A MESA DA PALAVRA
I Domingo do Advento – Ano A
Itumbiara, 30 de novembro de 2025
“A vós meu Deus elevo a minha alma, e confio em Vós!”
Caríssimos irmãos em Cristo, querido povo do DNJ de Itumbiara 2025.
Bem-vindos a esta praça tão especial. Aqui viemos para encontrar o Senhor, para dizer a Jesus que desejamos o Seu reino. Que Cristo reine sobre nós! Que governe e oriente as nossas melhores energias para o Seu santo serviço.
- “… mereçam possuir o reino celeste” (coleta).
Hoje é um dia especial, descortina-se um novo horizonte de esperanças.
Ontem à tarde, enquanto o sol se punha, a Igreja entrava no novo Ano Litúrgico celebrando as Primeiras Vésperas I Domingo do Advento. Neste ano A, os nossos domingos serão iluminados pelo Evangelista Mateus, que nos dará deliciosos manjares de vida eterna na Mesa da Palavra. Cada domingo nós seremos iluminados por Jesus, Luz da Vida, tal como O apresenta o evangelho segundo Mateus. Guiados por Mateus vamos seguir os passos de Jesus da sua infância até ao mandato missionário na hora da sua ascensão.
Também se aproxima o encerramento do Ano Santo da Esperança para todo o Orbe católico, o que bem se harmoniza com o primeiro advento do Senhor, pois celebramos 2025 anos da Encarnação do verbo. E para nós, filhos da Igreja que peregrina nestas plagas do sul goiano, Deus preparou uma grande alegria: no próximo sábado teremos a abertura do Jubileu Adamantino da criação da nossa amada diocese de Itumbiara.
Logo a seguir ao ato penitencial, eu elevei em nome todos nós uma súplica ardente, cheia de audácia ao bom Deus. Somente os filhos se atrevem tanto na presença de um Pai Amoroso. Pedimos nada mais nada menos do ser colocados à sua direita para possuir o reino celeste. “Ó Deus todo-poderoso, concedei aos vossos fiéis o ardente desejo de acorrer com boas obras ao encontro do vosso Cristo que vem, para que, colocados à sua direita, mereçam possuir o reino celeste”.
Pedimos ao Senhor todo-poderoso que conceda uma graça especial aos fiéis, àqueles que creem no seu Nome e professam a verdadeira fé no Deus Uno e Trino. Pedimos que nos conceda um desejo ardente de ir ao encontro de Cristo que vem, levando a Ele o dom das nossas boas obras, daquelas obras da fé que opera pela caridade, das obras de misericórdia, obras que nos serão a nossa credencial de salvação no último dia. Chamados a reinar com Ele no céu, seremos colocados à sua direita. O pedido não acaba aqui, é ainda mais audaz: possuir o reino celeste é o que nos atrevemos a pedir. Mas notemos bem, não possuirá o reino celeste na eternidade quem não se entregar ao Senhor aqui no breve tempo da nossa história. Sim, desejamos possuir o reino celeste, ver a Deus, saborear os manjares celestiais que prelibamos em cada Eucaristia. É preciso que sujeitemos nossa vontade ao seu suavíssimo senhorio.
É questão de amor. Amor ao modo de Jesus. Possuiremos o que desejamos do reino celeste quando começarmos a oferecer aqui o que falta na mesa dos pobres e dos sofredores, a consolação que falta ao coração dos aflitos. O desejado bem celeste só se alcança mediante conversão do que partilhamos no tempo em bens eternos.
Caros amigos, esta santa celebração nos coloca na presença de Deus, munidos de uma esperança que não decepciona. Esperança mais forte do que as expectativas humanas sem Deus. Esperança mais profunda do que a esperança messiânica de Israel, para nós cumprida em Cristo. Esperança nutrida de amor confiante no Senhor que prometeu voltar um dia cercado de esplendor e majestade, para fazer novas todas as coisas. O dia e a hora só o Pai sabe. Ninguém mais. O Senhor sempre cumpre suas promessas e nos pede para estar vigilantes na esperança.
A cor litúrgica roxa, utilizada neste tempo litúrgico não é sinal de tristeza, mas de amorosa sobriedade, de alegre e vigilante preparação para acolher Cristo que vem.
