A MESA DA PALAVRA – V Domingo do Tempo Comum – Ano A

A MESA DA PALAVRA

V Domingo do Tempo Comum – Ano A
Itumbiara, 8 de fevereiro de 2026

Vós sois a Luz do mundo” (Lc 10, 37)

Caríssimos amigos, 

Ao iniciarmos esta celebração dos sagrados mistérios, a Liturgia nos fez rezar uma oração muito rica de significado, especialmente para quem depõe toda a confiança no Senhor, nAquele que nos defende com os tesouros da celeste proteção.

Ouçamos uma vez mais a belíssima versão brasileira da coleta Gregoriana presente no nosso Missal Romano foi buscar no Sacramentário Gregoriano (cf n. 228), passando pelo Missal Tridentino (cf. n. 558).

  1. Velai, Senhor, nós vos pedimos, com incansável amor sobre vossa família; e porque só em vós coloca a sua esperança, defendei-a sempre com vossa proteção” (Coleta).

Domingo passado, com o programa das Bem-aventuranças, Jesus começava a iluminar com divina pedagogia o caminho dos seus discípulos. São os discípulos por Ele mesmo escolhidos e separados, que estava formando para o empenho missionário de levar o sabor do Evangelho e a Luz de Cristo a todos os cantos da terra.

A oração coleta de hoje nos faz pedir ao Senhor que vele por nós, Sua família, com incansável amor ou, como no Gregoriano, com “celeste proteção”. Nossa esperança só encontra suporte real se fundada no amor do bom Deus.

Nossa família cristã espalhada pelo mundo todo, é peregrina de esperança no Senhor, porque sabe que só nele tem proteção. “O Senhor é a minha luz e a minha salvação, a quem temerei?” (Sl 26,1). E quando deparamos com a nossa fragilidade e com a magnanimidade do Senhor Jesus que nos escolhe por pura misericórdia para participar da sua missão, entendemos o porquê de Sua escolha preferencial dos pobres. A primeira leitura nos ajuda a compreender que a Sua glória se manifesta tanto mais quanto mais pobres se revelam os seus instrumentos.

Nossa santa religião, ademais, não se contenta com o simples formalismo ritual. Exige antes uma profunda adesão a Cristo e ao seu Reino, aos valores evangélicos que o Senhor nos dá a conhecer em particular no Sermão da Montanha.

  1. Reparte o pão com o faminto … A tua luz brilhará como a aurora” (Is 58,7.8).

A profecia isaiana há pouco proclamada nos impele a compreender que a divina revelação não nos oferece uma religião puramente ritual, sem compromissos com a verdade, a justiça e a bondade de Deus. As práticas de piedade e os atos de culto comunitário ou pessoal só agradam a Deus quando sustentados pela prática da misericórdia e da justiça.

Nós sabemos que o amor de Deus derramado sobre nós deve retornar a Deus por duas vias indissociáveis. O amor a Deus deve ser manifestado nos atos de culto, como um incenso de agradável odor, nas nossas orações e nas nossas celebrações. Mas este culto só agrada a Deus se o amor que lhe devemos retorna a Ele também através das obras de misericórdia e de justiça.

O texto isaiano nos consente perceber que somente assim a glória de Deus estará com os fiéis e estes serão luz nas trevas. Esta palavra profética está certamente em conexão com os ensinamentos de Jesus acerca do Juízo final, quando seremos julgados quanto ao amor.

Como são belas as palavras que nos enchem de esperança e de alegria: “Reparte o pão com o faminto, acolhe os pobres e peregrinos. (…) Então brilhará tua luz como a aurora” (Is 58,7.8).

Para além das obras de misericórdia, a profecia nos orienta também a fazer escolhas políticas importantes especialmente neste ano. Diz o Senhor: “Se destruíres os teus instrumentos de opressão, e deixares os hábitos autoritários e a linguagem maldosa; se acolheres de coração aberto o indigente e prestares todo o socorro ao necessitado, nascerá nas trevas a tua luz e tua vida obscura será como o meio-dia”.

A Luz prometida pelos profetas já nos foi dada em Cristo.

III.Entre vós não julguei saber coisa alguma, a não ser Jesus Cristo, e este crucificado” (1Cor 2,2).

Na segunda leitura, extraída da primeira carta aos Coríntios, São Paulo punha em evidência a fragilidade de vários aspectos da comunidade de Corinto: não havia sábios, nem nobres nem poderosos. Na continuidade o Apóstolo declara que Deus escolhe o que é frágil para confundir os fortes (cf. 1Cor 1,26ss).

Na perícope de hoje, o mesmo Apóstolo alega que a sua pregação não se fundamenta na força da retórica ou da sua condição psicológica (v. 3; At 17). Não se funda sobre força humana. Fundamenta-se na fragilidade do Crucificado, objeto fundamental da sua pregação (v. 2). Jesus Crucificado, fulcro do mistério revelado de Deus, é desde o início da pregação de Paulo, o seu tema de predileção. Ele sempre foi bem consciente de que as técnicas de retórica ou oratória humana, bem como a linguagem rebuscada, não tornariam a pregação humanamente persuasiva ou mais credível (cf. v. 1; 2Cor 11,6).

