A Mesa da Palavra – III Domingo do Advento – Ano A

A MESA DA PALAVRA
III Domingo do Advento – Ano A
Itumbiara, 14 de dezembro de 2025

“Gaudete”

 Alegrai-vos sempre no Senhor! Repito, alegrai-vos! O Senhor está próximo” (Fl 4,4-5).

Gaudete in Domino semper!”. Inicia com estas palavras de São Paulo a Santa Missa do terceiro Domingo do Advento, razão pela qual é chamado Domingo Gaudete ou Domingo da alegria. O Apóstólo exorta os cristãos a alegrar-se porque a vinda do Senhor, isto é, o seu Advento glorioso é certo e não tardará. A Igreja faz seu este convite, enquanto se prepara para celebrar o Natal, a primeira vinda do Senhor na humildade da nossa natureza humana.

Contudo, em nossos dias, não raro nos assustamos quando se fala da parusia como se a sua vinda gloriosa no fim dos tempos fosse um castigo aterrador e a vida que vale a pena viver se resumisse apenas aos brevíssimos dias da nossa existência terrena. A este propósito, São Paulo se dirige aos cristãos da Igreja de Filipos, a primeira fundada por ele ao chegar à Europa, com um convite cheio de esperança e de ternura paterna. Ele exorta os filipenses à esperança para harmonizar as divergências surgidas no seio da comunidade. E os convida a alegrar-se no Senhor, não em qualquer alegria. E diz que esta alegria deve ser ainda maior porque o Senhor está próximo.

Este terceiro Domingo do Advento se caracteriza precisamente pelo convite à alegria, como que antecipando as festas natalícias. Por isso ele usa o verbo gaudete que remete àquele “annuntio vobis gaudium magnum” com que os anjos anunciaram aos pastores a chegada do Menino-Deus. “Gaudete”: regozijai-vos, alegrai-vos pela vinda do Senhor. A verdadeira alegria vem do alto, é fruto do Espírito Santo. “Nós aguardamos com impaciência o paraíso, onde está Deus, mas depende de nós estar no Paraíso já aqui na Terra e desde este momento. Ser feliz com Deus significa: amar como Ele, ajudar como Ele, doar como Ele, servir como Ele” (Santa Teresa de Calcutá, La gioia de darsi agli Altri, 1987, p. 143).

Nós bem sabemos que também há alegrias terrenais, que podem consumir nossas expectativas na busca de riquezas, na simples evasão ou na entrega a prazeres desordenados muitas vezes incompatíveis com a dignidade transcendente da pessoa. No entanto a alegria que dura para a eternidade vem do alto, vem da mensagem da salvação conforme suplicamos na coleta: “concedei-nos chegar às alegrias da salvação”. Pedimos a alegria que vem do alto e a graça de celebrá-la em nossa solene liturgia “com intenso jubilo”. Esta alegria que vem do alto exalta em nós a condição de filhos de Deus. E nesse sentido, se conecta com o fervor da esperança que nos prepara para as festas do Natal, a que se refere a vetusta coleta proveniente do Sacramentário Leoniano (1356): “Ó Deus, que vedes o vosso povo esperando fervoroso o Natal do Senhor, concedei-nos chegar às alegrias da salvação e celebrá-las sempre com intenso júbilo na solene liturgia”.

Na celebração do Natal a vida da graça se renova em nós, em proporção com a nossa disponibilidade interior para a libertação do pecado que ainda nos condiciona. Eis porque o Natal deve ser esperado com fé e como sinal da prontidão própria dos que aguardam vigilantes a vinda gloriosa do Senhor. Esta espera orante nos dá um coração puro e generoso, confiante no Deus fiel que cumpre sempre as suas promessas.

  1. “Vede, é vosso Deus, é a vingança que vem, é a recompensa de Deus

O profeta Isaías anuncia a libertação graças à intervenção de Deus na nossa história. Deus não é “um ser supremo que sublunaria non curat”. Ele se interessa por nós, pelos nossos sofrimentos, pelas cadeias que nos oprimem, como se interessou pelos sofrimentos do povo de Deus deportado da terra santa. A intervenção de Deus que escuta as súplicas dos seus eleitos se apresenta como libertação: o seu povo será liberto da escravidão, retornará à pátria que se tornara deserta. Até mesmo a terra recebe uma boa-nova: “Alegre-se a terra que era deserta e intransitável, exulte a solidão e floresça como um lírio. Germine e exulte de alegria e louvores” (Is 35, 1).

