A MESA DA PALAVRA
Solenidade da Páscoa da Ressurreição do Senhor
III Domingo da Páscoa
Itumbiara, 4 de maio de 2025
“Simão, filho de João, tu me amas?… Senhor, tu sabes tudo, tu sabes que te amo” (Jo 21,17)
Caríssimos irmãos,
- “Ó Deus, o vosso povo sempre exulte pela sua renovação espiritual. Alegrando-se com a restituição da glória da adoção divina, possa, com firme e grata esperança, aguardar o dia da ressurreição” (Coleta).
A oração Coleta[1] nos ajuda a contemplar um dos frutos mais eminentes do mistério pascal: a alegria da “restituição da glória da adoção divina”. Fomos resgatados a caro preço (cf. 1Cor 6,20), foi-nos aberta a via para a vida escondida com Cristo em Deus (cf. Cl 3,3), fomos introduzidos na vida eterna e, com viva gratidão, “aguardamos a feliz esperança e a manifestação gloriosa do nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo” (cf. Tt 2,13), que finalmente nos libertará da morte e nos levará a participar do Banquete do Cordeiro na Jerusalém celeste, junto dos anjos e santos.
No texto latino da coleta aparece o verbo “restitutum” (restituído) que evoca a obra restauradora da graça, pela qual somos não apenas perdoados, mas elevados à dignidade de filhos no Filho, conforme diz Santo Atanásio: “O Filho de Deus se fez homem para que nós fôssemos feitos filhos de Deus” (De Incarnatione, 54).
E esta adoção não é apenas uma metáfora moral ou uma simples analogia à realidade jurídica. Trata-se antes de uma realidade mística operada no Batismo, pela qual participamos da filiação eterna do Verbo. São Leão Magno, no tempo pascal, recordava: “Reconhece, ó cristão, a tua dignidade, e tornando-te participante da natureza divina, não retornes à antiga vileza pelo comportamento indigno da tua condição” (Sermo I in Nativitate Domini).
Por isso, a oração da Igreja, neste domingo, é exultante: pede que o povo de Deus, renovado na “juventude da alma” (renováta ánimæ iuventúte), não apenas celebre a vida nova que já recebeu, mas a projete com esperança para a plenitude futura, para o dia feliz da ressurreição. A liturgia não apenas recorda a promessa, mas antecipa sacramentalmente o que esperamos. Com efeito “a ressurreição de Jesus é a antecipação da nossa própria ressurreição: ‘Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram‘ (1Cor 15,20)” (Catecismo, n. 658).
Deste modo, a Coleta revela a pedagogia da Igreja no Tempo Pascal: celebrando o que já se realizou — a adoção e a renovação da vida pela graça — ela orienta o coração dos fiéis para o que ainda aguarda o pleno cumprimento na glória da Jerusalém do alto.
- “Somos testemunhas desses fatos, nós e o Espírito Santo” (At 5,40)
O anúncio do Evangelho, realizado com audácia (παρρησία) por Pedro e pelos demais Apóstolos, irrita os líderes religiosos de Jerusalém. Estes mandam prendê-los e proíbem-nos formalmente de ensinar em nome de Jesus. Contudo, milagrosamente libertos durante a noite, os Apóstolos voltam ao Templo, onde retomam sua pregação com vigor. De novo detidos, são levados diante do Sinédrio. Diante da autoridade religiosa, Pedro responde com firmeza: “É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens” (At 5,29). E completavam: “Não podemos deixar de falar sobre o que vimos e ouvimos” (At 4,20).
E continuam a anunciar a vitória de Cristo sobre a morte, chamando ao arrependimento e ao acolhimento do perdão dos pecados. Ameaçados e açoitados, saem da presença do Sinédrio transbordando de alegria “porque foram considerados dignos de sofrer ultrajes por causa do Nome de Jesus” (cf. At 5,41). A missão da Igreja, que é a missão dos Apóstolos, continua ao longo dos séculos, sustentada pela força do Espírito Santo. Ele habita na Igreja e, por meio dela, comunica ao mundo a vida nova do Ressuscitado. Com efeito, dizia Santo Ireneu, “onde está a Igreja, aí está o Espírito de Deus; e onde está o Espírito de Deus, aí está a Igreja e toda a graça”[2].
