A Mesa da Palavra – Solenidade da Santa Mãe de Deus

A MESA DA PALAVRA
SOLENIDADE DA SANTA MÃE DE DEUS
Itumbiara, 1º de janeiro de 2026
“Salve, ó Santa Mãe de Deus” (Jo 14,1-7)

Caros amigos,

  1. Cristo é a nossa Paz” (Ef 2,14).

A solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, coroa a Oitava do Natal e é o primeiro dia do ano civil. É um dia consagrado a nossa Senhora, a quem nós honramos por sua maternidade divina. Eis a prerrogativa de todo singular que lhe confere o título essencial que caracteriza toda a missão de Maria: ser a Mãe de Deus.

Juntamente com a solenidade litúrgica, o dia 1° de janeiro é celebrado pela Igreja Católica como Dia Mundial da Paz. Efetivamente, a Maternidade divina de Maria nos remete ao nascimento do Verbo de Deus humanado que é por nós honrado como Príncipe da Paz.

A efeméride católica foi instituída pelo Papa São Paulo VI em 1968 para ser um convite a construir um mundo sem conflitos, especialmente em nações afetadas pela guerra e miséria. A nossa Igreja inicia o ano irmanando-se a todos os homens de boa vontade para pedir a Deus a Paz, com os meios próprios dos cristãos: oração, reflexão e ações com o fito de educar para a paz.

Mais do que uma percepção da paz como ausência de tribulações interiores, mais do que a percepção da paz como ausência de conflitos entre pessoas ou entre povos, nós reconhecemos na presença do Principe da Paz – mesmo em meio às tribulações – como a verdadeira paz. No Presépio as carências materiais, a sensação de rejeição, de exclusão das boas hospedagens deram lugar ao canto dos anjos: “Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens por Ele amados” (Lc 2,14). Jesus nasceu. Ele não apenas nos dá a sua paz. “Cristo é a nossa Paz” (Ef 2,14), a Paz eterna entra no tempo, penetra nos meandros da complexa história humana debaixo das feições de um Menino, derrama a graça que pode curar as feridas interiores, as feridas nas relações interpessoais, as dolorosas feridas trazidas pelas guerras, pelas injustiças. Jesus é a nossa Paz, é “ternura do céu que na terra brotou: trouxe paz, trouxe amor, trouxe luz”. Jesus é o Pontífice eterno que cria pontes para unir num só povo a humanidade desagregada pelas feridas do pecado. A paz que Ele oferece excede o entendimento humano e guarda o coração e a mente, mesmo em meio às adversidades e medos do mundo (Flp 4,7).

Somente a força da oração nos ajuda a recuperar a Paz com Deus mediante a reconciliação. Por isso nos dispomos com a oração para acolher Cristo como nossa Paz.

  1. O Senhor volte para ti os seus olhos e te conceda a paz” (Num 6,26).

Na primeira Leitura evocamos a tradição da primeira Aliança, que através de Aarão rogava a Deus a bênção sobre o povo de Deus. Depois da aliança do Sinai e antes de o povo retomar o caminho para a terra prometida, Deus dá instruções para que os filhos de Aarão, ou seja, os sacerdotes, invoquem sobre os israelitas a bênção divina, pedindo-Lhe não o que se quer, mas o essencial. O texto o da bênção de Aarão é por muitos conhecido como Bênção de São Francisco, que o santo empregava para abençoar os seus.

Nesta fórmula se pede a bênção para o povo ainda a caminho. O povo nômade do deserto a caminho da terra da Promissão. Mas a Igreja também se reconhece como povo peregrino na história rumo aos novos céus e à nova terra, rumo à Jerusalém do alto. Por isso o missal atual prevê este texto como primeira fórmula de benção solene para os domingos do tempo comum. O tempo comum é o tempo litúrgico do nosso caminhar entre as vicissitudes da vida para alcançar a Deus.

Esta leitura alude ao Nome do Senhor. É o Nome que será sempre invocado para que os filhos de Israel sejam abençoados. Nós reconhecemos no Nome Santíssimo de Jesus – que significa Deus salva – o Nome fora do qual não há salvação nem bênção (At 4,12). E assim invocamos o Santíssimo Nome de Jesus confiados na promessa antiga: “Invocarão o meu nome sobre os filhos de Israel e Eu os abençoarei” (Num 6,27). Somos os filhos do novo Israel.

III.Se és filho, também és herdeiro, por graça de Deus” (Gal 4,7).

