A MESA DA PALAVRA – IV Domingo do Tempo Comum – Ano A

A MESA DA PALAVRA

IV Domingo do Tempo Comum – Ano A
Itumbiara, 1º de fevereiro de 2026

Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa no céu” (Mt 5,12a)

Caríssimos amigos, 

A liturgia deste domingo traz ao cerne da nossa oração as Bem-Aventuranças (cf. Mt 5, 1-12a), que abrem o grande sermão chamado “da montanha”, considerado a “magna charta” do Novo Testamento. Para bem lermos o Santo Evangelho de modo adequadamente contextualizado, a Liturgia antepõe à sua proclamação um texto do Profeta Sofonias, que nos fala da pobreza como dom espiritual e, um trecho da Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios, que apresenta a pobreza como meio eficaz para a realização das coisas de Deus.

Retomemos a oração da coleta para que o Espírito Santo nos abra as mentes para compreendermos, na beleza da fé e do amor, o tesouro das Bem-aventuranças, especialmente o dom da pobreza evangélica a que todos somos chamados.

  1. Concedei-nos, Senhor nosso Deus, adorar-vos de coração sincero e amar todas as pessoas com verdadeira caridade” (da Coleta).

Esta oração evidencia a clara conexão entre a adoração – amor a Deus – e a caridade para com os irmãos, cuja fonte é o coração misericordioso de Deus.

A perfeita adoração não é simples fruto de nossos mais nobres esforços, é antes de tudo graça que Deus concede aos corações lho pede com sincera humildade. A adoração sincera nasce de um coração que se deixa guiar pelo Espírito Santo. É o próprio Jesus quem no-lo ensina: “Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade…” (Jo 4, 23-24). Ele nos ensina ainda que verdadeira adoração exige proximidade de coração, sob o risco da falta de sinceridade: “Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Mt 15,8).

A verdadeira adoração, que é expressão do amor a Deus (culto/adoração), com o amor ao próximo, a todas as pessoas (caridade), dois aspectos que são inseparáveis e provêm da mesma fonte divina. Trata-se da natureza íntima da adoração em espírito e verdade que se verifica nas obras da verdadeira caridade: “Se alguém disser: ‘Amo a Deus’, mas odeia seu irmão, é mentiroso. Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a quem não vê” (1Jo 4,20). O modo como se concretiza este amor que sela o nosso destino eterno, nós o aprendemos na pregação de Jesus sobre o Juízo Final consignada por São Mateus (Mt 25,31-46). As características mais profundas do amor ágape são cantadas por São Paulo no Hino à caridade: “A caridade é paciente, a caridade é bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa. Não é arrogante. Nem escandalosa. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. A caridade jamais acabará” (1 Cor 13,4-8).

Na missa de hoje, com a coleta (Leoniano, n. 432), suplicamos a Deus que nos converta em adoradores sinceros e que nos conceda amar a quem passa pela nossa vida com o mesmo amor de Jesus. Nisto consiste a verdadeira alegria do discípulo de Jesus. Esta alegria será alcançada no céu, onde viveremos a Bem-aventurança eterna.

  1. E deixarei entre vós um punhado de homens humildes e pobres” (Sof 3,12).

Na sequência da coleta, pudemos ouvir a leitura de Sofonias, que nos oferece indícios da compreensão do profeta sobre o sentido espiritual da pobreza e do resto de Israel.

O ministério profético de Sofonias teve lugar antes da reforma de Josias e da pregação de Jeremias (cerca de 627 a.C). Embora em sua pregação haja um particular senso ético de quem conhece e critica as extravagâncias e os injustos abusos das classes privilegiadas, não se percebe nela aquele sentido de compaixão para com os pobres tão forte nos profetas Amós e Miquéias. Ele dará à pobreza, não o então desgastado sentido econômico-social, mas o sentido mais espiritual, que será assumido pelo o Novo Testamento.

Os versículos que precedem a leitura da profecia (1 e 2) constituem um lamento doloroso de Deus, que constata que Jerusalém não dá ouvidos à voz profética, não o procura e nem se arrepende com sincera conversão. Antes se tornara uma “cidade rebelde, contaminada e prepotente”, uma cidade materialista, na qual a visão religiosa da vida fora sufocada pela tirania das injustiças sociais. Não obedecem, não aceitam, nem confiam, nem se aproximam. É o vazio de Deus e do sentido divino das coisas em uma sociedade, um ateísmo prático que acaba por asfixiar a dignidade humana, ofendendo a Deus seu Criador.

No texto que ouvimos há pouco, Deus se abre generosamente a promessas de restauração messiânica, não apenas em Jerusalém, mas para todos os povos. A estes povos dará lábios puros, como a novos Isaías para que O invoquem. Aos humildes da terra os convoca para buscarem o Senhor: “Buscai o Senhor, humildes da terra, que pondes em prática seus preceitos” (Sof 3,13). Se praticarem a justiça, buscando a humildade, poderão achar conforto no perdão e na misericórdia de um Deus redentor, acharão nEle “um refúgio no dia da cólera do Senhor”.

Aparece neste texto a pobreza aliada à humildade, conferindo-lhe o sentido espiritual, característico do resto de Israel, que o Senhor conservará fiel: “E deixarei entre vós
um punhado de homens humildes e pobres
” (Sof 3,12).  O resto de Israel é o resto fiel que porá a sua esperança no nome do Senhor, que os protegerá: “serão apascentados e repousarão, e ninguém os molestará” (Sof 3,13).