- “Ficai atentos e preparados” (Mt 24,44)
O tempo do Advento que se inicia hoje nos traz à lembrança o convite de Paulo aos Romanos a refletira sobre a brevidade do tempo, pois “já é tempo de despertar … pois agora a salvação está mais perto de nós do que quando abraçamos a fé” (Rm 13,11). E convida à sobriedade e a retidão como preparação para a vinda do Senhor, pois é “tempo de gozosa e devota expectativa”, tempo forte da esperança cristã.
No Evangelho de Mateus, Jesus nos convida a estar preparados porque, na hora em que menos pensais, o Filho do Homem virá” no seu advento glorioso. É o convite que a Igreja renova aos seus filhos no tempo do Advento.
Ao meditar nos textos bíblicos propostos pela Liturgia de hoje, veio-me à lembrança uma belíssima homilia de São Bernardo a tríplice vinda de Jesus (Sermo 5 in Adventu). “Conhecemos uma tríplice vinda do Senhor”. E desenvolve esta afirmação: “Na primeira vinda, o Senhor apareceu na terra e conviveu com os homens. Como Ele mesmo afirma, [os homens] O viram e não O quiseram receber”. Depois explica como se dará a parusia: “Na última vinda, todo homem verá a salvação de Deus (Lc 3,6) e olharão para aquele que transpassaram (Zc 12,10)”. Por fim o Santo Cisterciense fala da visita que o Senhor continua a nos fazer pela via da graça, já que “a vinda intermédia é oculta e nela somente os eleitos a veem em si mesmos, e por ela se salvam as suas almas”.
Prosseguindo na contemplação do mistério do Advento, o Doutor Melífluo diz com desarmante simplicidade: “Na primeira [vinda], o Senhor veio revestido da fragilidade da nossa carne humana; na [vinda] intermédia, vem espiritualmente, manifestando o poder de sua graça; na última, virá com todo o esplendor da sua glória”, virá cercado de majestade acompanhado da multidão dos anjos.
Passa então a conectar a vinda intermédia com a última. Ele nos explica que esta vinda intermédia é como um caminho que conduz da primeira à última. No primeiro advento, assumindo a humildade da carne humana, Cristo foi nossa redenção. Na última, na parusia, Ele aparecerá como nossa vida. Na intermédia, Ele vem à nossa alma mediante a graça, como nosso espiritual descanso e consolação.
Lembremo-nos sempre. O Senhor cumpre suas promessas. Ao povo da Antiga Aliança prometeu um Messias rei e servo. E na vinda de Jesus cumpre e supera as profecias. A nós promete a vinda gloriosa no fim da história. Ele não deixará de cumprir.
A esse Deus que nasce Menino entre nós, assumindo a nossa natureza humana devemos, portanto, o louvor, a honra e a glória. Por Ele somos chamados à sua amizade, amizade exigente. E do convívio com Ele somos enviados como testemunhas do Ressuscitado até aos confins da terra.
III. «Vós também haveis de dar testemunho, porque estais comigo» (Jo 15, 27)
Permitam-me aludir a alguns pontos da mensagem que o Santo Padre publicou semana passada em vista da JMJ de 2027 em Seul. Ao agradecer aos jovens pela alegria que manifestam na Igreja, Leão XIV os convidou a ser testemunhas corajosas de Cristo, a ser testemunhas da esperança. E para iluminar a nossa peregrinação espiritual até Seul, o Papa nos propõe a seguinte palavra norteadora: «Vós também haveis de dar testemunho, porque estais comigo» (Jo 15, 27).
E na sua mensagem ele prossegue com a consideração de dois aspectos do testemunho a que nos convida. O Primeiro aspecto é “a nossa amizade com Jesus, que recebemos de Deus como dom”. O segundo aspecto é “o empenho de cada um na sociedade, como construtores da paz”. Vejamos mais de perto as palavras inspiradoras que nos diz o Papa Leão: “O testemunho cristão nasce da amizade com o Senhor, crucificado e ressuscitado para a salvação de todos. Não se confunde com uma propaganda ideológica, mas é um verdadeiro princípio de transformação interior e de sensibilização social. Jesus quis chamar “amigos” aos discípulos a quem deu a conhecer o Reino de Deus. E a esses discípulos pediu que ficassem com Ele, para formar a sua comunidade e para os enviar a proclamar o Evangelho (cf. Jo 15, 15.27).
