A MESA DA PALAVRA
Natividade do Senhor segundo a Carne 2025
Missa do Dia de Natal
“O Verbo se fez carne e habitou entre nós”
Caríssimos amigos,
não é de hoje que em ambientes adversos à fé cristã se tente desacreditar a realidade histórica do nascimento de Jesus segundo a carne, e mais ainda o realismo da ressurreição. Não falta quem, com parca seriedade acadêmica e dubitável honestidade intelectual, insista em tratar Jesus como se fora um mito entre outros tantos. Por mais que as mitologias dos povos ensinem em linguagem simbólica muitos valores que nós também apreciamos, é preciso dizer que Jesus não é um mito, cuja interpretação é sempre passível de manipulação ideológica ou religiosa.
É preciso dizer claramente que Jesus verdadeiro homem, numa terra, num determinado dia, em um ambiente cultural que o Evangelho chama “plenitude dos tempos”. E podemos dizer sem errar que o Espírito Santo previne as tentativas de manipulação religiosa ao inspirar São Lucas, médico e fino historiador, a narrar com precisão os acontecimentos referentes à encarnação do Verbo. Assim escreve Ele: “Aconteceu que naqueles dias, Cesar Augusto publicou um decreto, ordenando o recenseamento de toda a terra. Este primeiro recenseamento foi feito quando Quirino era governador da Síria. Todos iam registrar-se cada um na sua cidade natal” (Lc 2,1). Segundo os usos da época, o nosso evangelista datou bem precisamente o início dos acontecimentos referentes ao nascimento e infância de Jesus.
Hoje é dia de júbilo. Celebramos um fato histórico: o Natal de Jesus há 2025 anos.
- “… dai-nos participar da divindade do vosso Filho, que se dignou assumir a nossa humanidade” (da Coleta da missa do Dia)
A hodierna liturgia, caros irmãos, desde a coleta nos ajuda a entrever a importância do Nascimento de Jesus Cristo segundo a carne e o quarto Evangelho nos oferece a mais alta expressão crstológica, proclamando que o Verbo de Deus se fez homem, desceu dos céus e armou a sua tenda entre nós. E tudo para que nós pudéssemos participar da divindade d’Ele.
A nossa belíssima coleta é proveniente do Sacramentário Gregoriano (n. 59) e aparece também no Leoniano e no Gelasiano. Ela é empregada em parte no ofertório da missa. O sacerdote ao misturar a água ao vinho no cálice assim reza: “Pelo mistério desta água e deste vinho possamos participar da divindade do vosso Filho que se dignou assumir a nossa humanidade”. Em cada missa pedimos que se realize no coração da Igreja a nossa mais perfeita união com o Senhor. Na união hipostática – assim a chamam os teólogos – na mesma Pessoa divina do Verbo se unem, inseparavelmente e sem confusão, a natureza divina e a natureza humana. Em nós esta união se dá pela graça que recebemos no Batismo ao sermos enxertados no Corpo do Senhor. É uma graça que precisa ser sempre cultivada.
É preciso não temer o realismo da nossa fé. Deus não apenas se interessa pela nossa humanidade. Ele quis misturar-se conosco na nossa história para nos tornar aptos para a eternidade bem-aventurada. Como é belo dizer ao Senhor: “Ó Deus, que admiravelmente criastes o ser humano e mais admiravelmente restabelecestes a sua dignidade, dai-nos participar da divindade do vosso Filho, que se dignou assumir a nossa humanidade”.
- “Todos os confins da terra hão de ver a salvação que vem do nosso Deus” (Is 52,10).
A profecia de Isaías é palavra consoladora para o povo de Israel que se encontrava no exílio da Babilônia, desiludido e sem esperança: Jerusalém ficou destruída, o templo arrasado e os israelitas estão reféns num país estrangeiro. Tudo parece perdido e sem solução. É neste contexto histórico bem preciso, que Isaías dirige a um povo descoroçoado e prostrado, as palavras que o Espírito Santo lhe inspirou.
