A MESA DA PALAVRA
XIX Domingo do Tempo Comum – C
Itumbiara, 10 de agosto de 2025
« A quem muito foi dado, muito será pedido » (Lc 12,48)
Caros amigos,
Este domingo, a Igreja Católica no Brasil o dedica todo à oração pelas vocações à vida em família, de modo especial aos que buscam no sacramento do Matrimônio a plena realização de sua vocação batismal à santidade e ao apostolado. Somos filhos de Deus, formamos já aqui na terra a família de Deus, fomos introduzidos na Cidade de Deus, sem deixar de pertencer à Cidade dos homens até que Ele venha.
Voltemos nossos corações à Liturgia de hoje.
- “Fazei crescer em nossos corações o espírito de adoção filial” (Coleta)
Assim ora a Igreja hoje, ao iniciar esta Santa Missa: “Deus eterno e todo-poderoso, a quem, inspirados pelo Espírito Santo, ousamos chamar de Pai, fazei crescer em nossos corações o espírito de adoção filial, para merecermos entrar um dia na posse da herança prometida” (Coleta). Esta oração recuperada do Sacramentário Bergomense afunda suas raízes (sec. VIII) na tradição comum Ambrosiana e Romana, que por sua vez se inspiram na Escritura. Nessa oração, de fato, se encontra entre outras coisas a fusão explícita de Rm 8,15 (spiritum adoptionis) com a fórmula “in cordibus” (eco de Gl 4,6 e outros loci paulinos).
Quando contemplamos a imensidão do mundo criado, percebemos a nossa pequenez e parece-nos estar a caminho do desconhecido. Isto acontece especialmente quando, ignorando Deus Criador, nos esquecemos de que a natureza é natureza criada, que saiu das mãos de Deus. Quando ignoramos a paternidade de Deus, a certeza da morte nos assusta. Cresce então o medo de desembocar no nada. Se não adoramos a Deus como Pai, facilmente caímos na idolatria das criaturas, atribuímos poderes quase divinos aos astros, às forças da natureza, ou ainda a determinados ritos por nós inventados. Quando entre nós católicos, a fé no Deus vivo se esmaece e se torna superstição, até mesmo os sacramentos e os sacramentais passam a ser tratados como ritos mágicos.
Por isso, irmãos, é bom meditar nas obras de Deus, nas suas intervenções de gratuidade e, particularmente, sobre a libertação pascal. Na gesta pascal, é o próprio Deus que conduz o povo, premia os que lhe são fiéis e julga quem se opõe à Sua ação salvadora. Vivendo da fé e confiando na promessa de Deus, o cristão prossegue solerte, com desembaraço e dignidade no seu caminho para a Vida. Jesus o Caminho, a Verdade e a Vida! Ele é o Emanuel, o Deus conosco, sem o qual nada podemos fazer (cf. Jo 15,5).
Mediante a fé, posse antecipada da herança celeste, temos a certeza de não estar relegados à solidão (cf. Coleta). Jesus caminha conosco no trabalho, no recreio, nos momentos de alegria, nas situações que nos trazem sofrimentos e tristezas.
A presença viva e vivificante do Senhor em nosso peregrinar torna-se ainda mais tangível na Santíssima Eucaristia. Com a participação digna, atenta e devota na missa, notamos crescer a percepção da nossa filiação divina, pelo qual mereceremos entrar “um dia na posse da herança prometida”.
- «A noite da libertação fora predita aos nossos pais» (Sb 18,6)
No trecho hoje proclamado, o Livro da Sabedoria nos oferece uma meditação sobre a noite da libertação do Egito como paradigma de todas as vigílias do povo de Deus. Naquela noite, com efeito, Deus castigou os adversários dos israelitas e a estes os cobriu de glória. O autor sagrado, em um texto de louvor e adoração a Deus, assim se inclui na atitude de vigilância confiante: “nos cobristes de glória, chamando-nos a vós” (Sb 18,8). Aqui o segredo da vocação a ser família de Deus peregrina na longa travessia da história.
Não somente os judeus celebram com gratidão a Deus o memorial da sua libertação do Egito. Também nós cristãos vemos no Êxodo o paradigma de toda autêntica libertação. Contudo, para além da migração do Egito para a Terra Prometida, em cada Eucaristia celebrada, nós retornamos com a memória e a ação de graças ao “glorioso êxodo” já realizado na Páscoa de Jesus e ao nosso êxodo para o céu ainda em ato sob a guia do Senhor.
Porém há mais: “Os piedosos filhos dos bons ofereceram sacrifícios secretamente e, de comum acordo, fizeram este pacto divino: que os santos participariam solidariamente dos mesmos bens e dos mesmos perigos” (Sb 18,9). O povo se compromete a viver a solidariedade e a cantar os hinos dos antepassados: obras de misericórdia e legítima tradição. Compreendemos, neste contexto, que Santíssima Eucaristia é a presença de Cristo que nos alimenta a fé, o sacrifício que nos reconcilia e a mesa em que se reforça o compromisso de comunhão. Enfim, é o farol que nos guia na viagem rumo à casa do Pai.
