A MESA DA PALAVRA – Natividade do Senhor segundo a Carne – Ano A

A MESA DA PALAVRA
Natividade do Senhor segundo a Carne – Ano A
Missa da Noite do Natal do Senhor
“Puer natus est nobis”

Caríssimos amigos, irmãos e irmãs no Senhor,

Desde há muito, desde tempos de antanho, há quem insista em tratar Jesus como se fora um mito entre outros tantos. Mas Ele é Alguém que nasceu num determinado tempo da história, com uma genealogia, pertencente a um povo, não é um mito ao par de outros. É personagem histórica. A liturgia de hoje nos ajuda a compreender a importância do Nascimento de nosso Senhor Jesus Cristo segundo a carne.

  1. Não temais. Eis que vos anuncio uma grande alegria” (Lc 2,10)

Ao nos aprestarmos a subir ao altar do Deus que alegra a nossa juventude, ouvimos o canto solene das calendas do Natal do Senhor. Aquele que foi gerado no hoje eterno de Deus e engendrado no ventre santíssimo da Virgem Mãe Imaculada é dado ao mundo “naquele tempo”, isto é, no hoje da nossa história. O Verbo de Deus se fez carne e armou sua morada entre nós. Veio a primeira vez na humildade da carne, veio para os seus e os seus não o reconheceram. O coração deles estava repleto demais das próprias certezas para acolher o Menino Deus.

Nós, no entanto, nos alegramos porque nos foi dado conhecer o Filho de Maria, o Filho do Carpinteiro José e reconhecer nEle o rosto do “Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado não criado, consubstancial ao Pai”. Por isso, não obstante as agruras do nosso tempo, as dificuldades e as belicosas relações entre pessoas e entre povos que o nosso tempo conhece com sofrimento, nós podemos proclamar: “Hoje, para nós, desceu do céu a verdadeira paz”.

Neste oitavo dia antes das Calendas (do primeiro dia) de janeiro, começamos a contar a nossa história mais profunda. Não é apenas uma sucessão de impérios e conflitos. Trata-se da história do único combate verdadeiro: a luta para restaurar a paz nesta terra criada por Deus para ser lar comum da humanidade. Tudo foi criado para aprendermos acolher em nossa vida o Deus feito homem que bate à nossa porta, que deseja entrar em nossa casa e cear conosco. É a casa de onde quer nos levar a passear de braços dados no jardim do Espírito.

Conforme a leitura sapiencial ensinada pelo Espírito Santo, passamos a contemplar a ação redentora de Deus na nossa história infralapsária, isto é, após a prevaricação dos primeiros pais. “Transcorridos muitos séculos desde a criação do mundo…” – começa o canto das calendas… e em seguida sobrevém uma lista de acontecimentos (tanto do povo de Deus como dos pagãos) situados nos meandros da história em que Deus, na Sua sapientíssima providência tudo conduziu para levar à plenitude dos tempos a semente da eternidade: o Seu Unigênito entra na história para abrir aos que o acolherem os caminhos da eternidade. Assim nos relatam as calendas: “no quadragésimo segundo ano do império de Cesar Otaviano Augusto, quando a paz reinava em toda a terra, Jesus Cristo, Deus eterno e Filho do eterno Pai, querendo santificar o mundo com o seu piíssimo advento, concebido pelo Espírito Santo decorridos nove meses após a sua concepção, nasceu em Belém de Judá, da Virgem Maria, feito homem”.

Sim, quando no mundo reinava a paz, não na paz segundo Deus. Talvez a pax romana, a que chegaram os homens da plenitude dos tempos. Certo, não sem influxo da providência, tenha sido suficiente configurar o momento propício, em que Deus Pai nos dá a sua paz. Cristo é a nossa Paz. É o tempo em que se deu a “Natividade de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo a carne”. É isto que contemplamos e anunciamos hoje. É para este tempo que a história guiada pelas mãos de Deus nos predispôs. É para esta ocasião que a liturgia do Advento nos preparou.

Não se trata hoje de fazer sermões de carregado teor parenético, de exigências de conversão. Hoje louvamos a Deus porque o anjo do Senhor anuncia aos pastores atemorizados: “Nolite timere. Ecce enim evangelizo vobis gaudium magnum,…” – “Não temais. Eu vos anuncio uma grande alegria que o será para todo o povo: Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor” (Lc 2, 10-11).