Isaías anuncia a salvação que não é obra das mãos humanas, mas manifestação do poder de Deus. O braço que o Senhor desnudou simboliza o poder de Deus que se manifesta ante todos os povos, para que todos vejam a salvação. Deus realiza tudo isso no presépio de Jesus: Lá os pastores das cercanias de Belém que se achegam ao presépio são o Israel de Deus, os magos do oriente são os povos que vêm adorar o Deus feito homem.
O paradoxo de Deus é que ele manda anunciar a alegria: “reina o teu Deus” enquanto ainda estão no degredo. E ainda proclama “como são belos, andando sobre os montes, os pés de quem anuncia e prega a paz, de quem anuncia o bem e prega a salvação”. Os atalaias levantam a voz e exultam de alegria, porque “sabem que verão com os próprios olhos o Senhor voltar a Sião”. E comunicam aos israelitas exilados e aos homens oprimidos de todos os tempos: “Alegrai-vos e exultai ao mesmo tempo, ó ruinas de Jerusalém, o Senhor consolou o seu povo e resgatou Jerusalém” (v. 9). Estes vigias são aqueles que em todos os tempos ouvem o Senhor que diz: “Vigiai e orai” sem esmorecer.
O feliz anúncio, o “Evangelho” é este: que Deus está entre nós, Ele se apresenta como Redentor. E à Sua presença caem todas as razões de nossa tristeza e desânimo. Por isso, em meio as ruinas do nosso tempo, estas palavras nos parecem atuais e dirigidas a nós: “Prorrompei juntas em cantos de alegria, ó ruinas de Jerusalém”, ó ruinas de todos os tempos.
III. “Muitas vezes e de diversos modos falou Deus outrora aos nossos pais pelos profetas”.
Caríssimos amigos, são comoventes as palavras do autor da carta aos Hebreus. O Espírito Santo continua a falar pelos séculos afora através dos profetas, através das Escrituras, através do magistério da Igreja, através do testemunho dos santos.
Nessa carta o dedo da destra de Deus mostra como a intervenção salvífica de Deus, anunciada por Isaías se realizou plena e definitivamente de um modo surpreendente, inesperado. Tudo se realiza na encarnação do Filho de Deus, incomparavelmente superior aos profetas e aos anjos. Se Isaías anuncia que “todos os confins da terra hão de ver a salvação que vem de Deus”, pondo no futuro esta realização, nós podemos cantar com o salmista um fato já realizado: “os confins da terra contemplaram a salvação do nosso Deus” (Sl 97,3), pois “o Senhor fez conhecer a salvação e às nações a sua justiça” (ibid.).
O Filho de Deus nascido em Belém é a Palavra divina definitiva. Todas as coisas encontram nele o seu fundamento. Agora, realizada a purificação dos pecados, dos nossos pecados, Ele se encontra glorioso à direita do Pai. Em Cristo, Deus se manifestou todo inteiro: as várias palavras e profecias do Antigo Testamento se resumem em Jesus, para o qual tende toda a esperança de Israel, do antigo e do novo Israel.
Vale apena nos determos na leitura orante dos textos proclamados nas celebrações do Mistério do Natal do Senhor. São uma fonte inesgotável de sabedoria e de consolação, pois que nos atestam a salvação que vem da poderosa mão de Deus.
- IV. “O Verbo de Deus se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14)
Bendita a noite que viu o cumprimento das promessas quando Maria aconchega no seu regaço amoroso o Menino engendrado no seu imaculado ventre. Concebeu virginalmente, e, conforme o ensinamento do Concílio de Latrão (a.D. 649), confirmado pelo Santo Sínodo de Trento, permaneceu virgem antes, durante e depois do parto.