Na segunda Leitura, o Apóstolo recorda aos Gálatas e a nós que na plenitude dos tempos Deus enviou “o seu Filho, nascido de mulher e sujeito à Lei de Moisés, para resgatar os que estavam sujeitos à Lei e nos tornar seus filhos adotivos”. Por isso a nossa oração agora já não visa aplacar a ira da divindade, mas bendizer o Deus vivo e verdadeiro chamando-O “Abbá – Pai”. Este modo de apresentar o mistério de Cristo faz pensar em um desígnio grande sobre a história humana. Um plano misterioso, mas com um centro claro, como um alto monte iluminado pelo sol em meio a uma de uma floresta: este centro é a «plenitude do tempo».

Na plenitude dos tempos o sonho dos homens de ver a face de Deus e viver é atendido na encarnação do Verbo. No rosto humano de Jesus vemos a divindade invisível. Passamos do simples temor à intimidade mais profunda. O Senhor nos ensina que, vencida a barreira da morte, “a vossa vida está escondida com Cristo em Deus” (Col 3,3). Em outro lugar, São Pedro nos ensina que pelas promessas antigas nos tornamos “participantes da natureza divina” (2 Pd 1,4).

As nossas fragilidades, os nossos pecados não nos assustem. A fragilidade tem cura e o pecado tem perdão: Somos filhos de Deus! Deus não se cansa de ser misericordioso conosco. As vezes nós nos cansamos de pedir perdão, de confiar no seu amor. Nem nos assustem as fragilidades ou pecados que vemos nos irmãos. Nem nos arvoremos em juízes deles. Não somos nós que devemos separar o joio do trigo. Esta é obra que compete aos ceifeiros, aos anjos do Senhor no fim dos tempos (Mt 13,46). A nós cabe ser embaixadores de Cristo, ser pregoeiros da misericórdia e derrubar as fronteiras impostas pelo ódio (2 Cor 5,20).

  1. E, depois de oito dias, deram-lhe o nome de Jesus” (Lc 2,21)

Finalmente, o evangelista Lucas nos lembra que na infância de Jesus os dados humanos e divinos se encontram com uma simplicidade desarmante. É tal a simplicidade que nem Deus se mantém distante do homem, nem o homem se intimida diante de Deus. O Filho de Deus se torna Filho de Maria e, justamente por isso, Maria é a Mãe de Deus, a Θεοτόκος. É no seu regaço acolhedor de Mãe que os pastores vão encontrar Jesus e, depois deles, todos os homens. A simplicidade de Maria, Mãe de Deus e nossa nos ajuda a estar em casa no Presépio, à vontade como Jesus nos seus braços, apoiados no Trono da Sabedoria.

Voltemos os olhos à cena evangélica. Depois do anúncio feito pelos anjos, os pastores confiantes na Palavra de Deus que lhes fora dirigida, deixam-se guiar por ela e vão a Belém. Sem esta decisão, tomada com a coragem e a prontidão dos simples, eles não teriam encontrado Jesus. Não teriam encontrado aquele que salva. Tendo-o encontrado “os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido” (Lc 2,20)

E nesta cena comovente que descobrimos a fonte da nossa verdadeira paz. Então poderemos aceitar o convite do Papa Leão de iniciarmos o novo ano como quem empreende uma grande e esplêndida aventura. Vamos caminhar com a bênção de Aarão, com a bênção de quem se arrisca na aventura da liberdade e da paz.

Assim, no início do novo ano, a Liturgia recorda-nos que cada dia pode ser, para cada um de nós, o início de uma nova vida, graças ao amor generoso de Deus, à sua misericórdia e à resposta da nossa liberdade. É bonito pensar deste modo o ano que começa: como um caminho aberto, a descobrir, no qual por graça nos podemos aventurar, livres e portadores de liberdade, perdoados e doadores de perdão, confiantes na proximidade e na bondade do Senhor que sempre nos acompanha” (Leão XIV, Homilia, 1-I-2026).

Que o Senhor nos enriqueça com a sua bênção e com a sua paz durante todo o ano jubilar de nossa Diocese e a Virgem Mãe de Deus nos cubra com seu olhar amoroso. Santa Rita de Cássia nos acompanhe com a sua intercessão e os sinais que a benevolência de Deus nos quiser dar ao longo desse nosso ano jubilar adamantino da Diocese.

Que a Paz de Deus que supera todo entendimento alcance os corações de cada um dos homens e mulheres cujas vidas se cruzam com as nossas.

Feliz ano novo. Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo!

 

Diocese de Itumbiara
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A Diocese de Itumbiara foi criada no dia 11 de outubro de 1966, pelo Papa Paulo VI, desmembrada da Arquidiocese de Goiânia; seu território é de 21.208,9 km², população de 286.148 habitantes (IBGE 2010). A diocese conta 26 paróquias, com sede episcopal na cidade de Itumbiara-GO.