A MESA DA PALAVRA
Festa da Exaltação da Santa Cruz
Itumbiara, 14 de setembro de 2025
Setembro: Mês da Bíblia
“Nós, porém, devemos gloriar-nos na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Gl 6,14)
Caríssimos amigos,
Celebramos hoje a Exaltação da Santa Cruz, Festa esta que, ao ser celebrada no Domingo, ganha os contornos litúrgicos de solenidade. Nela reconhecemos que somos salvos e libertos. No Crucifixo, o Doutor Angélico, após ter estudado e escrito muito sobre o Senhor, descobriu o verdadeiro “livro” em que aprendemos os mistérios do Senhor. O Senhor prometeu de fato: “E eu, quando for exaltado, atrairei a mim todas as coisas” (Jo 12,32). Sim, olhando para o instrumento da nossa salvação com o olhar da fé, somos continuamente atraídos ao Senhor. Toda a revelação converge para o mistério pascal de Cristo, que fez da maldição da cruz a Cruz da exaltação do Senhor.
A Cruz nos traz à memória as dores do Senhor, mas também nos chama a unir as dores da nossa vida às do Crucificado. Hoje foi sepultado em Minas Gerais o Pe. Tiago Cardoso, padre desta Diocese, oriundo da Arquidiocese de Mariana. Somos gratos a Deus pelo bem que ele fez entre nós, elevamos orações em sufrágio pelas necessidades de sua alma e o confiamos ao Pai das Misericórdias para que lhe sejam concedidos o refrigério, o repouso entre os esplendores da luz perpétua.
- “Ó Deus, quisestes que o vosso Filho Unigênito sofresse o suplício da Cruz para salvar o gênero humano…” (da Coleta).
Esta oração coleta nos mostra o drama da salvação. Cristo Jesus nos concedeu por seu sacrifício cruento a graça da salvação, a remissão dos pecados. Foi deveras um suplício. Deus quis fazer-se um de nós para assumir nossas dores. Jesus sofreu de modo inimaginável. Ele é o cordeiro inocente que sobe ao calvário na mansidão. Entre a inocência, a completa ausência de culpa em Cristo, e o preço do nosso pecado que inclui a morte, há um abismo profundo. Esta distância abissal entre a inocência de Cristo e culpa da humanidade toda, desde Adão até o fim da história, mostra a intensidade do sofrimento de Cristo. O seu suplício foi voluntariamente assumido para salvar o gênero humano.
Ao Divino Pai Eterno, o Pai do Senhor e nosso, pelos méritos do suplício de Cristo na Cruz, a Igreja suplica que todos nós, “tendo conhecido na terra este mistério, mereçamos alcançar no céu o prêmio da redenção” (da Coleta). Eis porque a Igreja, nossa mãe, nos ajuda com a Liturgia, com devoções como a Via Crúcis, os mistérios dolorosos do Rosário: ela incansavelmente nos ensina a contemplar os mistérios da Cruz. E nós, aqui e agora, estamos para realizar de modo incruento o mesmo sacrifício cruento de Cristo na Cruz. Em alguns minutos estaremos rezando com o Prefácio de hoje: “Pusestes no lenho da cruz a salvação do gênero humano, para que, onde a morte teve origem, aí a vida ressurgisse; e o que vencera na árvore do paraíso, na árvore da cruz fosse vencido, por Cristo, Senhor nosso” (Prefácio).
Conhecer o mistério do Senhor é mergulhar na “vida escondida com Cristo em Deus”, frequentando as Escrituras, a Liturgia e o ensinamento dos santos. Aqui, olhando para o painel aqui atrás desta Cátedra, podemos contemplar o momento em que Santa Rita recebeu em sua testa um espinho da coroa do Senhor Crucificado. Sua vida sofrida encontrou no Senhor Crucificado toda a consolação desejada.
- “Pecamos, falando contra o Senhor e contra ti. Roga ao Senhor …” (Nm 21,7)
É bem conhecido de todos nós o episódio narrado pelo livro dos Números nesta primeira Leitura. Trata-se da passagem pelo deserto do povo que havia sido liberto do Egito e prosseguia a sua peregrinação purificadora até a terra da promissão. O povo começou a impacientar-se e a levantar-se com queixumes contra Deus e contra Moisés. Acusavam Deus e Moisés de tê-los tirado do Egito para morrer no deserto. O Senhor então manda contra o povo serpentes venenosas, que os mordiam.
Contudo, o veneno peçonhento, mais do que na picada das serpentes, se encontrava na desconfiança no Deus libertador. Deus envia as serpentes venenosas, isto é, consente que sejam atingidos pelas serpentes, para que voltem a procurar nEle o único remédio para as peçonhas que traziam morte interior (pecado), mais perigosa que a morte corporal.
Não nos esqueçamos de que o mesmo Deus que envia as serpentes, concede também o remédio para curar os mordidos pelas serpentes. Bastou uma súplica confiante e contrita do povo: “Pecamos, falando contra Deus e contra ti. Roga ao Senhor que afaste de nós as serpentes”. Moisés, tocado pelo arrependimento e pela súplica do povo, intercede a Deus, confiado na sua misericórdia. Imediata é a resposta do Senhor, que não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva: “Faze uma serpente de bronze e coloca-a como sinal sobre uma haste; aquele que for mordido e olhar para ela, viverá” (Nm 21,8).