O acontecimento pascal, acontecimento fundamental da fé da Igreja é testemunhado pelos Apóstolos diante das autoridades judaicas, daqueles mesmos que, pouco tempo antes, tinham condenado Jesus à morte. Mas Pedro e os demais Apóstolos, que foram testemunhas da morte dele, são-no também da Sua Ressurreição. E eles não deixarão proclamar publicamente e com vigor a Boa Nova da Ressurreição, mesmo sob ameaça e perseguição.
O anúncio do Evangelho realizado com audácia por Pedro e pelos demais Apóstolos irrita os líderes religiosos de Jerusalém. Estes mandam prendê-los e proíbem-nos formalmente de ensinar em nome de Jesus. Contudo, milagrosamente libertos durante a noite, os Apóstolos não se intimidam nem se escondem, mas voltam ao Templo, onde retomam a pregação com vigor. De novo detidos, são conduzidos diante do Sinédrio. Perante as autoridades declaram que devem obedecer antes a Deus que aos homens (cf At 5,29). Ali mesmo testemunham também aos fariseus e saduceus a vitória de Cristo sobre a morte, exortando-os a se arrepender e a acolher o perdão dos pecados. Os chefes religiosos mandaram açoitá-los e os libertaram intimando-os novamente a não falarem no nome de Jesus. Mas como podiam eles não falar do Nome do Senhor? Mas, pelo contrário, São Lucas nos diz que “os Apóstolos saíram da presença do Sinédrio cheios de alegria, por terem merecido ser ultrajados por causa do Nome de Jesus” (At 5,41).
E a Igreja, pela força do Espírito Santo, continuará pelos séculos a dar este testemunho a todos os homens até que Cristo venha. É o mesmo Espírito que nela vive e por ela continua a comunicar aos homens a vida nova do Ressuscitado. Esta vida nova no Espírito do Ressuscitado é que confere força e coragem à ação missionária dos discípulos do Senhor.
III. “Àquele que está sentado no trono e ao Cordeiro o louvor e a honra… pelos séculos”.
Prossigamos, caríssimos amigos, voltando a nossa atenção para a segunda leitura. Na sua visão mística, São João contempla o trono de Deus, símbolo de sua soberania universal. Fala-nos de Deus que, sentado no seu trono, rege todas as coisas. O Senhor segura na mão um livro selado com sete selos: é o mistério de seu plano salvífico para a história. A angústia, o pranto e as lagrimas tomam conta da cena, pois ninguém pode abrir o livro. Mas tudo isto se transforma quando surge Jesus, descrito na figura do Cordeiro por aquilo que realizou na Cruz. Ele pode abrir o livro e seus sete selos (cf Ap 5,5). Cristo Crucificado e Ressuscitado é o único digno de revelar o desígnio de salvação. Diante d’Ele, os céus entoam a liturgia eterna, da qual a Eucaristia terrena é imagem e antecipação: “Digno é o Cordeiro que foi imolado de receber o poder e a riqueza, a sabedoria e a força, a honra, a glória e o louvor” (Ap 5,12). de Anjos, de Seres Vivos e de Anciães que cantam o hino ao Cordeiro, num culto de adoração
Cristo, o Cordeiro, é o centro da criação, Senhor do tempo e da história. Em torno d’Ele se reúnem anjos, santos e redimidos; são miríades de miríades, milhares de milhares a elevar reconhecidos o canto de louvor e adoração. Cada celebração eucarística nos une ao festim celestial. São João Crisóstomo assim descreve a unidade entre a Eucaristia e a liturgia celeste: “Na Eucaristia celebramos o mesmo sacrifício do Cordeiro, oferecido no céu e tornado presente entre nós, não de maneira simbólica, mas real” (Hom. in Matth., 82,5).
Jesus, o Crucificado, ressuscitou e vive agora para sempre na glória do Pai e, por Ele e nEle, todos passamos deste mundo para o Pai, para com Ele reinarmos para sempre. Cordeiro imolado, vencedor glorioso do pecado e da morte. São “miríades de miríades, milhares de milhares” de Anjos, de Seres Vivos e de Anciães que cantam o hino ao Cordeiro, num culto de adoração: “digno é o Cordeiro que foi imolado de receber o poder e a riqueza, a sabedoria e a força, a honra, a glória e o louvor”.