São João fala-nos do mistério da encarnação de Jesus de maneira muito bela. Ele é o Verbo, ou seja, a Palavra poderosa de Deus, através da qual chamou tudo à existência. Ele é a verdadeira Luz que dissipa as trevas do mal que envolveram a história humana após a prevaricação dos primeiros pais. No Verbo de Deus está a Vida divina, que vem libertar o homem do frio determinismo da morte. No Menino nascido em Belém, todos podemos contemplar a glória que até agora estava escondida e agora fica reservada aos que o recebem. Mais do que escutar é preciso contemplar a Palavra que nos é dirigida. Olhando para o Menino no Presépio, podemos vislumbrar e nos embevecer na beleza da salvação que Ele realiza.
Sobre a beleza do mistério do Verbo, Senhor de todos, que veio sob a forma de servo, ouçamos uma sublime meditação de o bispo Teódoto de Ancira (hoje Ancara), do século V, que foi um grande teólogo do Concilio de Éfeso (a.D. 431) e pugnou pela defesa da fé católica.
“Veio o Senhor de todos sob a forma de servo, revestido de pobreza, de modo a não afugentar os que buscava. Em terra incerta, escolhendo um lugar desconhecido para nascer, foi dado à luz por uma Virgem pobre, na pobreza total, para que pelo silêncio cativasse os homens que vinha salvar. Pois se tivesse nascido na glória, rodeado de muitas riquezas, diriam, sem dúvida, os infiéis, que a transformação da terra fora obra do dinheiro.
“Se tivesse escolhido Roma, a maior cidade, atribuiriam ao poder dos seus cidadãos a mudança do mundo. Se fosse filho do imperador, atribuiriam ao poder tal benefício. Se fosse filho de um legislador, atribui-lo-iam às leis. Mas o que fez ele? Escolheu tudo o que é pobre e vil, tudo que há de mais medíocre e obscuro, para sabermos que só a divindade transformou a terra. Por isto, escolheu uma mãe pobre, uma pátria ainda mais pobre, fazendo-se pobre de bens terrenos.
“Tudo isto te é mostrado pelo presépio. Como não havia um berço para reclinar o Senhor, Ele foi colocado numa manjedoura, e sua indigência das coisas mais necessárias tornou-se uma ótima profecia. Foi assim posto na manjedoura para anunciar que se fazia alimento até mesmo dos irracionais. Pois o Verbo, Filho de Deus, nascendo pobre e jazendo num presépio, atrai a si os ricos e os pobres, os eloquentes e os incultos.
“Vede, portanto, como a indigência se tornou profecia, e a pobreza mostrou ser acessível a todos aquele que por nós se fez pobre. Ninguém se deteve por medo das esplêndidas riquezas do Cristo, nem a imponência do poder impediu alguém de se aproximar dele; mas apareceu pobre e comum, oferecendo-se a si mesmo para salvar a todos.
“No presépio, o Verbo de Deus se manifesta corporalmente, a fim de que tanto os seres racionais como os irracionais possam participar do alimento da salvação. Penso ser isto que o profeta proclamava, quando falava do mistério do presépio: O boi conhece o seu dono, e o jumento, a manjedoura de seu senhor; mas Israel é incapaz de conhecer, o meu povo não pode entender (Is 1,3). Fez-se pobre por nós aquele que é rico, tornando facilmente perceptível a todos a salvação do Verbo de Deus. Também Paulo o indica, ao escrever: Por causa de vós se fez pobre, embora fosse rico, para vos enriquecer com a sua pobreza (2Cor 8,9).
“Mas quem era esse que enriquecia? E de que enriquecia? Como ele se fez pobre por nós? Quem é, dizei-me, que, sendo rico, se fez pobre por minha pobreza? Pensas que foi o homem que apareceu? Mas este nunca se tornou rico, nascido que foi pobre e de pais pobres. Quem era, pois, e de que enriquecia esse rico que por causa de nós se fez pobre? A resposta é: Deus enriquece a criatura. Foi Deus mesmo quem se fez pobre, fazendo sua a pobreza daquele que se podia ver. Pois ele é rico pela divindade, e por causa de nós se fez pobre”.
Feliz Natal a todos. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

