A MESA DA PALAVRA
Solenidade da Páscoa da Ressurreição do Senhor
V Domingo da Páscoa
Itumbiara, 3 de maio de 2026
“Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”
Caros amigos,
- “Se, portanto, ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus” (Col 3,1).
Buscar as coisas do alto significa buscar a Cidade de Deus caminhando na cidade dos homens. Somos todos enviados a evangelizar o mundo inteiro, a amar o mundo que saiu bom das mãos de Deus e “aguarda ansiosamente a manifestação dos filhos de Deus” (Rm 8,19).
Não é equivocado dizer que entre os maiores anelos do homem contemporâneo se encontra na edificação de um mundo renovado, em que nem a injustiça nem a exploração de um homem pelo outro tenham lugar. Mais ainda, podemos dizer que este anseio corresponde plenamente ao desígnio de Deus de fazer novas todas as coisas: «Eis que faço novas todas as coisas». Insere-se também no desígnio de libertação evangélica, que visa a destruição o pecado e de todas as suas consequências pessoais e sociais. Assim sendo, a cristão algum é consentido cruzar os braços ante a imane tarefa da edificação de uma humanidade nova, pois a sua colaboração, iluminada pelo Evangelho de Cristo e animada pelo ardor da caridade é indispensável.
Na verdade, o mundo novo não pode construir-se sem Deus ou, pior ainda, contra Deus. Ao longo da história, todos os sistemas que tentaram prescindir de Deus, como se Ele fosse um rival do homem, como se Ele se opusesse à grandeza da dignidade humana, acabaram sempre derivando no desprezo pelo homem e sua dignidade constitutiva de filho de Deus.
Não pode surgir também do ódio, da luta, da violência, pois a força propulsora da história não é a violência, mas o amor. Cristo Ressuscitado saúda os discípulos com a Paz. «Na história há fontes de progresso distintas da luta, como sejam, o amor e o direito» (Sínodo dos Bispo, A Justiça no Mundo). Sinal do amor de Deus, no meio dos homens, depositário dessa força criadora, que é o amor fraterno, o cristão é chamado a ser cooperador de Deus «na liberdade do pecado e na construção do mundo que, somente quando for obra do homem, para o homem, chegará à plenitude da perfeição» (Ibidem). Se o cristão ficar à margem das correntes da história, a onda vivificante acabará por se transformar em água estagnada.
- «Escolheram sete homens cheios do Espírito Santo …»
A tarefa da construção de um mundo novo precisa de homens novos, ungidos pelo Espírito Santo para serem santos servindo aos pobres e procurando que se realize em cada geração toda a justiça. É preciso acolher a palavra de Deus e abraçar a vocação de cada um para servir com o amor de Deus às causas da cidade dos homens. Nem sempre se tratará de coisas grandiosas. As mais das vezes nos caberá o empenho perseverante nas pequenas coisas de cada dia.
A Igreja primitiva também conheceu dissabores com a mesquinhez humana. Os Apóstolos foram chamados em causa para o problema da desatenção às viúvas dos gregos. A fim de não ficarem totalmente absorvidos pelos problemas internos da Igreja, comunidade em contínuo crescimento, os Apóstolos, invocado o Espírito Santo, tomam a resolução de instituir sete colaboradores, escolhidos na mesma comunidade, os quais, sem descurarem o trabalho da evangelização, ficarão, contudo, especialmente encarregados da caridade e dos serviços materiais.
Deste modo, os Apóstolos, «servos da Palavra», poderão dedicar-se, exclusivamente, àquilo que é essencial: a oração e o anúncio da «boa notícia» da salvação. Na verdade, «é através da palavra de Deus que a fé nasce nos corações, os ídolos, forjados pelos homens, se desmoronam e as mesmas civilizações se transformam».
O anúncio do Evangelho precedido de um permanente compromisso de conversão pessoal e comunitária à Boa Nova de Cristo nos dá as credenciais para ser cidadãos deste mundo com os olhos voltados para o céu.