Aos que se encontram no exílio, ainda oprimidos pela falta de coragem de retomar o caminho de casa, Deus ordena que o profeta lhes comunique ânimo: “Criai ânimo, não tenhais medo”. E Ele mesmo se faz fiador desse encorajamento: “Vede, é vosso Deus, é a vingança que vem, é a recompensa de Deus; é ele que vem para vos salvar”. A vingança de Deus é a exigência de justiça para o seu povo.

O restante do texto profético mostra os sinais da libertação, que o próprio Jesus indicará aos enviados de João como sinal de que Ele mesmo é aquele que devia vir: os sinais falam por si: “Então se abrirão os olhos dos cegos e se descerrarão os ouvidos dos surdos. O coxo saltará como um cervo e se desatará a língua dos mudos. Os que o Senhor salvou, voltarão para casa. Eles virão a Sião cantando louvores, com infinita alegria brilhando em seus rostos: cheios de gozo e contentamento, não mais conhecerão a dor e o pranto”.

Estes sinais acompanharão a alegria da vinda do Messias, que nós reconhecemos em Jesus. Mas continuamos a pedir ao Senhor que venha salvar o seu povo: “Vinde, Senhor, para salvar o vosso povo!”. E rezamos com o salmista glorificando ao Senhor que “é fiel para sempre e faz justiça aos que são oprimidos”. E nosso louvor expresso no salmo 145 retoma os sinais que identificam a ação redentora do Messias prometido, que identificam o cumprimento das promessas na primeira vinda de Jesus na humildade da carne. Estes sinais só são reconhecidos pelos olhos purificados do pecado daqueles que abandonam o pecado e se entregam com alegria à prática dos mandamentos e aos louvores do Deus vivo.

 

III.Fortalecei os vossos corações porque a vinda do Senhor está próxima” (Tg 5,9)

O apóstolo Tiago, na sua belíssima carta, especialmente no capítulo 5, nos exorta à constância. Ele sabe que somos facilmente tentados a perder o ânimo, a esmorecer no caminho iniciado, até mesmo por pequenas contrariedades que o convívio humano não cansa de oferecer. Mas sobretudo nos convida a manter viva a chama da esperança na vinda do Senhor. O convite à prontidão e à vigilância feito por Jesus e pelos apóstolos fez com que muitos acreditassem que a volta de Cristo seria para breve, esquecendo as palavras do Senhor sobre o dia e a hora que só o Pai conhece, o que exige de nós uma expectativa paciente e operosa.

Ao risco de esmorecermos pela “demora do Senhor” – que São Pedro explicou como paciência de Deus –, risco de baixarmos a guarda do combate espiritual, São Tiago responde: “ficai firmes e fortalecei vossos corações, porque a vinda do Senhor está próxima”. A vinda do Senhor está próxima, pois o Senhor continua a nos visitar, todos os dias: Ele passa no nosso caminho. Por meio de sinais ou pela palavra da Igreja, nos convida continuamente ser firmes, fortes na esperança, confiantes na sua presença viva, tomando “por modelo de sofrimento e firmeza os profetas, que falaram em nome do Senhor”.

O apóstolo nos convida ainda a evitar as murmurações, no mesmo capítulo em que fala dos pecados contra a caridade cometidos pelo descuido da língua com pecados como calúnia, difamação, detração, delação, murmuração, juízo temerário, etc. O convite à caridade no falar nos ajuda a ser mais fraternos e amigos. É um convite à misericórdia que nos faz saborear melhor os ares da casa de Nazaré e experimentar a graça de uma verdadeira comunhão eclesial. Aprestemo-nos ao zelo pela misericórdia dedicando nesses dias um especial cuidado com a guarda da língua, conforme nos ensina São Tiago. Enfim, nos apresenta o modelo dos profetas: “Irmãos, tomai por modelo de sofrimento e firmeza os profetas, que falaram em nome do Senhor”.