Ouçamos de novo as palavras do Apóstolo: “Aliás, eu estive junto de vós, com fraqueza e receio, e muito tremor. Também a minha palavra e a minha pregação não tinham nada dos discursos persuasivos da sabedoria, mas eram uma demonstração do poder do Espírito, para que a vossa fé se baseasse no poder de Deus, e não na sabedoria dos homens” (1 Cor 2,3-5).

Sabemos quão árduo é o caminho da Cruz (Mt 7,13-14). E, no entanto, nos consolam profundamente as palavras da liturgia dos mártires. Ela nos oferece um belíssimo prefácio, com o qual louvamos a Deus dizendo-lhe: “assim, transformais a fragilidade humana em força e aos fracos dais coragem para o testemunho, por Cristo, Senhor nosso” (Prefácio II). Efetivamente, a força consoladora do Espírito Santo operou – e continua a operar – através da fragilidade testemunhada pela Cruz, que é ao mesmo tempo poder de Deus (vv. 4-5) que faz da Igreja Luz dos povos.

  1. Vós sois o sal da terra… Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,13.14).

Jesus, preanunciado pelos profetas, é a verdadeira luz que ilumina a todo homem que vem a este mundo (Jo 1,9). Esta luz se manifesta sobremaneira quando o ardor da caridade se expressa em palavras e ações em favor dos mais necessitados. “Ele sempre se mostrou cheio de misericórdia para com os pequenos e os pobres, os doentes e os pecadores, e se fez próximo dos aflitos e oprimidos. Por sua palavra e ação anunciou ao mundo que sois Pai e cuidais de todos os vossos filhos” (Prece Eucarística Anáfora para Diversas Circunstâncias IV).

Se o Antigo Testamento aponta o fiel como luz porque caminha na glória do Senhor, com maior razão, na economia da graça, o batizado manifesta a luz de Cristo que refulge em sua vida por meio das obras que realiza na fé. A luz que brilha em nós é luz reflexa, como a luz do luar, que reflete o brilho do sol. O fulgor da santidade tem sua fonte em Deus. A luz que brilha em nós é a luz do verdadeiro Sol: Jesus. Ele é a fonte de nossa alegria.

O Papa Leão refletir sobre o Evangelho de hoje, primeiro dizia com realismo que é possibilidade de perder a alegria: “É doloroso, com efeito, perder o sabor e renunciar à alegria; no entanto, é possível ter esta ferida no coração”.  Mas logo a seguir, mostra como Jesus nos alerta sobre a beleza da alegria do Evangelho: “Jesus parece avisar quem o escuta, para que não renuncie à alegria. O sal que perdeu o sabor, diz ele, «não serve para mais nada, senão para ser lançado fora e ser pisado pelos homens» (Mt 5, 13)”.

O Santo Padre continua com uma palavra de esperança para aqueles que se sentem descartados, incapazes de reagir: “Quantas pessoas – e talvez já tenha acontecido também conosco – se sentem descartáveis, imperfeitas. É como se a sua luz tivesse sido escondida. Jesus, porém, anuncia-nos um Deus que nunca nos descartará, um Pai que guarda o nosso nome, a nossa singularidade. Qualquer ferida, mesmo a mais profunda, será curada ao acolhermos a palavra das Bem-aventuranças e ao voltarmos a caminhar pela via do Evangelho”, que é o próprio Jesus.

Por isso unimos confiantes nosso coração à oração da Igreja e suplicamos: “abri os nossos olhos para perceber as necessidades dos irmãos e irmãs; inspirai-nos palavras e ações para confortar os cansados e oprimidos; fazei que os sirvamos de coração sincero, seguindo o exemplo e o mandamento de Cristo. Vossa Igreja seja testemunha viva da verdade e da liberdade, da justiça e da paz, para que toda a humanidade se reanime com uma nova esperança” (Oração Eucarística para diversas circunstâncias IV).

Como são belas as palavras finais do Evangelho de hoje, dirigidas a nós que somos chamados a ser sal da terra e luz do mundo: “Assim também brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e louvem o vosso Pai que está nos céus” (Mt 5,16).

Deixemo-nos tocar também pela esperança que não decepciona, deixemo-nos alimentar e iluminar pela íntima e profunda comunhão com Jesus nosso Senhor. Assim nos tornaremos semelhantes a uma cidade situada sobre o monte. A nossa luz será visível, atraente e acolhedora, como o é a cidade de Deus, na qual somos destinados a viver.

À Virgem Mãe de Deus, que é Porta do Céu, volvamos o nosso olhar filial, como coração em humilde oração. Ela não deixará de nos ajudar a nos tornarmos e permanecermos fiéis discípulos do seu amado Filho. A Ele o louvor e toda honra pelos séculos.

Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo.

Diocese de Itumbiara
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