- “Pedro, tu me amas? … Apascenta as minhas ovelhas”
Em cada um dos três primeiros domingos do Tempo da Páscoa o Evangelho relata uma das aparições do Senhor Ressuscitado. Neste terceiro domingo a Igreja nos proporciona traz a cena que mostra o Senhor junto aos discípulos à beira do lago de Tiberiades. Como nas demais aparições, há a partilha de uma refeição, sinal da comunhão eclesial. O Ressuscitado provoca uma pesca milagrosa e prepara a refeição para os seus. O tema sugere a missão e o crescimento da comunidade: “Lançai a rede à direita do barco, e achareis”, disse Jesus. A pesca feita por confiança no mandato do Senhor tem sua eficácia: “Eles lançaram a rede e já não conseguiam puxá-la por causa da quantidade de peixes” (Jo 21,6).
Isto mesmo continua a acontecer na vida da Igreja: a comunidade cristã convocada para a celebração da Eucaristia tem o Senhor no seu centro, porque ela está reunida no nome dele. A Igreja escuta-O na Palavra proclamada, celebra o mistério Pascal no sacrifício Eucarístico e recebe da mão do Senhor, por meio dos ministros, o Pão e o peixe da vida nova da ressurreição. O que outrora aconteceu nas margens do lago continua a acontecer em cada assembleia litúrgica e na ação missionária da Igreja.
Quando chamou seus discípulos, Jesus o fez para que fossem “pescadores de homens”, ou seja, para que fossem seus instrumentos na libertação do ser humano de tudo aquilo que o oprime e aprisiona. É neste contexto que podemos entender o evangelho que nos fala da atividade de sete discípulos guiados por Pedro. Pelo número, eles representam toda a Igreja em sua vocação missionária.
Os discípulos, reunidos sob a liderança de Pedro, simbolizam a Igreja inteira em sua missão de anunciar e libertar. Jesus, após a refeição, dirige-se a Pedro, interrogando-o sobre seu amor. Três vezes repete a pergunta, e três vezes ouve a confissão de Pedro.
Mas há um segundo momento nessa cena. Estando ainda na beira do lago, logo após a refeição, Jesus dirige-se a Pedro perguntando-lhe sobre o seu amor. A tríplice interrogação, seguida da tríplice confissão do amor de Pedro por Jesus tem seu desfecho na especificação da missão do Príncipe dos Apóstolos: “Apascenta as minhas ovelhas” (Jo 21,17). No amor de Pedro pelo Senhor se caracteriza o ministério Petrino como ministério de unidade dos batizados. Santo Agostinho bem compreendeu o significado disso ao afirmar, referindo-se a Pedro, que “apascentar é missão de amor” (Tract. in Ioannem, 123,5). Se de fato, amar é é apascentar a grei do Senhor, rezemos pelos pastores para que o amor seja o motivo do seu governo das almas.
Como não pensar na eleição do Papa que está para acontecer? No momento em que ele responder afirmativamente à pergunta se aceita a eleição, então já não será mais um senhor cardeal, mas o Papa, o Vigário de Cristo, que terá um novo nome. Neste momento, o céu dirá: “Tu es Petrus – Tu és Pedro!”. E logo a seguir: “Pasce oves meas – apascenta as minhas ovelhas”.
Sigamos em oração suplicando ao Senhor da Messe e Pastor do Rebanho que nos seja dado um Pastor segundo o coração de Cristo, conforme as promessas feitas desde os tempos antigos: “Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração” (Jr 3,15).
E que a Rainha dos Apóstolos interceda pela missão do próximo Papa.
Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo!
[1] “Semper exsúltet pópulus tuus, Deus, renováta ánimæ iuventúte, ut, qui nunc lætátur in adoptiónis se glóriam restitútum, resurrectiónis diem spe certæ gratulatiónis exspéctet” (MR 2008).
[2] “Ubi enim Ecclesia, ibi Spiritus Dei; et ubi Spiritus Dei, ibi Ecclesia et omnis gratia” (Adv. Haer. III, 24,1).

