A Mesa da Palavra – XXI Domingo do Tempo Comum – C

A MESA DA PALAVRA

XXI Domingo do Tempo Comum – C
Itumbiara, 24 de agosto de 2025

« Esforçai-vos por entrar pela porta estreita… »

Caros amigos,

  1. Concedei ao vosso povo amar o que ordenais e esperar o que prometeis” (Coleta).

Viemos até aqui movidos e mais uma vez congregados em assembleia pelo dedo de Deus, o Espírito Santo. Trouxemos as nossas preocupações e anseios. Trouxemos também as nossas fragilidades e pecados. Mas trouxemos igualmente muitos motivos de louvor e de gratidão.

E, ao olhar para o altar adornado para o santo Sacrifício, a nossa alma se voltou para o Senhor. Fê-lo com os sentimentos do salmista, expressos na antífona de entrada: “Inclinai, Senhor, vosso ouvido para mim e escutai-me. Salvai, vosso servo que confia em vós, meu Deus. Tende compaixão de mim, Senhor, pois clamei por vós o dia inteiro” (Introito: Sl 85,1s).

Clamamos por Deus o dia inteiro, também pelas intenções das nossas famílias, da nossa pátria e da Santa Igreja. Em particular, rogamos a Deus que escolha, consagre e envie muitos sacerdotes para a nossa diocese de Itumbiara.

Em que pese a urgência da oração pelas vocações sacerdotais, é importante também lembrarmos que o episcopado católico do Brasil, considerando universalidade da salvação, do chamamento dos batizados à santidade e ao apostolado, nos convoca neste domingo a rezar pela vocação dos fiéis leigos a santificar as realidades temporais a partir de dentro. Rezamos também pelos que exercem ministérios e serviços no seio da comunidade eclesial.

A Igreja assim nos ajuda a ver que todos os batizados – os fiéis leigos juntamente com os consagrados e os ministros do altar – participamos assim a pleno título na missão evangelizadora e santificadora da Igreja, pela qual rezamos todos os dias.

A coleta que rezamos nesta missa provém dos antigos sacramentários Gregoriano (Pad. n. 411) e Gelasiano (GeV 551), passando pelo missal de 1962, até chegar à edição atual do Missal Romano, fruto da tradição recebida e renovada pela última reforma litúrgica. A oração nos fala de esperança e de amor aos mandatos divinos; é fruto da meditação da Igreja sobre as razões da nossa esperança. Suas raízes mergulham na mais antiga tradição litúrgica romana e manifestam a importância decisiva da esperança para a vida cristã.

Ao nos congregar ao redor deste altar, Deus nos une a todos os fiéis num único desejo (cf. coleta), no desejo comum de buscar a salvação mesmo por caminhos árduos como nos faz entender a liturgia da palavra de hoje. A esse Deus, que realiza maravilhas em nossa história, nós suplicamos: “concedei ao vosso povo amar o que ordenais e esperar o que prometeis”. Só amando os divinos mandatos e confiando em suas promessas é que podemos fundamentar a nossa esperança. N’Ele encontramos a esperança que não decepciona.

Vivemos na precariedade do tempo presente. Contudo, fortalecidos pela oração comum da Igreja, os nossos corações podem estar “ancorados lá onde se encontram as verdadeiras alegrias”. Essa alegria é a da bem-aventurança eterna. Sua plenitude está na Jerusalém Celeste. A porta é estreita, mas se nos abre por graça de Deus e pela salvação que só Deus pode conceder, ao escutar os nossos clamores. Lembremo-nos das palavras do Senhor: “Pedi e dar-se-vos-á; buscai e encontrareis, batei e abrir-se-vos-á. Porque, aquele que pede, recebe; e, o que busca, encontra; e, ao que bate, abrir-se-lhe-á” (Mt 7,8).

