A MESA DA PALAVRA – III Domingo do Tempo Comum – Ano A

A MESA DA PALAVRA

III Domingo do Tempo Comum – Ano A
Itumbiara, 25 de janeiro de 2026

Domingo da Palavra de Deus

Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens” (Mt 4,19)

Caros amigos,

  1. Deus eterno e todo-poderoso, dirigi nossas ações segundo a vossa vontade…” (Coleta)

Nossa família diocesana é e sempre será bem unida ao Romano Pontífice, que amamos como pai comum dos católicos do mundo todo. Nossa união ao Papa não é apenas declarada. Nós o temos em nossas orações e nos unimos de coração às intenções de oração do Santo Padre, oferecendo por suas intenções nossos pequenos sacrifícios de cada dia unidos à Cruz de Cristo.

Neste mês de janeiro o Santo Padre nos convida a abraçar suas intenções de oração: “Rezemos para que a oração com a Palavra de Deus seja alimento em nossa vida e fonte de esperança em nossas comunidades, ajudando-nos a construir uma Igreja mais fraterna e missionária” (Diretório Litúrgico 2026).

Não é mera coincidência que neste mês de janeiro tenhamos também um dia especial dedicado à Palavra de Deus. Ao encerrar o Ano da Misericórdia, o Papa Francisco pediu que se pensasse num “domingo dedicado inteiramente à Palavra de Deus, para compreender a riqueza inesgotável que provém daquele diálogo constante de Deus com o seu povo” (Carta ap. Misericordia et misera, 20-11-2016, n. 7).  Três anos depois, por ocasião do início do 1600º aniversário da morte de São Jerônimo, o Papa Francisco dispôs que o terceiro domingo do tempo comum fosse inteiramente dedicado à Palavra de Deus. “A dedicação dum domingo do Ano Litúrgico particularmente à Palavra de Deus permite, antes de mais nada, fazer a Igreja reviver o gesto do Ressuscitado que abre, também para nós, o tesouro da sua Palavra, para podermos ser no mundo arautos desta riqueza inexaurível” (M. P. Aperuit illis, n.2). Este tesouro é de tal sorte abundante que a Palavra retomada na liturgia todos os anos, ou lida em particular, sempre nos permite encontra novos tesouros e encontrar o Senhor para andar sempre em novidade de vida.

A inesgotável riqueza das Escrituras nos abre as portas para o encontro com o Senhor Jesus, ainda que não consigamos alcançar o pleno conhecimento da Palavra. Nesse sentido, vêm bem a calhar os ensinamentos de Santo Efrém, citados no mesmo Motu Próprio: “Quem poderá compreender, Senhor, toda a riqueza duma só das tuas palavras? Como o sedento que bebe da fonte, muito mais é o que perdemos do que o que tomamos. A tua palavra apresenta muitos aspetos diversos, como diversas são as perspectivas daqueles que a estudam. O Senhor pintou a sua palavra com muitas belezas, para que aqueles que a perscrutam possam contemplar aquilo que preferirem. Escondeu na sua palavra todos os tesouros, para que cada um de nós se enriqueça em qualquer dos pontos que medita” (Comentários sobre o Diatessaron, 1, 18).

Assim, deixando-nos guiar pela Palavra de Deus, podemos conhecer a vontade de Deus de sorte que, em nome de Cristo, “mereçamos frutificar em boas obras”, conforme nos sugere a belíssima coleta deste domingo: “Deus eterno e todo-poderoso, dirigi nossas ações segundo a vossa vontade, para que, em nome do vosso dileto Filho, mereçamos frutificar em boas obras” (MR Coleta: cf tb. Engolismensis, n. 91 [Séc. VIII] e Gregorianm Hadrianum, n. 85 [Séc. VIII]).

Antes de adentrarmos nos textos oferecidos pela liturgia da Palavra de hoje, a bem conhecida frase de São Jerônimo: “a ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo” (Commentarii in Isaiam, Prologus: PL 24, 17). Considerando a urgente necessidade de “garimpar” nas Escrituras os tesouros de Cristo, podemos dizer que quem abre as Escrituras para orar, acaba por conhecer a Palavra revelada, encontrando nela o Verbo de Deus humanado. Passemos a garimpar a mesa da Palavra de hoje.

  1. O jugo que oprimia o povo, a carga sobre os ombros, o orgulho dos fiscais, tu os abateste” (Is 9,3).

A posição geográfica de Israel deixava-o sujeito a contantes perigos. Ora acontecia a invasão setentrional pelos Assírios ou pelos Babilônios. Outras vezes, vinham os ataques do Sul perpetrados pelo Egito. Os profetas sempre alertaram a confiar somente em Deus, a não fazer alianças meramente humanas. Jeremias, por exemplo, alerta Israel: “Assim diz o Senhor: Maldito o homem que confia no homem, faz da carne mortal o seu braço e aparta o seu coração do Senhor!” (Jer 17,5). Não se trata de condenar as boas relações com os vizinhos, mas de evitar colocar a confiança em critérios humanos ou na própria força (a “carne”) em vez de em Deus. As profecias visam exortar o povo a abandonar a idolatria e a dependência de alianças políticas humanas, voltando-se para a dependência de Deus.