Revisitar na oração a nossa história pessoal e a nossa história de povo amado pelo Senhor é abraçar a verdadeira sabedoria, que nos ensina a estar vigilantes. Por isso também o Senhor, no santo Evangelho, assim como o salmista, nos exorta a permanecer em vigília, como quem guarda a casa de noite. Esta primeira leitura nos recorda que foi também numa noite que o Senhor passou pelo meio do seu povo para realizar a libertação pascal, aquando da saída do Egito.
Por isso a Igreja toma como refrão as palavras do Salmista: “Feliz o povo que o Senhor escolheu para sua herança!” (Sl 32,12b)
III. “A fé é a garantia dos bens que se esperam…” (Hb 11,1)
Sobre esta segunda leitura, acompanhemos a breve reflexão proporcionada pelo teólogo italiano, Innos Biffi. A fé – comenta ele – é o que caracteriza os amigos de Deus, os seus ministros e colaboradores na atuação da história da salvação. É por esta fé que o crente pode considerar-se “aprovado por Deus”, ou seja, justo ante os Seus olhos.
A fé, porém, deve tornar-se operosa: aquele que crê obedece, espera nAquele que é fiel, cuja palavra é infalível e cuja promessa se cumpre. Podemos dizer ainda que a fé é uma espera, um caminho, um suspiro, um desejo, uma procura da pátria celeste para além desta terra, para além do tempo. Modelo exemplar desta fé é o pai Abraão com a sua disponibilidade inclusive para sacrificar o filho, com a certeza de que “Deus é capaz de fazer ressurgir também dos mortos”.
Nestas condições, somos crentes também nós, porque também fazemos a experiência da morte e da vida, e sabemos pela fé que Deus não nos engana. Por outro lado, somos sempre tentados a desconfiar, a não crer por completo, a ficar nas boas intenções sem passar às obras da fé. A fé autêntica é aquela que opera pela caridade. Jesus, que retornou à vida depois da morte, deve ser a fonte radical de nossa segurança.
- “Não tenhas medo, pequenino rebanho…” (Lc 12,32)
No Evangelho, antes mesmo de nos alertar para a devida vigilância e para a diligência no serviço da Vinha do Senhor, Jesus nos faz um convite doce e cheio de ternura: “Não temas, pequenino rebanho, pois aprouve ao vosso Pai dar-vos o reino”.
A Abrão Deus disse: “Sai da tua terra, de tua parentela, da casa de teu pai e vai para a terra que eu te mostrarei” (Gn 12,1). A terra era Canaã, com o tempo viria a ter na colina de Sião a cidade de Jerusalém como capital. E Deus combateria por seu povo para eliminar da terra prometida os ídolos e os idólatras, os pagãos. Com o crescimento da compreensão da vontade de Deus, a posse da terra deu lugar à certeza de que o Reino prometido a Davi e à Sua descendência não é deste mundo. A Jerusalém da terra é um sinal da Jerusalém do alto. Por isso, hoje, Jesus mostra como o Pai cumpre a promessa alargando a terra para qualquer lugar onde Jesus passe a reinar. Os discípulos recebem o reino e a realeza para servir o mundo com os dons da salvação.
Todos os que almejamos seguir os ensinamentos de Jesus precisamos estar de ouvidos e olhos abertos a fim de apreender com Ele os mistérios do reino dos céus. Sem a amizade com o Senhor, sem a vigilância, é difícil conhecer a Sua vontade e facilmente caímos em ideologias que deturpam autoridade ministerial própria dos servos. A autoridade deturpada acaba por se converter no poder autoritário característico dos tiranos que não hesitam violar a dignidade dos irmãos com o pretexto de salvar a verdadeira fé e o verdadeiro culto. Algo semelhante ao que pode acontecer com a deturpação da autoridade no âmbito da autoridade temporal.
Jesus nos convida a não ter medo de nada, pois, o reino é uma dádiva que Deus deseja nos conceder e é do Seu agrado que todos nós o alcancemos. No entanto, Jesus nos dá algumas orientações sobre a retidão necessária para viver como discípulos, como servos do reino. Antes de tudo é indispensável o desprendimento dos nossos bens materiais, destinando-os ao bem comum. A este propósito já dizia São João Paulo II aos índios mexicanos: “A Igreja defende, sim, o legítimo direito à propriedade particular, mas ensina com não menor clareza que sobre toda a propriedade particular pesa sempre uma hipoteca social, para que os bens sirvam ao destino geral que Deus lhes deu” (Discurso, 29-I-1979). Quando começamos a usar dos bens que passam de tal modo que nos ajudem a alcançar os que não passam, começamos a acumular um tesouro que nunca se acaba, pois, está guardado no céu, aonde os ladrões não chegam nem a traça corrói. Lá está o nosso coração.
A consciência da brevidade da vida nos ajuda a manter os nossos olhos voltados para o alto, à espera dAquele que há de vir, nosso Senhor Jesus Cristo. A qualquer hora – não nos é dado conhecer a hora –, Jesus poderá bater à nossa porta e nos convidar para cear com Ele no Banquete da vida eterna. Felizes nós seremos se Ele nos encontrar vigilantes na esperança e operosos no serviço dos irmãos.
Somente cultivando o espírito de adoção filial, que cresce com o louvor, é que nos tornamos verdadeiros servidores da casa do Senhor, até que Ele venha.
Eis a nossa fonte perene de alegria, alegria que perdura para a vida eterna.