  1. Enviarei, dentre os que foram salvos, mensageiros…. para terras distantes…” (Is 66,19).

O desígnio de Deus é que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade. O profeta Isaias anuncia que Deus reunirá todos os povos e línguas para chegarem a contemplar a Sua glória. Dentre os que foram salvos, enviará mensageiros para anunciar às nações a Sua glória e reconduzir os povos à colina de Sião. Nesta profecia se manifesta a vocação última de todos os homens: viver eternamente juntos na Casa do Pai.

Na casa do Pai serão escolhidos sacerdotes e levitas para oferecer o verdadeiro culto a Deus. Os gentios, como os filhos de Israel, “levarão sua oferenda em vasos purificados para a casa do Senhor”. Esta promessa cumpre-se na missão de Jesus e continua na missão da Igreja.

Por nossa parte, somos herdeiros dessas promessas. Somos filhos cheios de gratidão ao Senhor que, desde Pentecostes e especialmente na missão de São Paulo, quis abrir o Evangelho da Salvação a todos os povos. Já não falamos de reconduzir à Jerusalém terrestre, mas à Igreja, que conduz à Jerusalém do Alto.

A profecia do trito-Isaías manifesta a vocação missionária do povo de Deus, já presente no Antigo Testamento. Todos somos chamados a ser mensageiros da Boa Nova, reconduzindo os povos a Jerusalém e anunciando-lhes a esperança de contemplar a glória de Deus.

O salmo responsorial é um pregão missionário, enquanto convoca todos os povos a cantar os louvores do Senhor: “Cantai louvores ao Senhor, todas as gentes, povos todos, festejai-o! Pois comprovado é seu amor para conosco, para sempre ele é fiel!” (Sl 116). O refrão retoma o mandato missionário do Evangelho de Marcos. O simples louvor de Deus e da Sua magnificência, proclamado entre as nações, é já obra de evangelização.

III. O Senhor corrige a quem Ele ama e castiga a quem aceita como filho” (Hb 12,6).

A carta aos Hebreus nos mostra a pedagogia do Deus misericordioso: Ele salva os que chama para Si como filhos, e justamente por isso os corrige.

No Antigo Testamento, Deus puniu os pecados de muitos dos seus escolhidos. Moisés, por exemplo, viu ao longe a Terra Prometida, mas não entrou nela. Davi perdeu o filho fruto do adultério, mesmo após jejuar e receber o perdão de Deus. A deportação para a Babilônia foi castigo ao povo que confiou mais nos poderosos da terra do que nas promessas do Deus de Israel. No entanto, bastou o clamor orante do povo, suscitado pelos profetas do exílio, para comover as entranhas da misericórdia divina.

O Deus do Antigo Testamento sabia dizer ao seu povo escolhido os muitos “nãos” que educam. No Novo Testamento, Jesus Cristo, o Verbo encarnado que derramou o seu Sangue por nós homens e pela nossa salvação, também corrige os discípulos com repreensões, até ao ponto de quase permanecer só. Ele também corrige duramente os vendilhões do templo e a hipocrisia dos fariseus. Mas tudo foi guiado pela Sabedoria divina, em intento de salvação e de misericórdia.

O papel dos pastores na Igreja é seguir Jesus e levar a todos os povos a mensagem de salvação. Na comunidade eclesial, somos chamados a instruir e a corrigir os irmãos, mas também a derramar o unguento do perdão e da misericórdia do Senhor para curar os enfermos. Nesse sentido, nós pastores da Igreja, reconhecemos como ditas especialmente a nós as palavras da Escritura: “firmai as mãos cansadas e os joelhos enfraquecidos; acertai os passos dos vossos pés para que não se extravie o que é manco, mas antes seja curado” (Hb 12,13).

  1. Esforçai-vos por entrar pela porta estreita” (Lc13, 23)

No Evangelho de hoje, somos confrontados por uma palavra de Cristo que é iluminadora e ao mesmo tempo desconcertante. Durante a sua última subida a Jerusalém, alguém lhe pergunta: “Senhor, são poucos os que se salvam?”. E Jesus responde: “Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque muitos, digo-vo-lo Eu, tentarão entrar sem o conseguir” (Lc 13, 23-24).