  1. ‘Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo

Queridos irmãos e irmãs, permitam-me evocar um trecho significativo da belíssima homilia que o Papa Bento XVI pronunciou no ano de 2010. Na ocasião ele estava visitando uma paróquia romana, na qual compartilhou as suas meditações sobre o Evangelho da missa de hoje. Dizia então o Papa: “Ouvimos no Evangelho a pergunta do Batista que se encontra na prisão; o Batista, que tinha anunciado a vinda do Juiz que transforma o mundo, e agora sente que o mundo permanece o mesmo. Portanto, manda perguntar a Jesus: «És Tu aquele que há de vir? Ou devemos esperar outro? És Tu ou devemos esperar outro?». Nos últimos dois, três séculos muitos perguntaram: «Mas és Tu realmente? O mundo deve ser mudado de modo mais radical? Tu não o fazes?». E vieram tantos profetas, ideólogos e ditadores, que disseram: «Não é ele! Não mudou o mundo! Somos nós!». E criaram os seus impérios, as suas ditaduras, o seu totalitarismo que teria mudado o mundo. E mudou-o mas de modo destruidor. Hoje sabemos que destas grandes promessas só permaneceu um grande vazio e muita destruição. Não eram eles”.

Caros amigos, também hoje, aqui em Itumbiara, devemos procurar ver o rosto do Senhor e perguntar-lhe de novo: «És tu?». E o Senhor, do modo silencioso que lhe é próprio, responde uma vez mais: «Vede o que Eu fiz. Não realizei uma revolução cruenta, não mudei com a força o mundo, mas acendi tantas luzes que formam, entretanto, um grande caminho de luzes nos milênios».

Voltemos os olhos para homens e mulheres que se uniram a Cristo na realização dos sinais messiânicos. Bento XVI ainda nos convida a olhar para alguns exemplos concretos. “Comecemos por São Maximiliano Kolbe, que se oferece para morrer de fome para salvar um pai de família. Ele tornou-se uma grande luz! Quanta luz veio desta figura e encorajou outros a oferecer-se, a estar próximo de quem sofre, dos oprimidos! Pensemos também no pai que Damião de Veuster era para os leprosos, ele que viveu e morreu com e para os leprosos, e assim trouxe a luz a esta comunidade. Pensemos na Madre Teresa de Calcutá, que deu tanta luz a pessoas que, depois de uma vida sem luz, morreram com um sorriso, porque eram tocadas pela luz do amor de Deus.

E poderíamos continuar assim e veríamos, como o Senhor disse na resposta a João, que não é a revolução violenta do mundo, não são as grandes promessas que mudam o mundo, mas é a luz silenciosa da verdade, da bondade de Deus que é o sinal da Sua presença e nos dá a certeza de que somos profundamente amados e que não somos esquecidos, não somos um produto do acaso, mas de uma vontade de amor.

Caros amigos, estes comentários e exemplos sugestivos do Papa Bento XVI nos ajudam a compreender o diálogo entre Jesus e os discípulos de João, nos ajudam a compreender a atualidade dos interrogativos que ele propõe a cada um de nós também hoje. Ajuda-nos a lembrar que somos membros do Corpo de Cristo presente na história, a sua Igreja. Que este corpo continua a realizar os sinais sugeridos na profecia de Isaías para reconhecer como Deus age e para reconhecer aquele que é o Ungido. Ainda hoje Jesus continua a responder aos enviados de João pelos sinais que Ele continua a realizar pelo seu corpo presente na história: pelo Nome de Jesus os cegos passam a ver, os surdos ouvem, os coxos caminham e – o que não estava dito em Isaías – os mortos ressurgem.

É possível imaginar a alegria de João a ouvir o relato de seus discípulos. A linguagem profética lhe era familiar, e ele pôde reconhecer pelas obras o que devia vir e veio. Podia alegrar-se por saber que preparou os caminhos daquele que ia chegar. Nós também, movidos pela intercessão do Santo Precursor, também desejamos caminhar com alegria rumo ao Natal, imitando a Virgem Maria, que esperou em oração, com íntima e jubilosa trepidação, o nascimento do Redentor. Não fique esquecido o convite: Gaudete!

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