A serpente remete à antiga serpente que tentou os primeiros pais no paraíso, e nos fez sucumbir à escravidão do pecado. No remédio, na imagem da serpente de bronze, Jesus lê um sinal prefigurativo da Cruz que destrói o quirógrafo da nossa condenação, que destrói pela graça o veneno do pecado.
III. “… humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de Cruz” (cf Fm 16)
Caros irmãos, como é tocante para nós esta leitura da carta aos filipenses!
São Paulo nos deixa exaltados ao mostrar que Jesus Cristo, sendo Deus, se fez homem, assumiu a nossa condição humana, em tudo igual a nós menos no pecado. E tornou-se obediente até a morte, e morte de Cruz. No Evangelho extraído do diálogo entre Jesus e Nicodemos, se descreve a kénosis de Jesus, o mesmo fato ao qual se refere o Apóstolo na segunda leitura. Ali se fala da descida do Verbo de Deus na carne, que acaba na Cruz, e de sua subida gloriosa junto ao Pai. “Ninguém subiu ao céu, senão aquele que desceu do céu, o Filho do Homem que está no céu”.
Paulo aprendia dos eventos da vida de Cristo sobretudo a humildade, a condescendência. Cristo desce até as nossas profundezas, faz-se pecado por nós para nos salvar.
O mistério da Cruz, da kénosis, do rebaixamento, da humilhação de Cristo é mistério de salvação. Descendo do céu e sendo levantado na cruz humilhante, Ele nos dá o remédio da salvação.
- “Deus tanto amou o mundo que entregou seu Filho Unigênito” (Jo 3,16).
O diálogo com Nicodemos mostra a beleza inenarrável da condescendência, da misericórdia de Deus. Ele permite a Jesus dar a conhecer vários aspectos do seu mistério enquanto Filho de Deus e Salvador do homem. Este pedacinho do evangelho de João é expressão dessa revelação. Jesus apresenta-se como o novo Moisés, mas numa dimensão infinitamente superior.
Se na primeira leitura vemos uma expressão da pedagogia divina, em que Deus educa o povo para o arrependimento e o pedido de perdão, aqui vemos como a sua infinita misericórdia atua para nos tirar do pecado e levar para a vida eterna. Jesus menciona o episódio da serpente de Bronze para compreendermos como Ele mesmo será exaltado.
Moisés elevou a serpente de bronze para que o povo se salvasse de um flagelo. Jesus, é ele mesmo elevado, para que todo o que crê tenha a vida eterna. Desta forma Jesus fala da sua morte e do significado que ela tem para todos os homens. Tudo isto é sinal de um amor incomparável que Deus tem pelo homem, porque a vontade de Deus não é a morte do pecador mas a sua salvação. Mas a salvação não é automática, é para “quem nele crer”, como diz o próprio Senhor.
Mais ainda, a Cruz de Jesus é sinal de vida eterna. Ele próprio o afirma. Há uma ligação muito estreita entre as duas realidades. Crer em Jesus é acreditar que Ele entregou a sua vida num gesto de amor, para que todos os homens se salvem, cheguem ao conhecimento da verdade e tenham a vida eterna.
Volvamos, por um instante, o nosso olhar amoroso para a Cruz Jubilar, aqui no nosso altar, para celebramos exultantes esta festa da Santa Cruz. Hoje proclamamos com gratidão que a Santa Cruz, de instrumento de morte se converte, e assim a contemplamos, em sinal de amor e de vida. Aqui diante da Cruz jubilar, renovamos a nossa fé no mistério salvífico de Cristo. Realizamos aqui uma belíssima profissão de fé no amor de Deus por nós, por mim e por ti, e alcançamos a graça da indulgência.
É uma confissão de fé na vida eterna. Nunca mais nos permitiremos dar pouca importância a Cristo em nossa vida cotidiana. Nós valorizamos a morte de Cristo como um gesto de amor. A Cruz não é mais um mero “objeto religioso”, é antes um precioso meio de encontro com o Senhor.
Se não valorizamos a Cruz, pode ser que a razão esteja em que a nossa fé na ressurreição se tenha esvaído como a de tantos irmãos com quem convivo. Enquanto a vida eterna não for para mim um galardão precioso a alcançar não compreenderei suficientemente o mistério da cruz nem o amor de Deus aí revelado.
Podemos assumir algum propósito sobre o nosso amor à Cruz de Cristo. Ao longo do dia vou deixar o meu coração prender-se a Jesus crucificado. Sempre que possível vou fazer um momento de adoração da cruz e se tiver oportunidade vou aliviar o sofrimento de alguém que sofre como Cristo na cruz da sua vida.
Para sermos fiéis ao que nos pede o Senhor, unamo-nos em uma singela oração:
“Tu vieste para mim, Senhor, por amor, para minha salvação. Olhar para ti, contemplar-te suspenso na cruz, em tantas imagens, nas mais diversas expressões, é oportunidade para prender o coração ao teu olhar e deixar o meu olhar preso ao teu coração. Purifica o meu olhar para que veja o teu amor e cura o meu coração para que te ame com o mesmo amor. Faz-me estar unido ao coração trespassado de dores de tua Santíssima Mãe. Leva-me por caminhos novos ao conhecimento e ao amor pela Santa Cruz. Amém”.
Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo.