Em uma homilia cheia de profundidade pronunciada em 2007, o saudoso Papa Bento XVI, refletindo sobre esta página do Santo Evangelho, fez o seu exórdio com as seguintes perguntas: “o que significa esta ‘porta estreita’? Por que muitos não conseguem entrar por ela? Trata-se porventura de uma passagem reservada a alguns eleitos?”. E, na mesma homilia, ele ainda dizia aos presentes: “De fato, este modo de raciocinar dos interlocutores de Jesus, considerando bem, é sempre atual: a tentação de interpretar a prática religiosa como fonte de privilégios ou de certezas está sempre pronta para armar uma cilada. Na realidade, a mensagem de Cristo é precisamente em sentido oposto: todos podem entrar na vida, mas para todos a porta é ‘estreita’. Não há privilégios. A passagem para a vida eterna está aberta a todos, mas é ‘estreita’ porque é exigente, requer compromisso, abnegação, mortificação do próprio egoísmo”.

Saboreando hoje a luminosa meditação de Bento XVI, nos damos conta de que hoje, como nos domingos passados, “o Evangelho nos convida a considerar o futuro que nos espera e para o qual nos devemos preparar durante a nossa peregrinação na terra”.

Como já se podia ver na primeira leitura, aqui também vemos que “a salvação, que Jesus realizou com a sua morte e ressurreição, é universal. Ele é o único Redentor e convida todos para o banquete da vida imortal. Mas a uma só e igual condição: a de se esforçar por segui-l’O e imitá-l’O, assumindo sobre si, como Ele fez, a própria cruz e dedicando a vida ao serviço dos irmãos” (Ibid.)

Cumpre, portanto, notar que esta condição para entrar na vida eterna é única e universal. O próprio Jesus nos recorda no Evangelho que, no dia do Juízo, o critério decisivo do nosso julgamento não será baseado em eventuais privilégios por nós alegados, mas dependerá da bondade de nossas obras. Destarte, os que, à custa de sacrifícios, tiverem realizado o bem e procurado a justiça serão acolhidos nas mansões celestes. Os “operadores de iniquidade”, por sua vez, serão excluídos. Não será suficiente declarar-se “amigos” de Cristo vangloriando-se de falsos méritos: “Comemos e bebemos contigo e Tu ensinaste nas nossas praças” (Lc 13, 26).

A verdadeira amizade com Jesus expressa-se no modo de viver: expressa-se com a bondade do coração, com a humildade, com a mansidão e a misericórdia, o amor pela justiça e a verdade, o compromisso sincero e honesto pela paz e pela reconciliação. Poderíamos dizer que é este o “bilhete de identidade” que nos qualifica como seus autênticos “amigos”; é este o “passaporte” que nos permitirá entrar na vida eterna.

Queridos irmãos e irmãs, se quisermos também nós entrar pela porta estreita, devemos ser pequenos, humildes de coração, como Jesus e qual Maria, sua e nossa Mãe. Foi ela a primeira a seguir o Filho no caminho da Cruz, e foi elevada à glória do Céu, na sua gloriosa Assunção celebrada há poucos dias. O povo cristão a invoca como Ianua Caeli, Porta do Céu.

Peçamos à Virgem Maria que nos guie, nas nossas escolhas cotidianas, pelo caminho que leva à Porta do Céu. Desse modo, por graça de Deus, viveremos a vocação universal à santidade e ao apostolado, pastores, consagrados e fiéis leigos.

Reunidos como Igreja em oração, supliquemos que o nosso louvor seja aceito por Deus nosso Pai e se torne testemunho das maravilhas por Ele realizadas na história da salvação.

Diocese de Itumbiara
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A Diocese de Itumbiara foi criada no dia 11 de outubro de 1966, pelo Papa Paulo VI, desmembrada da Arquidiocese de Goiânia; seu território é de 21.208,9 km², população de 286.148 habitantes (IBGE 2010). A diocese conta 26 paróquias, com sede episcopal na cidade de Itumbiara-GO.