“Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29)
Caros amigos,
- “Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado” (I Cor 5,7)
Ainda há poucos dias, na liturgia do Natal, contemplávamos comoventes aspectos do mistério da Encarnação. Pudemos contemplar o Verbo de Deus humanado, Jesus nascido pobre e humilde em Belém, mas também glorificado pelos anjos, adorado pelos pastores e pelos Magos. Ao meditar nos acontecimentos que seguiram, São João Paulo II, em 1981 assim falava à Igreja: “mas o Evangelho deste domingo leva-nos uma vez mais às margens do Jordão, onde, trinta anos depois do seu nascimento, João Batista prepara os homens para a vinda do Senhor. E quando ele vê Jesus que vinha ao seu encontro, diz: Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 1, 29) […]. Estamos acostumados às palavras Cordeiro de Deus, e, no entanto, são palavras sempre maravilhosas, misteriosas, são palavras poderosas” (Homilia 18-III-1981).
Podemos imaginar qual ressonância não teria essa expressão no coração dos hebreus, cuja história é profundamente marcada pela libertação do Egito. O “Cordeiro de Deus” evoca nos ouvintes de João Batista duas imagens distintas e complementares. Evoca, em primeiro lugar, o “Servo de Javé” que se manifesta como “cordeiro levado ao matadouro, como ovelha muda diante dos tosquiadores” (Is 53,7) no qual o Novo Testamento logo reconheceu Jesus. Evoca também o cordeiro do sacrifício, que ainda hoje se apresenta no memorial da Páscoa da liturgia doméstica das famílias hebraicas.
O cordeiro pascal que se sacrificava cada ano no Templo evocava não apenas a libertação do êxodo, como também o pacto que Deus tinha feito com o seu povo: era promessa e figura do verdadeiro Cordeiro, Cristo, que viria a se oferecer como Vítima no sacrifício do Calvário em favor de toda a humanidade. De fato, “Ele é o verdadeiro Cordeiro que tirou o pecado do mundo, que morrendo destruiu a morte e ressuscitando nos deu a vida” (MR, Prefácio Pascal I). Esta oferta sacrificial é rica de consequências para a vida concreta dos que acolhem Cristo qual verdadeiro Cordeiro imolado para a remissão dos pecados.
O Apóstolo Paulo, dizendo aos primeiros cristãos de Corinto que “Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado”, deixa uma exortação vinculante para os cristãos de todos os tempos: somos chamados a levar uma vida nova, a uma vida santa, na qual se cumpra toda a justiça. Ante o pedido de Jesus de ser batizado por João protestou quase recusando. Jesus, porém, lhe respondeu: “Por enquanto deixa estar como está, porque devemos cumprir toda a justiça” (Mt 3,15). É da verdadeira justiça, da santidade de vida que nasce a paz: Pax opus iustitiae” (Is 32,17).
- “Não basta seres meu Servo … eu te farei luz das nações” (Is 49,6)
Voltemos à primeira leitura que nos abre os olhos para a pedagogia de Deus no paulatino desvendar do mistério da redenção.
A perícope de Isaías hoje proclamada, a misericórdia de Deus se descortina como promessa de libertação universal justamente quando os exilados da Babilônia estão para voltar à Pátria. Deus trata o povo eleito como um sujeito profético: o Servo chamado Israel, destinado a ser instrumento para revelar a glória do Senhor entendida como presença libertadora efetiva que através da história de Israel alarga os horizontes para a salvação universal. De fato, o Senhor, que havia dito ao servo: “Tu és meu servo, Israel, em quem serei glorificado” (Is 49,3). Agora volta a falar-lhe para que restaure as tribos tresmalhadas de Jacó para que Israel de volta do desterro pela misericórdia do Senhor se reúna a elas.
Mas o desígnio de Deus se projeta além da simples restauração da unidade do povo eleito. “Não te basta seres meu Servo para restaurar as tribos de Jacó e reconduzir os remanescentes de Israel” (Is 49,6). Através desta nova gesta libertadora realizada pelo Servo, o Senhor alarga os horizontes para uma redenção mais ampla, universal. Diz Ele, com efeito: “eu te farei luz das nações, para que a minha salvação chegue até aos confins da terra” (ibid).
A ação de Deus amplia os destinatários da salvação “até aos confins da terra” e aprofunda também o sentido espiritual da salvação fazendo com que o Servo seja “Luz das nações”. No batismo de Jesus e nas palavras de João Batista tudo encontra pleno cumprimento. Aparece então o significado da novidade de vida a ser vivida pelos filhos da Igreja nascente, a nossa santificação que unida à vocação apostólica, se torna instrumento da universalização da mensagem de Cristo.
III. “… chamados a ser santos juntos com todos os que, em qualquer lugar, invocam o Nome de Jesus” (I Cor 1,2)
Com seu amor entranhado pelos cristãos coríntios, Paulo os saúda apresentando as suas credenciais de Apóstolo, de enviado por Cristo. Naquela pequena comunidade de irmãos em Cristo ele reconhece a existência concreta da Igreja de Deus. Naquela comunidade local, ele reconhece um povo constituído de irmãos chamados à santidade, que torna visível a esparsa entre as nações. Poderíamos dizer que, na comunidade reunida no nome de Jesus Cristo se torna sacramentalmente visível a verdadeira qahal, a Igreja una, santa, católica e apostólica. E isso se dá de modo especial cada vez que a Igreja local se reúne para celebrar a sinaxe eucarística.
A comunidade local é imediatamente perceptível aos sentidos. Somente a experiência da fé consente dizer que a comunidade de Corinto expressa a sua identidade com a comunhão católica com “todos os que, em qualquer lugar, invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso” (I Cor 1,2).
