“Então vai tu e faze o mesmo” (Lc 10, 37)
Caríssimos amigos,
Ao iniciarmos esta celebração dos sagrados mistérios, rezamos uma oração muito rica de significado, especialmente para quem, pelo sacramento da ordem, é configurado a Cristo Bom Pastor.
Diz a oração:
- “Ó Deus, que mostrais a luz da vossa verdade aos que erram, para retornarem ao bom caminho, dai aos que professam a fé, rejeitar o que não convém ao cristão e abraçar tudo o que é digno deste nome.” (da Coleta).
Esta oração foi extraída do Missal Romano promulgado por São Pio V e ulteriormente revisto pelos papas São Pio X, Pio XII e São João XXIII. Fruto da mais lídima tradição católica, ela permanece na terceira edição típica do Missal Romano promulgado por São Paulo VI, aquecendo o coração dos orantes e iluminando-lhes a inteligência da fé. No missal próprio do usus antiquior, impropriamente dito tridentino, essa oração é rezada no Terceiro Domingo após a Páscoa. Ela suscita em nós a gratidão porque o Pai, como grande pastor do antigo e do novo Israel, mostra aos que erram a luz salvadora da verdade. O verbo errar indica não apenas um equívoco cognitivo, mas também a perda do caminho reto. Mostrar a verdade é mostrar o rosto humano dAquele que é Caminho, Verdade e Vida. É Ele mesmo o Senhor reconduz ao Caminho que leva à Vida. É Ele quem nos comunica a alegria santa de rejeitar tudo quanto não convém à dignidade cristão, abraçando com fervor aquilo que é digno deste nome.
Na ordenação episcopal, enquanto o Bispo ordenante reza a oração consecratória, dois diáconos ou presbíteros seguram o livro dos Evangelhos aberto sobre a cabeça do eleito. É tocante saber que minha cabeça foi coberta com o Evangelho e ungida pelo Espírito santo de Deus para levar aos homens o conhecimento da Verdade, do Caminho que leva à Vida.
Passados doze anos, cada vez que me recordo daquele momento tão forte e significativo, ainda me comovo profundamente. Minha mente e meu coração – por mais que me pese a humana fragilidade – sabe que foram transformados em instrumentos do anúncio de que o Reino está próximo.
O Samaritano celeste nos impele a dar dos remédios celestes ao próximo, quem quer que seja o necessitado da graça de Deus, da cura e da salvação.
Inspirados nessa oração, a Igreja toda coloca-se ao serviço do nosso Bom Deus, serviço da Palavra, da mesa Eucarística e da fraterna comunhão dos irmãos conquistados por Cristo para o Reino de Seu Pai.
- “Esta palavra está perto de ti, para que a possas pôr em prática” (Dt 30,14).
Esta leitura nos prepara para melhor compreendermos o Evangelho que a Igreja hoje nos serve como alimento na mesa da Palavra. Aqui compreendemos que a palavra de Deus nos há de nortear por toda a vida, que nos indica o caminho da vida, está sempre perto de nós: não está longe de nós, está sempre ao nosso alcance.
O texto sagrado ensina-nos que os mandamentos da Santa Lei de Deus nos são dados para nos converter ao Senhor nosso Deus com todo nosso ser, com toda a nossa alma. Consideremos como eles não estão fora do nosso alcance, nem acima de nossas forças: o Deus que que no-los impõe é o mesmo Deus que nos dá vigor para os cumprir com amorosa diligência.
Nós bem sabemos que não é suficiente a mera escuta da Palavra, nem o simples conhecimento intelectual das Escrituras ou da vida de Jesus. Com efeito, nos diz a Escritura: “Esta palavra está perto de ti, está na tua boca e no teu coração, para que a possas pôr em prática”. Cumpre, portanto, viver a palavra com amorosa diligência, com a determinação de quem sabe que nos está reservada no céu a plenitude da vida. É que o mesmo Deus que nos fala na nas Escrituras já nos falou no coração.
Oxalá, irmãos, tenhamos o coração aberto para acolher com amor os mandamentos do Senhor. Não nos esqueçamos de que “os preceitos do Senhor alegram o coração”. (Sl 18,9a).
Louvo e bendigo o nome do Senhor por ter-me chamado a ser servo da Palavra, instrumento da realização dos sagrados mistérios na Igreja.
III. “Por Ele e para Ele tudo foi criado” (Cl 1,16).
Nessa leitura da carta aos colossenses Nosso Senhor Jesus Cristo é apresentado. Sabemos dele muitas coisas. No entanto fica sempre uma pergunta: o que é que em Jesus constitui a razão de ser daquilo que Ele é para os cristãos?
Cristo é o Alfa e o ômega, é o princípio e o fim. Ele é Aquele por quem tudo foi criado e para quem tudo existe. Nada do que foi criado foi criado sem Ele. Jesus é o Primeiro na ordem da Criação porque tudo foi criado por meio dEle. E é também o primeiro na ordem da Ressurreição: primícias dos que adormeceram.