Quando Jesus nos diz «Dai testemunho», Ele está nos assegurando de que nos considera seus amigos. Só Ele conhece plenamente quem somos e por que estamos aqui: só Ele conhece plenamente o coração de cada um de vocês, jovens. Só Ele conhece a fundo a indignação de vocês diante de discriminações e injustiças; só Ele conhece plenamente o desejo de verdade e beleza, de alegria e paz que o Pai infundiu em nossas almas. Com a Sua amizade, Ele quer escutar cada um de vocês, motivá-los e guiá-los: e o faz chamando cada um de vocês a viver uma vida nova, uma vida de comunhão com o Senhor.
O olhar bondoso do Senhor Jesus nos precede cheio de amor (cf. Mc 10, 21). Ele não nos quer como servos, nem como “militantes” de um partido. Ele nos chama a estar com Ele como amigos, para que a nossa vida seja renovada. E o testemunho deriva espontaneamente da alegre novidade desta amizade. Porém, se não sairmos de nós mesmos e das nossas zonas de conforto, se não formos ao encontro dos pobres e daqueles que se sentem excluídos do Reino de Deus, não encontramos a Cristo nem damos testemunho dele.
Se somos testemunhas, nos tornamos missionários. “Vocês jovens, com a ajuda do Espírito Santo, podem tornar-se missionários de Cristo no mundo. Muitos dos seus coetâneos estão expostos à violência, obrigados a pegar em armas, forçados a separar-se dos seus entes queridos, a migrar e a fugir. A muitos lhes faltam a educação e outros bens essenciais”. Ele chama a atenção para o fato de que todos partilham com vocês a busca de sentido e a insegurança que a acompanha. Ele é ciente do desconforto provocado pelas crescentes pressões sociais ou trabalhistas: ele reconhece a dureza das crises familiares, a dolorosa sensação da falta de oportunidades, o remorso pelos erros cometidos. E depois encoraja a todos os jovens a colocar-se ao lado de outros jovens, a caminhar com eles e mostrar que Deus, em Jesus, se aproximou de cada pessoa, que é nosso amigo.
É verdade que nem sempre é fácil dar testemunho. E, perante os obstáculos externos e internos, o Santo Padre nos convida a ouvir o conselho de São Paulo: «Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem» (Rm 12, 21). E acrescenta a forte exortação: “coragem! Não desanimem! Como os santos, vocês também são chamados a perseverar com esperança, sobretudo diante das dificuldades e dos obstáculos”.
Por fim, a mensagem do Santo Padre se detém a considerar o segundo aspecto do testemunho: a fraternidade como vínculo de paz. «Da amizade com Cristo, que é dom do Espírito Santo em nós, nasce um modo de viver que traz consigo o caráter da fraternidade. Um jovem que encontrou Cristo leva para todo o lado o “calor” e o “sabor” da fraternidade; e quem entra em contacto com ele ou com ela é atraído para uma dimensão nova e profunda, feita de proximidade desinteressada, de compaixão sincera e de ternura fiel. O Espírito Santo faz-nos ver o próximo com olhos novos: no outro passamos a ver um irmão, uma irmã! (…) Não sigam aqueles que usam as palavras da fé para dividir! Em vez disso, organizem-se para eliminar as desigualdades e reconciliar comunidades polarizadas e oprimidas».
Queridos amigos, unindo-me às intenções do Papa Leão, dirijo-me a todos e a cada um dos presentes: escutemos a voz de Deus em nós, vençamos o nosso egoísmo, tornemo-nos operosos artífices da paz. Então essa paz, primeiro dom do Ressuscitado (cf. Jo 20, 19), tornará visível no mundo, através do testemunho compartilhado, todos os que levam no coração o seu Espírito.
Irmãos caríssimos, diante dos sofrimentos e das esperanças do mundo, fixemos o nosso olhar em Jesus. Do alto da Cruz Ele entregou Maria como mãe a João, o discípulo adolescente. E, na pessoa dele, entregou todos os discípulos amados como filhos a Maria. Levemo-la para a nossa casa, como o fez João.
Neste tempo de Advento, neste novo ano litúrgico que se abre para nós, acolhamos filialmente a amorosa proteção da Virgem Mãe, daquela que nos precede na peregrinação para a Jerusalém Celeste. Que nossa Senhora do Ó, a Senhora da Expectação, nos guarde sempre para o Seu divino Filho.
Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo!