A luz batismal e o dom do Espírito Santo nos fazem conhecer a paz, conforme a súplica da belíssima coleta de hoje: “escutai com bondade as preces do vosso povo e dai ao nosso tempo a vossa paz” (MR 2008; cf. Sacramentário Gregoriano). A importância do Evangelho da Paz para os nossos dias foi objeto das primeiras palavras cheias de especial vigor do Papa Leão ao aparecer na Loja da Bênção. Suas primeiras palavras reiteradas refletiam a presença do Ressuscitado no cenáculo: “A Paz esteja convosco!”
Esta paz é a que só o Senhor pode dar, quando percorremos resolutos os caminhos de uma vida santa, conforme a exortação de São Paulo, com permanente validade e vinculante também para nós, que ouvimos com os Coríntios a sua saudação: “Para vós, graça e paz da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo” (I Cor 1,3). A paz é fruto da justiça porque provém de Deus.
- “Eu vi e dou testemunho: Este é o Filho de Deus” (Jo 1,34).
O testemunho de João sobre o Cordeiro de Deus, que ele também reconhece como Filho de Deus, representa a abertura definitiva das promessas da Antiga para o pleno cumprimento das profecias na Nova Aliança, mais em particular no verdadeiro Servo do Senhor, no único Cordeiro imolado uma vez por todas.
Desde os primeiros tempos, a arte cristã representou Jesus Cristo, Deus e Homem, sob a figura do Cordeiro pascal. Quando a iconografia o retrata recostado sobre o Livro da vida, quer recordar um ensinamento fundamental da nossa fé: Jesus é Aquele que tira o pecado do mundo, Aquele que foi sacrificado e possui todo o poder e sabedoria. O apocalipse de São João acompanha a figura do Cordeiro de uma grande Liturgia: a liturgia celeste que se reflete na liturgia celebrada na história até que Ele venha. Jesus é o Princípio e o Fim, o Alfa e o Ômega, o Redentor cheio de mansidão e o Juiz onipotente que há de vir retribuir a cada um segundo as suas obras.
Ao anunciar a presença do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, João levanta a magnitude da salvação. Ele vem tirar o pecado do mundo. E este pecado do mundo – no-lo recorda Francisco Carvajal – abarca todo gênero de pecados. Abarca o pecado original, que em Adão afetou também os seus descendentes. Engloba os pecados pessoais dos homens e mulheres de todos os tempos e os pessoais dos homens de todos os tempos, com todas as consequências sociais do mistério da iniquidade. Para quem, alheio ao sentido de realidade, costuma negar a existência e a profundidade do mal representado pelos pecados, eu diria que na nossa vida concreta há poucas coisas tão evidentes ao intelecto como a experiência do pecado e do mal que ele faz à humanidade. Não sem razão o próprio Deus se ocupou disso desde a prevaricação dos primeiros pais e continuará a se ocupar em todas as etapas da história da salvação até ao seu termo no dia final. Por isso podemos dizer que é no Cordeiro de Deus que encontramos a nossa esperança de salvação. A Escritura Sagrada nos ensina que não há outro Nome afora o de Jesus em que possamos encontrar salvação.
A razão de nossa alegria no curso da vida terrena é a certeza de que no combate espiritual, o Senhor nunca nos abandona, nem mesmo quando pelo pecado traímos Sua amizade sempre fiel. Ele nos deixou o sacramento da paz e da alegria pascal: a reconciliação pela qual somos salvos dos pecados cometidos após o batismo. Deixa-nos a Eucaristia como banquete do Reino celeste do qual podemos participar aqui na terra. Deixa-nos a palavra de Salvação que nos alimenta de Luz, de Verdade insofismável, e nos mostra o Caminho da Vida.
E se por desventura nos assustarmos por alguma noite da alma, lembremo-nos dos discípulos de Emaús, que caminharam com Jesus Ressuscitado, ouviram Sua Palavra com o coração e com os sentidos, e o reconheceram na fração do pão. Nesse preciso momento, abriram-se-lhes os olhos e eles reconheceram o Senhor, retomando o caminho da Jerusalém da terra em busca da Jerusalém celeste.
Caros irmãos, a profecia de Isaías cumpriu-se plenamente no Calvário e torna a atualizar-se em cada Missa, tal como se recorda hoje na oração sobre as oferendas: “Todas as vezes que celebramos este sacrifício, torna-se presente a nossa redenção”. A Igreja nos convida vivamente a dar graças ao Senhor por ter Ele querido entregar-se até à morte pela nossa salvação, por ter querido ser alimento das nossas almas.
Hoje, com a força desta Cátedra venerável, suplico à nossa comunidade diocesana que acolha com gratidão o Jubileu especial convocado pelo Papa Leão XIV por ocasião dos 800 anos de São Francisco. Juntamente com este jubileu especial, abracemos resolutamente as graças jubilares que Deus continua a derramar sobre a nossa Igreja de Itumbiara no curso das celebrações dos sessenta anos da sua criação e instalação. A nossa amada Santa Rita é conterrânea de São Francisco: filhos da terra Umbra, que regala à Igreja uma multidão de homens e mulheres que não cessam de testemunhar a glória de Deus manifestada nos seus santos.
Deixemo-nos tocar nesta santíssima Eucaristia pelo convite à conversão sincera e ao empenho para que a alegria do Senhor seja a nossa força. A Santíssima Virgem Maria, Senhora das Graças, com sua materna intercessão nos ajude “a fazer tudo o que Ele disser”.
Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo!