Em Jesus tudo se realiza em plenitude. Os seus discípulos já “não cometerão iniquidades nem falarão mentiras; não se encontrará em sua boca uma língua enganadora; serão apascentados e repousarão, e ninguém os molestará”. No nome do Senhor temos salvação e a felicidade bem-aventurada.

III.Deus escolheu o que o mundo considera como fraco, para assim confundir o que é forte” (I Cor 1,27).

Nestas primeiras linhas da sua epístola aos Coríntios, Paulo exalta a pobreza de meios e inclusive de qualidades humanas dos que evangelizou em Corinto: “Considerai vós mesmos, irmãos, como fostes chamados por Deus. Pois entre vós não há muitos sábios de sabedoria humana nem muitos poderosos nem muitos nobres” (1 Cor 1,26).

A pobreza como despojamento de recursos humanos para o serviço do Senhor dá o sentido da pobreza como riqueza própria de quem confia em Deus. A obra é dos Senhor e para que isso fique bem claro, o Senhor nos escolhe como instrumentos insuficientes. Assim diz Paulo falando à comunidade de Corinto: “Deus escolheu o que para o mundo é sem importância e desprezado, o que não tem nenhuma serventia, para assim mostrar a inutilidade do que é considerado importante, para que ninguém possa gloriar-se diante dele” (1 Cor 1,27).

            Mais adiante fica claro o motivo de ação de graças pela nossa vocação, que é a causa de nossa alegria no Senhor: “É graças a ele que vós estais em Cristo Jesus, o qual se tornou para nós, da parte de Deus: sabedoria, justiça, santificação e libertação, para que, como está escrito, ‘quem se gloria, glorie-se no Senhor’” (1 Cor 1,30-31).

  1. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa alegria no céu” (Mt 5,12)

Caríssimos, desejo hoje trazer à nossa oração uma homilia de Papa Francisco sobre as Bem-aventuranças, na sequência do que refletíamos sobre o dom da pobreza no serviço do Reino (cf Angelus, 2017). Ao retomar essa reflexão, nós nos unimos de coração àqueles que sabem que todo o bem que fazemos tem sua fonte nAquele que é o doador de todos os dons.

Comentando o Evangelho de hoje, Papa Francisco explicava que Jesus manifesta a vontade de Deus de conduzir os homens à felicidade. Esta é a chave que dá para a leitura das Bem-aventuranças. Acerca da primeira leitura, ele comentava que esta mensagem já estava presente na pregação dos profetas. Em toda a tradição profética, também em Sofonias, Deus está próximo dos pobres e dos oprimidos, e liberta-os de quantos os maltratam.

Depois, como que iluminado pela luz da oração contemplativa sobre o Evangelho, o Papa Francisco nos faz notar que, nesta Sua pregação, Jesus segue um caminho particular:  “começa com o termo «bem-aventurados», ou seja, felizes; prossegue com a indicação da condição para ser tais; e conclui fazendo uma promessa. O motivo da bem-aventurança, ou seja, da felicidade, não consiste na condição exigida — por exemplo, «pobres em espírito», «aflitos», «famintos de justiça», «perseguidos»… — mas na promessa sucessiva, que deve ser acolhida com fé como dom de Deus”.

“Parte-se da condição de mal-estar para se abrir ao dom de Deus e aceder ao mundo novo, o «reino» anunciado por Jesus. Este não é um mecanismo automático, mas um caminho de vida na esteira do Senhor, motivo pelo qual a realidade de mal-estar e de aflição é considerada numa perspectiva nova e experimentada segundo a conversão que se realiza. Não podemos ser bem-aventurados se não nos convertermos, se não formos capazes de apreciar e viver os dons de Deus”.

Com este convite a uma resoluta conversão a partir da escuta da Palavra, o Papa Francisco assim continuava a contemplação do Evangelho: “Quero meditar sobre a primeira bem-aventurança: «Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus» (v. 4). O pobre em espírito é quem assumiu os sentimentos e as atitudes daqueles pobres que na sua condição não se rebelam, mas sabem ser humildes, dóceis, disponíveis à graça de Deus. A felicidade dos pobres — dos pobres em espírito — tem uma dúplice dimensão: em relação aos bens e em relação a Deus.

            “Relativamente aos bens, aos bens materiais, esta pobreza em espírito é sobriedade: não necessariamente renúncia, mas capacidade de apreciar o essencial, de partilhar; capacidade de renovar todos os dias a admiração pela bondade das coisas, sem sucumbir à opacidade do consumo voraz. Quanto mais tenho, mais quero; quanto mais tenho, mais quero: esse é o consumo voraz. E isso mata a alma. E o homem ou a mulher que faz isso, que tem essa atitude ‘quanto mais tenho, mais quero’, não é feliz e não alcançará a felicidade”.

“Em relação a Deus é louvor e reconhecimento de que o mundo é bênção e de que na sua origem está o amor criador do Pai. Mas é também abertura a Ele, docilidade ao seu senhorio: Ele é o Senhor, Ele é o Grande, eu não sou grande porque tenho muitas coisas! É Ele: Ele que quis o mundo para todos os homens e o quis para que os homens fossem felizes”. A beleza da comunhão dos bens recebidos nos torna mais felizes e nos dá paz.

A Virgem Santíssima, “Causa da nossa Alegria”, interceda por nós neste ano jubilar de nossa, para que o nosso coração seja configurado ao de seu Filho Jesus, para acolhermos o Senhor se apresentar em nossos caminhos com o rosto dos mais pobres.

Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo!

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