Ademais Cristo é a imagem do Deus invisível, o Primogênito de toda criatura. Se o que é visível aos nossos olhos já nos causa admiração, imaginemos a maravilha que os horizontes infinitos da fé não podem despertar no coração do crente sequioso de ver a face de Deus. Ao conhecermos Jesus e o seu modo de atuar entre nós, abre-se para nós o caminho para conhecer o verdadeiro rosto do Deus e Pai das misericórdias, que revela a verdade e ensina o amor. Nessa mesma direção, o Evangelho nos ajuda a compreender o verdadeiro rosto de Deus: o bom samaritano celeste.
A tarefa episcopal, dizia Papa Francisco aos bispos do Centro-Oeste em 2020: A tarefa mais importante do Bispo é a escuta da Palavra e a oração. Diziam os apóstolos quando da instituição dos Diáconos: «Não convém que abandonemos a Palavra de Deus para servir às mesas» (At 6,2). E assim, enviando servidores das mesas, os Apóstolos continuariam a sua tarefa prioritária de oração e pregação do Reino.
- “Vai tu e faz o mesmo” (Lc 10,37)
Para alcançar a Santidade a que somos chamados, é preciso nos conformarmos com a palavra de Deus que recebemos, aprendendo de Jesus a sua intimidade com o Pai na oração. Ele muitas vezes pernoitava longe dos discípulos para prolongar os colóquios com seu pai e nosso pai. Mas também passou a sua vida fazendo o bem. Conhecedor da prática de Jesus, São Paulo nos ensina a imitá-lo: “Façamos o bem a todos, mas principalmente aos domésticos da fé” (Gl 6:10). São João Crisóstomo, ao comentar a parábola do Bom Samaritano, nos ensina a não fazer acepção de pessoas quando se trata de escolher a quem fazer o bem, de dar esmolas. Dizia ele aos seus ouvintes: “A esmola também é dada aos pecadores e culpados. Esmola é ter compaixão não por aqueles que fizeram o bem, mas por aqueles que pecaram. E para te convenceres disso, ouve a parábola de Cristo: “Um homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos de salteadores…” (Lc 10,30), que o espancaram e o deixaram ferido no caminho, meio morto. Por ali passava um levita, que viu o homem caído e passou adiante? Da mesma forma, um sacerdote, vendo-o, passou por outro caminho. Finalmente, veio um samaritano e tratou dele com grande cuidado: enfaixou-lhe as feridas, derramou óleo sobre elas, colocou-o sobre um jumento, levou-o a uma estalagem e disse ao estalajadeiro hospedeiro: “Trata bem dele”. E nota a sua grande generosidade: “Tudo o que gastares a mais”, disse ele, “eu te pagarei quando voltar” (Lc 10,35). E no seu discurso n. 10 sobre a carta aos Hebreus, para nos ajudar a descobrir o sentido da parábola proclamada por Jesus, o “Boca de ouro”, o Crisóstomo prossegue com a narrativa. Dizia ele: “Depois de contar sua história, Jesus pergunta: “Quem é, pois, o teu próximo?” E ao doutor da lei que havia respondido: “Aquele que teve misericórdia dele”, o Senhor Jesus lhe disse: “Vai tu e faz o mesmo” (Lc 10,37). Reflita sobre esta parábola. Jesus não disse que um judeu fez isso a um samaritano, mas que um samaritano demonstrou tal generosidade. Disso aprendemos que devemos cuidar de todos igualmente, e não apenas de nossos irmãos e irmãs na fé, negligenciando os outros. Da mesma forma, se você vir alguém sofrendo, não o questione demais: ele merece sua ajuda simplesmente porque está sofrendo. Pois se você tira um jumento do poço que está em perigo de sufocamento sem se importar a quem ele pertence, muito mais é seu dever não interrogá-lo demais: ele pertence a Deus, seja grego ou judeu; mesmo que seja pagão, ele precisa da sua ajuda.
A parábola do bom samaritano serve a Jesus para explicar ao doutor da lei quem é o próximo e como o amor a Deus e ao próximo são, no fundo, o mesmo e único amor: “o amor de Deus derramado em nossos corações pelo Espírito Santo”.
Segundo a explicação dos antigos Padres da Igreja, o homem caído nas mãos dos salteadores é toda a humanidade, e o bom samaritano é a imagem de Jesus, Ele que nos encontrou feridos pelo pecado à beira do caminho aonde desceu, usou de compaixão para conosco, e nos introduziu na estalagem da sua Igreja e assim nos salvou. A parábola tem portanto uma dimensão não apenas ascética, mas também eclesial, na medida em que forma uma imagem de Igreja Samaritana.
Aqui também continuo a compreender o ministério episcopal como serviço à palavra que convence os irmãos a ser misericordiosos como o Pai. A ser bons samaritanos, como Jesus o é para nós.
Seja esta nossa oração, irmãos queridos, no momento sagrado em que iniciaremos a liturgia Eucarística com o belíssimo prefácio que identifica em Jesus o verdadeiro bom Samaritano.
A Virgem Santíssima que, ao receber o anúncio do anjo, correu para Ain Karin para servir a Isabel, interceda por nós para que sejamos configurados a seu Filho Jesus.
Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo.