Após a morte de Salomão, o povo de Israel ficou dividido em dois reinos. O Reino do Sul, dito de Judá, e o Reino do Norte, ou Israel, chamado pelo profeta Isaías a terra de Zabulon e de Neftali. Por volta de 722 a.C., a Assíria invade o Reino do Norte, levando ao domínio das trevas Zabulon e Neftali. Temeroso de que o mesmo acontecesse com o reino do Sul e contrariando as exortações do Profeta Isaías, o rei Ezequias começa a procurar alianças com os povos vizinhos. Tal movimento irritou os Assírios e ocasionou também a invasão de Judá com a consequente imposição de pesados tributos. O profeta Isaías, desiludido com os reis, profetiza que havia de vir um tempo em que Deus faria surgir uma luz, a começar da Galiléia dos gentios. Esta luz prometida a Israel, iluminará Israel, a Galiléia, terra de Zabulon e de Neftali. Mas esta luz não se limitará a alumiar apenas Israel. Iluminará toda a terra, todos os povos. Em Jesus se cumpre a profecia: “Eu sou a Luz do mundo” (Jo 8,12).

A libertação prometida alcança a profundidade espiritual do abandono da idolatria e o fim das trevas. “O povo, que andava na escuridão, viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu. Fizeste crescer a alegria, e aumentaste a felicidade” (Is 9,1-2) Mas também chega abolição da injustiça, libertando o povo dos gravosos tributos impostos sobre Israel pelos Assírios: “Pois o jugo que oprimia o povo, – a carga sobre os ombros, o orgulho dos fiscais – tu os abateste como na jornada de Madiã” (Is 9,3).

Oprimir a dignidade humana, ainda que por meio de injusta e gravosa tributação, é uma afronta Àquele de cuja imagem e semelhança o homem foi criado. Em tempos de opressão, mais ainda do que em outros tempos, é preciso confiar nAquele que faz justiça ao seu povo. “Bendito o homem que confia no Senhor, e cuja esperança é o Senhor” (Jer 17,7). Esta bênção, requer da parte nossa, compromisso com a Palavra de Deus que nos converte e torna justos os nossos corações, sem concessões pequenas ou grandes.

O Brasil só conhecerá a verdadeira paz, a tranquillitas ordinis (cf. Agostinho, Cidade de Deus, lib. 19) quando houver justiça plena, sem acepção de pessoas. Em contraste com a desordem e o caos, a expressão tranquillitas ordinis sugere que a paz entre as nações é construída através da justiça, da diplomacia e do respeito a uma lei moral universal, em vez de apenas pela força.

III. “… chamados a ser santos juntos com todos os que, em qualquer lugar, invocam o Nome de Jesus” (I Cor 1,2)

Domingo passado, Paulo saudava os Coríntios com afeto, apresentando também as suas credenciais de Apóstolo, de enviado de Cristo. Com a mesma autoridade prossegue, no passo hoje proclamado, exortando a comunidade a viver sem divisões, unidos no mesmo Evangelho, e no mesmo Batismo. A igreja de Corinto fora constituída a partir de várias ações evangelizadoras. Nela havia irmãos provenientes do judaísmo bem como outros provenientes dos gentios. Neste contexto surgiam vários grupos dentro da comunidade, que se caracterizavam pela pessoa de quem tinha recebido o Evangelho, pela origem étnica ou pelas distintas formas de sensibilidade pessoal.

As palavras de Paulo se dirigem àquelas pessoas que ele considerava – e o eram de fato – irmãos chamados à santidade e ao testemunho da Luz de Cristo. Na comunidade reunida no nome de Jesus não há lugar para a divisão: “eu vos exorto, pelo nome do Senhor nosso, Jesus Cristo, a que sejais todos concordes uns com os outros e não admitais divisões entre vós” (I Cor 1,10). O Apóstolo diz enfaticamente que os cristãos de Corinto devem ser bem unidos e concordes no pensar e no falar.

No tempo de Isaías, a divisão em dois reinos do povo de Deus enfraqueceu Israel e deu margem à sujeição aos assírios. A divisão da comunidade de Corinto evidencia a fragilidade da comunhão por falta de profundidade evangélica, sujeitando-os às seduções diabólicas. E São Paulo, fustigando a divisão da comunidade em grupos sectários, ressalta a prioridade da Palavra para conhecer a força da Cruz de Cristo: “De fato, Cristo não me enviou para batizar, mas para pregar a boa nova da salvação, sem me valer dos recursos da oratória, para não privar a cruz de Cristo da sua força própria” (I Cor 1,17).

A comunhão em Cristo na comunidade dá testemunho da unidade da Igreja como luz entre os povos e se fortalece particularmente quando a Igreja local se reúne ao redor da mesa Eucarística.