Com belíssima oração coleta louvamos a Deus que fez “resplandecer esta noite santíssima com a claridade da verdadeira luz”: Cristo Senhor. E suplicamos que nos dê a graça de “que, tendo conhecido na terra este mistério, possamos também participar da sua glória no céu”, ainda que tenhamos de passar pela Cruz que o Menino veio carregar. “Per crucem ad Lucem”. Como o Senhor faremos o nosso peregrinar terreno “per aspra ad astra”.

  1. Foi-nos dado um filho” (Is 9,1.6)

O Espírito Santo e a liturgia Igreja nos conduziram pela mão até a este momento através dos inspirados escritos do Profeta Isaías, que nos mostram o efeito da Luz de Deus em nós. “O povo, que andava na escuridão, viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu” (Is 9,1). Nas palavras proféticas de Isaias foi fácil reconhecer que o Espírito Santo – Autor principal das Escrituras – nos falava em previsão dos acontecimentos de Belém, quando o nascimento de um Menino fez crescer a alegria e aumentar a felicidade do povo de Deus.

Diz, com efeito, o Profeta: “Porque nasceu para nós um menino, foi-nos dado um filho; ele traz aos ombros a marca da realeza; o nome que lhe foi dado é: Conselheiro admirável, Deus forte, Pai dos tempos futuros, Príncipe da Paz”.

E nós, aqui, hoje, conhecendo Jesus pela fé da Igreja, podemos dizer qual é a razão desta alegria: é Ele mesmo, o Filho de Maria. E todos os que o conhecem como Ele quer ser conhecido se regozijam com a sua presença. Nele reconhecemos o cumprimento do anúncio de Isaías. No nascimento se regozijam os pastores, os magos do oriente, os animais que aqueciam o presépio. Ali o abraçam o calor do regaço acolhedor da Virgem Maria e o olhar terno de José, o bom pai do Filho de Deus. Diante da Luz do Menino, as trevas se desfazem e a noite se torna clara como o dia. Por isso hoje também nós podemos cantar um cântico novo com o salmista: “Hoje nasceu para nós o Salvador, que é Cristo o Senhor”.

III. Hoje nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor” (Lc 2,11)

             Nesta mesma cátedra, ano passado tive ocasião de comentar na homilia que a epistola do Apóstolo dos Gentios ao discípulo Tito nos mostra a realização da profecia de Isaías também em relação ao povo da nova aliança. A graça de Deus “nos ensina a abandonar a impiedade e as paixões mundanas e a viver neste mundo, com equilíbrio, justiça e piedade” (Tt 2,12).

Sem pretender resvalar para uma pregação simplesmente parenética, desejo confidenciar com vocês a profunda convicção da Igreja de que a novidade de vida moral não é fruto de decisão determinada por uma fortaleza pelagiana. Abandonar o pecado e caminhar livre do espírito mundano é fruto da graça de Deus que fortalece as nossas decisões e nos torna capazes de corresponder à vontade do Pai. Acrescentaria ainda que quando a nossa conversão é a Cristo, e não a um sistema de ideias, nós nos tornamos irmãos dos irmãos mais frágeis sem nos arvorarmos em juízes temerários e duros em relação a eles. Na fragilidade deles reconhecemos também a nossa pobreza: “quando sou fraco, então é que sou forte” (2 Cor 12,10).

Mas atenção. Não se trata apenas de virtudes individuais. São virtudes que dizem respeito à convivência fraterna, tanto na comunidade eclesial como na sociedade de que somos cidadãos. Acolhendo a graça e decidindo a viver como pessoas comprometidas com o Senhor, só então estaremos em condições de viver “aguardando a feliz esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo” (Tt 2,13).

Gostaria de fazer com todos os irmãos o caminho de encontro com o Senhor sugerido pelo Apóstolo. Ele tira as consequências práticas do mistério da redenção. Ele nos ensina que Jesus, o filho de Maria, “se entregou por nós para nos resgatar de toda a maldade e purificar para si um povo que lhe pertença e se dedique a praticar o bem” (Tt 2,14). Nosso resgate é fruto da perfeita oblação realizada por Jesus, o que foi possível por ter Ele assumido a nossa natureza mortal no ventre virginal de Maria. A nossa salvação não é fruto de nossas forças, é fruto do amor misericordioso do Senhor que se coloca sempre em nosso caminho para que o encontremos. Não fechemos os nossos olhos a Ele. Comecemos hoje contemplando o Menino.

  1. Gloria in excelsis Deo

Enfim, caros amigos, apraz-me compartilhar nesta noite um trecho da Homilia da noite de Natal de 2010, que tive a ocasião de ouvir na Basílica de São Pedro. Ainda ressoam as palavras de Bento XVI, que traziam o sabor de sua meditação sobre a Infância de Jesus, consignada a nós na trilogia Jesus de Nazaré.

