, fonte de vocações e escola de santidade

 

Caríssimos, as vocações sacerdotais não nascem por acaso, mas da oração humilde do povo fiel e da vida santa dos presbíteros. O Senhor continua a chamar, mas é preciso que os corações estejam disponíveis para ouvir.

A segunda fórmula da coleta desta solenidade nos oferece a chave: “Ó Deus, no Coração do vosso Filho ferido por nossos pecados vos dignais, em vossa misericórdia, abrir-nos infinitos tesouros de amor. Concedei… que, prestando-lhe nossa fervorosa homenagem de piedade, cumpramos também o dever de uma digna reparação.”

A oração e a reparação são inseparáveis. Uma diocese que reza pelos seus padres, que oferece desagravos, que educa os jovens para a escuta e a generosidade, torna-se terreno fecundo para as vocações e para a renovação da vida presbiteral.

Na missão que me foi confiada nesta querida diocese de Itumbiara, além das orações Litúrgicas em público, compete-me rezar incansavelmente pela santificação do clero e pelas vocações sacerdotais, a começar pela minha própria. Rogo ao Senhor que crie em mim e no coração dos nossos padres, o mesmo desejo que suscitou no coração do Cardeal Newman: Meu único desejo é viver em vossa presença, fazer vossa vontade, e repousar no vosso Coração.(…) Farei vossa vontade em todas as coisas, não a minha. Estarei certo de estar no caminho reto, porque serei inteiramente vosso (Meditations and Devotions, “God’s Will the End of Life”).

A toda a diocese suplico, rezem por mim e pelos nossos padres e diáconos. Da nossa parte contem sempre com a nossa oração de pastores.

Com o coração confiante, elevemos ao Coração de Cristo a súplica de toda a Igreja:

Senhor Jesus Cristo, Pastor eterno, que no mistério do vosso Coração aberto nos mostrais as riquezas do vosso amor, tornai-nos dóceis à vossa vontade, fortalecei vossos ministros e fazei florescer santas vocações em nossa Diocese de Itumbiara.

            Coração de Jesus, fonte de vida e santidade, tende piedade de nós.

            Doce Coração de Maria, sede nossa salvação.

Diocese de Itumbiara
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A Diocese de Itumbiara foi criada no dia 11 de outubro de 1966, pelo Papa Paulo VI, desmembrada da Arquidiocese de Goiânia; seu território é de 21.208,9 km², população de 286.148 habitantes (IBGE 2010). A diocese conta 26 paróquias, com sede episcopal na cidade de Itumbiara-GO.