  1. Foi morar em Cafarnaum, para se cumprir o que foi dito pelo profeta Isaías” (Mt 4,13s).

A prisão de João Batista marca o fim da sua missão e o início da do ministério público de Jesus. É importante frisar que se trata de uma única missão: a missão de Jesus, que foi preparada por João e que tem sua continuidade na missão da Igreja entre as nações.

Ele está ciente de que sua vida e ministério se orientam ao pleno cumprimento das profecias. Informado da prisão do Batista, Jesus volta para a Galileia. “Deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum, que fica às margens do mar da Galileia, no território de Zabulon e Neftali, para se cumprir o que foi dito pelo profeta Isaías” (Mt 4, 13-14). Começa a pregar que o Reino de Deus está próximo. Prontamente escolhe um grupo de quatro discípulos, com os quais dá início à Igreja. Ele os associa à Sua missão fazendo deles pescadores de homens. A expressão pescadores de homens está carregada de significado válido também para nós: Trata-se de homens chamados, separados e enviados para resgatar a família humana do domínio do Mal.

Aqui se vê o mistério da vocação apostólica, que, ontem como hoje, não deixa de causar maravilha. Na cena evangélica, admira o modo direto e exigente de Jesus ao chamar: “Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens” (Mt 4,19). Mas igualmente espantosa é a prontidão da resposta dos discípulos: “Eles, imediatamente deixaram as redes e o seguiram” (Mt 4,20). Chamar para o seguimento apostólico faz parte da missão de Jesus. A obra da redenção conta com aqueles que Deus chama e habilita para o serviço dos irmãos.

Contemplemos mais detidamente a cena, talvez com o auxílio da imaginação, para viajar no tempo até às margens do Mar da Galileia. Caminhando Jesus ao longo do mar da Galileia, viu dois irmãos, Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão, que lançavam a rede ao mar porque eram pescadores, e disse-lhes: “Segui-me, e eu vos farei pescadores de homens”. Passando adiante viu outros dois irmãos, Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, que estavam numa barca juntamente com seu pai Zebedeu, consertando as suas redes; e chamou-os!

O que os fez largar tudo prontamente para seguir Jesus? “Se me perguntardes como se nota a chamada divina – escreveu São Josemaría –, como é que a pessoa a percebe, eu vos direi que é uma visão nova da vida. É como se se acendesse uma luz dentro de nós; é um impulso misterioso, que impele o homem a dedicar as suas mais nobres energias a uma atividade que, com a prática, chega a tornar-se conatural. Essa força vital, que se assemelha a um alude avassalador, é o que outros chamam vocação” (Notas de pregação).

Noutro lugar, São Josemaría fala ainda mais sobre como perceber o chamamento de Deus. “A vocação acende uma luz que nos faz reconhecer o sentido da nossa existência. É convencermo-nos, sob o resplendor da fé, do porquê da nossa realidade terrena. A nossa vida – a presente, a passada e a que há de vir – ganha um novo relevo, uma profundidade de que antes não suspeitávamos. Todos os fatos e acontecimentos passam a ocupar o seu verdadeiro lugar: entendemos para onde o Senhor nos quer conduzir, e nos sentimos como que avassalados por essa tarefa que Ele nos confia” (É Cristo que passa, n. 45).

Ao nos chamar, Deus tira-nos das trevas da nossa ignorância, do nosso caminhar incerto por entre as vicissitudes da história e, seja qual for o posto que ocupemos no mundo, chama-nos com voz forte, como o fez um dia com Pedro e com André, “segui-me, e eu vos tornarei pescadores de homens” (Mt 4,19).

Santo Tomás de Aquino também nos ajuda a vislumbrar o mistério da nossa vocação. “Todas as atividades da nossa vida, mesmo as mais comuns, adquirem com a vocação um valor corredentor. O Senhor dá tudo e pede tudo, porque ao querer-nos como seus instrumentos, deseja servir-se de todo o nosso ser: do nosso entendimento, da nossa vontade e das nossas potências. Mas, ao mesmo tempo, prepara e predispõe aqueles que escolhe para uma missão, de modo que sejam idôneos para desempenhar a missão para a qual foram escolhidos (S. Th., III, q.27, a.4).

Por isso, com paterna afeição pelos jovens de todas as idades, não tenham medo de seguir Jesus radicalmente. Uma luz nova brilhará em sua vida. Como Samuel, digam ao Senhor: “Fala, Senhor, que teu servo escuta”.

A Virgem Mãe de Deus nos ajudará a descobrir este novo encanto e a correspoonder.

Diocese de Itumbiara
Diocese de Itumbiarahttps://diocesedeitumbiara.com.br/
A Diocese de Itumbiara foi criada no dia 11 de outubro de 1966, pelo Papa Paulo VI, desmembrada da Arquidiocese de Goiânia; seu território é de 21.208,9 km², população de 286.148 habitantes (IBGE 2010). A diocese conta 26 paróquias, com sede episcopal na cidade de Itumbiara-GO.