“No fim, o Evangelho de Natal narra-nos que uma multidão de anjos do exército celeste louvava a Deus e dizia: «Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens que Ele ama» (Lc 2, 14). A Igreja ampliou, no hino «Glória…», este louvor que os anjos entoaram à vista do acontecimento da Noite Santa, fazendo dele um hino de júbilo sobre a glória de Deus. «Nós Vos damos graças por vossa imensa glória». Nós Vos damos graças pela beleza, pela grandeza, pela tua bondade, que, nesta noite, se tornam visíveis para nós. A manifestação da beleza, do belo, torna-nos felizes sem que devamos interrogar-nos sobre a sua utilidade. A glória de Deus, da qual provém toda a beleza, faz explodir em nós o deslumbramento e a alegria. Quem vislumbra Deus, sente alegria; e, nesta noite, vemos algo da sua luz.

Mas a mensagem dos anjos na Noite Santa também fala dos homens: «Paz aos homens que Ele ama». A tradução latina desta frase, que usamos na Liturgia e remonta a São Jerónimo, interpreta diversamente: «Paz aos homens de boa vontade». Precisamente nos últimos decénios, esta expressão «os homens de boa vontade» entrou de modo particular no vocabulário da Igreja. Mas qual é a tradução justa? Devemos ler, juntas, as duas versões; só assim compreendemos rectamente a frase dos anjos. Seria errada uma interpretação que reconhecesse apenas o agir exclusivo de Deus, como se Ele não tivesse chamado o homem a uma resposta livre e amorosa. Mas seria errada também uma resposta moralizante, segundo a qual o homem com a sua boa vontade poder-se-ia, por assim dizer, redimir a si próprio. As duas coisas andam juntas: graça e liberdade; o amor de Deus, que nos precede e sem o qual não O poderemos amar, e a nossa resposta, que Ele espera e até no-la suplica no nascimento do seu Filho. O entrelaçamento de graça e liberdade, o entrelaçamento de apelo e resposta não podemos dividi-lo em partes separadas uma da outra.

Ambas estão indivisivelmente entrançadas entre si. Assim esta frase é simultaneamente promessa e apelo. Deus precedeu-nos com o dom do seu Filho. E, sempre de novo e de forma inesperada, Deus nos precede. Não cessa de nos procurar, de nos levantar todas as vezes que o necessitamos. Não abandona a ovelha extraviada no deserto, onde se perdeu. Deus não se deixa confundir pelo nosso pecado. Sempre de novo recomeça connosco. Todavia espera que amemos juntamente com Ele. Ama-nos para que nos seja possível tornarmo-nos pessoas que amam juntamente com Ele e, assim, possa haver paz na terra.

Lucas não disse que os anjos cantaram. Muito sobriamente, escreve que o exército celeste louvava a Deus e dizia: «Glória a Deus nas alturas…» (Lc 2, 13-14). Mas desde sempre os homens souberam que o falar dos anjos é diverso do dos homens; e que, precisamente nesta noite da jubilosa mensagem, tal falar foi um canto no qual brilhou a glória sublime de Deus. Assim, desde o início, este canto dos anjos foi entendido como música vinda de Deus, mais ainda, como convite a unirmo-nos ao canto com o coração em júbilo pelo facto de sermos amados por Deus. Diz Santo Agostinho: Cantare amantis est – cantar é próprio de quem ama.

Assim ao longo dos séculos, o canto dos anjos tornou-se sempre de novo um canto de amor e de júbilo, um canto daqueles que amam. Nesta hora, associemo-nos, cheios de gratidão, a este cantar de todos os séculos, que une céu e terra, anjos e homens. Sim, Senhor, nós Vos damos graças por vossa imensa glória. Nós Vos damos graças pelo vosso amor. Fazei que nos tornemos cada vez mais pessoas que amam juntamente convosco e, consequentemente, pessoas de paz. Amém.

A todos e a cada um dos irmãos aqui presentes, os meus mais cordiais votos de Santo Natal.

Diocese de Itumbiara
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A Diocese de Itumbiara foi criada no dia 11 de outubro de 1966, pelo Papa Paulo VI, desmembrada da Arquidiocese de Goiânia; seu território é de 21.208,9 km², população de 286.148 habitantes (IBGE 2010). A diocese conta 26 paróquias, com sede episcopal na cidade de Itumbiara-GO.