Somente esperando na misericórdia do Senhor podemos empreender o caminho da edificação de um mundo novo, rico de renovada humanidade. Com o salmista, dizemos que “Esperamos, Senhor, na vossa misericórdia” (Sl 32).
- “Vós, porém, sois uma raça escolhida, um sacerdócio régio, umanaçãosanta, um povo adquirido para Deus…” (1 Pd 2,9).
Nesta belíssima página de sua primeira epístola, São Pedro nos lembra que o Senhor Jesus é a Pedra rejeitada pelos homens, que O fizeram passar pela Paixão e Morte de Cruz. Mas é preciso recordar sempre de Jesus Ressuscitado que se levantou da morte e se tornou Ele mesmo, por Sua Ressurreição, pedra viva, sobre a qual foi construída a Igreja, novo Povo de Deus.
Mas a sua Ressurreição beneficia a humanidade inteira, ainda que ignara dessa sublime graça. Com efeito, unindo-se a Cristo pela sua fé, o cristão torna-se, por seu lado, pedra viva desse edifício espiritual. Embora de modo essencialmente diferente do modo dos ministros consagrados, todo batizado passa a participar do Sacerdócio único de Cristo. Por isso, pode também apresentar a Deus a oferta espiritual toda a sua existência, o seu amor, a sua entrega aos irmãos, o seu trabalho e o seu compromisso em meio às realidades temporais. Pode enfim testemunhar e anunciar a quem quer que cruze os seus caminhos as maravilhas do amor de Deus. Na liturgia da apresentação das oferendas o sacerdote ministerial une a oferta do povo sacerdotal à oblação de Cristo na Cruz: “Bendito sejais, Senhor Deus do Universo, pelo pão que recebemos de vossa bondade, fruto da terra e do trabalho humano, que agora (como Igreja unida em oração) vos apresentamos e para nós vai se tornar Pão da Vida”.
- «Eu sou o caminho, a verdade e a vida»
A belíssima página do Evangelho hoje proclamado nos mostra que Jesus, pela Sua vida e pelas Suas palavras, revelou-nos, perfeita e seguramente, o rosto do Pai. Efetivamente, desde o momento em que o Filho de Deus Se fez Filho do homem, Deus deixou de ser inacessível e inatingível. O Deus que habita em uma luz inacessível, agora mora numa tenda terrena entre nós. Em Jesus, sacramento de encontro com Deus, o homem entrou, definitivamente, em comunhão de pensamento e de vida com o Pai. Na encarnação, o Verbo eterno armou sua tenda entre nós. No nosso encontro com o Senhor, Ele passa a viver em nós, tendendo ao místico conúbio espiritual. E quer ademais que alarguemos a tenda do encontro a cada pessoa que vive neste mundo.
Nós somos peregrinos e habitamos nas tendas do tempo, em busca da eternidade. E somos luz acessível que atrai os irmãos para a tenda da comunhão fraterna.
Esta comunhão com Deus é possível, mesmo neste tempo que decorre entre a partida de Jesus e a Sua vinda final. Com efeito na Igreja de Jesus foi-nos preparada uma morada, na qual temos acesso permanente ao Pai, «num único Espírito» (Ef. 2, 18).
Sintamo-nos também nós chamados a percorrer o caminho iluminados pela verdade que conduz à vida. Seremos então servos como os sete escolhidos pelos Doze para servir através da mesa da caridade, o pão da Palavra que restaura a dignidade dos que padecem sofrimentos espirituais e materiais. Este é o Caminho que nos leva até Cristo Porta que se abre para as ovelhas chegarmos à Jerusalém celeste.
Por isso vale apena repetir ao longo da semana esta belíssima oração coleta: “Deus eterno e todo-poderoso, realizai sempre em nós o mistério da Páscoa, e, aos que vos dignastes renovar pelo santo Batismo, concedei, com o auxílio de vossa proteção, dar muitos frutos e chegar às alegrias da vida eterna”.
A Virgem Maria, porta do céu e estrela da manhã nos acompanha na peregrinação terrenal até o céu.
Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo.

